Conto I - Unforgettable Wars
41 Novos Desafios: Os Basiliscos de Hermes!
Notas iniciais

Pema finalmente terminou o seu trabalho na casa de Áries. As armaduras dos cinco últimos signos do zodíaco estavam realmente muito danificadas, de modo que Pollux doou sangue para Calisto, – já que ambos já tinham conversado e restaurado sua amizade devido aos acontecimentos e se juntando aos demais –, Rimo para Lélio, Meanlife para Icarus e Pema para Kyros.
– Sinto muito, Fieke, – disse a amazona da primeira casa –, mas a sua armadura vai demorar algum tempo para ser consertada.
– Quanto? – perguntou secamente.
– Algumas semanas, mas não se preocupe, ela ficará nova em breve.
Ela bufou, descontente. Ter os doze cavaleiros ali era horrível. Só gostava realmente de um deles, mas enquanto Yerik estivesse vivo, sua aproximação com o mesmo era inviável. Aquela garota ter morrido fora algo realmente ótimo, pois agora uma das pedras já havia sido retirada. Faltava apenas uma, mas o tempo cuidaria disso. Não havia como ele sobreviver aos guerreiros de Hermes.
– Você parece pensativa... O que houve? – Kanophe perguntou.
– Não é nada. – falou grosseiramente, sem o encarar.
– Tá legal... – ele levantou as sobrancelhas, desconfiado,
Calydio retirou sua máscara, suspirando. Ninguém se importava em Atena ser um homem, com exceção da amazona de Aquário. Era a deusa deles, e eles precisavam respeitar seu receptáculo. Não havia nada demais nisso, afinal. Seria como julgar um anjo pelo sexo, mesmo eles não o possuindo. A forma não importa, mas o coração sim.
– Cavaleiros, amazonas, Anabelle... Levando em conta que já passa de meia noite, hoje esses Santos de Bronze terão uma prova muito difícil. Vocês sabem do que estou falando... Gostaria de confirmar as posições dos três.
– SH, PP, M. – disse a peçonha, utilizando abreviações.
– Entendo... Então, quanto ao “M”, você acha que...?
– Eu tenho certeza... Ela realmente fez isso, e a outra irá ajudar... E aqui no Santuário tem mais uma que poderia auxiliar, para ser mais justo. Ela já tem o consentimento e está preparada, mas vai precisar da ajuda de um dos dourados, assim como os outros.
– Hum... Então eles se dividirão em três, certo?... Então cada grupo poderá pedir o auxílio de um cavaleiro de Ouro. O que você sugere que eles façam?
– Eu tenho mais ou menos uma ideia sobre o que eles vão escolher... Apenas deixe rolar.
– Sem problemas... Tudo bem pra vocês? – Calydio perguntou, virando-se para os dourados, que assentiram, confirmando. – Então tudo bem, apenas não conte a eles a melhor escolha. Deixe-os pensarem um pouco.
– Não direi absolutamente nada... – ela olhou para a amazona de Sextante. – Efilnaem, e a evacuação?
– Os cavaleiros de Prata levarão os moradores para uma vila deserta, fora daqui, e ficarão responsáveis por eles. Os de Ouro podem permanecer aqui para que cuidemos de seus ferimentos.
– Bem, vou indo então... Eles estão muito confusos e chateados com tudo isso. – ela alçou vôo e se despediu. – Fiquem bem, ouviram?
Como sempre, apenas uma pessoa não se mostrou sociável.
Em questão de segundos, ela foi até lá em baixo para se encontrar com eles.
– Santos! – chamou enquanto pousava.
Imediatamente todos pararam de soluçar e chorar, admirados com aquela garota voando.
– Mas o que é isso?! – perguntou Relinde, recompondo-se.
– Eu sou Anabelle, muito prazer... – a menina dos cabelos marrons se apresentou. – Bem, antes de mais nada, Soranin de Fênix ganhou a audiência com Efilnaem, e como parte desta conferência, uma nova batalha foi anunciada... Mas acho que não sou eu quem deve falar primeiro, não é, Meiying?
