Conto I - Unforgettable Wars
37 Acasos da Vida: A Espada Sagrada!
Notas iniciais

Era uma miragem. Um sonho. Um devaneio.
Só podia ser isso. Não havia explicação.
– V-você é-é...
– Eu sou Kyros de Capricórnio, o cavaleiro mais fiel à Atena... Algum problema com isso?
– K-Kyros?
– Sim... Me diga logo o que está acontecendo!
– V-você... não se lembra de mim?
– Eu deveria? – ele franziu o cenho.
Ulysses deu um tapa em si mesmo. Precisava se certificar de que era ele.
– Elke... É você, não é? – perguntou, com os olhos brilhando.
– Como você... sabe o meu verdadeiro nome?
Ele apenas o fitou, com algumas lágrimas se formando nos olhos. Tirou a maldita moeda do bolso e jogou-a em sua direção.
O dourado fez uma concha com as mãos e a pegou, surpreendendo-se e levando-a mais perto dos olhos para ver melhor.
– Meu Zeus... – disse baixinho, encarando a moeda e olhando para ele em seguida. – Ulysses!
Ele assentiu.
– Depois de tantos anos... – o dourado o abraçou fortemente, como um pai faz com o filho. – Você está tão diferente! Eu deveria ter reparado nesses olhos vermelhos!
– É bom te ver também, Elke...
O Santo de Ouro se desvencilhou do abraço, afastando-o e colocando ambas as mãos em seus ombros.
– Por onde andou? O que aconteceu? Pensei que tivesse te perdido pra sempre naquele dia!
O Santo de Bronze se lembrava muito bem do dia em que chegou ao Santuário. Tudo fora um enorme acaso – ou não, vide a situação atual – e ele acabara sozinho.
Elke, seu tutor, sempre o levava em suas viagens, não importa para onde fosse. Em uma delas, à Grécia, eles acabaram se desencontrando em uma feira e Ulysses nunca mais o viu. Procurou por ele o dia todo, sem sucesso, e começou a vagar sem rumo, até que finalmente chegou próximo ao Santuário e dois soldados rasos que faziam uma ronda diária o abordaram, levando-o para dentro para que pudesse morar ali.
Ulysses já era órfão, e agora que estava sozinho – mais uma vez – teria de viver por conta própria, com seus simples sete anos de idade. Por sorte conheceu seus amigos e começou a treinar para se tornar um cavaleiro, adquirindo a armadura de Unicórnio alguns anos depois.
Agora, com catorze anos, reencontrara seus antigos companheiros e a ele. Era muita informação para processar.
– E-eu... M-me perdi e segui sem rumo até chegar aqui...
– Ah, Ulysses, eu lamentei tanto te perder... As coisas não deveriam ter saído dessa forma. Eu devia ter sido mais atento!
– Eu que saí do seu campo de visão... A culpa foi minha...
– Bem, não importa. O destino nos separou, mas nos uniu novamente... E olhe só essa armadura de Bronze! Quando há conseguiu?
– Há pouco mais de três anos... Você não soube?
– Cavaleiros de Bronze vem e vão, então é comum que as armaduras troquem de dono com frequência. – ele deu de ombros.
– Entendi... Mas e quanto a você? Desde quando é um... cavaleiro de Ouro?
– Hum... Desde sempre... – ele fez uma pausa. – Eu acho...
– E nunca me contou por quê?!
– Uma criança não entenderia... Quando você veio morar aqui foi difícil de aceitar essa realidade inicialmente, não foi?... Minhas viagens com você basicamente se resumiam à missões.
– Olhando por esse lado, acho que te entendo...
– Eu te procurei por toda parte durante um ano inteiro, menos aqui, no Santuário. Você esteve debaixo do meu nariz o tempo todo...
– Sim... Foi mesmo um acaso... ou destino... sei lá...
– Enfim, você teve coragem para subir até aqui. Meus parabéns.
– Obrigado... Vamos lutar, sim?
– Muito promissor de sua parte... Tudo bem então. Vamos lá... Para passar daqui, você deve quebrar a Espada Sagrada.
– Ah, ok... E onde ela está?
– Bem na sua frente. – disse, confiante, com o braço estendido na direção de Ulysses, a palma da mão para baixo e os dedos unidos.
– Seu punho?!
– Isso mesmo. Eu, Kyros de Capricórnio, sou o atual portador da Sagrada Espada Excalibur. É capaz de cortar qualquer coisa, até mesmo armaduras de Ouro, como a minha.
Ulysses assentiu. Não era um reencontro comum, embora aquilo doesse em seu coração. Era como se o tempo tivesse parado, pois o passado já não o incomodava tanto – tirando a parte de seus pais o abandonarem, claro – pois agora ele tinha mais alguém de confiança ao seu lado, por quem tinha um enorme respeito.
