Conto I - Unforgettable Wars
39 O Começo do Fim: O Último Adeus!
Notas iniciais

A primeira coisa que Soranin viu quando recobrou a consciência foram os primeiros raios de luz do dia. Não se lembrava de ter saído da casa de Sagitário, mas não podia perder tempo – embora estivesse preocupada com Icarus.
Correu escada acima toda dolorida e vermelha por conta do sangue, mas sem reclamar. Rapidamente chegou em Capricórnio, deparando-se com Ulysses e o cavaleiro dessa constelação jogados no chão. O primeiro estava literalmente com a cara enterrada no chão e o segundo de ponta cabeça, com as pernas apoiadas na parede e os braços e tronco no solo.
Queria poder ajudá-los mas sabia que não deveria. Ulysses jamais a perdoaria se ela mostrasse compaixão nesse momento.
Com a mesma pressa que viera, se foi, e chegou a Aquário. A casa era fria e em alguns pontos estava congelada – sinais de uma batalha, talvez. Olhou ao redor e viu Yerik e uma mulher de cabelos vermelhos. Ela não trajava uma armadura, coisa que fez a amazona parar pra pensar um pouco... Mas ela nada podia fazer, apenas continuar até Peixes.
Na escadaria, avistou uma figura não muito longe, que se movia lentamente mas com determinação. Apertou o passo e se aproximou o suficiente para reconhecer a irmã.
– Sui! – gritou.
– S-Soranin? – ela se virou, surpresa.
– Irmã! Você está bem?
– Cansada, porém sim... E você?
– Já estive melhor. – Fênix deu de ombros. – Quanto tempo ainda temos?
– Uns vinte minutos, eu acho...
– Ah, Peixes não está tão longe. Podemos derrotar rapidamente o guardião e seguir juntas para falar com Meanlife.
Sui parou de sorrir, adquirindo uma expressão séria.
– Soranin, me prometa uma coisa... Quando chegarmos na décima segunda casa, você vai passar sem mim.
– O quê?! Não!
– Soranin. – ela a fitou, ainda caminhando lado a lado. – Por favor.
– M-mas... Por quê?
– Você já descobriu toda a verdade sobre nossa família, não é mesmo?
– Como você...?
– Na casa de Leão, eu vi Kanophe. Apenas com uma troca de olhar entendi tudo.
– Opa, pera aí. Você conhecia Kanophe antes de tudo isso?
– Mas é claro. Foi ele quem arrumou uma casa para morarmos. Kanophe nos trouxe até aqui, era muito amigo do nosso pai, e eu sabia disso... Ele me contou tudo o que realmente aconteceu algum tempo antes de irmos embora daqui.
– Entendo... Mas o que muda eu saber de tudo ou não?
– Preciso terminar o que nosso pai começou... E só posso fazer isso se enfrentar Calisto.
Silêncio.
– Olha, eu conheço os riscos, tá legal? – continuou. – Mas há mais um motivo para eu fazer isso, e logo mais você entenderá.
– Sui... Eu não quero isso... Viver desta forma é tão...
– Soranin, você pediu que eu respeitasse suas decisões, certo? Por favor, tente ao menos entender as minhas. Você precisa chegar até Meanlife e falar sobre Hades. Só depois que tudo isso acabar estaremos livres... Não importa o resultado. Eu sempre estarei com você, em seu coração.
– Sui, eu te amo. Estarei esperando por você. – ela a abraçou.
– Também te amo muito, Soranin. Apenas siga em frente, pense em nossos pais e tenha forças para chegar ao seu destino final. Mostre aos deuses quem somos. Honre sua armadura. A partir de agora é com você!
– Ok.
Em questão de segundos, já estavam na porta de Peixes. Se encararam mais uma vez e assentiram. Todo o esforço valeria a pena. Entraram juntas e Sui sussurrou:
– É agora.
– Te vejo mais tarde, Sui. – disse, dando as costas e correndo para a saída.
