Conto I - Unforgettable Wars
40 O Receptáculo de Atena: Confie em Mim!
Notas iniciais

De fato era a mesma pessoa que ela vira lá em baixo. Os mesmos cabelos, as mesmas vestes, o mesmo poder, a mesma máscara... Mas o rosto, para a surpresa de Soranin, era de um garoto. Atena era... um garoto?!
– Meu nome é Calydio. Perdão por não ter contado nada, mas já estou no Santuário há oito anos e os únicos que sabem sobre isso são Efilnaem, o Grande Mestre, os cavaleiros de Ouro, e você. Desde que cheguei aqui, me pediram pra manter isso em sigilo.
– C-como isso aconteceu?
Efilnaem e Calydio trocaram um olhar e assentiram. Em seguida, o garoto dos olhos cor-de-mel disse:
– Não sabemos. Cheguei aqui com oito anos de idade, mas não tenho memórias anteriores. Tudo o que me lembro é de acordar sozinho em uma floresta, desorientado. Parecia que uma descarga elétrica havia me atingido... Lembro que um brilho, ou melhor, uma aura se manifestou diante de meus olhos, como se pedisse para eu a seguir. Achei estranho, mas por curiosidade fui atrás dela e, aos poucos, fui guiado para fora da floresta... Esta luz, acredito eu, era a própria Atena. Graças a ela encontrei água, comida, abrigo, e, depois de dias viajando, o Santuário. Minhas pernas doíam mas assim que eu cruzei os portões sabia o que deveria fazer: subir as doze casas.
– Você subiu as doze casas sozinho?!
– Bem, era madrugada e todos estavam dormindo. Foi fácil chegar até Áries, e o Relógio de Fogo não foi aceso... Eu estava tão exausto por subir aquelas escadas que tive de rastejar até dentro dela. Caí de cara no chão e por algum estranho motivo aquela aura se uniu a mim. Naquele momento, meu cosmo despertou e começou a ser emanado... O cosmo de um deus, como você deve saber, é difícil de ser contido. Por este motivo, acabei assustando o antigo cavaleiro de Áries, Meri, que estava dormindo. Ele acordou por minha conta e veio correndo até mim... Meri cuidou de mim, curou minhas feridas e claro, se espantou ao ver que eu era um garoto e possuía o cosmo de sua deusa. Por telecinese pediu que todos os cavaleiros de Ouro se reunissem na sala do Grande Mestre imediatamente e todos obedeceram, sonolentos... Obviamente demorou para que alguns me reconhecessem como Atena, mas tudo se estabilizou. Eles foram muito pacientes comigo e me ensinaram tudo que sei... Foi difícil a adaptação pra mim. Esse mundo em que deuses e humanos convivem entre si foi bem assustador no começo, mas aqui estou. Vim escondendo minha identidade até então.
– C-como a sua voz pode se alterar quando você coloca a máscara? Naquela hora você realmente falava como uma garota.
– Temos um dispositivo capaz de modificar as ondas sonoras. Colocamos ele na máscara e minha voz sai diferente.
– Tá, m-mas... Por quê se esconder assim? Você não se sente mal com tudo isso?
– Antes de mais nada, eu precisava adquirir conhecimentos e entender quem eu era... Não gosto de me vestir de garota, se é o que você pensa. – riu.
– Não, eu não disse isso. Por favor, não me entenda errado. – ela se corrigiu imediatamente.
– Só estou brincando... Mas não há o que fazer. Essa é a minha sina.
– Eu discordo.
– Hã?
– Eu posso ser suspeita pra falar, pois fiquei muito tempo sem acreditar em divindades e coisas do tipo, mas Atena... Calydio... Esse é o seu Santuário. Seus cavaleiros estão aqui para protegê-lo, e para isso dariam as suas vidas. Não acha que seria mais justo se compartilhasse isso com eles? De que adianta sofrer sozinho? Tem medo de que eles não aceitem?... Querendo ou não, você é Atena, e mesmo que alguns decidam partir, muitos ficarão. Se você for paciente e sincero, coisa que eu sei que você já é, terá ainda mais confiança do que antes.
– Eu avisei. – falou Efilnaem. – Mostre a eles o seu amor e eles devolverão da mesma forma.
– Está certo, vocês tem razão. Farei isso o quanto antes. Demonstrar que me preocupo com todos é o mínimo que posso fazer... Obrigado. – ele sorriu.
