Consequências
14 Um passado perigoso
Notas iniciais
Taila levou Chan Eun Sang até o seu quarto. Chan Eun Sang avaliava o quarto e a casa o tempo todo com seus olhos astutos. Taila nunca imaginou que vivenciaria tal cena em toda a sua vida. Nunca sequer passou pela sua cabeça que Chan Eun Sang chegaria daquela forma na casa de Choi Young Do. Sentou-se de frente a ela, que continuava observando o quarto.
–Eun Sang... — começou Taila, um pouco nervosa, era a primeira vez que estavam sozinhas conversando — eu fiz alguma coisa que te deixou brava comigo?
–Por favor, Taila — ela estava com um olhar distante, ela estava agindo de uma forma diferente, um pouco mais fria que o normal — apenas me conte a verdade. Eu acho que vocês não devem ter nada demais, mas eu preciso saber.
–Estranho você querer saber disso somente agora — Taila estreitou seus olhos, somente naquele momento notou que havia algo errado com Chan Eun Sang.
–Não importa, eu quero saber. Eu quero entender o motivo de o Kim Tan ser tão protetor com você.
–Eu não vejo motivos para você sentir ciúmes ou insegurança, a única pessoa que perdeu fui eu. Eu gostava do Kim Tan a mais tempo que você, mas mesmo assim ele te escolheu. Do que você exatamente está com medo Chan Eun Sang?
–Eu... — ela abaixou a cabeça, como se quisesse esconder o seu olhar. — Eu não estou com medo... eu só acho que... eu não quero que você vá morar com o Kim Tan! Mesmo sabendo que ele não te vê dessa forma, eu não consigo segurar meu coração. Não foi fácil chegar até onde nós chegamos e a família dele ficaria muito mais feliz em ter uma nora rica e...
Taila sorriu abaixando o olhar. Ela passou a mão no cabelo e colocou-o atrás da orelha antes de voltar o seu olhar para Eun Sang.
–É disso que você tem medo? De dinheiro?
–O dinheiro pode destruir a vida de uma pessoa...
–Mas não pode destruir o sentimento verdadeiro — ela sorriu novamente e aproximou-se de Chan Eun Sang. — Você deve saber disso melhor do que eu. Eu não sei se eu posso te contar a minha história com o Kim Tan sem de alguma forma revelar o meu segredo.
–Um segredo? — Ela arregalou os olhos ao dizer. — Existe algo...
–Pare de ficar preocupada! — Elas sorriram ao mesmo tempo com uma sensação de constrangimento no ar. — Antes de eu te contar qualquer coisa, será que você pode guardar outro segredo para mim?
–Posso sim, mas que segredo é?
Taila aproximou-se dela e com uma mão perto de sua boca, para abafar o barulho e falou para Chan Eun Sang, que arregalou seus olhos no mesmo instante impressionada. Taila colocou seu dedo indicador em frente aos seus lábios pedindo para que ela não fizesse nenhum barulho.
Há quatro anos, Taila estava em seu apartamento nos Estados Unidos. Mesmo ainda sendo muito jovem, seu pai nunca havia gostado de manter a filha por perto e deixava-a vivendo em hotéis ao invés de deixá-la morar em sua casa. A última vez que Taila havia visto sua mãe e sua irmã havia sido em seu aniversário de dez anos, após isso seu pai a levou para a suíça, e agora ela estava ali, nos Estados Unidos. Mesmo com poucos anos de vida, ela já conhecia bastantes lugares do mundo, que um adolescente da sua idade nunca imaginaria. Sua relação com sua mãe sempre havia sido boa, mas mesmo com seus defeitos, ela havia escolhido ficar com seu pai, e nada no mundo a faria mudar de ideia.
Ela estava folheando um álbum de fotos de sua família. Estava há poucos minutos de realizar um teste proposto por seu pai. Ela sabia que correria riscos de vida, mesmo o documento avisando que ela apenas poderia sofrer leves lesões. No começo, Taila acreditava que era apenas uma brincadeira e nunca soube o real motivo de fazer aquilo, era como se seu pai estivesse a treinando para algo desconhecido. Como todos sempre haviam dito para ela: confie em seu pai, ele sabe o que é melhor para você. Ela prometeu a si mesma sempre confiar nele.