Repentinamente Andrômeda ouviu um som muito suave e rápido. O ar parecia estar sendo cortado, e o barulho ia na direção de Soranin. Ela se antecipou e empurrou a irmã para mais longe, protegendo-a de uma Rosa Diabólica que fora sido disparada em sua direção.
– Sui!
– Não se preocupe comigo. – a loira respondeu, mostrando que a rosa estava entre seus dedos. – Apenas vá!
– Sim!
Ela voltou a andar, pensando nas palavras da irmã. Queria voltar e ficar com ela, mas não podia. Teve vontade de chorar só de pensar nas hipóteses de como isso poderia acabar, mas se era isso que a irmã e seus pais desejavam, ela os honraria. Desde que chegara ali, todos deram o seu melhor. Inúmeros sacrifícios foram feitos para que ela estivesse ali.
Nessa pequena aventura conheceu muitas pessoas, e perdeu algumas também. Todos ali eram únicos, mas tinham algo em comum: acreditavam nela. Se falhasse, estaria jogando esse esforço no lixo. Se as pessoas que não via há anos e até mesmo as que acabara de conhecer não tivessem tido fé nela, com certeza estaria só... Mas não estava. Seu coração carregaria pra sempre a alma de todos eles, e isso tornava seu cosmo ainda mais forte.
***
Calisto saiu das sombras e se apresentou, surpreendendo-se por dar de cara com Sui.
– Sui?
– Sim. Como prometido, voltei pra cumprir minha promessa.
– Entendo... Bem, eu disse que aceitaria o destino, mas tenho uma pequena condição.
– E qual seria?
– Você deve me derrotar. Só assim continuarei o Elo.
– Por mim tudo bem. Eu aceito.
– Sabe, me surpreende que você ainda esteja com isso no cabelo. – disse, observando a rosa ainda intacta nos cabelos da filha de seu mestre. – Ela ainda não murchou?
– Essa rosa só cairá quando cumprirmos nosso dever.
Ele ponderou o argumento por alguns segundos e por fim pediu que ela começasse.
Sui acenou e obedeceu.
– Corrente de Andrômeda! (1)
Calisto nem se moveu, apenas parou a corrente com uma das mãos – assim como Athos fizera anteriormente.
– Droga. – murmurou.
– Parece que é a minha vez. – disse o Santo de Ouro, soltando-a. – Rosas Piranhas! (2)
Várias rosas negras surgiram e foram disparadas na direção de Sui, que se protegeu usando a Defesa Circular. (3)
– Isso é inútil. As Rosas Piranhas podem destruir quase qualquer coisa com o menor contato. Seus espinhos são como verdadeiros dentes de piranhas. Nada fica em seu caminho!
A corrente em forma de círculo se quebrou em pedaços, deixando a amazona desprotegida. Sui recebeu boa parte do ataque sem poder fazer nada. Precisava esperar que ele acabasse para atacar de novo ou acabaria destruindo a corrente restante.
Calisto a encarava de uma forma indiferente. Seus olhos azuis estavam severos, como se ele quisesse ensinar algo a ela. As rosas abriram vários cortes em sua pele, mas pela primeira vez ela não se importou. Seu sangue estava livre para escorrer sem preocupações. O veneno exalaria como um doce e letal perfume.
– Isso... doeu... – disse, esfregando um dos braços e mordendo os lábios para tirar a atenção daquela dor. – Mas não importa. Ainda não dei tudo de mim: Nebulosa de Andrômeda! (4)
Sua corrente se espalhou, formando a nebulosa de sua constelação. Ela não precisava da defesa nesse momento. A própria corrente triangular se encarregaria do inimigo, dando tempo o suficiente para ela bolar um plano.
– Sinto muito, mas isso também não vai me deter. – ele sorriu. – Rosa Adaga! (5)
Uma chuva de rosas azuis perfurou a armadura e o corpo da amazona, que tentava passar a impressão de não estar sentindo dor – porém aquilo realmente machucava como várias facas arremessadas ao mesmo tempo.
Sua Nebulosa fora inútil mais uma vez por não reagir a ataques indiretos e ela sofreu as consequências de não ter tido o seu precioso tempo. Pensar não adiantaria numa hora dessas, ela realmente tinha que ir com tudo... Mas como?