– Só uma pergunta... Eu entendo que não tenha suas memórias e talvez não queira ser Atena, mas... Por quê contar isso a mim?
– Você chegou aqui por mérito e é encarregada da missão de Hermes. Era melhor testar com alguém antes de tornar isso algo público... E eu sou um ser divino, não importa se escolhi ou não. Preciso proteger todos vocês.
Soranin apertou os olhos e não conseguiu conter as lágrimas. Ela sentiu que não adiantava mais segurar suas emoções.
– E valeu a pena, Atena? Valeu a pena sacrificar vidas para que eu chegasse até aqui? Uma amiga minha morreu lá em baixo, dando sua vida para que todos sobrevivessem... Eu nem faço ideia se meus amigos continuam vivos, e isso inclui minha irmã mais velha... Estamos batalhando há vinte e quatro horas, com fome, frio, sede, exaustos e feridos. Tudo isso vai passar em breve, eu sei, mas as marcas em nossos corações não... Não estou colocando a culpa em você, mas realmente acha que isso é justo?
Ele colocou a mão em seu ombro, tranquilizando-a.
– Não, não é, e eu sei como se sente... A ideia de ter cavaleiros que morreriam para me salvar não me agrada muito também, mas assim como você, eu sou humano, Soranin. Posso ser o receptáculo de Atena, mas também não quero que definam meu destino. Eu mesmo o farei, ao lado de vocês... Não quero que somente me protejam, quero poder fazer o mesmo por vocês... Mas eu tenho certeza de uma coisa: todos vocês despertaram o sétimo sentido, não é mesmo? Vocês o conseguiram somente nas últimas casas pois durante o caminho perceberam o que realmente é importante. Apostaram suas vidas para salvar os outros, e isso é a maior prova de humanidade que eu conheço... Sei que não tenho sido uma boa pessoa me ausentando dessa forma, mas irei mudar tudo isso. Essas vidas não foram em vão... Agora, vocês tem mais uma escolha humana para tomar. – ele a encarou. – Soranin, agora que sabe de toda a verdade, que sabe como eu realmente sou e a finalidade dessa conferência, vai lutar por mim... ou melhor, comigo, mais uma vez?
Calydio estendeu a mão, aguardando a resposta.
Soranin não sabia o que fazer. A linha entre o “sim” e o “não” era muito tênue. Talvez não fizesse diferença, mas ela não tinha palavras. Desacreditou em tudo durante tanto tempo, deixando tudo e todos para trás... O que eles teriam enfrentado em sua ausência? Quantas situações de vida ou morte já teriam passado? Quantos companheiros faleceram?
A dor certamente havia se tornado maior, e se olhasse por esse ponto de vista, ela e Sui apenas fugiram desse mundo por pensarem só em si. Estavam se tornando como os deuses, e isso era o que elas menos queriam. Seus amigos eram sua família.
Pensou mais um pouco e chegou a uma conclusão. O que havia de errado em seguir um deus? Se não o fizessem, mais pessoas como elas existiriam, e a justiça não seria feita. Talvez ela não pudesse mudar o mundo, mas tentaria mesmo assim.
Aceitou a proposta e apertou a mão de Calydio. Ela o protegeria nem que custasse sua vida, assim como seu pai um dia fez.
– Sim, eu vou. Conte comigo.
– Obrigado pela sua confiança. – sorriu. – Agora se me dão licença, preciso preparar um discurso para dar um fim de uma vez por todas nessa confusão. Agradeço o seu tempo, Soranin. Espero que possamos ser bons amigos.
– Eu também espero... – disse, envergonha.
Calydio deixou a sala, um pouco mais aliviado. Efilnaem retomou a palavra assim que ele as deixou sozinhas.
– Agora nós cuidaremos dos seus amigos, e de você também... Vamos voltar ao salão... – ela deixou a prancheta de lado e se levantou.
– Efilnaem, espere! Eu... preciso falar uma coisa pra você também... É muito importante, e o real motivo pra eu e minha irmã termos vindo até aqui.
– Oh, tudo bem. Diga.
Soranin falou sobre como ela e a irmã encontraram Hades e ele lhes contara sobre ela, pedindo que ambas fossem até o Santuário a sua procura.
– Então ele deduziu tudo, não é?
– Basicamente, ele gostaria de saber se essa é mesmo a sua decisão final.
