Conto I - Unforgettable Wars
49 Anjos Impuros: Em Guarda!
Notas iniciais

Alguns meses depois...
Depois de algum tempo após a batalha contra os Basiliscos de Hermes, os únicos cavaleiros de Bronze no Santuário além de Efilnaem e Rimo eram Athos, Jhesebel, Ulysses e Linus. Aristides e Relinde foram mandados para missões na Costa Rica e Indonésia, e Meiying havia voltado para China para cuidar de sua mestra, que aparentemente estava doente. Heitor e Yerik ainda não tinham retornado definitivamente, mas hora ou outra apareciam para visitá-los. No fim, apenas Soranin continuava distante.
Então, eles estavam sozinhos. Calydio não tinha missões para eles, então por enquanto podiam apenas ficar lá e fazer as rondas diárias, assim como ajudar alguns aspirantes no treinamento.
Linus se sentia um pouco solitária, mas tinha a companhia de seus amigos, e isso a aliviava. Alceu a treinou, como prometeu, e ela havia ficado mais forte. Estava com saudades de todos, embora soubesse que não os veria tão cedo.
Ulysses observava Linus diariamente, como se notasse que seu comportamento havia mudado. Ela estava muito mais participativa e sua timidez havia sumido em partes. Começou a aprimorar seus ataques e se dedicar às tarefas, ajudando os aspirantes sempre que possível, embora às vezes seu humor continuasse se alterando... É, ela não era mais a criança de antes... E ele também não. Depois que reencontrou seu “pai” a vida voltou ao normal. Ele ria, não implicava tanto com todos quanto antes, e apreciava cada segundo na companhia deles. Tudo bem que o Santuário andava quieto demais, como se faltassem pessoas por lá – e realmente faltavam –, mas ele conseguiria preencher esse buraco aos poucos.
Jhesebel se tornou muito amiga de Linus. Por incrível que pareça elas compartilhavam alguns gostos em comum, como música pop, por exemplo. Ela também mudara seu cabelo, enrolando levemente as pontas para ficar menos parecida com Sui, embora o cabelo da outra fosse um pouco maior. Não gostaria de trazer más lembranças aos amigos, mesmo que indiretamente... Depois da última batalha, Ulysses ficara muito mais compreensivo, e ela começou a admirar a mudança de atitude dele. Quanto a Athos, bem, embora um pouco abatido às vezes – provavelmente quando pensava em Kirsi e Sui –, continuava o brincalhão de sempre, tentando bancar o espertinho e descontraindo o clima. Ela adorava isso nele, porque mesmo que fosse irritante, a ajudava de certa forma. Era impossível olhar para Athos e não rir, por pior que fossem suas piadas.
Athos se sentia bem melhor quanto a tudo que acontecera. Vez ou outra sentia um frio na barriga ao pensar no assunto, mas ao olhar para seus companheiros, isso passava. Ambas se foram para que eles estivessem ali, e isso lhe dava forças para continuar... As coisas pareciam estar bem entre todos, e já que não haviam maiores preocupações, eles tinham bastante tempo livre, que geralmente usavam para conversar e se divertir.
Este dia particularmente estava muito parado. Eles estavam fazendo a ronda e o sol já estava a pino, mas não havia um resquício sequer de vento. Não haviam barulhos de lutas como de costume, e os moradores continuavam tranquilos, levando suas vidas como sempre. Tudo estava em paz...
Ou ao menos era o que eles pensavam até agora.
Um tremor na terra os fez dobrar os joelhos, perdendo o equilíbrio momentaneamente, e cambalear para os lados, tentando conseguir um apoio. Algo havia batido no chão em algum lugar do Santuário.
— O que foi isso?! – Ulysses questionou.
— E-eu não sei... – Linus gaguejou. – Mas foi perto.
— Rápido, vamos ver o que foi! Calydio pode estar em perigo!
Athos estendeu o braço em sua frente, para que Jhesebel não avançasse.
— Espere. – disse, desconfiado. – Vocês estão sentindo essa energia?
Todos pararam um instante, refletindo.
— Mas que diabos? Isso é imenso!
Ele estava prestes a concordar com ela, mas subitamente houve outro impacto, dessa vez vindo de trás deles, um pouco mais próximo do que o outro. Seus olhos se voltaram nas respectivas direções e eles notaram colunas de poeira subindo.
Linus foi a primeira a falar, ainda surpresa:
— Por Zeus! O que raios está acontecendo aqui?
— E-essas energias... São quase do mesmo tamanho de um cavaleiro de Ouro! – a amazona de Camaleão a acompanhou.
— Isso com certeza não é daqui. – Unicórnio concluiu.
