Consequências
15 Um amigo especial
Notas iniciais
Kim Tan caminhava em direção ao seu carro com Taila nos braços, que ainda parecia estar bastante assustada com que aconteceu. Ele colocou-a no chão em frente ao seu carro e abriu a porta do passageiro para ela, como se fosse seu motorista particular. Ela estava costumada a nunca tocar na maçaneta dos carros de seu pai, mas a situação foi diferente ali. Ela estava com um completo estranho. Mas naquele momento mesmo estando com um estranho, era melhor do que passar por aquele teste de novo. Ele fechou a porta do conversível e apoiou seu braço na porta, curvando-se um pouco em direção a ela.
–Eu acabei de tirar a minha carteira, está preparada para passear um pouco?
–Estou sim — disse um pouco retraída. Ele levantou-se, deu a volta no carro para entrar no lado do motorista. — Kim Tan!
–Quê?
Ele disse enquanto ainda estava longe, mas ela apenas continuou a falar depois que ele entrou no carro e colocou o seu cinto de segurança.
–Algum problema?
–Não — ela sorriu. — Mas por que você está fazendo isso por mim?
Ele deu partida no carro, mas logo em seguida ele o desligou. Pousou a sua cabeça sobre no encosto do banco e disse:
–Eu não sei, você só tinha a mim para te salvar. Se eu não tivesse entrado no mar provavelmente você poderia... bem.
–Você está certo! Eu estaria morta nesse momento.
–Eu não queria dizer assim, dessa forma.
–Mas você não precisa. Eu tenho completa noção do que aconteceu — uma raiva invadiu seu coração de uma forma que nunca havia acontecido antes. Por mais que tentasse reprimir, ela não conseguia.
–Você quer tomar um chá? Ou comer algo?
–Você disse que ia me levar para a sua casa, podemos ir para lá primeiro?
–Claro.
Ele ficou sério de repente. Ela parecia estar irritada, mas ao mesmo tempo era evidente que ela estava tentando esconder o pânico que estava sentindo por dentro. Taila estava a cada instante ficando mais confusa com aquela situação, como aquilo era possível? Como um estranho poderia ser tão gentil? Tentava repelir esses pensamentos, mas estava cada vez mais evidente que eles estavam ali para ficar.
–Kim Tan o que você faz da vida? Quem são seus pais?
–Uma família hipócrita que vive na Coreia! Meu pai é o dono do grupo Jeguk, já ouviu falar?
–Não — abaixou o olhar decepcionada.
Ele concentrou na estrada após isso. Taila permaneceu com seu olhar baixo, olhando para os seus dedos, em busca de uma resposta para o que aconteceu.
Assim que chegaram à casa de Kim Tan, ela ficou impressionada com a arquitetura da casa. E as cores, uma mistura de branco com azul combinavam bastante com o ambiente. Uma piscina no fundo que você encontraria após passar pela grande sala e as portas de vídeo transparente. As paredes eram bastante altas, como se fosse as paredes de um museu, que você raramente vai conseguir alcançar o teto. E assim que entrou, ela teve certeza que não era uma casa e sim uma mansão.
Taila desceu bastante rápido as escadas enormes para chegar ao hall da casa. Ela estava empolgada, como se aquele momento do acidente tivesse, por um instante, sido apagado de sua mente.
–Você gostou? — Perguntou Kim Tan ao terminar de descer as escadas.
–A sua casa é incrível! Eu sinto falta de morar em uma casa!
–Como? Você não mora em uma casa?
–Não, eu passo a maior parte do tempo vivendo em hotéis. Eu moro com o meu pai, mas ele literalmente pede para que eu não fique em casa...
–Sei como é.
–Sabe?
–Sei. Pelo menos ele não te odeia. Meu irmão mais velho me odeia simplesmente pelo fato de eu existir.
Taila tinha um argumento muito pior, mas isso significava revelar a existência dos testes que seu pai lhe propunha e isso estava completamente proibido. E pior, dizer que seu pai não a amava, o que para ela era uma mentira completa que sua mente insistia em lhe repetir. Ela apenas sorriu e disse rendendo-se:
–Você venceu!
–Eu sei.
–Vamos comer alguma coisa. Vou pedir uma pizza.
–Está bem — ele sentou-se no sofá e pegou o telefone sobre a mesa de centro e ligou para a pizzaria.
Taila sentou-se ao lado dele e ficou deslumbrada ao ver um livro sobre a mesa de centro. Não era um livro qualquer, era uma literatura coreana. Nunca havia visto um livro em hangul na vida. Ela nunca havia ido para nenhum país oriental em toda a sua vida. Assim que desligou o telefone, Kim Tan apoiou o seu braço no braço do sofá e apoiou a cabeça em sua mão. Ficou apenas observando-a folhear o livro.