– Não sei até que ponto ele contou pra vocês, mas eu era humana antes de tudo isso. Éramos meio-irmãos, por assim dizer, e guerreávamos um contra o outro... Depois eu fui para o lado dele e me tornei imortal... Agora voltei para Atena, e consequentemente retomei minha mortalidade. Voltei às minhas origens.
– Está certa disso, Meanlife?
Ela usou as pernas e empurrou a cadeira de rodinhas para trás, deslizando e parando em frente à escrivaninha.
– Sabe, Soranin, eu acredito que você desenha o seu próprio fim. – disse, abrindo uma das gavetas e encarando seu interior. Retirou um objeto prateado e virou-se de novo para Fênix, revelando uma máscara. – Este é o lugar ao qual eu pertenço... Calydio precisa de mim.
– Lutaremos lado a lado então. – assentiu. – Ele disse que deveríamos voltar para contar o que houve, mas eu não faço nem ideia de como fazer isso.
– Ah, bem lembrado. – ela vasculhou novamente a gaveta. – Tem algo que eu quero que você entregue pra ele. Agora que estou com Atena, é inútil, não posso mais ficar com isso.
Ela estendeu a mão, segurando um colar prateado. Seu cordão era na forma de uma estrela, onde estavam escritas as palavras “Yours Ever”. (1)
– Isso te guiará até ele. Quando estiver pronta, coloque-o em seu pescoço e feche os olhos.
– Ok. Quer que eu diga algo a ele?
– Diga que esta é a minha nova vida e se algum dia ele for guerrear contra nós, eu o enfrentarei.
– Eu o farei. Por gentileza, você poderia ajudar os meus amigos agora?
– Nós iremos, não se preocupe. Só precisamos alertar Calyd-...
Meanlife foi interrompida por um abrir de portas escandalosamente alto. Elas bateram com tudo e um barulho de pequenas asas seguido de um impacto contra o chão ressoou.
As duas saíram correndo, preocupadas com o que poderia estar acontecendo. Encontraram Calydio correndo pelo salão do Grande Mestre, indo na mesma direção que ambas, porém um pouco mais antecipado.
– O que foi isso? – questionou Soranin.
– A nossa confirmação. – devolveu o garoto.
– Sobre...?
– Sobre Hermes!
Pouco mais a frente, uma garota estava caída, curvada no chão com seus longos cabelos castanhos cobrindo o rosto. Usava uma túnica branca e sandálias estilo gladiadora, das quais algo branco saia.
– Você está bem? – ele perguntou, pegando-a pelo braço e ajudando-a a se levantar.
– S-sim... Desculpe por chegar assim, vim o mais rápido que pude. Não percebi que a porta estava fechada e acabei esbarrando nela... Não estou acostumada com isso. De onde eu venho não é comum deixá-las dessa forma.
– Não tem problema, Anabelle, apenas tome mais cuidado da próxima... Você se machucou?
– Um pouco de dor, mas nada sério... – ela olhou para as pernas e reparou nos sapatos. Haviam quatro detalhes brancos neles, posicionados dois em cada pé, próximos ao tornozelo. Eram semelhantes a bolas de algodão e estavam dobrados, o que não a agradou muito. – Droga, como assim elas dobraram? Espero que isso conte como acidente de trabalho, por que não irei pagar por isso!
Bufou baixinho e se ajoelhou, numa tentativa de consertar os danos aos sapatos.
– Assim está melhor. – disse, colocando as mãos na cintura e sorrindo perante ao conserto de última hora.
– Será que ainda funcionam?
– Não sei, vejamos... – ela fez uma pausa e deu um pulo.
Aquilo que antes parecia algodão se abriu, revelando dois pares de asas. O mais estranho era que a garota estava voando bem diante dos olhos de todos e tanto Calydio quanto Meanlife pareciam achar algo natural.
– Bem melhor! Agora sim... – ela levou a mão aos cabelos. – Essa não... Onde está?
Começou a vasculhar o chão, como se procurasse por algo.
– Er... O que exatamente está tentando achar? – perguntou Soranin.
– Ah, oi. Perdão, você estava tão quieta que nem te vi... Você é Soranin, não é?
– Como você...?
– Explico depois... Estou procurando minha tiara. Ela deve ter caído quando pousei e... – ela se interrompeu abruptamente, falando devagar e pausadamente – Não. Se. Mexa.
