Conto I - Unforgettable Wars
45 O Grand Finale: Tragédia em Dobro!
Notas iniciais

Relinde não sabia o que esperar daquele ataque repentino. Pensou que fosse morrer, mas em questão de segundos seu corpo estava totalmente revigorado. Os machucados continuavam ali, rasgando sua pele de ponta a ponta, fundos e vermelhos e pingando sangue, mas a dor havia desaparecido magicamente.
Mas que diabos era esse veneno?
O Basilisco deu as costas e a névoa se dissipou. Ele ficou parado bem entre todos os Santos, que estavam estirados ao seu redor, quase como um círculo. Agora eles começavam a se levantar, percebendo que os efeitos das toxinas haviam sumido.
— O-o que... O que você fez? – Hidra gaguejou, observando seus braços enquanto os girava, analisando-os.
O ofídio virou-se lentamente para o lado, mais sério do que nunca.
— Sabe, alguns venenos também são usados para curar.
— P-por quê?... – perguntou Aristides. – Por quê nos curou?
Ele olhou de forma atravessada para a garota, encarando-a de lado, e apertou os punhos, entrando em posição de ataque.
— Porque se continuassem daquele jeito não poderiam lutar a sério comigo. É hora do golpe final!
Hedi começou a se movimentar, concentrando e aquecendo-se. Uma aura verde gigantesca rapidamente apareceu atrás de si, fazendo a terra tremer e gerando um vento consideravelmente forte, que bagunçou os cabelos de todos presentes.
Ninguém se moveu, temendo o pior. Jamais em sua vida haviam visto um inimigo com tanto poder.
— Vão ficar parados aí? – ele riu sarcasticamente. – Heh, por mim tudo bem... Lá vai!
Hedi socou o ar e a aura tomou a forma de uma serpente, indo na direção de todos enquanto zigue-zagueava velozmente, chacoalhando seu guizo, mostrando as presas, e abrindo seu véu, intimidando-os.
Finalmente ele havia parado de usar golpes elementais e partira para um ataque de verdade. Isso animou tanto Relinde que ele foi o primeiro a se mexer, aplicando um novo golpe quase que automaticamente, como se não compreendesse os riscos que corria.
— Mordida da Morte!! (1)
Ulysses logo se juntou a ele, com os olhos transbordando determinação:
— Galope dos Mil Unicórnios!! (2)
Soranin usou as Chamas Incandescentes (3) para aumentar sua energia e logo disparou o Ave Fênix (4), carregado de poder. Suas chamas crepitaram ardentemente, intensas e imponentes. Aristides a acompanhou, atacando com o Salto das Profundezas (5), que espertamente havia unido com a Nobre Essência (6) momentos antes, apurando seus sentidos para um melhor desempenho em seu salto e aterrissagem. Jhesebel concentrou seu cosmo o máximo que pode. Sabendo que seus golpes primários não adiantariam de nada, já que usavam o chicote, decidiu que, assim como Hidra, inovaria:
— Cauda do Desespero!! (7)
O golpe de Ulysses atrasou a serpente, diminuindo drasticamente sua velocidade. Não acertou o homem dos cabelos negros – seu alvo principal – muitas vezes, mas o Ave Fênix de Soranin estourou com precisão o guizo da cobra, que acabou explodindo em uma tempestade de chamas, bem acima deles. Aristides passou entre as presas da cobra, literalmente adentrando em sua garganta, fazendo uma acrobacia e acertando seu chute bem nas costas do ofídio – ao mesmo tempo que Jhesebel destruía os resquícios da serpente de uma vez por todas com seus afiados chutes.
Por fim, com a cobra se desfazendo rapidamente, Relinde completou seu tão esperado ataque, acertando o ofídio diretamente e usando três presas de uma vez: duas vindas das mãos, que o socaram no peito e no braço, e uma vinda do joelho, que se chocou contra sua barriga. Hedi voou longe com o impacto, tentando cruzar os braços na frente do corpo para se proteger em meio ao vendaval de chamas e golpes, mas acabou não conseguindo firmar os pés no chão, sendo empurrado na direção do Portão Principal.