Um segurança bateu a porta, o coração de Taila se acelerou como se fosse sair pela boca, ele estava ali para acompanhá-la. Ela seguiu-o em direção a um carro preto. Embora pareça suspeito, carros pretos eram os favoritos de Roberto, então Taila já havia se acostumado com os carros pretos de vidro escuro. Eles levaram-na para um porto, onde uma lancha esperava por ela. Roberto estava lá esperando por ela. Assim que o viu, Taila correu para abraçar o pai, ele era a única pessoa em que ela tinha para se apoiar, então assim que o viu ela o abraçou apertado.
–Você treinou bem filha?
–Treinei! — Disse ela sorrindo. Orgulhosa daquela situação.
–Quanto você conseguiu?
–Três.
–Três? Isso é muito bom. Isso aqui é para você apertar caso as coisas saiam do controle. Aperte esse botão e eu vou te salvar na mesma hora — ele entregou uma espécie de controle nas mãos dela. Ela segurou com força, como se aquele fosse o seu bem mais preciso, e era!
–Obrigada, pai!
–Devemos ir — disse um dos seguranças colocando uma das mãos nas costas dela, conduzindo-a em direção a lancha.
–Boa sorte, Taila!
Ela apenas sorriu enquanto entrava naquela lancha. Não sabia exatamente o que ia acontecer, mas seu pai não a colocaria para treinar sem nenhum motivo. Suas notas no colégio estavam extremamente baixas pelo seu esforço extremo nos treinos, mas como uma estudante inteligente, ela sabia que ia recuperar logo aquelas notas perdidas. Tudo o que importava agora ela passar no teste.
A lancha andava bastante, passava perto da praia, mas a uma distância suficiente para não atropelar ninguém. Ela resolveu observar os surfistas e as pessoas na praia, pois a lancha estava cada vez mais distante da praia. Pela primeira vez percebeu que passava tanto tempo se preparando para fazer testes assim que nem sequer tinha amigos, ou passou um dia se divertindo na praia.
Taila mergulhou em seus pensamentos, quando percebeu que a lancha estava diminuindo a velocidade, mas ela permanecia observando as famílias sentindo um pouco de inveja no fundo, sua mão se afrouxou. Mal sabia ela que esse seria o seu maior erro. Ela foi empurrada de uma vez para fora da lancha, caindo de cabeça dentro da água do mar. Naquele momento ela não conseguia se lembrar de nada, um medo invadiu o seu coração, no momento em que ela percebeu que não estava conseguindo voltar para cima, mas que estava sendo puxada para baixo, ela entrou em pânico. Tudo o que havia ao seu redor era água, uma água escura e sufocante, pronta para levá-la em direção a morte.
Sua saída era apertar o botão do controle que seu pai havia lhe entregado, mas ele não estava ali. Ele havia caído de sua mão quando ela foi empurrada. Taila tentou recuperar a calma, mesmo sabendo que estava perto da morte, mas com um impulso forte da água, ela conseguiu alcançar a superfície, mas foi inútil, porque agora ela estava se afogando ao mesmo tempo em que tentava acenar por ajuda.
Era inútil, as pessoas estavam muito longe dali e sua única saída estava dentro do mar. Naquele momento ela percebeu que estava próxima do fim de sua vida. Uma vida vazia e sem amigos, pelo menos ela sabia que não iria fazer falta para muita gente. Não se pode fazer falta para quem você nunca conheceu. Tudo se escureceu quando o seu oxigênio estava começando a chegar ao fim. Naquele momento ela aceitou que não havia mais saída e que seu maior erro foi ter saído de casa naquele dia.
Taila sentiu uma dor em seu peito, e uma vontade desesperadora de tossir. Assim que ela conseguiu realizar o desejo de seu corpo, jogando para fora a água que restava em seu corpo e respirar o oxigênio, sentiu-se aliviada. Olhou em volta, várias pessoas estavam em frente a ela, seus olhares eram de preocupação.
–Você está bem? — Perguntou um rapaz loiro, dos olhos claros em inglês.
Ela assentiu, sua garganta estava dolorida para dizer alguma coisa.
–Você está bem mesmo? — Perguntou um rapaz ao lado de Taila, os olhos puxados dele chamaram a sua atenção, pois ela sempre havia se interessado por garotos orientais. Mas naquele momento, ela prestou a atenção pois ela era a pessoa mais próxima dela.
–Estou — disse com dificuldade.
–Você consegue se levantar? — Ele segurou a mão dela e ajudou-a a se levantar. As pessoas em volta começaram a se afastar.
Ele acompanhou-a até uma barraquinha onde vendiam água de coco e colocou-a sentada em um dos bancos. Agachou-se em frente a ela e tocou a sua testa. Ela sentiu um leve ardor e expressou isso com um leve “ai”, quase em silêncio. Ele sorriu, o sorriso dele era radiante e disse:
–É apenas um pequeno corte, não se preocupe. Como é mesmo o seu nome?