– Por quê?
– Ela está bem embaixo de você. Não faça nenhum movimento.
– Mas o que...?
Soranin olhou para baixo e percebeu duas cobras douradas se enrolando em suas canelas. Ficou paralisada imediatamente, temendo que lhe picassem.
Anabelle se agachou e com cuidado fitou as pernas da Santa, pegando as duas cobras com delicadeza. No mesmo instante as cobras protestaram, emitindo um sibilo.
– Nada de “mas”, vocês duas! Podem parar de graça, já tiveram sua liberdade por hoje. Voltem pra casa. – disse e colocou a mão sobre as duas. Um brilho dourado se formou e elas se aquietaram, tornando-se uma tiara imóvel na forma de duas cobras entrelaçadas.
Virou-se para o lado e notou Meanlife. Cumprimentou-a e ela fez o mesmo, agradecendo sua visita.
– Alguém pode me explicar o que está acontecendo aqui?
– Mil perdões, acho que fui um pouco rude... Meu nome é Anabelle e eu sou uma peçonha de Hermes. Sou sua principal mensageira e cuido dos assuntos divinos. Vim aqui para entregar uma mensagem à Atena.
– Peçonha? Pensei que os guerreiros se chamassem Basiliscos.
– Ah sim, se chamam. Mas pense, aqui em seu Santuário as garotas são amazonas e os garotos cavaleiros. O conjunto de defensores da deusa são os Santos, certo? Com Hermes é o mesmo. As mulheres são peçonhas, os homens ofídios, e o conjunto que eles constituem são os Basiliscos... Assim como Plínio (2) os descreveu, as garotas, peçonhas, usam sempre algo dourado no cabelo, enquanto os homens, ofídios, uma pluma rubra.
– Foi mal, é que as coisas estão tão estranhas ultimamente...
– Não fique assim. As coisas vão se resolver, acredite... Bem, Calydio, preciso conversar com você.
– Prefere em particular?
– Não, aqui está bom. Soranin precisaria saber disto de qualquer forma e é bom manter Efilnaem informada para que anote nos registros... Vou direto ao ponto: a lenda sobre a luta é verdadeira. Eu já sabia, mas como sabem, não posso sair divulgando informações por aí. Tudo tem o seu tempo, e algo do tipo se tornando público antes da hora poderia facilmente começar uma guerra... Então, Soranin, eu te ajudarei com isso. Contarei aos seus amigos e explicarei tudo que puder de um modo que não cause más impressões... Quanto ao prazo, bem, vocês não vão gostar nada disso...
– São dois dias, não é mesmo?
– Na verdade, não. Apenas um.
– Todos vão entender? Alguns são realmente cabeças-dura...
– Não vou dar detalhes, mas alguns de seus amigos que não subiram as doze casas já sabem sobre isso. Não tem a confirmação, mas sabem sobre a lenda... Quanto aos que subiram, bem, tirando as duas baixas e você, que já sabe de tudo, os quatro restantes aceitarão a proposta.
Soranin parou. Então haviam sido duas mortes. Quem seria a segunda pessoa? Estava claro que era um Santo de Bronze, mas não quem.
– Não pense em coisas ruins. Logo mais você saberá quem foi... Seus companheiros foram avisados antes pois um de vocês já sabia antes de tudo isso começar, e esta pessoa era minha amiga... Ela contou a outros dois e deixou uma carta explicando para o restante, que foi aberta quando vocês partiram, mas não divulgada. As duas pessoas que morreram aqui tinham consentimento disso, e antes que me pergunte, não, eu não leio mentes. – riu.
– Quem era essa sua amiga?
– Kirsi O'Hara. – respondeu enquanto abria um sorriso de lado.
– Imaginei... – sua expressão tomou a mesma forma da outra.
– Mas tudo bem. Eu sei por que ela se foi e quais eram seus objetivos. – Anabelle fez uma pausa. – Hum, esse assunto não vai levar a lugar algum, então, mais alguma pergunta?
– Na verdade, sim... Daremos conta disso? Quer dizer, não que duvide da nossa capacidade, mas estamos em desvantagem.