Se ele só tinha de quebrar a tal espada – não no sentido literal, ele esperava – não seria complicado. Poderia seguir sem maiores dificuldades.
– Ataque primeiro, por favor. – o dourado pediu.
– Como quiser... Galope do Unicórnio! (1)
Os diversos chutes de Ulysses pareceram formar um só, tentando atingir Kyros na barriga. Ele se desviou com perfeição de todos eles, aparentando nem se mover.
– Você chama isso de chute? Eu esperava mais, mas já que é assim... Excalibur! (2)
O dourado ergueu o braço, lançando feixes poderosíssimos na velocidade da luz.
O Santo de Bronze saltou para evitar o ataque, mas uma de suas pernas foi atingida seriamente. Um corte razoavelmente fundo se abriu, e ele gritou de dor. O sangue escorria, manchando o chão.
– Argh! Isso dói! – disse, se curvando e dobrando o joelho para verificar o estrago.
– Sim, e muito. A Excalibur é a sagrada espada que tudo corta. Bronze ou Ouro, não importa. Ela pode perfurar tudo e abrir enormes e profundas crateras.
– Eu não vou desistir! Galope do Unicórnio!
– Nada mal, nada mal. Você foi bem, mas esses ataques são como picadas de formigas pra mim!
Ulysses ouvia e arfava, tentando recuperar seu fôlego. Seu tutor era um verdadeiro monstro.
– Excalibur!
– Isso não vai funcionar! Eu já sei de que direção sua espada vem, Elke!
– Não esteja tão certo disso! – falou em meio ao golpe. – Eu não me restrinjo aos meus braços! A Excalibur vive em minhas pernas também!
– O quê?!
Lançando ataques consecutivos de seus braços e pernas, feriu Ulysses diversas vezes. Ele, porém, já estava se acostumando com eles e aprendendo a prever os passos do tutor. Seus olhos vermelhos flamejavam, almejando a vitória.
– Humpf, – murmurou – certo... Vou recorrer a um ataque diferente então, já que a famosa frase “Um golpe não funciona duas vezes contra o mesmo cavaleiro” é bem conhecida por aqui... Chifre do Unicórnio! (3)
Ele pulou para conseguir uma boa área de impacto e desferiu socos na tradicional forma de chifres, que ficavam cada vez mais poderosos. Kyros precisou fazer um pouco de esforço dessa vez para sair intacto, mas conseguiu.
– Droga! – disse. – Acho que terei que aumentar a velocidade! Prepare-se, Elke!
Pouco a pouco, os chifres ficaram mais precisos e afiados. Alguns – porém poucos – acertaram o alvo.
– Uau, isso realmente foi surpreendente, você conseguiu me atingir... – parabenizou enquanto segurava seu ombro, que ardia como fogo. – Continuemos nesse ritmo então! Excalibur!!
– Chifre do Unicórnio!
***
Yerik ouvia um tilintar enquanto se aproximava da décima casa, como se algo muito rígido se chocasse contra algum tipo de metal. Se perguntava o que estaria causando esse som, mas seus pensamentos foram interrompidos assim que adentrou.
***
Kyros sentiu uma leve brisa gelada e um cosmo se aproximando. Aparentemente algum outro cavaleiro estava chegando, e ele não podia deixar que ele passasse dali.
– X-Calibur!! (4)
O Santo de Ouro cruzou os braços na forma de um “X” e os baixou, disparando duas energias que se cruzaram. Era como se a Excalibur fosse multiplicada por dois.
– Mas o quê?! – gritou Ulysses, surpreso, desviando com astúcia da primeira investida, que veio em sua direção. – Dois ao mesmo tempo?!
– Ulysses! Está tudo bem?! – gritou Yerik, indo direto para a mira de Capricórnio sem perceber.
– Yerik! Não!!
Ele correu para a frente do amigo e recebeu o segundo feixe em seu lugar, causando um corte profundo em sua armadura, chegando até mesmo a sua pele. Ulysses foi arrastado para trás com o impacto, levando Yerik até a parede e prensando o mesmo.
Ambos caíram sentados após o impacto.
– Yerik, você tá legal? – perguntou enquanto se afastava, dando-lhe a mão.
– Eu... acho que sim... Só com um pouco de dor de cabeça... – respondeu, erguendo-se com a ajuda de Ulysses. – E você?
– Nada com que eu não possa lidar... Rápido, vá para Aquário! Eu assumo aqui!
– Tem certeza?
– Sim, pode ir. Nos vemos mais tarde!
– Ah, não pode não. – Kyros interrompeu. – Excalibur!
Os cavaleiros de Bronze se entreolharam e perceberam que pensavam a mesma coisa.
