Conto I - Unforgettable Wars
50 Estilhaços e Remendos: Quebra-cabeças!
Notas iniciais

A reluzente espada começou sua trajetória rumo ao oponente em alta velocidade, sem vacilar. Athos tentou pensar em como escapar do golpe, mas logo percebeu que seria impossível. Girou rapidamente para o lado, fazendo com que ela o acertasse na armadura que revestia seu ombro direito, e isso amenizou a dor, mas o impacto conseguiu abrir uma funda rachadura em seu traje, destruindo parte da ombreira.
— Você até que foi esperto. – Aquiles comentou, sem alterar sua expressão.
— O-obrigado... Eu acho. – disse, fazendo uma careta por conta da dor. – Você até que é bem fortinho.
— Isso foi apenas um aquecimento. Tem certeza de que não vai me deixar passar?
— Absoluta. – confirmou.
— De qualquer forma, pra mim você é um garoto morto. Apenas mais um que será cortado no meio por minha espada.
Athos achou estranho o modo como o Dominante falava, sem esboçar sentimentos ou ter reações. Já vira um ou outro Anjo antes, sabia como agiam e falavam superficialmente, quase como robôs, mas a evidência da falta de emoções era muito mais clara com Aquiles do que com os outros.
— Heh, falando assim parece até que você não tem um coração. – debochou o mais novo.
O ruivo segurou a espada com a mão direita e a colocou ao lado de seu corpo. Estralou levemente o pescoço e disse:
— Eu realmente não tenho. Agora, prepare-se para morrer.
Aquiles bateu suas asas e com o impulso se jogou para baixo, como se estivesse dando um rasante, com a ponta da lâmina na direção do cavaleiro. O Santo, prevendo que seria atingido, tentou desviar para um dos lados mais uma vez, e de fato conseguiu. Estava prestes a suspirar, aliviado, mas o oponente soltou um riso de indiferença.
— Tolo. – disse ele em meio ao pouso. – Apenas morra de uma vez.
— Não! Se tem alguém aqui que vai morrer, esse alguém é você!
— Você está começando a me irritar. Aceite logo que sou mais forte e me leve até Atena.
— Eu não o farei.
O outro voltou a se jogar dos céus, tentando fatiá-lo.
— Isso está entediante!
Por mais que não quisesse admitir, aquele cara estava certo. Athos não havia atacado ainda por estar pensando em uma estratégia, mas até então não vira nenhuma abertura.
Compreendeu que apenas observar não iria ajudar em nada. Era hora de reagir e contra atacar. Assim que o oponente pousasse, investiria.
Ele o fez e logo o cavaleiro tomou iniciativa:
— Mergulho Infernal! (1)— brandiu, pulando e se atirando na direção do oponente enquanto girava seu corpo em alta velocidade.
Aquiles fechou os olhos e, com apenas o dedo indicador, parou o chute do cavaleiro ainda no ar.
— Reversão. (2)
O anjo aplicou uma força mínima e reverteu completamente o golpe do Santo de Bronze, que foi jogado para o alto. Aproveitando o momento, fez alguns cortes com sua espada, ainda mais fundos do que antes. Athos acabou caindo em cima do próprio ombro, machucando-se consideravelmente.
Esse cara... é um monstro., pensou consigo.Droga, ainda não tenho um plano. Preciso ganhar tempo.
— E-ei... – disse. – E-eu tenho uma pergunta...
Ele devolveu o olhar, sem perder a compostura.
— Diga.
— P-por quê raios você só usa essa maldita espada pra atacar? Use um golpe de verdade pelo menos uma vez!
— Você não é digno de receber um ataque direto. – ele baixou a espada, deixando a lâmina apontada para o chão. – Não conseguiu nem mesmo me acertar até agora.
— Então se eu conseguir te tocar, você lutará a sério?
— Mas é claro que sim... Se bem que isso é impossível. Você é ainda mais fraco do que eu imaginava.
— Bem, já que é assim, tudo bem. – Athos pegou fôlego. – Sinfonia da Morte. (3)
O Anjo calmamente desviou de todas as ondas sonoras, sem fazer movimentos longos ou exagerados, aproximando-se dele vagarosamente, passo por passo.
— Você é um idiota. Consigo me mover bem mais rápido que esse seu golpe ridículo.