– Pra tudo há solução. Hermes me deu um remédio especial capaz de revigorar humanos. Suas feridas se curam, a fome passa, o sono desaparece e eles se sentem mais enérgicos... Mas é temporário. Depois que o efeito passa, tudo volta, e aí só resta a vocês mesmos se ajudarem na recuperação. Darei ele a vocês quando todos se reunirem novamente, então até lá faremos curativos e daremos analgésicos, certo Calydio?
– Isso mesmo, e isso inclui os cavaleiros de Ouro. Pedirei para que Pema e Rimo consertem as armaduras de todos também... Infelizmente não poderei ajudá-los muito, apenas contribuir com um pouco de cosmo para complementar e estimular o de vocês... De qualquer modo, o discurso em breve ficará pronto, e depois que vocês batalharem com eles eu o recitarei... Durante o combate não haverá mais ninguém no Santuário, tanto nas vilas quanto nas ruas. Eu e Efilnaem levaremos a população para um lugar seguro, então não se preocupem com os estragos que isso poderá ocasionar... Anabelle guiará vocês, mas não lutará.
– Sim, é verdade. Lutar é proibido a todos os Basiliscos, menos aos três da lenda... Agora, é melhor nos apressarmos. Se esperarmos um pouco mais, pode ser tarde para alguns deles.
– Certamente. Vamos atravessar novamente as doze casas na ordem inversa, dessa vez, sem derramar sangue... Isso foi um pouco imprudente de minha parte, então eu, o receptáculo da deusa Atena, irei pela última vez usar esta máscara e honrar meu dever. Custe o que custar, protegerei todos vocês, sejam meus Santos ou não.
Calydio escondeu novamente seu rosto e pegou seu báculo. Desceu em direção à casa de Peixes e as três o acompanharam. Meanlife trajou sua armadura e também encobriu seu rosto por precaução, mas Anabelle e Soranin seguiram do modo como estavam. A amazona de Fênix estava aflita quanto aos resultados das batalhas, principalmente da última, e percebendo isso a mensageira a consolou, pedindo que não se preocupasse.
Não demorou muito e eles chegaram na décima segunda casa. O chão estava totalmente coberto por rosas brancas que, quando pisadas, soltavam sangue.
– Parece que o veneno já se foi... – Calydio falou.
Enquanto andavam, as rosas que deixavam para trás se tornavam brancas novamente. Não por que os sapatos as espremiam, mas por causa do cosmo de Atena, que se intensificava cada vez mais. E então, notaram um brilho distante: Calisto e Sui.
– Eles estão bem? – Soranin perguntou inocentemente.
Sem resposta. Calydio se ajoelhou perante ao Santo de Ouro e colocou a mão em seu coração, fechando os olhos e concentrando-se. Uma aura começou a cercar o mesmo, estimulando o cosmo do cavaleiro. Retirou sua mão e segundos depois, ele acordou.
– A-Atena? O-o que faz aqui?
– Acalme-se. Você lembra do que houve? Por quê o chão está coberto por rosas?
– E-eu e Sui batalhamos... Nós... terminamos o Elo Carmesin e...
Ele não continuou.
Nem precisava. Se ele estava vivo, o resultado era óbvio. Soranin fez uma careta, franzindo o cenho e fechando os olhos. Sua mão cobria a boca, que tremia, e seus olhos derramavam incontáveis lágrimas.
– Ei... – disse Anabelle abraçando-a. – Não fique assim, você é uma amazona forte... Sua irmã sabia o que estava fazendo, ela não te abandonou. Confie na minha palavra, ela se foi orgulhosa do que você se tornou, Soranin. Acredite em sua irmã.
– V-você está c-certa. O-obrigada, Anabelle... Você tem jeito com as palavras assim como Kirsi tinha...
Elas sorriram e Calisto reconheceu Soranin. Não disseram nada, apenas trocaram um olhar, mas isso foi o suficiente para ficarem a par de que ambos sentiam o mesmo. Ele pegou Andrômeda no colo e perguntou se ela gostaria de dizer algo.
– Irmã... Sei que você deu o seu melhor e realizou aquilo que nosso pai não conseguiu... Você está com ele e com mamãe, não é mesmo?... Cuide deles por mim. Algum dia estaremos todos juntos novamente... Este anel em seu dedo representa a promessa que fez a Feon, e eu não a esqueci. Irei cumprí-la por você. Assim que possível, irei visitá-lo, mas o deixarei em seu dedo para que sempre se recorde do sentimento que tinha por ele...
Ela levantou-se e voltou para o lado de Meanlife.