— Precisamos nos separar e descobrir o que é isso. – disse Athos. – Eu vou até o primeiro.
— Certo, e eu vou verificar o que acaba de cair. – Linus se prontificou.
— Nós vamos com vocês.
— Não, Jhesebel. – ela respondeu. – Vocês precisam alertar Calydio e o Grande Mestre sobre isso. Se vierem com nós, só vamos perder tempo. Como você mesma disse, ele pode estar correndo perigo!
Ninguém respondeu, mas Ulysses colocou uma das mãos em seu ombro. Eles deveriam seguir outro caminho pelo bem do Santuário.
— Não se preocupem, vai dar tudo certo. – Lince continuou.
— Se precisarem de ajuda, nos chamem, por favor.
Athos concordou.
— Nós iremos. Agora, vão!
— Nos avisem assim que conseguirem informações. – a loira finalizou.
Eles assentiram e sorriram, partindo enfim. Talvez não fosse nada demais... Talvez cavaleiros de Ouro estivessem treinando seus aprendizes... Talvez fragmentos de pedra tivessem se partido enquanto alguém os golpeava e acabaram voando longe... Talvez fosse só um acidente...
Talvez...
Não muito longe dali, no leste do Santuário, o dono de um belo par de olhos amarelos sorria enquanto seu punho ainda tocava o chão. Ele literalmente havia “caído do céu”, e abrira uma cratera consideravelmente grande. Bem, aquilo era uma ínfima demonstração de seu poder. Logo mais algum adversário apareceria, mas ele duvidava que estivesse a sua altura. Se seu companheiro de batalha estivesse certo, a revanche aconteceria hoje e, depois que eles terminassem o serviço, seu senhor finalmente sairia vitorioso. Aquela rixa acabaria agora, disso ele tinha certeza.
Levantou-se com orgulho, olhando para a morada dos dourados.
Que ridículo, pensou. Nosso céu nem se compara com essas coisas que eles chamam de “doze casas”. E pensar que os cavaleiros de Ouro moram aí... Pff!
Havia algo em suas costas. Uma espécie de corcunda – embora sua postura fosse impecável. Hora ou outra ela se movia, mas isso não parecia o incomodar.
— Bem, vamos lá. – disse, retirando a blusa azul marinho que vestia e exibindo seu abdômen definido.
A corcunda se desdobrou, revelando ser, na verdade, um par de formosas asas. Ele as abriu suavemente, como se estivesse aliviado por finalmente poder abrí-las.
Olhou para o lado, analisando as penas. Continuavam brancas e impecáveis, e assim ele esperava que continuassem até o fim do dia.
— Agora sim. Finalmente posso lutar pra valer.
Levou as mãos à cintura e pegou uma espécie de cetro que trouxera amarrado no quadril. Fazia tempo que ele não o usava, mas finalmente o faria. Um som de passos chegou a seus ouvidos, encobertos pelo cabelo ruivo e comprido com dreadlocks. Aquiles sorriu e virou-se para cumprimentar o oponente – com um belo soco!
Lado Oeste do Santuário...
Édipo não tinha sentimentos, mas mesmo assim tinha grandes expectativas sobre o que estava para realizar. Há pouco ouvira de seu senhor que as complicações entre ele e Atena acabariam neste dia, embora eles estivessem oficialmente em trégua.
Ele não havia recebido ordens, mas nem precisava. Se ele conseguisse acabar com Atena, seu mestre não precisaria sujar as mãos, e depois disso ele ficaria grato – e talvez até o chamasse para ser um Trono, que era a categoria acima da sua, que atualmente era Dominação.
Rapidamente convencera Aquiles, que também era um Dominante, a se unir a ele, e ambos foram para a Terra “acertar as contas”. Atena finalmente pagaria por tudo que havia feito.
Infelizmente, parecia que Aquiles tinha chego antes dele. Mas tudo bem, isso não importava. Sentia que alguém estava chegando, e depois de derrotar esse alguém, abriria caminho até a sala da deusa – que não era bem uma deusa.
O fato da deusa da sabedoria escolher um garoto para ser seu receptáculo era um pouco repugnante, mas fosse homem ou mulher, nada ficaria no seu caminho. Mataria todos que ousassem ir contra ele.
Calmamente retirou a camiseta vermelha e deixou suas asas livres. Olhou para as penas, aliviando-se por não estarem com nenhum vestígio de cor preta. Embora todos os 72 guerreiros de seu senhor fossem imortais, era possível que um dia deixassem de ser. Há três anos atrás presenciara um desses casos, e não fora nada bonito. Por sorte, seu companheiro de batalha fez a escolha certa e continuou imortal... Mas não por muito tempo.