Athos não sabia ao certo se ia ou não atingir o alvo, mas estava sob pressão demais para pensar direito.
— Mergulho Infernal!
— Isso não funciona comigo, já te disse.
O homem dos cabelos alaranjados apenas girou os calcanhares para o lado, saindo da área de ataque. Seu oponente simplesmente passou reto, se ferindo muito com a queda. Aquiles foi até ele em seguida, com a mesma expressão fria de antes.
— É, valeu a tentativa. – falou, opisando nas costas do adversário. – Adeus.
Virou-se para ir embora, mas se deteve. Sentiu que algo repousava em seus ombros. Olhou por cima deles e reparou que haviam dois pés apoiados ali. Athos havia se sustentado no chão com as palmas das mãos, erguendo seu corpo para o alto e o inclinando de forma que suas pernas repousassem nos ombros de Aquiles, como uma ponte. Ele ergueu a cabeça de forma que conseguisse vê-lo, apertou as pernas ao redor de seu pescoço e sorriu:
— Parece que consegui te pegar.
Com um impulso, arremessou o inimigo para trás usando as pernas, sem tirar as mãos do chão. O Anjo foi jogado de cabeça, mas além do sangue e alguns cortes na testa, não parecia ter sofrido muito – embora estivesse relativamente tonto.
— Por acaso você é retardado? – questionou o ruivo, com uma mão na cabeça.
— Um pouquinho sim. – o Santo admitiu, voltando a ficar de pé.
No salão do Grande Mestre, praticamente ao mesmo tempo...
Ulysses e Jhesebel encostaram os ouvidos na porta do salão do Grande Mestre e ouviram várias vozes, que falavam uma por vez, como se discutissem algo. O tom era calmo, mas tinha traços de aflição.
Abriram as portas juntos e se depararam com catorze pessoas olhando para eles com cara de dúvida, espantadas. Havia uma mesa retangular de mármore no meio do salão, com seis cadeiras do lado direito, seis do esquerdo, e três mais afastadas, na direção do trono do Grande Mestre. Os cavaleiros de Ouro ocupavam os lados maiores, dispostos na ordem de suas constelações, e no fundo estavam Calydio, Efilnaem e o Papa. Apenas uma cadeira estava vazia, a da amazona de Libra, Lien, que continuava ausente.
— Er... oi? – disse o Santo de Bronze, olhando para as caras surpresas de todos ali presentes. Apenas Lélio sorria e acenava, feliz por vê-los.
Jhesebel deu uma cotovelada no estômago do amigo.
— D-desculpem interromper, mas... precisamos falar com Atena. – ela disse.
Fieke de Aquário se levantou do seu lugar, colocando as mãos sobre a mesa, levemente irritada.
— O que raios vocês estão fazendo aqui?! Não veem que estamos em reunião?!
Kyros, que estava ao seu lado direito, colocou uma das mãos em seu ombro, pedindo que ela se acalmasse. Mesmo relutante, ela o fez, bufando.
— Me desculpem, mas eu não posso atendê-los agora. – disse Calydio, em tom calmo. – Estamos discutindo sobre um assunto muito importante, que envolve o futuro do Santuário... Há outra coisa que eu possa fazer por vocês?
Efilnaem virou-se para ele, dizendo:
— Calydio, olhe para o rosto deles... Está claro que alguma coisa aconteceu e o assunto é importante... – ela baixou ligeiramente a voz. – Pode até mesmo acabar contribuindo para nossa discussão.
Ele os fitou, observando suas expressões. Realmente, era verdade. O pânico era aparente.
— Certo, por mim tudo bem. Alguém é contra isso?... – perguntou o garoto. – Grande Mestre?
— Não vejo nenhum problema. Eu confio nesses jovens.
— Cavaleiros de Ouro?
Por alguns instantes, ninguém respondeu. Todos pareciam estar de acordo, mas logo Fieke levantou o braço com uma expressão séria no rosto.
— Sim, Fieke?
— Isso é um insulto a todos nós, cavaleiros de Ouro! Estamos no meio de uma conferência, esses dois entram pela porta sem aviso prévio, exigindo falar com Atena, e do nada todos aqui param imediatamente o que estão fazendo para lhes dar atenção? Me poupe! Nós claramente estamos acima deles, não há por que dar ouvidos! Temos prioridades, não precisamos estender nosso tempo aqui!