– Calisto, nós já vamos. Cuide dela e assim que sairmos das doze casas, reuna-se com Pollux. Você sabe os motivos... Pema consertará a armadura dos doze depois disso.
– Tudo bem... Me perdoe por ser orgulhoso demais.
– Não seja tão duro consigo mesmo. Você ficou um pouco solitário depois que seu mestre faleceu. Seu orgulho é fruto disso, assim como seu poder e seu coração bondoso... Isso é uma virtude, apenas não afaste quem se importa com você por conta de um mal entendido.
O dourado assentiu, reconhecendo o erro.
– Tome. – disse Anabelle, jogando-lhe uma pequena pílula que tirara de sua bolsa de entregas. – Isso ajudará você a se recuperar.
– Obrigado.
Ela se aproximou de seu ouvido e sussurrou:
– Mais uma coisa... Acho que você não sabe, mas o seu veneno agora pode ser controlado pelo cosmo. Você acabou de herdar essa característica de Sui, com o fim do Elo Carmesin.
Calisto nada disse, apenas os observou ir.
Toda a casa de Aquário estava congelada. Yerik e Fieke permaneciam desacordados e Calydio fez o mesmo que na casa anterior. A amazona acordou primeiro e pareceu não gostar nada daquilo. Revirou os olhos e fez uma cara de desaprovação, cruzando os braços e virando de costas.
– Quando você se recompor, vá até Áries para que sua armadura seja restaurada. – disse Atena.
Ela nem mesmo o encarou, apenas bufou, irritada. Anabelle entregou-lhe a pílula e ela a tomou de sua mão, sem agradecer.
Cisne começou a abrir os olhos em seguida.
– Onde estou? – ele olhou ao redor. – Soranin? Efilnaem? Atena? E... a garota do sonho do Heitor? (3)
– Não se levante abruptamente, Yerik... Sente alguma dor?
– V-várias na verdade... Mas o que está acontecendo aqui?
– Soranin venceu o concurso. – Atena continuou. – Agora estamos reunindo todos os cavaleiros de Bronze novamente. Há algo importante que precisamos contar a vocês.
– Entendi...
– Consegue se reerguer?
– S-sim.
– Ótimo. Vamos então.
Yerik nem mesmo olhou para Fieke antes de partir. Mas isso não fazia diferença. Ela provavelmente só gostaria de fitar seus olhos novamente quando eles estivessem vazios e sem vida.
Em Capricórnio, a situação era um pouco diferente. Entraram e ouviram algumas tossidas seguidas de risadas bem baixinhas.
– Oh, olá senhorita Atena. – cumprimentou Kyros, de costas no chão e pernas apoiadas na parede. – Desculpe por isso.
– Sim, perdoe-nos. Acho que não deveríamos rir quando estamos nessa situação. – complementou Ulysses, entre arquejos.
– Vejo que vocês estão um pouco melhor que os outros.
– É coisa de pai e filho. – o dourado brincou. – Estávamos apenas recordando algumas coisas...
– Sem problemas. Vocês não se viam há um bom tempo, não é?
Os dois assentiram no mesmo instante. Soranin e Yerik não entenderam nada, mas logo Anabelle explicou:
– Kyros é o tutor de Ulysses. Eles se perderam certo dia durante uma viajem e só se reencontraram hoje.
– Você é digna de seu cargo como Basilisco.
– Obrigada. Pegue isso. – ela colocou o remédio em suas mãos. – Considere como uma cortesia de Hermes para os dourados.
– Que gentil... Mas diga que se não me chamar pra jantar não adianta. Icarus está claramente ganhando dele, sinto muito. – caçoou.
Os dois riram e Ulysses se dirigiu aos amigos:
– Podem explicar?
– Também estou perdido. – disse Cisne.
– Ah, eu espero... Então a Soranin ganhou? Legal.
– É... – ela concordou. – De certa forma...
Ele deu de ombros e com um pouco de dificuldade se levantou. Fênix ofereceu seu ombro e ele aceitou, rumando Sagitário na companhia dos outros.
A casa estava silenciosa. Icarus havia se sentado de costas para a parede e descansava. Ouviu o barulho de passos e reconheceu o cosmo de sua deusa.
– Atena, a que devo sua visita?
– Vim cuidar de você.
– Eu estou bem, só um pouco velho, assim como Kyros... – tossiu.