Infelizmente, os Santos de Bronze também foram atingidos em meio a tudo isso. O sangue começou a escorrer para fora de seus corpos sem parar, como se eles tivessem sido esfaqueados simultâneas vezes sem poder se defender. Todos arfavam sem parar e, quando tentaram dar um passo para comemorar a aparente vitória, caíram um a um, indo de encontro ao duro chão de pedra.
Ao mesmo tempo, em Star Hill...
Athos foi o primeiro dos quatro a recobrar a consciência. Olhou para os outros, mas todos continuavam deitados – ao contrário de Hiero, que estava com os braços no chão, fazendo força para se levantar.
O ofídio estava tremendo – talvez de dor, talvez de raiva – e se levantava com um olhar raivoso no rosto. Com um pouco de dificuldade, ficou em pé, firmando os pés no chão e respirando pela boca.
O cavaleiro de Golfinho fez o mesmo. Não sentia dor porque acabara de se erguer, mas sabia que ela estava ali e voltaria a qualquer instante. Não pensou duas vezes e o atacou com um soco comum, tentando derrubá-lo mais uma vez e ganhar algum tempo, já que não requeria muito cosmo e concentração.
Hiero se enfureceu com aquela atitude e usou seu campo de força pela última vez. Ele estava fraco e instável, mas aguentaria mais um golpe. Quando o choque aconteceu, tanto a cúpula quanto a mão de Athos se quebraram na mesma hora. O primeiro apenas rosnou, e o segundo caiu no chão, urrando de dor. Seu grito chamou a atenção dos companheiros, que logo se levantaram, assustados.
Yerik rapidamente pegou Athos pelo braço bom, ajudando-o a se levantar:
— É melhor você parar por aqui. Nós cuidamos dele.
— J-jamais. – respondeu.
— Athos, você não vai conseguir continuar, está muito ferido! – Linus disse.
— Dane-se. Eu não vou parar.
— Deixem-o. – Heitor pediu.
— Mas Heitor, não tem jeito dele revidar. Se um golpe atingí-lo, já era! – Cisne protestou.
— T-tem um jeito sim... – seus olhos castanhos fitaram os azuis de Yerik. – Congele o meu braço.
— O quê?! – os três protestaram.
— Por favor. Não precisa ser muito, mas faça... Se ele ficar dormente eu conseguirei lutar.
— Você conhece os riscos, não conhece?
— Sim, e estou disposto a encará-los.
Ele fitou Leão Menor e Linus, que assentiram, concordando.
— Então tudo bem. – o russo cedeu, suspirando. – Mas tome cuidado.
Yerik rapidamente colocou suas mãos sobre o punho machucado do amigo e o resfriou o máximo que pode, tomando cuidado para não passar do limite e comprometer sua saúde.
— Não sinto nada... – Golfinho disse por fim, retraindo e alongando os dedos. – Isso é ótimo.
Enquanto os últimos cacos da proteção iam ao chão, Hiero disse, com uma aura azul claro rondando seu corpo:
— Não vou mais tolerar essa afronta! Vocês foram longe demais, e agora sentirão minha fúria!
A energia se concentrou e virou uma serpente. O rosto de Hiero estava todo cortado, o que deixava sua expressão ainda mais assustadora. Ele socou o ar e a cobra preparou-se para dar o bote, esgueirando-se para os lados, formando um “S”.
— O que vamos fazer agora? – perguntou Linus, desnorteada.
— Tudo o que podemos fazer é atacar. – Heitor respondeu. – Vamos lá! Bombardeio de Leão Menor!! (8)
— Certo! – ela retrucou. – Garras Cortantes de Ventania!! (9)
— Execução Aurora!! (10)
Athos hesitou, pensando em seu punho. Não exatamente na dor, mas sim se poderia usá-lo da forma como pretendia. Ignorou as chances de derrota e atacou, vendo que já estava um pouco para trás:
— Anjo do Respingo!! (11)
Heitor e Yerik destruíram a serpente, que se desfez em uma bela tempestade de raios dourados. A eletricidade os atingiu e eles caíram, se sentindo ainda pior do que antes... Já Linus e Athos conseguiram tocar em Aour, mas a força aplicada pela perna do garoto foi tão intensa que Linus e Hiero acabaram sendo arremessados para a borda do monte. Ao perceber, o cavaleiro pulou para frente com o maior impulso que seus pés conseguiram dar naquele momento de desespero e segurou um em cada mão, impedindo que eles cedessem. Com a mão boa, segurava a amazona, e com a machucada, o Basilisco.