Os dois amigos se encolheram, temendo terem ido longe demais.
— Entendo... – Atena continuou. – Bem, mais alguém aqui concorda com ela?
Ninguém se pronunciou. Mesmo sendo cavaleiros dourados, a elite da elite, não achavam que superioridade resolveria alguma coisa naquele momento.
— Sinto muito, Fieke, mas o resultado é claro... – ele deu de ombros. – Aproximem-se, Santos de Bronze. O que está incomodando vocês?
A amazona de Aquário cruzou os braços e rosnou, enfurecida com a postura dos outros dourados perante aquela afronta.
Eles adentraram alguns passos, parando na borda que não era ocupada por ninguém. Pema estava ao lado esquerdo deles, e Calisto do direito. A amazona sussurrou para que ele falasse no lugar dela, já que poderiam desconfiar que ela estaria usando seu dom.
Ele assentiu e o fez.
— Mais uma vez, perdão por essa intromissão... Eu sou Ulysses de Unicórnio, e essa é Jhesebel de Camaleão... Há poucos minutos, nós dois estávamos na companhia de Athos de Golfinho e Linus de Lince, conversando, mas fomos interrompidos por um enorme estrondo. Alguma coisa colidiu fortemente com o solo nas proximidades, e nós ficamos assustados, pois foi o suficiente para fazer com que a gente perdesse o equilíbrio... Tentamos descobrir o que era, mas logo em seguida aconteceu um segundo impacto, dessa vez mais próximo. Os outros dois foram investigar aquelas... coisas... e depois nós viemos pra cá, falar com vocês. Não sabemos o que é, nem se é perigoso ou coloca em risco a vida de Atena, mas creio eu que as coisas não caem do céu assim com tanta naturalidade.
Todos ficaram em silêncio absoluto, arregalando os olhos ou levando a mão à boca ou à testa, inconformados. Aquelas palavras os haviam pegado desprevenidos.
De volta ao Leste do Santuário...
— Você é um idiota, não é mesmo? – Aquiles questionou.
— Pode-se dizer que sim.
— Hah. – o Anjo limpou a superfície da Glória com a mão e atirou a espada para o lado. – Pois bem, já que conseguiu me tocar, mesmo que de um modo sujo e sem classe, irei atacá-lo de verdade.
— Já era hora. – ironizou o outro.
— É bom ver que você está com disposição para tal... É uma pena que eu irei arrancá-la de você nesse exato momento! Máxima Altitude! (4)
Com uma surpreendente habilidade, Aquiles ergueu Athos no ar com o bater de suas asas. O cavaleiro não conseguia se mexer devido as correntes de ar fortíssimas, que se comparavam até mesmo às de Sui, e isso o deixava sem reação.
Quando chegou ao ponto ideal para seu golpe, Aquiles concentrou o máximo de energia que pode em suas mãos, criando uma espécie de discos amarelados. Começou a atirá-los na esperança de pulverizar Athos, mas a expressão na face do oponente não era de medo, mas sim de satisfação. Subitamente, o garoto desapareceu em pleno ar.
Athos caiu intacto no chão, respirando aliviado. Os ataques do Dominante pararam em pleno ar, como planejado, e agora ele podia procurar calmamente por uma abertura.
Diante de si, estava o Anjo, inconformado, olhando para o local que ele deveria estar. As pequenas pedrinhas que levantavam, assim como a poeira, agora eram visíveis, e se moviam num ritmo muito lento. Pareciam, literalmente, flutuar.
Já que havia usado seu dom – a pausa temporal, que embora de curta duração era eficiente para descobrir brechas – não custava nada aproveitar o momento. Fitou a postura do Anjo, procurando por algo que seus olhos não estivessem conseguindo enxergar antes na velocidade normal, e pensou ter encontrado. Bem no peito de seu oponente havia um espaço perfeito. Se atacasse ali, a chance de defesa seria praticamente nula, e a batalha acabaria muito mais rapidamente.
— O coração, como não pensei nisso! – disse para si mesmo.
Nem precisaria usar um ataque. Um soco carregado de cosmo daria conta do recado.
Mas também não iria subestimar seu oponente dessa forma. Se não desse certo, o adversário iria pelo menos ao chão, dando um curto espaço de tempo para que fosse possível usar alguma coisa de seu arsenal. Depois que o efeito do dom passasse, Aquiles teria seu cosmo enfraquecido por conta das consequências de tal. Era o melhor plano que ele podia pensar no momento.