A amazona de Dragão pareceu surpresa. Não esperava ter que falar sobre isso de novo, mas todos estavam ali, então era o que deveria fazer. Soltou um suspiro, retirou uma carta do bolso e começou:
– Bem, eu não queria ter de falar nisso agora, mas é de extrema importância... Na hora em que vocês partiram, Athos me entregou uma carta que Kirsi havia escrito em braile (1). Ela pediu que eu lesse quando voltassem, e eu o farei agora...
Ela esfregou os olhos para evitar que o choro voltasse e dedilhou as linhas, lendo seu conteúdo.
– “Querida Meiying, não sei muito bem como expressar isso em palavras – ou pontos –, mas acabei de partir em uma jornada provavelmente sem volta. Eu vim para o Santuário participar deste concurso com um motivo em mente, e isso pode ser um choque, mas preciso te contar a verdade...”
A carta batia exatamente com quase tudo o que Anabelle havia explicado para Soranin. Todos ficaram em silêncio, ouvindo atentamente as palavras que a Santa escrevera. As coisas aos poucos estavam sendo esclarecidas, e a amazona não parou um segundo sequer.
Ao chegar nas últimas linhas, ela respirou fundo, preparando-se.
– “... então, como a representação é o Céu, a Terra e o Inferno, vocês teriam que se dividir em grupos... Mas a questão é que já estamos na Terra, e chegar ao Céu seria uma metáfora para um lugar alto, provavelmente... Mas quanto ao Inferno... Bem, este realmente é um caso a parte...
Estou fazendo o que deve ser feito. Se eu não voltar, já sabe o porquê, mas saiba que isso é por vocês e não por egoísmo da minha parte... Tudo isso é para que vocês possam viver...
Se puder me fazer um favor, leia esta carta na frente de todos depois da volta. Converse com sua mestra antes, ela vai te confirmar essa história e te orientar... Talvez Anabelle apareça por aí e auxilie em tudo, mas para todas as vertentes, já disse tudo o que sabia...
Athos, Jhesebel, Ulysses, Aristides, Relinde, Meiying, Sui, Soranin, Heitor, Yerik, esse é meu adeus... Espero que possam me perdoar um dia.”
No fim, nenhum deles se atreveu a abrir a boca. Então era por isso? Kirsi se sacrificou para que eles pudessem viver e derrotar somente dois Basiliscos, enquanto ela se encarregava de um, sozinha?
Suas mentes estavam confusas e, ao notar a situação, Anabelle deu continuidade ao depoimento da amazona de Lobo, dizendo que Hermes não lutaria com eles, mas sim seus guerreiros – coisa que Kirsi só veio a descobrir pouco antes do anúncio das doze casas, por meio de uma dedução.
Depois seguiu explicando quem era, quem servia, a diferença dele para os outros deuses e sobre o desafio que teriam no fim do dia contra os três poderosos Basiliscos. Obviamente eles ficaram surpresos no começo, mas Soranin reafirmou tudo. Se havia a deusa Atena, porquê não Hermes, afinal?
Alguns segundos de silêncio depois, Jhesebel tomou a iniciativa para perguntar:
– M-mas... Se tudo isso é verdade, meros cavaleiros de Bronze, mesmo que em maioria, podem vencer três ofídios, justo os mais poderosos?
– Seus amigos aqui venceram cavaleiros de Ouro. – ela olhou para os quatro que haviam retornado. – Não duvide do seu potencial, Jhesebel.
Ela calou-se. Logo foi a vez de Heitor:
– Então o sonho que eu tive era sobre isso?
– Exato. Você tem o dom da premonição (2), como sabe. Seus sonhos são uma espécie de aviso sobre coisas que estão para acontecer.
– Entendi.