Mesmo com a mão formigando por causa do frio, ele pode sentir a dor, que voltava mais intensa do que nunca. Sentia como se seus nervos, veias e artérias estivessem prestes a se romper, latejando como se gritassem por socorro... Aquele cara era pesado, mas não podia deixá-lo cair.
Era perceptível que a amazona se esforçava para não entrar em pânico. Estava com os pés fora do chão sem nenhum apoio, pendurada somente pela mão de Athos, a qual ela agarrava com toda a força. Não olhe para baixo, pensava enquanto contraía os olhos. Não olhe para baixo, não olhe para baixo, não olhe para baixo!
O peso que os dois faziam juntos começou a arrastar Golfinho junto com eles. Athos pode sentir seu corpo escorregando pouco a pouco, indo para frente. Seu peito já estava praticamente inteiro para fora, de modo que só seu abdômen e as pernas continuavam em terra firme, e seus joelhos estavam dobrados de forma que a planta de seus pés estava voltada para o céu. Só quando ele emitiu um grito de dor que Yerik voltou a si e notou o que estava acontecendo. Atirou-se no chão e fechou seus braços em torno das canelas do amigo, impedindo a queda. Heitor não conseguia se mover direito, mas se esforçou ao máximo para avançar um pouco e enfim conseguiu segurar os calcanhares do loiro, equilibrando as forças e parando o movimento que resultaria na queda.
Infelizmente, eles ainda não estavam a salvo. Se Hiero ou Linus escorregasse, seria o fim.
Vilas do Santuário...
Quando Fênix, Unicórnio, Hidra, Camaleão e Raposa acordaram, tudo estava silencioso. Havia um rastro de destruição na terra, que crepitava enquanto as últimas fagulhas da tempestade caíam. Franziram o cenho, tontos, confusos e doloridos, e começaram a olhar ao redor. Não trocaram uma só palavra, mas sabiam que todos procuravam a mesma coisa: Hedi.
Relinde estendeu a mão para Aristides, com um sorriso reprimido no rosto. Ela se sentiu corar, mas não teve certeza se estava visível. Aceitou a mão e se ergueu.
— Aquilo... era mesmo verdade? – ele perguntou, sussurrando, sem perder a marra.
— Sim. – ela devolveu no mesmo tom. – Eu morreria por você, Relinde.
Ele fez uma pausa e depois disse, rindo:
— Você é uma idiota, sabia?
— Aprendi com o melhor. – retrucou.
Ele a apoiou no ombro e eles silenciosamente começaram a caminhar na direção do Portão Principal. Soranin, Jhesebel e Ulysses os seguiram, tomando cuidado para não caírem, já que cambaleavam hora ou outra, quando pisavam em falso.
Pararam em frente as rosas que Calisto havia levantado para proteger a saída, e se surpreenderam. Dentre o grande emaranhado de caules verdes e espinhos, estava um enorme buraco, indicando que algo atravessara a parede de espinhos com muita força e velocidade.
Sangue gotejava do caule das plantas restantes, e todos sabiam o que aquilo significava.
— E-ele... – Soranin gaguejou, estreitando os olhos por achar não estar enxergando da forma correta.
— N-não pode ser... – Ulysses acompanhou. – E-ele n-não...
— Z-Zeus... – Jhesebel piscou os olhos com força, tentando focalizar.
Atravessaram a passagem e olharam para o chão procurando os rastros, tentando achá-lo, mas nada viram. O sangue parava logo após o arco de mármore, como se sumisse em pleno ar.
— Acaba aqui... – disse a amazona de Raposa. – Pra onde ele foi?