–Você gostou dele?
Sentiu-se constrangida e colocou o livro de volta sobre a mesa, como se tivesse sido pega em um furto.
–Eu só estava olhando!
–Calma! — Ele pegou o livro de volta e colocou sobre as mãos dela, em seguida mudou a sua posição cruzando os braços. — Eu só queria saber se você tinha gostado.
–Eu gostei — ela sorriu olhado para o livro. — Eu sempre quis aprender a ler esses desenhos — ele colocou uma das mãos no peito como se tivesse levado um tiro nele. Ele aspirou forte como se estivesse sentindo dor, sentia-se completamente ofendido.
–Como você pode dizer isso? Isso não são desenhos, são letras.
–Ah — ela sentiu-se constrangida. — Eu... me desculpe pelo que eu disse.
–Está bem! Embora tenha doído.
Ela começou a gargalhar de uma forma que não fazia há muito tempo. Ele sentiu-se orgulhoso ao ver o sorriso no rosto dela. Esqueceu-se completamente do que ela havia dito sobre seu alfabeto.
–Fique com ele para você.
–Sério?
–Sim. Pelo menos eu posso te dar um presente legal, um que eu tenho certeza que você vai gostar.
–Você não precisa me dar presentes, você já me deu o maior de todos, você salvou a minha vida.
***
Taila voltou para a sua casa no hotel, apenas pensando em como havia sido perfeito conhecer aquele rapaz gentil, mas as dúvidas ainda surgiam na sua mente, seguidas de um medo desesperador. Se ela continuasse com aqueles testes, levando em conta o fato de que eles ficariam cada vez mais difíceis, ela poderia estar correndo sérios riscos de vida. Mas para ela, como poderiam ser ruins? Seu pai a estava treinando para passar por terríveis situações.
Taila estava sentindo a sua mente pesar e o tempo estar começando a fechar e a ficar nublado, não estava ajudando. Resolveu ligar para o seu pai e pedir para falar com ele. Nunca havia sido contra nada do que ele dizia, ou sequer se questionava por ele decidir coisas tão estranhas para a sua vida.
Foi levada até a empresa dele que ficava há poucos minutos de Los Angeles. Bateu a porta e ele pediu para que entrasse. Roberto levantou-se da cadeira com uma sensação de alivio ao ver a filha. O abraço que ele lhe deu foi apertado, como de um pai que estava aflito com medo de perder a filha. Taila já estava acostumada com esse abraço, que sempre lhe era dado após o fim de um teste, somente após o fim de um teste.
–Eu pensei que você tivesse morrido. Como você ousa me fazer passar por uma coisa dessas Taila Monteiro? — O tom dele foi aumentando a cada palavra e a rispidez ficando cada vez mais evidente.
–Me desculpe, eu não sabia como voltar para casa.
–Você devia saber. Se você teve coragem de entrar naquele mar, você deve no mínimo saber o endereço do seu apartamento. Você deve ser mais esperta.
–Como? — Perguntou indignada. Foi a primeira vez que ela quase morreu em um teste e ele a estava fazendo pensar que a culpa era dela.
–Por que você não apertou o botão que eu pedi para você apertar?
–Eu... eu fui empurrada da lancha — ela tirou um pouco de seu cabelo ondulado da testa e deixou o seu corte a mostra. — Isso aqui foi uma das menores coisas que eu consegui. Pai você quase me matou!
–Como você ousa falar comigo dessa forma? — Ele gritou tão alto e de uma forma tão ríspida que ela ficou assustada. Nunca havia visto o seu pai tão furioso, mas a raiva dentro do seu peito, não a deixava abaixar a cabeça por um instante sequer.
–Você queria me matar? Por quê? Por que eu não posso morar com você? Por que você inventou esses testes?
–Você não vai entender.
–Eu posso entender...
–Não! — Ele gritou novamente. — Nunca mais fale sobre isso novamente! Depois de tudo o que eu construí para você, essa construtora será sua, somente sua. Eu não posso entregar a minha empresa nas mãos de qualquer um. Somente uma pessoa forte psicologicamente pode me entender.
–Me deixe te entender!
–O que você veio fazer aqui?
–Eu queria falar com você...
–Não! Você veio aqui me pedir permissão para estudar no mesmo colégio que aquele rapaz que te salvou, não é mesmo?
–Como você...?