– São três guerreiros principais. – lembrou a garota. – Eles representam as duas cobras e o globo dourado do Caduceu de Hermes e também as três dimensões pelas quais ele pode transitar (3). São elas: o Olimpo, o mundo dos humanos e o Submundo, respectivamente o Céu, a Terra e o Inferno... Mas não levem isso ao pé da letra. Lhes direi onde eles estarão quando a hora certa chegar. Até lá, descansem, comam, vão ao banheiro e se preparem. Quatro de vocês estiveram lutando e correndo por aproximadamente vinte e quatro horas, somando as três etapas do torneio, e os demais também estão machucados e exaustos. Cuidem-se muito bem, por favor.
– Um momento. – Yerik interveio, perguntando o que ninguém teve coragem até então. – Kirsi morreu para derrotar o Basilisco que representa o Inferno, imaginando que Hermes batalharia em todos esses planos... Mas como isso pode ser justo? E se ela não tivesse feito isso, o que aconteceria?
– Imaginei que perguntaria isso... Supondo que ela não tivesse feito isso, as almas dos cavaleiros de Bronze que já pereceram lutariam contra o Basilisco desse lugar. A paz de todos seria interrompida para mais uma batalha, e Kirsi sabia disso. Talvez não seja justo para com vocês, mas e para com aqueles que já deram seu último suspiro?... Foi nisso que ela pensou.
– Tá legal, mas como ela vai lutar com esse cara? – questionou Relinde.
– Nós não podemos ajudar de nenhuma forma? – Athos perguntou. – Um contra um, nesse caso, é apelação.
– Deve ter um jeito! – Aristides o apoiou.
– Na verdade ela não está sozinha. Sui, a irmã de Fênix, sabia sobre isso. Kirsi contou a ela e a Athos antes da carta ser entregue, e mesmo o motivo de Sui ter subido as doze casas não sendo o mesmo que o dela, ela irá ajudá-la... E sim, há um jeito de vocês que estão vivos ajudarem. A mestra de Meiying, Lien de Libra, disse a ela.
– Realmente é possível, mas só eu conseguiria colocá-lo em prática... Claro que vai ser muito difícil conseguir isso sozinha, mas posso tentar.
– Ah, falando nisso, Atena autorizou que cada grupo contasse com o auxílio de um cavaleiro de Ouro. Não em batalha, obviamente... Enfim, dividam-se em dois grupos, um de cinco e o outro com quatro. Meiying ficará no terceiro grupo, com Kirsi e Sui... Em cada grupo devem ter duas pessoas que tenham subido as doze casas, então comecem a divisão por ai.
Eles se entreolharam rapidamente e se separaram. Por questão de respeito, Soranin e Ulysses decidiram ficar no mesmo grupo para que Yerik e Heitor ficassem juntos.
– Certo, assim está bom. Agora é a vez dos outros.
Aristides foi para o lado de Fênix e Unicórnio, assim como Jhesebel. Linus preferiu ficar no grupo de Heitor e Yerik, e Athos também – intencionalmente deixando Jhesebel e Ulysses sozinhos para que fizessem as pazes. Sobrou somente Relinde, que pensou por um momento mas decidiu juntar-se ao outro.
– Tudo bem, então o grupo com cinco pessoas vai se encarregar do Basilisco da Terra, e o com quatro, o do Céu... Cada um, incluindo você, Meiying, deve escolher um dourado para auxiliar, mas antes vou revelar o lugar das batalhas. A contra o Ofídio da Terra será no Portão Principal, aqui mesmo no Santuário, e a contra o do Céu, em Star Hill, já que é o ponto mais próximo do céu que temos. Meiying batalhará no Meikai (4)... Só preciso que escolham um cavaleiro ou amazona de Ouro para poderem prosseguir.
Todos pensaram um pouco, mas Meiying foi quem falou primeiro:
– A única forma de eu conseguir ir para este lugar e voltar com segurança é com a ajuda de Niyati de Virgem. Se ela puder me ajudar, eu agradeceria.