— Desgraçado. – Relinde sussurrou, praguejando e contendo as lágrimas, assim como os demais.
Star Hill...
— Aguentem firme! – Heitor gritou lá do fundo, tentando puxá-los.
Athos arquejou, com o pulso mais do que dolorido.
Os olhos de Linus o fitaram. Ela estava apavorada, beirando o choro.
— A-Athos...! – sua voz falhou.
— Fique calma. – ele tentou demonstrar confiança. – Eu não vou deixar vocês caírem.
A mão de Hiero lentamente começou a escorregar por conta do gelo, que agora derretia, virando água e escorrendo.
— Athos... – ele chamou. – Você não vai salvar a nós dois.
— Não diga bobagens. – o garoto tentou fazer mais esforço e puxá-los. – Eu consigo.
— Não, você não consegue, e sabe disso.
Silêncio.
Hiero abriu um sorriso no rosto e, por um momento, Linus pensou que ele fosse derrubá-la de propósito para que ele sobrevivesse... Mas não foi o que aconteceu. Ele apenas disse, com um olhar bondoso no rosto, ainda sorrindo:
— Desculpem por tudo.
E então, ele fez um movimento com os dedos, desvencilhando-se da mão do cavaleiro e caindo de costas rumo ao vazio. O vento rapidamente bagunçou os cabelos de Athos, batendo em seu rosto agora em choque, enquanto o ofídio se tornava cada vez menor, sumindo em meio as nuvens que rondavam Star Hill.
Num impulso para livrar-se das lágrimas, pressionou as pálpebras e usou a mão livre para puxar Linus para cima, deixando-a novamente em terra.
Os quatro agora estavam inconformados.
As mãos do Santo tremiam, sentindo uma dor que ia além da dor física. Hiero escapara de suas mãos, se sacrificando por eles, e essa era mais uma perda que eles teriam que enfrentar a partir daquele dia.
Ele caiu no chão, sentado, com a mão na boca e o cenho tremendo. Yerik cambaleou para trás, quase caindo, mas Heitor o segurou pelo braço e evitou a queda. Ele também estava pasmo, mas parecia que a ficha ainda não havia caído. Linus também sentou-se. Começou a chorar, não acreditando que ela estava viva somente por causa daquele homem. Um clima estranho os rondava, abalando seus corações e atormentando suas mentes.
Alguns minutos de silêncio depois, Heitor perguntou, provavelmente tentando amenizar a tensão:
— Er... hum... como descemos daqui mesmo?
Simultaneamente, nas Doze casas...
— Dois já foram. – Anabelle disse para Calydio, suspirando e esfregando a mão em um dos braços. – Só falta um.
— Você me parece meio abatida. – ele disse. – Aconteceu alguma coisa?
— Isso é comum nos Basiliscos. Quando algo importante está para acontecer, nós temos algumas sensações como calafrios e borboletas no estômago.
— Entendi... Bem, fique tranquila. Todos eles são fortes. Vão aguentar.
Ela assentiu, sorrindo.
— Anabelle, posso te perguntar uma coisa? É sobre esse teste de Hermes...
— Claro, Efilnaem. Fique a vontade.
— Ele serve para testar a força da base dos exércitos, certo? Então, depois disso, o que acontece exatamente?
— Ah, sim, é mesmo. Então, antes de mais nada, vou explicar algumas coisas a respeito de Hermes... Bem, como vocês sabem, ele é o deus mensageiro do Olimpo, o que é interpretado como um meio de comunicação entre os deuses. Hoje em dia, muitas novas tecnologias estão surgindo, e tudo isso é graças a Hermes. Ele as desenvolve justamente para facilitar essa comunicação, que não ocorre só entre ele e seus iguais, mas entre os exércitos dos deuses. Algumas invenções vão para o mundo humano quando aprovadas, e depois se espalham pelos quatro cantos do globo. É um modo de acompanhar o progresso das coisas.