–Eu sei de tudo da sua vida — ele virou-se de costas indo em direção a sua mesa e pegando alguns papéis. — Cuidarei disso hoje. Está mesmo na hora de você saber o que é viver com amigos e como eles irão te apunhalar pelas costas quando você menos imaginar, aproveite e também tenha uma decepção amorosa. Esse será o seu novo treinamento.
***
Era o primeiro dia de aula de Taila no colégio de Kim Tan. Ela estava bastante decepcionada com as palavras de seu pai. Ele havia se mostrado ser uma pessoa completamente diferente daquele que ela conhecia e isso a deixava bastante triste.
Resolveu não pensar nisso, tudo o que ela queria agora era ficar perto de Kim Tan. Os secretários de seu pai organizaram tudo para que ela tivesse as mesmas aulas que ele, a única que ela não ia poder assistir seriam as de matemática, pois ela estava em um nível mais avançado do que ele.
A primeira aula havia sido de história, Taila ficou apaixonada com a forma em que o professor ensinava a matéria, mas seus olhos não saíam de Kim Tan, que estava sentado bastante longe dela e só ela conseguia vê-lo, mas ele não podia vê-la. Ela percebeu que ele parecia não estar prestando atenção na aula. Ele estava escrevendo em um caderno.
Ela queria acompanhá-lo para falar com ele, mas assim que a turma foi liberada todos saíram de uma vez. Kim Tan estava no meio deles. Mal conseguiu acompanhá-lo e nem sequer conhecia o colégio. Resolveu ficar no corredor, não conhecia ninguém e parecia que ninguém ali estava afim de se enturmar com a novata.
Taila avistou Jay no corredor e pensou em ir falar com ele, mas mudou de ideia quando o viu batendo o seu braço e um dos armários impedindo que uma garota, loira dos olhos claros, fugisse dele. Mas parecia que a garota não tinha nenhuma intenção de fugir, ela passou seus braços em volta do pescoço dele e aproximou seus lábios do dele com uma velocidade impressionante. O beijo deles era bastante desesperador, pois ele empurrou-a contra os armários e deslizava as mãos pelas costas dela apertando-a com uma certa leveza.
–O que você está olhando? — Uma voz profunda disse perto do ouvido dela. Fazendo-a se assustar na mesma hora e gritar bastante alto, despertando a atenção de muitas pessoas.
–Eu... — assim que ela olhou para a pessoa que estava atrás dela, sorriu de felicidade. — Kim Tan!
–O que você está fazendo aqui? Você se transferiu para cá? — Ele estreitou os olhos desconfiado. Ela apoiou-se no armário e disse escondendo um de seus livros atrás de si.
–Claro que não! Eu vim apenas conhecer o colégio. Eu gosto de colégios.
–Mesmo? — Ele apoiou a sua mão também no armário, quase da mesma forma que Jay havia feito há pouco, mas mantéu uma pequena distância dela. Ao invés de olhar para ela, ele olhava fixamente para o armário. — Eu queria mesmo saber quem é Taila Monteiro. Alguma Taila Monteiro por aí? — Gritou ele para todos que pararam por um instante somente para ouvir a pergunta, mas logo voltaram para o que estavam fazendo.
–O que foi Kim Tan? — Perguntou um rapaz americano, alto, cabelos negros e olhos também negros, usava óculos.
–Estou procurando pela dona desse armário aqui! — Disse ele apontando para o armário de Taila.
–Você está me zuando, não é? — O rapaz virou-se para Taila e entregou-lhe um livro. Era o mesmo livro que Kim Tan havia lhe dado. — Você esqueceu em cima da sua mesa.
–Ah, obrigada!
–Seja bem-vinda ao colégio. Se precisar de qualquer ajuda para se adaptar ao colégio é só me avisar, está bem? — Ele tocou levemente o ombro dela, que ficou nervosa, não estava acostumada a receber tanta atenção. Quem dirá de garotos bonitos.
Ela assentiu. Ele sorriu e virou-se para Kim Tan com um olhar superior.
–Se eu fosse você eu pararia de faltar de aula, nesse ritmo você vai acabar reprovando — virou-se para ela. — Até mais tarde Taila!
Ele saiu antes que Taila sequer pensasse em responder. Ela não sabia como ele já sabia o nome dela, mas Kim Tan acabou roubando toda a sua atenção antes que ela pudesse pensar em uma possibilidade.
–Ah, como esse Jared é chato! — Resmungou Kim Tan. — Eu vou sair agora, quer vir comigo?
–Agora! Mas nós temos aula agora.
–Eu sei, mas eu tenho aula de matemática. Eu tenho coisa melhor para fazer do que assistir aula de matemática.
–Como o quê?
–Surfar! Você vem?
–Com certeza!
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