Quando o golpe se aproximou o suficiente, Unicórnio fez um apoio com as mãos e Yerik pisou sobre ele, sendo erguido e dando um mortal por cima da Excalibur. Ulysses abaixou-se logo depois, evitando o ataque da mesma forma.
– Até logo, Ulysses! Obrigado! – disse, dando as costas e correndo para o próximo lance de escadas.
– Disponha. – sussurrou de volta, recostando-se na parede, exausto.
Kyros caminhou lentamente em sua direção. As botas de Ouro faziam um barulho que ressoava pela casa toda. Ulysses pensou que fosse o seu fim e fechou os olhos, mas subitamente o barulho cessou.
– Por quê? – a voz do adulto saiu com um tom de questionamento.
– Hã?
– Por quê tomou o ataque por ele e o deixou ir, sem mais nem menos?
– Até onde... – ele se levantou. – Até onde você está disposto a chegar sem saber pelo quê se esforça?... Eu vim até aqui para ter uma audiência com Efilnaem, mas será que isso realmente vale a pena? Meu objetivo agora está na minha frente, não tenho motivos para continuar e deixar que alguém assuma a luta. Eu quero fazer isso e provar a você que cresci e sou capaz de te derrotar.
– Entendo... Mas veja o seu estado. Mal consegue levantar, e tudo isso pelo quê? Amizade?... Se fosse realmente amigo daquele garoto não o deixaria passar. A pessoa que guarda a próxima casa possui muita ambição e poder. Dentre os dourados, é a mais fria e calculista... Se isso é algo bom ou ruim, aquele menino irá descobrir em breve, se é que ele já não sabe a resposta... Eu não queria deixá-lo ir para protegê-lo, mas se assim ele e você quiseram, por mim tudo bem... Só não reclamem se tudo isso acabar mal depois.
– O próximo cavaleiro é tão terrível assim?
– Vocês passaram por Câncer? Conheceram Dante?
– Eu não o vi, mas fiquei sabendo um pouco do que aconteceu. Parece que os dois lutaram... Por quê a pergunta?
– Dante pode até parecer sádico, mas tem um bom coração e reconhece a força das pessoas, lutando pelo que acha certo e ponderando as situações. Ele sabe reconhecer a justiça dentro das pessoas mesmo que ela não o agrade, e mesmo com seu orgulho ferido, reconhece seus erros, pensando em terceiros e não só em si mesmo. Ele é humano acima de tudo... – ele fez uma pausa. – Já quem guarda Aquário... Bem... Não sei se posso lhe chamar assim...
– Q-que horrível! Como pode existir um Santo assim, tão egoísta?
– Nem sempre foi assim. No passado essa pessoa era feliz e sorria o tempo todo, mas as coisas mudaram... – ele afastou os pensamentos sobre isso, que lhe gelaram a espinha. – Mas não vamos entrar em detalhes e nos desconcentrar da batalha. Agora somos só nós dois novamente!
– Sei...
– Você está em péssimas condições, vai cair logo logo...
– Vai sonhando... Chifre do Unicórnio!
Kyros permitiu que o golpe de seu filho adotivo o atingisse, e nesse momento concentrou boa parte de seus cosmo em um movimento de contra-ataque.
– Pedras Saltitantes! (5)
– Hã?!
O impulso foi para suas pernas, imobilizando Ulysses com as mesmas e o arremessando para o alto em uma acrobacia similar a um mortal de costas, lançando o Santo de Bronze direto para o chão e causando um imenso estrago – tanto nele quanto no solo.
Ele gemeu de dor, ficando imóvel por algum tempo. Não sentia mais seus membros e os cortes ficavam cada vez mais profundos, sangrando.
– As vezes, mesmo com seus objetivos em mente, as coisas continuam sendo difíceis. Onde estão sua coragem e força agora?
Sem resposta. O suor no rosto de Ulysses grudava seus cabelos ao rosto, mas isso não o incomodava. Ele ouvia atentamente cada palavra, mas não rebatia.
– Apenas fique aí parado desta vez. Deixe que alguém assuma por você.
Subitamente, Sui entrou na casa. Kyros sentiu seu cosmo imediatamente.
– Já chegaram. Viu só? Nem doeu tanto assim...
***
Sui mal entrou e já ouviu um grito. Dois na verdade.
– Excalibur! – trovejou o primeiro.
– Não tão rápido! – rebateu o segundo.
Uma luz fortíssima começou a vir em sua direção e ela só conseguiu proteger os olhos. Quando percebeu, Ulysses a encarava de frente, assustado e com dor. Em suas costas um homem alto vestindo a armadura de Capricórnio os observava.
Os joelhos de Ulysses se dobraram e ele cedeu para frente, caindo no chão. Preocupada, ela interveio:
– Ulysses? O que houve?