A peçonha lhe entregou a cápsula e ele aceitou, sorrindo.
– Melhor prevenir, certo? Você bateu a cabeça e fraturou as costelas... Apenas descanse por enquanto.
– Sem pressa. – agradeceu e voltou a fechar os olhos.
Desviando das enormes crateras que se espalhavam pela casa, todos continuaram seu caminho.
Na décima casa, apenas Heitor estava consciente. Percebeu que alguém se aproximava mas não conseguiu distinguir quem, pois Lélio estava caído em cima de seu peito, impedindo seus movimentos.
– Heitor? Você está bem?
– Yerik, é você?
– Sim. Estou com Soranin, Ulysses, Efilnaem, Anabelle e Atena... O que houve aí, amigo? – riu.
– Pois é, não consigo me mover... Estou um pouco preocupado com ele. Está emitindo uns barulhos estranhos há algum tempo...
Calydio se aproximou e usou seu cosmo para verificar as condições do cavaleiro.
– Ele está dormindo. Esses barulhos que você está ouvindo são os roncos de Lélio.
– Não acredito que ele consegue dormir nesse estado.
Ele tentou acordar o dourado, estimulando seu cosmo. Demorou um pouco, mas ele enfim o fez, bocejando.
– Huh?... Já é hora de trabalhar?
– Não exatamente. – disse Heitor.
– Heitor, você tá vivo! – ele fez uma pausa, olhando para seu próprio peito e tateando-o. – E eu também!
– Acho que... eu não continuarei por muito tempo... se você não sair de cima de mim...
– Ih, me perdoe!
Lélio se afastou mas não conseguiu se manter de pé. Estava muito machucado e suas pernas não o obedeciam.
– Coloque isso na boca e aos poucos você irá ficar bom – disse Anabelle, dando-lhe o medicamento.
– Que gosto tem?
– É amargo, mas funciona.
– Ah... – ele pareceu desapontado.
Yerik ajudou Heitor, mas o mesmo também custava para se equilibrar. Precisou apoiá-lo em um dos ombros para que pudessem deixar o local. Anabelle explicou tudo para Lélio e ele disse que em breve se dirigiria à Áries. Agradeceu Atena e aguardou a dor passar.
– Ei, – disse Heitor, espantado – o que a garota do meu sonho faz aqui?
– Nem tenho ideia.
– Você sonhou comigo, né? Eu vim ajudar, não sou uma ameaça... Da próxima vez, tente interpretar melhor o que o seu dom te diz.
– Ok... – respondeu, desconfiado.
Seguiram para Libra, mas como sabiam que não havia ninguém lá, passaram tranquilamente.
Chegando em Virgem, Niyati interrompeu sua meditação. Ela estava bem, então decidiu acompanhá-los até o fim das doze casas. Kanophe, Dante – que agora já estava sem a hemorragia e os demais sintomas de sua doença – e Abati fizeram o mesmo. Ataduras cobriam algumas partes de seus corpos, mas se sentiam bem melhor se comparados a antes. Somente Pollux não os acompanhou. Atena o orientou a aguardar Calisto para que conversassem. Kirsi já não estava mais em seus braços e isso aliviou um pouco o clima, mas ainda havia mágoa na atmosfera.
– Uau, quanta gente veio me ver desta vez. – Pema sorriu.
– Pema, se não for pedir muito, conserte a armadura deles, por favor. Amanhã todos terão uma batalha e precisam estar preparados. – pediu Calydio.
– Sem problemas, Atena. Mas eles já perderam muito sangue desde que chegaram... Pode ser perigoso.
– Não tem problema. – disse Abati. – Se for necessário, eu doarei por um deles.
– Conte comigo também. – Virgem o acompanhou.
– Eu o farei com prazer. – Kanophe complementou.
Câncer ficou em silêncio. Mesmo que quisesse, não podia se oferecer.
– Obrigada a todos vocês, de verdade... Isso também inclui você, Dante.
Ele se surpreendeu, desviando o olhar para o chão, envergonhado.
– Bem, já sabem o que fazer. – Pema continuou.
Todos retiraram as armaduras e os dourados cortaram seus pulsos, revigorando e trazendo-as de volta à vida. Abati doou por Heitor, Kanophe por Yerik e Niyati por Ulysses.
– O que exatamente... devemos fazer agora? – perguntou Ulysses, entre suspiros.