Demorou para reparar que olhava para o teto. Havia sido arremessada para trás e nem mesmo percebera. Levantou-se mas não teve tempo de se recompor. Ele atacou novamente e ela acabou se limitando a contra-atacar:
– Rosas Piranhas!
– Onda Relâmpago! (6)
O dourado aumentou a quantidade de rosas dessa vez, o que tornou ainda mais fácil quebrar a corrente ofensiva – e também a armadura.
Mais uma vez foi ao chão. Havia algo errado, o contraste de poder entre os dois era incrível.
Lembrou-se então que estava lutando com Calisto. Ele não era qualquer cavaleiro de Ouro, era seu objetivo. Poderia liberar seu cosmo da forma que bem entendesse. Mas do que adiantaria? Ele era poderoso demais. Conseguira destruir suas duas correntes e armadura com apenas três ataques...
Pense, Sui, pense!, disse para si mesma, O que falta? Você não pode ficar aí parada. Sua irmã está lutando sozinha nesse momento para chegar até Meanlife. Ela chegou até lá porque você se sacrificou. Cumpra com o seu dever!
E então veio a ideia arriscada. Estava desprotegida e precisava usar somente o cosmo. Quanto a isso tudo bem, mas lembrou-se que Rimo dissera para guardá-lo para o final, pois seria de extrema importância... Bem, àquela altura era inevitável. Tinha de vencer Calisto e terminar o Elo Carmesin não importando o custo. Não sabia da onde estava tirando forças, mas ficou de pé.
– Quer desistir? Te dou uma chance de parar com tudo isso... Esqueça o Elo. A garantia de sobrevivência é certa.
– Jamais. Se for necessário, darei a minha vida.
– Você não vai me derrotar, sinto muito. Sua armadura está quebrada e seu cosmo é muito fraco.
Andrômeda abriu um sorriso. Sua franja encobria os olhos e ela apoiava as mãos nos joelhos, recuperando o fôlego. Sua expressão podia não ser muito clara, mas suas palavras foram:
– Erro seu... Corrente Nebulosa! (7) – ela levantou o olhar e abriu os braços, criando poderosas correntes de ar.
– Mas o quê...?! O que é isso?!
– Não preciso do meu traje de Bronze pra lutar... A luta acabou, Calisto. Você já não pode se mover.
– Perdoe-me por ferir seu orgulho... – disse enquanto sorria, levantando aos poucos uma das mãos até a altura do peito, revelando uma rosa branca. – ... mas eu ainda tenho um truque na manga.
– N-no que você está pensando?
– Se eu te ferir consideravelmente, acabará cedendo e escolhendo viver. É a única maneira! Rosa Sangrenta! (8)
Ele a atirou com elegância e o movimento aumentou a Corrente, transformando-a na Tempestade Nebulosa (9). Incríveis ventos sopravam ao redor dos dois, formando algumas espirais e desarrumando seus cabelos.
Foram precisos apenas poucos milésimos de segundo para que o alvo fosse atingido. O coração de Sui agora estava perfurado e ela sentia a respiração mais pesada e dolorida.
Cambaleou um passo mas manteve-se no lugar. Olhou para a flor e notou que ela começava a ficar levemente rosada, sugando seu sangue.
– Quando ela se tornar inteiramente vermelha será tarde demais para você, então se tem amor à sua existência, recue. Assim que me disser que não quer mais, eu a removerei!
– Eu não vou parar! – gritou. – Já fiz a minha escolha e não vou voltar atrás! – Sui se concentrou e respirou fundo. – Eleve-se, meu cosmo! Faça com que eu possa continuar o trabalho de meu pai sem nenhuma dúvida em meu coração! Tempestade Nebulosa, erga-se mais uma vez!!
As rajadas aumentaram sua força, levantando o Santo do chão e o empurrando de frente para um pilar. Calisto despencou e bateu as costas no chão, emitindo um arquejo. Ele estava impressionado com aquele cosmo, e o veneno estava forte até mesmo para ele. Aquela garota havia cruzado a linha entre os dois e o derrotado, revelando por fim seu verdadeiro poder: o Sétimo Sentido.