Estalou os dedos e o tempo voltou a fluir normalmente.
— Mas que diabos?! – o ruivo retomou a fala, como se nada tivesse acontecido. – Para onde você foi, moleque?
Sem hesitar nem mesmo um instante, o Santo partiu pra cima dele, atravessando seu tórax com o braço.
— Bem debaixo do seu nariz. – respondeu, sorrindo.
Quando a situação parecia estar melhorando para o cavaleiro, houve o choque. Athos olhou para seu alvo e arregalou os olhos, estranhando a situação. Pensava que havia atravessado o peito, e realmente o tinha feito, mas não sentira nenhum impacto depois de quebrar parte da glória. Seu braço literalmente havia transpassado o subordinado de Apolo, mas o mesmo parecia não ter sentido nada.
Aquiles deu uma leve risadinha.
— Você achou mesmo que eu estava brincando quando disse que não tinha coração?
Agarrou o braço de Golfinho e o tirou de si, erguendo-o até tirá-lo do chão.
— Olhe atentamente para meu peito e verá que eu estava falando sério.
Ele olhou mas não acreditou no que viu. O corpo de Aquiles tinha um buraco bem no exato lugar que ele o atacara. Não havia nada ali, apenas vazio. Nenhum órgão, osso, tecidos ou vasos sanguíneos se encontrava naquela região. Sua única proteção era uma camada de carne em cada lado, que fora transpassada, e sua glória, que ele havia quebrado naquele ponto. Era como uma quebra-cabeças em que faltava uma peça.
— Não entendo muito bem como você conseguiu me atingir, mas admito que escolheu, dentre todos os meus pontos, o pior pra você.
— M-mas... C-como assim?
— Pela sua cara de espanto, acho que ainda não entendeu. Mas não tem problema, irei te explicar... Quando Apolo se enfurece com um subordinado, independente do motivo, sempre o castiga. Esse castigo ocorre das mais diversas formas, mas geralmente ele retira algo do Anjo... Mas comigo foi diferente. Assim que me tornei um Dominante, exigi que meu coração fosse extraído do meu corpo, como uma forma de demonstrar lealdade e não correr riscos de me tornar como vocês, humanos. Aquilo que vocês mais dão valor, eu desprezo. Um coração de nada serve a quem não o utiliza.
— E-então... Você era humano antes?
— Não me insulte dessa forma! Meu nome é Aquiles, cavaleiro. Todos aqueles que têm nome de semi-deuses ou heróis da antiguidade são Anjos desde o nascimento. Ou seja, eu sempre fui e sempre serei assim, ao contrário de certas pessoas que ousaram ter contato com vocês num passado não tão distante.
Athos ponderou um instante, cerrando levemente os olhos, como se tentasse entender.
— Está falando de Dmitri?
— Não cite esse nome na minha presença! – o oponente começou a apertar seu ante-braço com força, levemente alterando o tom de voz. – Isso não lhe diz respeito algum, mas se deseja mesmo saber, ele já foi humano sim, mas tinha muito tempo de experiência servindo Apolo... Por outro lado, embora fosse um guerreiro exemplar, nos mostrou o que todos já sabíamos: uma vez humano, sempre humano. – ele fez uma pausa. – Bem, você já ouviu demais. Máxima Alti-...
— Espere!
— O que você quer? Eu não terei piedade para lhe conceder um último pedido. Apenas aceite sua morte de uma vez!
— Não é isso... Eu só queria perguntar se essas coisas pretas em suas asas são normais.
— O quê?! – Aquiles o soltou imediatamente, espantado ao ver as manchas aparecendo. – Impossível! Quando isso aconteceu?!
— Quando eu citei o nome de Dmitri elas começaram a aparecer. Isso significa que ainda restaram resquícios de sentimentos dentro de você, não é mesmo? – provocou, após cair sentado.
— Não diga besteiras! É impossível para um Anjo sustentar emoções!
— Sabe, muitas vezes o coração não está no nosso peito. – Athos se levantou, elevando seu cosmo.
— Acha que ele era uma pessoa importante pra mim? Hah, não brinque comigo!
— O que eu estou tentando dizer é que o “coração” nem sempre é algo físicamente visível. Não importa quantos órgãos do seu corpo você tire, ele sempre fará parte de cada ser vivo no mundo.