–Taila, Taila Monteiro.
–Taila Monteiro? Monteiro? Já ouvi esse nome em algum lugar.
–Meu pai é dono de uma construtora, então você deve conhecer esse nome.
–É mesmo? Mas o que exatamente você estava fazendo naquela parte do mar. Você foi parar lá nadando ou o quê? Aquela parte é inacessível até para nós surfistas. Se eu não estivesse com a minha prancha acho que acabaríamos morrendo nós dois juntos...
–Como assim Kim Tan? — O garoto loiro apareceu novamente, com o seu jeito relaxado de falar. — Você está tirando os meus créditos assim?
O rapaz sorriu.
–Se não fosse a minha prancha e o Jay, eu não teria conseguido te salvar.
Ela sorriu abaixando o olhar. Somente naquela hora percebeu como havia sido perigoso. Mas ela não queria acreditar que seu pai havia a exposto a uma coisa tão perigosa de uma forma tão irresponsável. Aquilo era impossível, se meu pai não estivesse preocupado comigo, eu estaria morta agora, mas a verdade é que eu ainda estou viva. Eu sempre sairei viva, não importa como. Foi o que ele disse para mim. — Repetia Taila para si mesma, tentando se convencer daquilo.
–Eu posso te levar para casa? — Perguntou Kim Tan, procurando com a sua cabeça os olhos dela.
–Eu... — ela olhou para trás, com a intenção de fugir do olhar dele. — Eu não sei o caminho de volta para a minha casa.
–Ah — disse ele virando seu olhar para o outro lado, sentiu-se incomodado, como se ela acreditasse que ele fosse uma ameaça ou algo do tipo. — Você não tem o número de alguém da sua família?
Ela balançou a sua cabeça para um lado e para o outro, voltando a olhar para Kim Tan, que já havia se levantado do chão.
–Você pode vir para a minha casa! — Gritou Jay tentando aproximar-se dela, mas foi impedido quando Kim Tan segurou a sua camisa e arrastou-o para trás.
–Você está maluco Jay? Acha mesmo que eu vou deixar você levá-la para a sua casa?
–E qual é o problema de levá-la para a minha casa?
–Eu não vou deixar uma menina indefesa nas suas mãos.
–Gente... — murmurou Taila, que obviamente não foi ouvida.
–Ela não deve ser tão indefesa se ela conseguiu chegar naquela parte do mar. Ela deve ser bastante esperta, só deve ter perdido o controle...
–Ah, cala a boca, Jay. Você não disse que a Marina te ligou? O que ela disse?
–Cara, quem disse que eu quero saber da Marina, aquela é passado para mim. Hoje eu conheci uma gata... — Kim Tan continuou conversando com o amigo, Taila estava desconfortável com a conversa, mas ficou ainda mais desconfortável quando Kim Tan virou-se para trás e piscou para ela, sem que Jay percebesse.
–Por que você não leva ela lá para a minha casa hoje à noite?
–Vou levar então. E vou levar a minha parada também, você sabe o que é. Você tem que provar, você vai ficar doidão.
Kim Tan sorriu sem graça enquanto ele falava. Jay foi afastando-se aos poucos enquanto falava, assim que conseguiu uma boa distância ele se despediu de Kim Tan.
–Do que vocês estavam falando?
–Nada demais — disse ele se aproximando. — O Jay fica completamente louco ao ver garotas novas e bonitas — Taila olhou para baixo constrangida, ela sabia que aquilo havia sido um elogio para ela. — Então... — ele abaixou-se, apoiando as mãos nos joelhos, olhando diretamente para os olhos dela, com um olhar intimidador — o que eu devo fazer com você?
–Hã? Eu...
–Vamos para a minha casa. Lá nos daremos um jeito de falar com alguém da sua família. Já que você é filha de alguém tão importante, vai ser fácil.
Ela não conseguia fixar o seu olhar no dele, ele possuía um olhar forte e penetrante, que a deixava completamente desconsertada. Kim Tan levantou-se da sua posição, passou uma de suas mãos debaixo das pernas dela e pousou a outra nas costas dela, erguendo-a como se ela fosse um bebê. Taila ficou constrangida, nunca havia chamado tanta atenção das pessoas na sua vida.
–Eu consigo andar, você não precisa me carregar.
–Eu sei. Apenas fique quieta.
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