Os ventos foram diminuindo a velocidade e enfim cessaram. A rosa no peito de Andrômeda já estava quase vermelha, mas ela a ignorou. Seus joelhos tocaram o piso e ela caiu ao lado do dourado.
– Você me venceu. – ele admitiu. – Está na hora.
Ela pegou a Rosa Diabólica dos cabelos e cortou o dedo. Não era necessário, pois sangrava de vários pontos, mas o processo exigia que o Elo fosse feito dessa forma. Calisto tomou-a de sua mão e fez o mesmo.
– Foi bom encontrar com você.
– Idem, mas não diga essas coisas. Ainda não sabemos qual vai ser o resultado.
– Estou preparado de qualquer forma. Seu pai ficaria orgulhoso de você.
– Obrigada... Bem, vamos lá. A última gota, o último sacrifício.
O Santo de Peixes hesitou por um instante enquanto aproximava seu dedo do dela. Suspirou e o pressionou, fechando os olhos. A amazona o fez também, elevando cada vez mais o seu cosmo. Eles ali ficaram, imóveis, sentindo seu fluxo sanguíneo mudar aos poucos. Se separaram somente quando completou um minuto. Encararam-se e sorriram enquanto caiam.
Fitando o teto, Calisto sentia como se ardesse em chamas. Sua cabeça doía, seus músculos estavam se relaxando e aos poucos ele ia perdendo os sentidos. Seu coração batia freneticamente, como se quisesse sair de dentro do peito, e aos poucos sua lucidez se dissipava. Sem que percebesse começou a sussurrar algo.
Sui aparentava estar um pouco melhor, mas também sofria. Cada célula do seu corpo pulsava, e aos poucos seu sangue tingia o chão de vermelho, assim como a flor fincada em si. Os pés de Peixes estavam à sua direita. Sua armadura dourada reluzia como uma estrela. Lentamente fechou os olhos, tentando amenizar as pontadas que sentia toda vez que respirava.
O dourado tentou se mover mas não conseguiu... É, ele estava mesmo acabado... Então era assim o poder de seu mestre? Incrível. Jamais pensou que acabaria assim. Imaginava que talvez morreria lutando ou protegendo Atena, mas nunca pelo seu próprio veneno.
A realidade sempre nos surpreende. Quando pensamos que está acabado, tudo se transforma. Metamorfoses da vida estão por toda parte, mas só aqueles com olhos atentos conseguem vê-las. Calisto não a viu, a presenciou. Suas veias, que antes ferviam e borbulhavam, se acalmaram. Se sentiu um pouco mal ao olhar para seus pés e ver a flor inteiramente vermelha no tórax da menina. Aquela pequena Rosa Diabólica que estava antes em seus cabelos agora estava no chão, gotejando sangue de suas pétalas.
O veneno de Sui se misturara ao seu, e seu corpo o aceitou como parte de si... A consequência? Uma vida se acabou para que a dele continuasse. A vida de uma criança pela de um adulto... Mas ambos estavam livres, e foi isso o que ele compreendeu antes de baixar as cortinas de seus olhos uma vez mais.
Rosas brancas como a neve começaram a aparecer, cobrindo todo o chão da casa de Peixes. Pouco a pouco tiveram o mesmo destino da Rosa Sangrenta e foram ficando cada vez mais rubras, absorvendo sangue inocente.
O Elo Carmesin finalmente foi completado. A família Hayato agora tinha apenas um sucessor, e não dois.
***
Soranin deveria ter menos de quinze minutos agora. Deixara sua irmã para trás e podia sentir seu cosmo se elevando enquanto subia. Sem aviso prévio, ele parou de ser emanado – assim como o de Calisto.