Athos virou-se e levantou parte de seu cabelo, mostrando a marca em forma de golfinho, agora nítida.
— Está vendo? Esse é o meu coração. Embora eu tenha algo que bata em meu peito e me mantenha vivo, é este coração aqui que me faz seguir em frente.
— Isso é ilógico! – resmungou Aquiles, com uma careta. – É apenas uma marca de nascença!
— Para alguém que não sente emoções talvez seja só isso mesmo, mas para mim isso simboliza uma promessa que eu fiz a uma pessoa muito importante que passou pela minha vida. Sem isso, provavelmente eu não estaria aqui hoje... É pelo meu coração que eu estou lutando, para defender aqueles que amo e honrar o que um dia eu jurei: ser forte por mim mesmo e achar algo que eu queira proteger com minhas próprias mãos!... Desde o dia que prometi isso ao meu tio venho carregando essa responsabilidade, e eu realmente achei aquilo que desejo proteger: meus amigos! Já quanto à força, veremos o quão forte eu fiquei ao decorrer do tempo!
Uma aura verde-piscina começou a rodeá-lo, mostrando que seu cosmo estava se intensificando.
— Ridículo! – disse Aquiles, com um sorriso insano, como se não acreditasse no que via. – Elevar sua energia vital não vai levá-lo a lugar nenhum! Um Dominante como eu luta de igual para igual com um cavaleiro de Ouro!
O anjo retomou sua espada, disferindo golpes contra ele, e Athos os bloqueava o melhor que podia.
— Errado! Vocês não lutam igual um dourado, tenho certeza disso. Os dourados protegem Atena de forma consciente, diferente de você, que só serve Apolo por ele ser claramente mais forte... Lutar por alguém que o pune quando faz coisas erradas? Que deus é esse? Você jamais irá compreender o que é a verdadeira justiça!... Aquiles, os Santos de Ouro lutam pela esperança que tem na humanidade, assim como nossa deusa. Eles lutam para que as pessoas não sofram tanto quanto eles sofreram no passado. Eles lutam por amor à vida, e não por ansearem o poder ou a imortalidade, como vocês!
— Você enlouqueceu? Está me subestimando só porque sou diferente de você?... Eu sirvo Apolo sim, e com orgulho. A razão da minha existência é apenas serví-lo, e eu abdicaria toda a liberdade que ainda me resta para poder fazê-lo por mais um único dia sequer! De que me adianta ter esse tal “coração” se não me deram um objetivo? – questionou em meio aos golpes, enraivecendo-se e acelerando o ritmo. – Eu olho para o mundo e vejo pessoas sofrendo, matando familiares, traindo, gerando violência, sendo oprimidas e reduzidas a cinzas. Noventa por cento das pessoas são assim, e os outros dez, que são o que vocês chamam de “puros”, mesmo quando dão valor ao que tem e aproveitam a vida ao máximo, sofrem em silêncio, observando como o mundo está caindo em desgraça cada vez mais! Esses “puros” nunca tem sua justiça. Aceitam viver em total tristeza e conseguem ver algo de bom nas mínimas coisas, mesmo que seja apenas uma ilusão para que os mesmos se sintam bem... E é daí que vem a “esperança” que vocês tanto falam. No fim, ela nem mesmo existe... – ele o acertou em cheio, mas o Santo se levantou rapidamente, esquivando-se da sequência que o Anjo aplicava. – Agora me diga, Athos de Golfinho, já parou pra pensar que os bons sempre morrem cedo?... A sociedade aponta uma arma carregada no meio da testa dessas pessoas, e elas simplesmente ficam paradas, sem fazer nada. O fim é sempre o mesmo. O pobre e o rico, o honesto e o corrupto, o puro e o impuro... viram pó!... Nada vai mudar isso... Entenda, por mais boas ações que você faça, aqueles que praticam as ruins entrarão no seu caminho e acabarão com a sua vida!.. Eu não sei nada sobre a vida, sou imortal, mas eu não entendo como a raça humana pode ser tão burra dessa forma... Humanos acreditam em anjos (5) e pensam que eles são puros, mas um anjo não se importa com a morte ou a vida de alguém. Um anjo está acima de um humano, e por ansear tanto ser superior e querer se tornar um “Deus”, vocês perderam suas próprias emoções. Embora pensem que estão cada vez mais parecidos conosco, o abismo entre nós só aumenta! Coração não irá levar ninguém a lugar nenhum, assim como não levou Dmitri!!