Ela os fitou para ver se a compreendiam. Em seguida, continuou:
— Depois desse teste ele irá fornecer alguns inventos para vocês, que irão testá-los. Ainda não sei o que será designado para cá especificamente, mas com certeza ajudará nas próximas guerras que vocês enfrentarão.
— Entendi. Obrigada.
Os dourados já haviam acordado, totalmente recuperados. Alguns jogavam conversa fora, outros riam, e alguns até mesmo assobiavam, tentando passar o tempo. Passos começaram a ecoar e todos se viraram para as escadas, de onde Pema descia calmamente. Eles a cumprimentaram e ela perguntou como as coisas estavam indo. Anabelle respondeu que só faltava uma batalha, coincidentemente a que sua meia-irmã estava supervisionando.
Áries não pareceu se abalar, apenas agradeceu a informação e sentou-se ao lado dos amigos para esperar.
— Ei, Anabelle. – Lélio chamou. – Como esse remédio curou a gente tão rápido?
— Digamos que por conta dos inúmeros favores que Hermes presta aos deuses, ele acaba ganhando algumas coisas em troca... – ela fez uma pausa e riu. – … Ou roubando mesmo, já que é o deus dos ladrões.
Eles ficaram em silêncio por um momento, engolindo seco. Se aquele remédio fosse de quem estavam pensando, haviam acabado de começar uma guerra.
— Não se preocupem. – ela continuou. – Ele não vai atacá-los só porque usaram seus medicamentos... Ele forneceu a Hermes e Hermes os forneceu a mim, eu tenho liberdade para dá-los para quem quiser... Além do mais, vocês estão em trégua, não é mesmo Calydio?
Ele hesitou, mas respondeu:
— Sim, estamos... Eles só tiveram essa reação porque isso demorou muito para acontecer. Não queremos que os confrontos voltem a ocorrer como antes... O último encontro entre pessoas de nossos exércitos não deu muito certo, você sabe...
— Eu entendo, mas confiem em mim. Ele tem muitos desses por lá, não fará falta alguma... Do contrário Hermes não os teria conseguido e entregado uma parte a mim.
— Nós confiamos, não se preocupe. – Efilnaem disse. – Obrigada por isso.
Anabelle sorriu, mas logo caiu de joelhos no chão, tremendo e apertando firmemente sua barriga.
— Você está bem? – Icarus perguntou enquanto se levantava, preocupado. Ele também sentia alguns arrepios, mas eram muito mais leves que os dela. Além do mais, ele só os conseguia interpretar suas sensações algumas vezes, e esse não era o caso. Provavelmente deveria ser algo que somente Anabelle tinha consentimento.
Ela não respondeu. Seus olhos estavam arregalados e começaram a fitar o vazio. Dentro de si, Anabelle sentiu um universo de sentimentos estranhos. Mesmo entre tantos, havia um que se destacava: desespero. Gritou, sentindo uma pontada em seu estômago, e depois desmaiou, perdendo totalmente a consciência.
Icarus a segurou antes que fosse ao chão e se machucasse e em seguida olhou para Atena, confuso, com os olhos cor de ametista brilhando intensamente.
— Calydio... o que acabou de acontecer aqui?
— E-eu não faço ideia...
O garoto se ajoelhou ao lado e verificou as condições de Anabelle. Ela franzia o cenho, ainda desacordada, como se estivesse tendo um pesadelo, mas parecia bem. Apenas seu coração estava acelerado, assim como sua respiração.
Os Santos de Ouro se surpreenderam com a cena incomum, preocupando-se.
— E agora, Calydio? – perguntou Kyros.
— Só nos resta esperar que ela acorde. Depois que ela se recuperar, faremos as perguntas.
Vilas do Santuário...
Pouco a pouco os cavaleiros de Bronze se dirigiam para o lugar onde haviam se separado pela última vez, na companhia dos dourados. Caíram várias vezes pelo caminho, tropeçaram, desmaiaram, mas calmamente foram chegando.
Aqueles que lutaram em Star Hill demoraram um pouco mais para chegar, devido à descida complicada que tiveram que enfrentar. Se entreolharam e sabiam que tinham passado pelas mesmas dificuldades. O estrago era intenso, mas as armaduras aparentemente haviam sido poupadas. O dano parecia ter as atravessado e atingido seus corpos.