Imediatamente afastou todos os pensamentos sobre o assunto. Não era hora pra isso, a sala do Grande Mestre estava bem à sua frente, e tudo o que havia entre os dois era... um jardim de rosas? (10)
– Devem ser venenosas também, melhor eu tomar cuidado com isso... – disse para si mesma. – São muitas, não vou resistir mesmo se passar correndo... Minhas pernas seriam cortadas pelos espinhos e o pólen chegaria até o meu nariz... O que posso fazer então?
Ponderou antes de adentrar. Não estava com sua máscara ali, então isso era um problema.
– Droga, vou ter que abrir caminho... Talvez se eu queimar o suficiente para poder passar...
Usou o Ave Fênix (11) e conseguiu gerar uma labareda de fogo que abriu um estreito caminho até seu objetivo. Se ela queimasse mais flores não conseguiria respirar por conta da fumaça, então simplesmente continuou subindo em meio a esse caminho, com o passo moderado para que o polén não se levantasse com o vento.
Mesmo com toda essa cautela, foi um pouco afetada. Não fazia ideia de quanto tempo estava ali ou quanto lhe restava, mas não desistiu. Sua visão estava desfocada e ela tinha a sensação de desmaio, mas esbarrou em algo que a trouxe de volta: uma enorme porta. Não compreendeu imediatamente, mas usou todas as forças que ainda lhe restavam para movê-la e conseguir entrar.
Firmou os pés, dobrou levemente os joelhos e os braços e empurrou. A porta se abriu, um lado para a esquerda e o outro para a direita, revelando um extenso salão com um trono e uma cortina vermelha ao fundo. Um tapete de mesma cor levava até o assento reluzente, e entre as colunas da esquerda e a parede, uma grande mesa de madeira se erguia. Estava repleta de livros e papéis e uma garota sentava-se em uma das diversas cadeiras ali acomodadas. A visão de Soranin ficou ainda mais turva com a claridade dos lustres que compunham o teto e ela foi ao chão, exausta.
A garota virou-se, assustada com o barulho da queda da amazona. Seus cabelos roxos, quase negros, esvoaçaram com o vento que entrou com o abrir da porta e ela deixou imediatamente a pena com a qual escrevia cair sobre a mesa, indo ao seu encontro.
– Oh meu deus, você está bem? – sua voz estava um pouco estática aos ouvidos de Fênix. Sua imagem era embaçada e dobrada. – Consegue me ouvir?... Calydio! Por favor, me ajude aqui!
Alguém saiu correndo de trás das cortinas e se aproximou. Era impossível identificar o rosto, e de tanto forçar seus sentidos, Soranin desmaiou.
***
Aos poucos foi recobrando a consciência. Se sentia melhor, mas ainda assim estava um pouco abatida. A primeira coisa que viu foi um par de olhos castanhos fitando-a a certa distância. Inicialmente pensou que fosse Kirsi e se assustou, mas logo compreendeu que não poderia e reprimiu um sorriso torto.
– Ei... – a menina disse, com uma voz calma. – Vejo que você acordou... Como se sente?
– Z-zonza... – respondeu, levando uma mão à cabeça. – Onde estou?
– Na sala do Grande Mestre. Você desmaiou há alguns minutos... Vamos, beba isso. – ela lhe entregou um copo com água e alguma coisa diluída. – Tem um gosto amargo mas vai aliviar a dor... Eu sou Efilnaem de Sextante, e você, quem é?
– E-E-Efilnaem? – ela se surpreendeu e quase cuspiu o líquido ao engolir, mas se conteve.
– Isso mesmo. Acho que você me viu durante o anúncio da competição.
– S-sim... – ela a encarou, visando organizar as ideias. – D-desculpe, e-eu sou Soranin de Fênix. É um prazer conhecê-la.
– Igualmente. Bem, vamos lá, temos muito o que conversar. – ela lhe estendeu a mão, ajudando-a a se erguer.
– Espera, então quer dizer que eu...?
– Isso mesmo, você foi a primeira a chegar. – ela sorriu docemente. – Parabéns, Soranin, você venceu.
– Foi a tempo?
– Em cima da hora, eu diria. Três minutos de antecedência... Venha, vamos para a minha sala pessoal.