– Eu levarei todos até seus amigos e então darei as devidas explicações. – Anabelle se prontificou. – Mas antes preciso fazer uma coisa... Vou lhes mostrar o caminho e logo os alcanço, pode ser?
Todos concordaram e a Basilisco apontou para onde todos deveriam ir. Nenhum comentário foi feito, eles apenas agradeceram e se despediram.
Embora não houvessem perguntado, sabiam o por que de Sui não estar ali. Pelo percurso todo até o local apontado por Anabelle ninguém ousou olhar nos olhos um do outro ou dizer algo sobre o que quer que fosse. Se apoiavam um nos outros e caminhavam com dificuldade extrema. Cada passo era uma vitória – e ao mesmo tempo uma dor incessável.
– Eles voltaram! – disse Athos.
– Já era hora. – Relinde tentou expressar indiferença.
– Relinde, menos. – Aristides chamou sua atenção e ele revirou os olhos.
– Parecem abatidos... – comentou Jhesebel.
– E exaustos... – Meiying continuou.
Quando apenas alguns metros os separavam, Linus se manifestou:
– Vocês estão bem, graças a Zeus! Soranin, Ulysses, Heitor, Yerik... – ela fez uma longa pausa e todo o seu alívio se transformou em aflição. – O-onde... o-onde estão Kirsi e Sui?
Os quatro não tiveram reação, só fizeram uma cara de tristeza e franziram as sobrancelhas, apertando os lábios ou mordendo-os. Os outros seis entraram em choque, arregalando os olhos, que automaticamente encheram-se de água.
***
Aristides levou as mãos até a boca, numa forma de concha. Sui e Kirsi estavam...!
Não. Ela não completaria isso nem em seus pensamentos.
***
Jhesebel ficou em choque, parada.
Não deveriam ter havido mortes... Não era pra ser assim!
***
Meiying se ajoelhou e colocou sua testa no chão, curvando-se e comprimindo os olhos com as mãos.
Como isso podia ter acontecido? Não era justo!
***
Relinde sentiu algo escorrer de seu rosto e olhou para suas mãos. Pequenas lágrimas caíram, aquecendo sua pele. Fechou os punhos e os cerrou com força – assim como seus olhos –, na esperança de que tudo não passasse de um pesadelo.
***
Os joelhos de Athos tremeram e ele cedeu ao chão, desnorteado. Começou a gritar, erguendo a cabeça para o céu e apertando os olhos. Seu coração pesava e ele se sentia culpado. O adeus anterior fora realmente pra valer, mas ele não tinha se dado conta até esse momento.
***
Linus colocou ambas as mãos sobre o coração, fechadas. Ela sentia um imenso vazio, impossível de descrever.
– Chega. – murmurou, fazendo todos se voltarem para ela. – Não vou mais seguir essa lei idiota! Chega de esconder os meus sentimentos, não vou matar nem amar ninguém, pois quando faço um o outro acontece!... Gosto muito de todos os meus amigos, mas elas pagaram com a vida para que nós pudéssemos estar aqui!... Todas as lágrimas que chorei escondida, tudo que fiz longe de todos, só eu podia sentir, mas agora não será mais assim... A partir de hoje, não usarei mais essa máscara. Esse é o meu protesto, e a minha forma de dizer que há algo errado!!
Ela retirou sua máscara, revelando os olhos cor-de-mel e as lágrimas que começavam a escorrer. Jogou-a no chão e pisou em cima, quebrando o Lince em vários fragmentos. Começou a soluçar imediatamente, como uma criança, franzindo as sobrancelhas e tremendo.
Jhesebel e Aristides pensaram o mesmo e concordaram com Linus, mas não precisaram tirar suas máscaras, pois as mesmas racharam-se e foram ao chão. Aristides tinha os olhos vermelhos e Jhesebel derramou duas lágrimas simultâneas, uma de cada lado do rosto.
Ninguém fez nenhum comentário sobre isso, nem mesmo Relinde. Todos continuaram do modo como estavam, mas sabiam o que estava acontecendo. Suas reações permaneceram as mesmas, mas a dor só aumentava.
Athos já tinha parado de gritar, mas por dentro de si continuava. Não era possível que tudo isso estivesse acontecendo com eles. Por quê perder suas companheiras dessa forma tão cruel?
Seus corações palpitavam, e cada batida era como uma facada.
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