– Bem, como chegar ao topo de Star Hill é difícil ao extremo, acho que Pema de Áries seria uma boa escolha... Ela pode usar a telecinese e direcionar todos nós pra lá. – Heitor concluiu, falando após a amiga.
– Quanto a nós, decidimos recorrer a Calisto de Peixes para que sele com espinhos ou rosas uma determinada área, para que a batalha não se estenda muito. – disse Soranin.
– Certo, irei comunicá-los o mais rápido possível... Vejamos, agora são aproximadamente dez horas da manhã, então tirem o resto do dia para fazer tudo o que eu lhes disse. Quando for seis horas do dia seguinte, reúnam-se neste mesmo local. Os cavaleiros de Ouro estarão aqui para ajudá-los... – ela fez uma pausa. – Enfim, imagino que estejam com fome. Procurem pela casa número cinco da Vila Rodório (5) e, além de comida, encontrarão camas... As armaduras de todos já foram consertadas, não é?
– Sim. As nossas estão na casa de Áries, sendo restauradas neste momento. Colocamos nosso sangue em alguns recipientes etiquetados com nossos nomes e mandamos para lá... Devem chegar em breve. – disse Athos.
– Tudo bem então. Vou para lá agora mesmo para verificar como andam as coisas. Pema tem tido muito trabalho... Soranin está com um frasco com um remédio líquido. Pinguem algumas gotas em suas bebidas hoje a noite e irão se sentir melhor. As feridas vão se curar, mas fiquem atentos, é passageiro. Depois da batalha a dor vai voltar ainda mais intensa... Ah, e eu também coloquei algumas coisas debaixo de certas camas. Digamos que são alguns pertences que vocês estimam muito... – ela parou e verificou se não estava deixando nada de fora. – Acho que era só isso mesmo... Vejo vocês em breve, Santos!
As asas das sandálias bateram e ela se foi, sorrindo.
Depois de tudo que passaram, os dez decidiram rumarem juntos desta vez. Contaram o que houve e sobre os cavaleiros de Ouro e seus poderes no caminho, mas uma vez que terminaram a história, ficaram em silêncio.
Durante a refeição, Athos tentava fazer uma piadinha hora ou outra, mas pareciam forçadas – e eram. Relinde nem sequer reclamou de alguma coisa, apenas ficou brincando com a colher, arrastando ou girando-a perto de si.
– Pare com isso. – Aristides pediu baixinho, cabisbaixa e sem emoção na voz.
Para a surpresa – ou não – de todos, a resposta veio em uma única palavra. Uma que não era o esperado de se ouvir de Relinde:
– Desculpe.
O cavaleiro de Golfinho então deu um pulo e se levantou, batendo os punhos na mesa e chamando a atenção de todos.
– E-eu... Eu tenho algo a dizer... – ele apertou ainda mais as mãos, tentando se controlar.
Seus companheiros olharam para ele, aguardando a continuação. Não estavam assustados ou abatidos, realmente não tinham emoções visíveis. Cada um guardava seus pensamentos para si.
– N-na minha luta com Sui... Vocês pensaram que ela tinha parado o ataque do nada, não é?... Mas não foi bem isso que aconteceu... O meu dom é parar o tempo por alguns instantes, como vocês sabem, e eu o usei nessa hora. Somente eu e Sui nos movíamos, então vocês não viram nada, mas eu a confrontei, dizendo que ela não precisava se esconder e não devia limitar seu cosmo só para não ferir a nós... Eu queria que ela continuasse e disse isso a ela, demonstrando que eu também tinha um poder do qual não me orgulhava muito, mas quando necessário o colocava em prática... Ela me contou que havia herdado o sangue venenoso e eu respondi dizendo que todos já tínhamos suspeitas disso. Ela se acalmou por perceber que não seria rejeitada quando descobríssemos isso e parou o ataque ao ver que eu já não queria mais lutar, já que ela havia entendido que não deve mudar quem é ou ter medo do que os outros dizem e pensam... A partir daí vocês viram tudo, mas tem mais uma coisa: alguns dons tem consequências, e no meu caso ela é que todos que não tiverem seu tempo parado além de mim terão seu cosmo enfraquecido. Aos poucos, ao decorrer das próximas vinte e quatro horas, ele irá diminuindo gradativamente e o portador ficará cada vez mais cansado e sem forças, até mesmo para carregar a armadura... Isso aconteceu com Sui... – ele fez uma dolorosa pausa. – ... e com Kirsi também.