Deram um sorriso de contentação ao ver que todos estavam inteiros e vivos. Agora faltava apenas Meiying retornar. Apoiaram-se uns nos outros e se puseram a conversar entre arquejos e suspiros, tentando esconder que, na verdade, bem no fundo, temiam o resultado dessa última luta.
Doze casas...
A peçonha acordou repentinamente, em busca de ar. Olhou ao redor e viu que todos olhavam para ela, assustados. Icarus a segurava no colo, e também parecia confuso.
— Anabelle! O que aconteceu? – ele perguntou, colocando-a no chão.
Ela pensou um pouco, analisando as informações ainda apoiada em Icarus e ponderando o que deveria contar.
— A-a... A-a última batalha acabou de t-terminar... – gaguejou, tentando firmar os pés.
— E então? Todos estão bem? – Calydio expressou ansiedade pela resposta.
— É-é... S-sim. Estão.
— Então qual é o problema? – Efilnaem questionou.
Silêncio.
— M-me desculpem, preciso ir... – ela se apressou, levantando-se e evitando olhares diretos. – Tenho que ir até o Santuário de Hermes e conversar com ele a respeito disso.
— Tudo bem. – Atena respondeu. – Nós entendemos a sua situação.
— Prometo não demorar.
Ela se despediu e em seguida saiu voando pela entrada, indo até o deus ao qual servia.
Santuário de Hermes...
Rapidamente, ela chegou ao seu destino. Hermes ainda estava sentado no trono, esperando as conclusões, mas sua expressão agora era pensativa. Seu sorriso havia desaparecido por completo.
— S-senhor Hermes!
— Anabelle, seja bem-vinda.
— Obrigada, mas...
Ela se deteve. Ele com certeza já sabia. Dizer aquilo era totalmente desnecessário, só traria dor aos dois.
Ele a fitou, compreendendo sua hesitação. Nunca vira Hermes com um olhar tão triste no rosto. Ele era sempre uma pessoa alegre, bem disposta, cheia de energia e tinha um brilho especial nos olhos... Mas, neste dia, esse brilho estava ofuscado por uma maré de incertezas.
— Sim, eu sei. – ele continuou de onde ela havia parado, um pouco distante. – Isso realmente foi inesperado...
— O que faremos agora?
— Eu darei um jeito. – disse, se levantando e sorrindo. – Logo mais aparecerei por lá, afinal, um guia será necessário.
A peçonha se sentiu mal por tudo isso. Mesmo em uma situação dessas, Hermes conseguia forçar um riso. Ele era uma pessoa tão bondosa com tudo e todos, nunca desistia de ninguém, mas parecia tão solitário as vezes... Ela o admirava por isso.
— Seu rosto ri, mas sua alma chora... – murmurou tristemente, fitando-o com um olhar melancólico.
— Acredite, eu não sou o único. – ele respondeu, ainda sorrindo.
Anabelle começou a chorar em silêncio, abalada.
— Você precisa ir agora. Não podemos perder tempo. – o deus falou. – Faça uma boa viajem, e saiba que eu te protegerei.
— C-certo. Obrigada...
— Disponha.
Ela se foi, cheia de pesar, e o deixou sozinho.
Hermes caiu de joelhos. A franja verde encobria grande parte dos olhos, que derramaram algumas lágrimas sinceras.
— M-me perdoe... – disse por fim. – Eu falhei...
Começou a cochichar, como se fizesse uma prece, e ao acabar, levantou-se. Dirigiu-se para seu trono e pegou seu capacete alado, que estava pendurado em uma das elevações da cadeira. Vestiu-o e retomou sua postura determinada de antes. Ele era um deus e, embora não pudesse mudar o destino das pessoas, tentaria ao menos amenizar o sofrimento delas.
Ele definitivamente iria consertar tudo isso. Nunca desistira de sua família, e isso não iria mudar agora.
— Irei me redimir. – disse, convicto de si. – Atravessarei todo o inferno se preciso.
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