O grito de Aquiles fez Athos se arrepiar, ao mesmo tempo que era arremessado para trás com o impacto da espada sobre seu peito. Aquele Anjo chorava bem em sua frente, mas ele não conseguia acreditar. No final das contas, muito do que ele dissera estava certo, e não havia como contestar.
— Aquiles, e-eu... – tentou dizer, enquanto se reerguia.
— Calado!! – disse o outro, apertando a barriga e atirando a espada pro lado, caindo de joelhos no chão. – Sabe como é doloroso para mim ter esse tipo de experiência? É muito pior do que qualquer ferimento que um humano possa ter!... Eu sempre sentia uma pontada no estômago quando estava do lado dele! Sempre que saíamos em missão aquele desgraçado, mesmo coberto de sangue, sorria pra mim, como se quisesse me confortar por alguma coisa!... Aquele maldito expressava humanidade inconscientemente, e isso me irritava muito! Eu queria ser como ele, queria entender como era e sentir emoções pelo menos uma vez na vida, e eu realizei esse desejo no dia em que ele morreu!... Foi a única vez na minha desprezível vida que eu derramei uma lágrima!... Eu jurei que jamais faria isso novamente, mas desde aquele dia eu sentia que uma parte de mim havia sido tirada!... Era como se, pela primeira vez, essa vazio em meu peito fizesse jus ao que realmente é!!
Nessa altura as asas do mesmo estavam quase negras. Havia uma parte mínima das penas que permanecia branca e intocada, e tal mudança proporcionava uma dor extremamente intensa.
— Aquiles, pare! Você vai virar um humano se continuar assim!
— Eu não me importo! Apolo jamais me perdoaria se eu voltasse nesse estado!
— Cale a boca, seu idiota!! Você não pode se tornar igual a mim! Vale a pena ter um coração se não poderá usá-lo?! Olhe para si mesmo por um instante! Esse não é você, e eu o farei enxergar isso! Te matarei antes que suas penas caíam!
— Você não pode me matar, já se esqueceu? Eu sou imortal!
— Não, você não é! É tarde demais, suas asas estão totalmente tingidas! Não esperarei você se tornar um homem para matá-lo, eu o farei antes que consiga!
— Eu não permitirei! Irei lutar por minha vida!!
— Isso não é vida, é destruição! Dmitri não gostaria de te ver assim, tenho certeza!!
— Você não tem o direito de falar dessa forma comigo!!
O Dominante pulou para o lado e agarrou a espada novamente. Aflito, o cavaleiro começou a pensar consigo mesmo, fazendo um pedido inesperado.
Calydio, por favor, me dê forças para ajudar esse Anjo que ameaça ceder. Acho que nunca pedi alguma coisa diretamente para você, mesmo que em pensamento, mas por favor, me ajude. Mesmo que ele deseje se tornar um humano, não posso permitir. Esse oponente tem um coração sim, apenas não sabe disso... Sei que você e Apolo não se dão bem e que Dmitri perdeu a vida por, sem querer, ter adquirido sentimentos uma vez mais e não conseguir lidar com o peso de seu coração, mas não quero que o mesmo aconteça com Aquiles... Se ele realmente se tornar um humano, terá o mesmo destino de seu companheiro... Ser imortal deve ser difícil, eu entendo, mas ser um humano pode ser muito pior... Desculpe por desapontá-lo, mas eu sei qual foi o caminho que escolhi, e é tarde demais para voltar atrás e pegar outra estrada.
Athos ergueu os braços e traçou calmamente as linhas da constelação de Golfinho, elevando seu cosmo a um patamar surpreendente até mesmo para ele, concentrando-o nas pernas e preparando seu poderoso chute para trás.
— Atena, me perdoe por ser egoísta, mas permita que eu realize um milagre com minhas próprias mãos! Anjo do Respingo!!! (6)
— Seu Sétimo Sentido não irá me impedir! – retrucou o adversário, batendo as asas e se erguendo no ar. Usou as duas mãos e lançou a espada na direção do cavaleiro, atacando logo em seguida. – Eu vencerei!Máxima Altitude!!!
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