As reações começavam a aparecer aos poucos, mas nenhuma delas era extrema. Eles compreenderam que Athos talvez pensasse que a culpa fosse dele, mas no fundo sabiam que não era.
– Ele está falando a verdade. – Relinde disse, enquanto colocava sua bebida de volta na mesa, afastando-a dos lábios.
– Como sabe? – Meiying calmamente questionou.
– Minha habilidade especial é como um detector de mentiras... Digamos apenas que eu sei quando alguém está sendo sincero. – retrucou e voltou a beber seu refrigerante.
Athos suspirou e sentou-se novamente, murmurando um pedido de desculpas por ter dito tudo aquilo. Como resposta recebeu um tapinha nos ombros de Heitor e um sorriso de Yerik, juntamente a um aceno de cabeça de Soranin e um piscar de olhos de Ulysses. Ele havia dito aquilo que estava entalado em sua garganta e agora sentia um imenso alívio ao ver que não seria apedrejado pelos amigos.
E então veio mais silêncio. Jhesebel encarou os restos de comida que restavam em seu prato, pensando na vida, mas aquele clima só piorava as coisas.
– Não estou mais com fome. – disse, afastando-o e saindo da mesa.
Athos discretamente estalou os dedos na frente de Ulysses. Esse, embora um pouco atordoado, se retirou também, se desculpando e indo atrás dela.
Aristides estava tentando se manter de olhos fechados. Não queria acabar usando seu poder em alguém por não estar usando uma máscara. Evitou encará-los nos olhos e se retirou, dizendo que precisava buscar seus óculos que. embora sendo só de meio grau, mas mesmo assim fazia a diferença.
A próxima a partir foi Meiying, seguida por Athos. Ambos estavam muito cansados e se dirigiram para seus quartos. Relinde fez o mesmo não muito depois.
– Eu acho que vou tomar um banho e descansar também. – Heitor disse para Yerik. – Nos vemos amanhã, tudo bem? – a pergunta pareceu estranha, já que obviamente não estava tudo bem.
– Sim... Eu vou daqui a pouco também.
Ele acenou e se foi. Linus esperou pacientemente que ele se fosse e chamou o Santo de Cisne:
– Yerik...
– Sim?
– Preciso falar com você.
– Ok, o que é?
– Venha comigo, por favor. – pediu e o levou para a sala ao lado.
No fim restou só Soranin. Ela se inclinou sobre a mesa, cobrindo a cabeça com os braços e tentando se situar, mas não estava com paciência para reflexões. Decidiu esperar Heitor sair do banheiro e enfim ir para cama. Ela realmente precisava.
***
Lá fora, Jhesebel e Ulysses conversavam. Haviam feito as pazes e se acertado, mas no fundo ainda estavam um pouco chateados com tudo isso.
– Você tinha razão o tempo todo... Eu fui um idiota...
– Eu também não agi muito bem... Desculpe se fui grossa.
Ulysses pensou um momento e deixou um riso escapar.
– O que foi?
– Nada. É só que... Nunca pensei que você me pediria desculpas.
– E eu nunca pensei que você reconheceria seu erro. – ela riu também. – Estamos quites.
Ele fitou seu delicado rosto, que por anos sonhara em ver, e reparou que ela tinha lindos olhos azuis-claro, como ele sempre imaginou.
– Sabe, – disse – nunca passou pela minha cabeça que depois disso tudo você tiraria sua máscara...
– Eu também nunca pensei nisso... Mas ao ver Linus quebrar o juramento eu decidi que o faria também... Foi um momento doloroso, mas agora eu finalmente me sinto livre para ser quem eu realmente sou.