Com apenas um olhar, entendeu. “Vá”, ele estava dizendo.
Ele se ergueu e golpeou o dourado com seu Galope do Unicórnio, enquanto Sui saía o mais rápido possível dali. Ela ouviu alguns murmúrios e um barulho abafado, mas não se virou para ver o que era.
***
– Isso é entre eu e você, Elke. Não envolva mais ninguém! – disse o Santo de Bronze.
– Está tão certo assim sobre isso tudo? Realmente quer lutar contra seu tutor, Ulysses?
– Sim, eu quero!
– Então tudo bem. Em respeito a isso darei o golpe de misericórdia e te derrotarei agora mesmo! Pedras Saltitantes!!
Tudo se repetiu. Mesmo intensificando seu cosmo e acertando alguns socos – agora mais do que antes – ele caiu de cabeça e lentamente começou a perder os sentidos e a consciência.
– Desta vez não se levante. Saiba o que é melhor pra você.
O mundo pareceu parar de girar. Ulysses estava ouvindo vozes ou estaria ficando louco? Jhesebel, Athos, Niyati... Todos os seus amigos e oponentes falavam com ele ao mesmo tempo, até mesmo Faith. Apenas ouvia sussurros, não compreendia as palavras, mas também não precisava. Sabia exatamente o que queriam – e isso incluía Elke. Ele podia estar tentando desincentivá-lo, mas na verdade queria ensinar uma lição. “O cavaleiro mais fiel à Atena”, além de orgulho, tinha honra, e se o seu único parente – mesmo não sendo de sangue – não fosse digno de seguir seus passos, ninguém o faria.
Se lembrou de todos que estaria decepcionando se não seguisse em frente. Eles não mereciam isso. Promessa é dívida, e ele iria pagar esta. Como ele mesmo dissera, Efilnaem não importava mais, assim como as malditas regras de Atena. Ele estava disposto a morrer por todos se fosse preciso, assim como Kirsi.
Kyros se virou, pegou a moeda e jogou-a para trás, na direção de Ulysses. O som ecoou frio e metálico, sendo o suficiente para fazer o cosmo do Santo de Bronze arder.
– Esse cosmo... – o dourado se virou. – O Sétimo Sentido! Você... continua querendo batalhar?
– Uma vez... uma pessoa me disse que... devemos terminar o que... começamos...
– Você pode até ter conseguido despertar o Sétimo Sentido, mas por quanto tempo ele irá durar? Excalibur!!
– Chifre do Unicórnio!!
Ambos investiram ao mesmo tempo. Ulysses, embora muito ferido, se antecipou e conseguiu uma vantagem estratégica, desferindo o golpe e posicionando o chifre de seu elmo na direção de Kyros.
– Vai usar a cabeça como proteção? Isso não vai me impedir!
As auras de Ulysses e Kyros se complementaram, envolvendo-se uma na outra. O choque de ataques foi tremendo, e no fim só se ouviu gritos.
Em meio a agonia, Kyros abriu os olhos, mas tudo o que via estava embaçado e de ponta cabeça. Tentou se mover mas foi em vão. Compreendeu que deveria estar de costas para uma parede, virado de cabeça para baixo.
Então seu filho realmente conseguira quebrar sua espada... Ele estava muito orgulhoso – e muito ferido também.
Um pouco distante, Ulysses tentava se concentrar. Tudo estava desfocado e vermelho – provavelmente sangue de algum ferimento em sua testa escorria por seus olhos – e ele nada via. Na posição em que estava, com uma das bochechas colada ao chão, apenas um ponto dourado se destacava na escuridão.
– P-por quê... v-você nunca.. m-me contou? – questionou em um tom baixo e abatido, fazendo pausas para respirar. – E-eu vivi... todos esses anos... sem saber que havia sido abandonado... E-eu confiei na sua palavra...
– E-então você descobriu... – ele suspirou, sentindo um gosto amargo na boca. – E-eu nunca disse nada... porque não há como explicar isso... para uma criança de sete anos... Ao menos não de uma forma... que ela entenda... E-eu só... tentei pagar o mal com o bem...
– O-obrigado, pai... – agradeceu, reprimindo um sorriso. Era a primeira vez que ele o chamava de pai.
– P-por n-nada... filho... – o outro respondeu, derramando algumas lágrimas.
Nenhum dos dois se ergueu ou disse uma palavra sequer. Fecharam os olhos quase que sincronizadamente, deixando de lado os graves machucados e rezando para que sobrevivessem, mesmo que só mais um pouco, para que pudessem ter apenas mais um momento juntos. A linha da vida os unira e separara duas vezes, permitiria ela que eles caminhassem lado a lado a partir desse dia?
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