Fábio andava calmamente por uma rua no centro de sua cidade. Era fim de tarde.

Quatrocentos metros à frente, na mesma rua, Rosana esperava pacientemente que o sinal abrisse para que ela pudesse continuar o caminho para casa em seu carro.

Ao lado do carro de Rosana caminhava Vanessa com seus sapatos de salto que já machucavam os pés.

Dez metros à frente de Vanessa, na entrada de um prédio residencial, Otávio estava parado com seu capuz escondendo o rosto e as mãos nos bolsos do casaco.

No topo do prédio Alexandre estava no parapeito. Olhava para baixo com seu olhar triste, vendo as lágrimas caírem e se chocarem com o prédio, graças ao vento.

Fábio nutria pensamentos desnecessários, embora divertidos. “Seria muito legal se eu pudesse voar. Chegaria em casa rápido.”

Rosana batucava os indicadores no volante. “Esse sinal podia abrir logo.”

Vanessa pensava no filho. “Se eu não chegar rápido ele vai se atrasar pra se encontrar com os amigos. Droga, tenho que tirar logo esses sapatos.”

Otávio via em Vanessa algum lucro. “Finalmente alguém que vale a pena assaltar.”

Alexandre já não pensava. Apenas olhava para baixo. Esperou alguns segundos.

Fábio, num esforço que imaginava ser inútil, concentrou-se em tentar voar.

O semáforo abriu e Rosana arrancou com o carro, vagarosamente, seguindo o fluxo do transito.

— Me da tua bolsa, mulher.

Otávio apontava a arma para Vanessa, tendo certeza de que ela via, mas os outros não.

Vanessa começava a se desesperar e sentir as vias aéreas se fecharem, em um ataque de asma causado pelo nervosismo de se ter uma arma apontada para si.

Alexandre sorriu, deixou que todas as lágrimas caíssem e pulou, sentindo o vento no rosto.

Fábio finalmente conseguiu. Voou. Deixou de sentir o chão nos pés, passou a sentir o forte vento no rosto. Estava no ar, voando, impressionado. Mal acreditava. Mas tudo aconteceu muito rápido. Ele voava a uma boa velocidade, mas não tinha muito controle do que fazia. Atingiu com força o homem que havia se jogado do prédio. A cabeça de Fábio se chocou contra o edifício, as lajotas que o enfeitavam se quebraram e caíram. O corpo de Alexandre, que fora atingido pelo homem voador caiu em cima do carro de Rosana, esmagando o carro e o crânio das duas pessoas.

Otávio, assustado, atirou, perfurando o pulmão direito de Vanessa. Lajotas afiadas e quebradas atingiram assaltante, fazendo cortes profundos em sua pele, e o homem que a menos de um segundo voava, agora caía sobre Otávio, quebrando-lhe o pescoço. Fábio sentia a vida se esvaindo. Estava sem forças, deitado sobre um homem armado, que jazia morto. Olhava para frente. Via Vanessa se contorcendo, tentando respirar.

Seus olhares se cruzaram. Ambos sentiam a morte chegar. Mas ela já estava lá.

O ser encapuzado era visto apenas pelos dois. Carregava consigo três pequenos frascos, cada um com a alma de cada morto do lugar. Abriu mais dois frascos que sugaram as almas da mãe que reclamava dos saltos e do homem que, graças a seu vôo, fez com que cinco pessoas morressem, ao invés de apenas uma, o suicida.

A morte sorria. Havia levado cinco pessoas em questão de segundos, apenas porque um homem queria voar.

Mas Fábio morreu feliz. Ele quase havia alcançado o céu.

Notas finais
Pensei nisso enquanto andava pelo centro e pensava como seria divertido voar.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!