Sem questionar ou ter o que dizer, Soranin entrou com ela pela única porta – além da de entrada – naquele recinto. As únicas coisas que haviam na sala pessoal de Efilnaem eram uma escrivaninha, uma cadeira com rodinhas, uma estante com diversos livros e uma poltrona.
– Sente-se, por favor. – pediu, apontando para a poltrona bege.
Ela o fez, receosa pelo que viria a seguir.
Efilnaem puxou a cadeira e se sentou virada de frente para a amazona, cruzando as pernas e apoiando uma prancheta sobre as mesmas, de forma com que só ela visse o que escrevia com a caneta azul. Soltou um suspiro e começou:
– Você acredita em profecias e lendas, Soranin? – seu tom era sério, mas a voz, tranquilizante.
A pergunta a pegou de surpresa. Talvez antes sua resposta fosse não, mas depois de passar pelas doze casas e ver todas as profecias recitadas por Rimo se cumprirem, não havia como negar. Quanto às lendas, ela sabia que todas elas carregavam um pouco de verdade em si.
– S-sim, eu acredito. Por quê a pergunta?
– Como você sabe, muitas coisas da mitologia se provaram verdade, como os deuses... Nem toda profecia se cumpre imediatamente. Algumas demoram anos, e outras voltam a se repetir com o passar do tempo... As lendas são basicamente histórias que não se sabe se são ou não reais... Bem, vou direto ao ponto. Este torneio foi criado porque precisávamos que o mais apto entre vocês chegasse até aqui para discorrer sobre uma profecia e uma lenda que ameaçam a paz no Santuário.
– Entendo... E quais seriam?
– Vamos começar pela lenda... Obviamente existem outros deuses além de Atena, por isso estamos sempre em conflito com outras divindades. Quando se luta contra um deus você não o mata, pois o mesmo é imortal. Você o sela. – ela a fitou para ver se acompanhava seu raciocínio – A questão é que, entre esses deuses há um, apenas um, que não pode ser selado de maneira alguma, e muito menos morto. Ele é pacífico, nunca se envolve em nossas guerras e é de extrema importância para todos nós. Sem esse deus, nenhum outro teria como se comunicar ou obter informações sobre o que quer que seja... Veja bem, ele não é um espião, mas tem o conhecimento de tudo o que acontece ao redor do universo... Claro que ele também tem seus guerreiros, mas o combate não é seu foco. Eles são direcionados para servir a outros deuses de acordo com os poderes que obtém ao nascer, mas nunca perdem a ligação com ele... Nós aqui do Santuário, por exemplo, temos guerreiros desse tipo. Se um deles nascer com cosmo, é direcionado para Atena. Estou certa de que você encontrou com um deles na subida até aqui... Enfim, a outra parte de guerreiros cuida das mensagens. É como uma empresa que espalha a informação... E a última é a que tem a ligação com a lenda. Esses sim são guerreiros de combate, os três principais. Não se sabe ao certo o que eles fazem, mas a lenda diz que a cada determinado tempo eles vão até os deuses e testam a base de seu exército. No nosso caso, quem os enfrentaria seriam vocês, cavaleiros de Bronze... Eles irão nos visitar em breve e vocês precisam estar preparados, pois o prazo se esgota em dois dias ou menos... Você compreende isso, Soranin?
– Mais ou menos... – admitiu, confusa e pasma. – Que deus é esse, e quem são seus guerreiros? Você disse que entre nós há pessoas do primeiro tipo, então, quem são eles? Eu encontrei com um e não sei? Por quê nunca nos contaram algo tão importante como isso?
– Essa é uma reação normal, você está confusa por não poder processar tudo isso ao mesmo tempo... Este deus é Hermes, e seus guerreiros são os Basiliscos. No Santuário, temos dois deles, que coincidentemente são irmãos: a amazona Kibou de Grou e o cavaleiro Icarus de Sagitário. O que os diferencia dos demais é que todo Basilisco nasce com a capacidade de adquirir informações no exato momento em que elas acontecem. Eles, assim como Hermes, sabem de tudo o que ocorre, e algumas vezes ainda podem pressentir da forma que vai terminar... Não contamos para vocês pois não sabemos até que ponto essa lenda é verdade. Este concurso foi uma preparação para isso também.