– Heh, parece até Atena falando...
– Ah, nem me compare com ela... A dor de perder amigos é intensa, mas imagine reencarnar a cada duzentos anos e ver centenas morrerem aos seus pés só pra te proteger...
– Acho que no fim não podemos comparar o sofrimentos das pessoas.
Foi a vez dela rir.
– Hum?
– Você está aí, filosofando e dizendo essas frases de efeito, mas tenho certeza de que se Athos estivesse aqui, você provavelmente diria algo como “Você não é tão feia quanto eu imaginava.”.
– E não é mesmo. – ele concordou e fez uma interrupção. – E para a sua informação isso foi um elogio, tá legal? Não precisa me bater.
– Não vou, fique tranquilo. Obrigada por me aceitar.
– Idem.
– Eu vou entrar e dormir... Acho que você deveria fazer o mesmo, "chifrudinho". – zombou.
– As damas primeiro, "chatonilda". – retrucou.
***
Meiying estava deitada em sua cama, pensando em tudo que ouvira nesse dia. Se ouvir já era tão atormentador, como seria ver e presenciar tudo isso? As vezes ela gostaria de poder enxergar e ver a vida, mas do que adiantava se as coisas eram assim tão cinzas?
Virou-se para o outro lado e voltou a tentar dormir, orando pelas almas de sua família e amigos.
***
Aristides retornou logo, podendo novamente olhar para os outros sem se preocupar. Foi direto para seu aposento, esperando enfim ter uma boa noite de sono, mas quando lá chegou, realmente ficou surpresa. Relinde estava sentado em sua cama com uma expressão severa no rosto.
– O que faz aqui? – perguntou.
– Sei lá. – disse.
– Por favor, vá embora.
– Não tem nada que você queira dizer pra mim?
Ela estranhou a pergunta. Realmente não entendera os motivos para ele questioná-la naquele momento.
– Acho que não... Por quê?
Ele se levantou.
– Depois da minha luta com Soranin, ela te desejou boa sorte. O que significava?
– Isso de novo? Eu estou muito cansada, prometo te dizer outro dia... Só não me apresse, tá legal?
– Sem problemas. – ele levantou os braços, como um criminoso abordado pela polícia faria. – Mas não se esqueça do que realmente aconteceu no dia em que nos conhecemos. Eles não vão acreditar na sua versão pra sempre, sabia?
Ele havia criado a hipótese de que o “boa sorte” teria sido pra contar a todos sobre o que aconteceu de verdade naquele dia? Zeus, aquela teoria idiota combinava com Relinde mesmo.
Ela pensou rapidamente e tentou achar uma forma de disfarçar o assunto.
– Se está falando sobre a história da poça d'água, não faz diferença. Como pode ver, não uso mais uma máscara.
– Então não era isso? – ele franziu o cenho. – Ah, tanto faz... Só estou curioso para descobrir do que ela estava falando.
– Logo mais eu te conto. Prometo.
Aristides se sentiu aliviada por ele não insistir no assunto, mas Relinde se aproximou e retirou seus óculos rapidamente, fitando seus profundos olhos castanhos-claro. Ela gelou na hora por causa da empatia e do susto, mas conseguiu encobrir isso encarando-o de volta.
– Espero que cumpra sua promessa, Aristides Hazard. – ameaçou.
– Eu sempre cumpro minhas promessas, Relinde Collet. – devolveu enquanto pegava o objeto de suas mãos e colocava de volta em seu rosto.
Ele então desapareceu, deixando outro buraco no coração da amazona.
***
Heitor já havia tomado seu banho e entrado debaixo das cobertas, mas sentia um receio de sonhar com aquilo. Sua premonição estava se tornando realidade e não havia nada que ele pudesse fazer. Veria Anabelle de novo no dia seguinte, mas não era com ela que realmente se preocupava. Kirsi iria lutar junto de Sui e Meiying no Inferno. Só de pensar em tudo o que ela fizera sentia um vazio no peito.