Sacudiu a cabeça, afastando aquele pensamento ruim. Aquele cara não merecia ser um deles. Foi melhor que ele morresse mesmo.
Os cabelos de Édipo, curtos e loiros, esvoaçaram rapidamente, e ele levou a mão ao olho esquerdo, do qual era cego. Dedilhou suavemente sua cicatriz que ia da sobrancelha até pouco antes de bochecha. A história sobre como ele a adquirira não era nada bonita, e tinha uma ligação direta com seu mestre, mas ele não se importava. Se aquilo não tivesse acontecido, ele não seria quem era.
Não sentia mais dor graças aos remédios, mas se lembrava muito bem como era antes. Até hoje, quando uma luta estava para começar, seu olho latejava, como se aquele fatídico dia voltasse à tona, lembrando-o para não se desviar de seu caminho novamente.
E agora era um desses momentos. Era possível senti-lo pulsando num ritmo mediano, nem acelerado nem retardado, e bem uniforme.
Respirou fundo e pegou seu cetro, preparando-se para o confronto.
Ao mesmo tempo, no Leste do Santuário...
Athos corria na direção do primeiro estrondo, mas repentinamente foi interceptado. Algo muito brilhante entrou em sua frente e o atingiu bem no rosto, fazendo com que ele caísse sentado.
— Aí... – disse, colocando a mão na bochecha. – O que você pensa que está fazendo, cara? Isso não foi... – ele fez uma pausa ao olhar pra cima e baixou o tom. – … nada legal...
Em sua frente um homem alto se erguia. Não teria estranhado o fato se fosse um dia comum, mas ele estava sem camisa – e tinha asas.
Reprimiu um palavrão em sua mente. Ele sabia muito bem o que era aquele cara, mas não queria acreditar que ele estava lá. O pânico em sua mente começou a se alastrar e ele ficou sem reação.
Droga, droga, droga, droga, droga! O que alguém como ele faz aqui?
— Eu sou Aquiles de Júpiter, categoria Dominação. – disse o ruivo. – Apresente-se.
Estamos ferrados. Muito ferrados.
— E-eu sou Athos de Golfinho da... hum... patente de Bronze.
— Um cavaleiro de Bronze, huh? Ótimo. Me leve até Atena.
O Santo franziu o cenho.
— Não!
— Como é? – ele arqueou uma sobrancelha. – Você ousa me desafiar?
— Sim! Quer dizer, não!... Quer dizer... nós estamos em trégua! O que você faz aqui?
— Nós estávamos em trégua. – ele riu. – Felizmente, isso acaba hoje.
— Ele sabe disso?
— Não é da sua conta... Agora, ande! Me leve até Atena!
— Jamais. Se isso que você disse realmente é verdade, com certeza não deixarei que passe por mim. Você não irá encostar um dedo em Calydio!
— Você não pode me impedir, peixinho.
— Talvez eu não possa mesmo, mas tentarei até que meu coração pare de bater! Eu protegerei Atena a todo custo, nem que isso signifique dar a minha vida em troca! – ele gritou, se enfurecendo e atacando, o que não era típico de sua pessoa. – E pra sua informação, golfinhos são mamíferos!
— Hah. – o outro murmurou, dando um mortal para frente e parando bem em cima do punho de Athos, cruzando os braços e o encarando. – Parece que se esqueceu de um detalhe, cavaleiro...
Apertou o cetro com força e uma luz o envolveu, revestindo seu corpo e se dissipando em seguida, revelando uma armadura que ia do tom pêssego até o marrom escuro, gradualmente. Cada peça tinha um padrão diferente e estava claro que aquele traje imitava a superfície do planeta Júpiter.
As asas de Aquiles ficaram a mostra e o cetro se tornou uma espada negra, feita de ônix.
— Além de imortal, eu sou muito mais poderoso que você.
— Pare de se exibir, Anjo maldito!! – gritou, recolhendo seu punho com velocidade.
— Não adianta. – Aquiles disse, batendo suas asas. – Eu também posso voar... Estou, literalmente, acima de você.
Ele gargalhou e se preparou para atacar, erguendo a espada para o alto.
Casa de Áries, Doze Casas...
Em questão de meia hora Ulysses e Jhesebel já estavam na porta de Áries. Os Santos de Prata estavam numa reunião de emergência em uma das vilas há mais ou menos vinte minutos, por isso as ruas estavam desertas, o que facilitou sua chegada até ali.
— E agora? Será que ela vai nos deixar passar? – a loira perguntou, se referindo a Pema.
— Não custa tentar. – ele respondeu, abrindo a porta.