– Espera aí, então Kibou e Icarus são guerreiros de Hermes?
– Você os conhece, não é mesmo?
– Sim. Eu estava presente no dia em que Kibou conseguiu sua armadura e batalhei contra Icarus... Então é por isso que eles tem essa facilidade em descobrir as coisas?
– Isso mesmo. Eles são extremamente poderosos, como pode ver quando Kibou se tornou uma amazona de Prata. É difícil para eles esconder e controlar seu cosmo inicialmente... Eles não te contaram por que não podiam, assim como suas informações são confidenciais e só podem ser discutidas entre iguais ou guardadas para si mesmos... Eles tem a difícil missão de ponderar o que deve e o que não deve ser levantado em questão e/ou posto em prática.
– Não vou mentir, é realmente difícil de acreditar nisso, mas eu entendo a situação. O que exatamente eu tenho que fazer?
– Preciso que guie os outros Santos de Bronze. Conte a eles sobre a lenda e explique tudo... Se esses três aparecerem, vocês imediatamente sentirão a sua presença.
– C-certo. – Fênix se controlou para não dizer as palavras erradas. Não podia contar que sabia que ela era irmã de Hades e questionar determinadas coisas. Precisava esperar que ela terminasse de falar. – E quanto à parte da profecia?
– Nossa deusa sempre nasce como humana, não é mesmo?
– Sim, essa é a maior característica de Atena. Seu amor pela humanidade é tamanho que ela escolhe nascer como nós.
– A profecia diz que a cada cinco reencarnações, aproximadamente mil anos, Atena é privada de renascer como humana e precisa escolher um receptáculo, assim como os demais deuses... Esta é uma do tipo que se cumpre mais de uma vez, como pode compreender. Não temos registros de antecedentes, então não sabemos como é possível, mas aconteceu... Não que haja algum problema nisso, mas esta é uma dessas vezes. Atena chegou ao Santuário há alguns anos, mas a forma que ela escolheu foi um tanto quanto... diferente.
– M-mas eu vi a senhorita Atena no anúncio e ela me parecia uma pessoa completamente normal... Não entendo o que quer dizer.
– Aguarde um momento, por favor.
Meanlife se levantou e foi até a porta. Abriu-a e disse em alto e bom tom:
– Atena, chegou a hora.
Entrou novamente e se sentou do mesmo modo que antes. Dentro de poucos segundos, Atena entrou na sala.
– Com licença. – disse.
– Soranin, já se questionou o motivo de Atena usar uma máscara e quase nunca aparecer em público?
– Segundo ela mesma – ela se virou para a deusa. – com todo o respeito, vossa senhoria, é pelo motivo de igualdade a nós, amazonas... E a propósito, me perdoe por não estar usando a minha em sua presença, senhorita. – ela fez uma reverência, envergonhada.
– Não se preocupe. – respondeu a deusa. – Siga seu próprio caminho sem se preocupar com isso. Essa lei não continuará válida por muito tempo.
– Na verdade isso foi dito pois haviam muitas pessoas no mesmo lugar, mas não é bem assim... – explicou Sextante.
– Me desculpe por isso... – disse enquanto retirava a máscara e aos poucos revelava seu rosto. – Mas eu a uso por este motivo.
Soranin ficou boquiaberta. O rosto de Atena não era nem um pouco como ela esperava.
– E-então... Você é Atena?!
– Sim. Agora você entende? Precisamos de ajuda.
– Como isso é poss-... – ela se interrompeu. – O receptáculo! É isso! Mas... por quê?
– É o que queremos descobrir. – falou Sextante. – Isso definitivamente não é normal.
Não, realmente não era. Como essa pessoa poderia ser Atena? Ela usava seu vestido, portava seu báculo e possuía seu cosmo, mas era ilógico. Já tinha passado por situações muito absurdas – vide que se encontrava em uma, ajudando Hades – mas essa de longe superava todas.
Atena era...!
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