Atrás de seu travesseiro uma pequena caixa de madeira em forma de coração estava escondida. Anabelle havia colocado-a debaixo de sua cama, como dissera, e ele ficou realmente grato por isso.
Pegou-a e sorriu imediatamente. Sua irmã gostava mesmo da caixinha de música... Deu corda levemente e a abriu, revelando uma pequenina bailarina vestida de rosa, combinando com a caixa branca e o fundo espelhado. O interior era de veludo vermelho, realçando ainda mais a beleza do brinquedo.
A música tocou e ele logo envolveu-a nos braços, num esforço para dormir. Pensou em Perla, Sui e Kirsi, prometendo rezar por elas todos os dias para nunca se esquecer das pessoas maravilhosas que eram.
***
Yerik sentou-se no sofá e viu Linus colocar uma caixa quadrada em sua frente. Ela era vermelha e de algum tipo de papel resistente que ele não conseguiu identificar.
– Kirsi pediu que eu entregasse isso para você depois que voltassem... Ela não me deu explicações, apenas pediu que eu o fizesse que você entenderia... Eu não a abri. Somente você deve fazer isso, e quando estiver sozinho, entendeu?
– S-sim...
– “Por favor, continue sorrindo.”... – ela suspirou. – Isso foi a última coisa que ela me disse, e nesse momento se aplica a todos nós... Agora eu entendo o que significa.
– Obrigado, Linus. Você é uma amiga e tanto
– Eu é que agradeço... Bem, se me dá licença, acho melhor eu me juntar aos outros... Boa noite.
– Boa noite.
Linus bateu a porta do quarto e colocou suas costas na mesma, deslizando suavemente para baixo e sentando-se no chão, chorando. Como ela podia continuar? Seus olhos cor-de-mel agora contrastavam com o vermelho. A ardência não demorou a aparecer, e logo ela mal conseguia se manter acordada. Deitou e esforçou-se para parar.
***
Yerik aguardou um momento e foi para seu local de descanso, abrindo a caixa. Lá estavam algumas cartas, um caderno e um objeto de extremo valor sentimental para Kirsi: o ursinho de pelúcia de seu primo. Um grande bilhete dizia “Leia somente depois da batalha.”, e ele decidiu seguir, embora curioso.
Estava um pouco melhor pois sabia que ela sempre se lembraria dele, e ele sempre se lembraria dela. Juntos ou separados, os sentimentos continuariam sempre os mesmos.
***
Soranin terminou seu banho e literalmente se jogou nos lençóis. Estava sonolenta demais e não se deu ao luxo de pensar. Seu maior desejo era que tudo isso acabasse logo e ela encerrasse as pendências que deixara para trás.
***
Athos custava para pregar os olhos. Já havia minutos que estava largado na cama, fitando o teto com as mãos atrás da cabeça, e o sono não vinha. Um pensamento súbito ocorreu e ele procurou por algo debaixo da cama, retirando uma caixa com um estranho formato de lá. Graças aos deuses Anabelle deixara aquilo para ele. Abriu a caixa e um violino se revelou.
Aquilo pertencia ao seu já falecido tio, que era mágico e músico. Ficou com o violino pois era uma das poucas coisa que o consolava e acalmava quando criança. O som que ele fazia enchia seu coração de alegria, e quando aprendeu a tocá-lo aprendeu também uma forma de deixar seus sentimentos fluírem livremente.
Lembrou-se que quando menor dava muito trabalho aos pais e eles literalmente o deram ao tio para que pudessem se mudar e viverem felizes e sem a preocupação de ter uma criança de três anos para cuidar. Não evitou sorrir um pouco. Ele realmente era uma peste.
Pegou delicadamente o arco e começou a reproduzir uma melodia suave para embalar o sono. Mal sabia ele que todos na casa o ouviam, silenciosamente. Suas almas foram acalmadas por ele e a mágoa conduzida para longe.
Fale com o autor