Estranhamente, não havia ninguém. Procuraram nos dois andares, em todos os cômodos, mas nem Pema nem Rimo estavam.
— Que estranho... Onde eles foram?
— Talvez Abati saiba a resposta. Vamos lá!
Correram, mas a situação na casa de Touro era igual a da casa anterior.
— Por Zeus, para onde foram todos os cavaleiros de Ouro?
— Será que também estão se reunindo?
— Jhesebel, você é genial. – ele a tomou pela mão, puxando-a escada a baixo. – Rápido, vamos voltar!
— Por quê?
— Se eles realmente estiverem se reunindo, estão usando a sala do Grande Mestre... Rimo me explicou que existem passagens secretas pelas doze casas que encurtam o caminho. Uma delas, na casa de Áries, leva direto para lá.
— Tudo bem então. Vamos.
De volta ao lado Oeste...
A Santa de Lince estava examinando a enorme cratera no chão quando sentiu alguém se aproximar de si. Espantada, virou-se e viu um homem loiro a observando.
— Por Zeus... – sussurrou ao notar suas asas. – Não pode ser...
— Huhuhuhuhu, veja só o que temos aqui... Uma pequena e indefesa amazona.
— Q-quem diabos é você?
— Eu sou Édipo de Urano, um Anjo Dominante. E você?
— L-Linus de Lince...
— Hum... Prata ou Bronze?
— P-perdão? – perguntou, franzindo o cenho.
— Patente. – disse secamente.
— B-bronze.
— Hah! Tenho pena de você.
— O que você faz aqui?
— Vim pegar a cabeça de Atena. – ele apertou o cetro e seu corpo foi encoberto por uma armadura verde água, com tons que iam do branco ao azul claro, representando Urano. A espada de ônix na mão oscilava de um lado para outro, intimidando-a. – E aí, vamos lutar?
Enquanto isso, nas passagens secretas das Doze Casas...
Jhesebel e Ulysses acreditavam já estar no meio do caminho. As passagens eram mais amplas do que eles pensaram inicialmente, por isso seu senso de direção estava distorcido e eles não faziam ideia de quanto faltavam para chegarem a seu destino.
— Você por acaso sabe o caminho?
— Não, mas não está sendo tão difícil assim, está?
— Tirando as quatro teias de aranha grudadas no meu cabelo, a falta de iluminação e o cheiro de mofo desse lugar, não.
— Quer que eu estenda um tapete vermelho também? Você é muito exigente!
Ela apenas revirou os olhos.
Um barulho começou a ecoar, vindo ao encontro deles, rápido e pesado.
— Ai meu Zeus, o que é isso? – ela sussurrou.
— Torça para não ser o bicho papão.
— Nossa, você está muito engraçadinho hoje, hein?
— Obrigado. Agora, não pare. Continue andando.
O barulho foi ficando mais alto e rápido, assim como o ritmo cardíaco deles.
Quando o som ficou o mais próximo possível, algo atingiu o cavaleiro na barriga com velocidade.
— Ai! – uma voz infantil protestou.
— Rimo?
— U-Ulysses! É você mesmo?
A voz dele saiu um pouco chorosa, e só então Unicórnio percebeu que seus olhos estavam molhados.
— Sou eu sim. Você está... chorando?
— E-eu... estava... Já parei.
— O que houve?
— Não quero falar sobre. – murmurou baixinho.
— Rimo, por favor, nos leve até a sala do Grande Mestre. Precisamos falar com Calydio.
— Não posso... Me pediram para ficar na casa de Áries.
— Então, por favor, ao menos nos conte o que aconteceu.
A garota colocou a mão em seu ombro, pedindo que ele não continuasse.
— Ulysses, olhe para ele, está muito mal... Deixe isso pra lá, vamos continuar.
Ele suspirou, concordando. Se despediram do garoto e continuaram o caminho.
Rimo ficou em silêncio e quando voltou para sua casa, encostou em uma das paredes, desabando em lágrimas. Oito versos atormentavam sua mente:
“Os Anjos do deus das profecias trarão a morte
Sobre suas asas brancas como o algodão;
A trégua será quebrada, mas, sem sorte,
Aqueles que os enfrentarem perecerão;
Desobedientes são os Anjos Impuros,
Tal como teimosos são o Lince e o Golfinho;
Ambos pensam que ainda são imaturos,
Mas serão eles que abrirão o caminho;”
Na sala do Grande Mestre, o mesmo pedira que ele não interferisse em nada. Os dourados já estavam lá com Atena, discutindo os possíveis desfechos para tudo isso, mas Rimo sabia que não seria nada agradável.
Afinal, Apolo tinha voltado.
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