— Acorda. Nessa. A gente já chegou.

Eu então abor os olhos, viro-me para o lado e vejo Elliot me encarando com aqueles olhos escuros, curiosos. Sorrio.

— Estamos na América? — Pergunto, ainda sonolenta.

— Omaha, Nebraska. Bem vinda de volta! — Ele ri da minha cara amassada e então o piloto fala que nós já podemos descer.

Lentamente eu desafivelo o cinto. Lembro-me de quando falamos tudo para Anna, assim que voltamos pra casa dela. Quando eu revelei que fui Alice na vida passada, a única coisa que ela conseguiu fazer foi chorar muito mesmo. Então eu a abracei forte, e ela me pediu perdão. Nem preciso dizer que isso me fez mal.

Naquela noite, esperei que Jaden me desejasse boa noite. Mas ele não fez. Eu não consegui parar de chorar em nenhum momento sequer, e eu percebia que Elliot já estava ficando desesperado. A única coisa que me fez parar foi o sono. E naquela mesma hora eu sonhei.

No sonho, eu vi Jaden me beijando. Quer dizer, beijando Alice. A imagem é borrada, ora parece comigo e ora parece com ela. Eles estão felizes, sorrindo e abraçados um ao outro. E então eu vejo Alice alisar a própria barriga, em um movimento quase imperceptível. Ela estava grávida. Alice carregava o bebê dela e de Jaden, e muito provavelmente o perdeu quando também perdeu seu marido.

Eu acordei suando frio e Elliot me abraçou, me fazendo esquecer por um curto momento o que eu havia visto.

Na manhã seguinte (bem cedo mesmo) era o dia do nosso voo. Agradecemos pela estadia e Elliot paga Anna nosso último dia. Ela está bem melhor do que ontem, mas eu não estou nem um pouco bem. Elliot está o tempo todo olhando para mim, com uma ruguinha entre as sobrancelhas. Eu o abraço e seguimos para Leeds.

O voo foi às oito da manhã, e agora são quase seis da noite. Descendo lentamente pelo corredor e logo vemos Arthur à nossa frente.

— Irmão! — Ele saúda Elliot e depois me abraça. — Como foi a viagem?

— Foi boa, Artie. — Ele me abraça. — Foi bem legal. Acho que, algum dia, nós poderíamos voltar lá, não?

Eu sei que a pergunta era para mim, mas meu cérebro me impede de responder. Não sei se eu gostaria de voltar para aquela vila, para aquilo que pertencia ao meu passado tão distante, que pertencia a minha vida antiga. Contento-me em apenas concordar com a cabeça.

Então Arthur nos leva para a minha casa. Ele pergunta se Elliot não quer ir logo para a dele, mas ele afirma que vai ficar comigo. Ele vai embora, deixando conosco nossas malas. Entro no meu apartamento e Elliot me segue. Ver o apartamento me faz sentir ainda mais vazia. Tranco-me no banheiro e fico chorando bem alto, ignorando os apelos de Elliot para que eu abra a porta. Depois de meia hora eu acabo cedendo, mas ele não está mais em frente à porta.

Aproximo-me dele, que estava sentado no chão logo abaixo da janela. Ele também está chorando.

— Elliot...

— Você se arrependeu? — Ele pergunta, olhando diretamente para mim. — Se arrependeu de ficar comigo?

Enxugo minhas lágrimas e depois as dele. A dúvida dele fez meu coração doer um pouco mais. Como ele pode achar uma coisa dessas de mim? Eu jamais me arrependeria de estar ao lado dele, mas...

— Não. É que eu ainda estou... Perdida. Eu estou me sentindo tão só...

— Mas eu estou aqui contigo. — Ele murmura. — Você não está só. Nunca mais vai estar, se depender de mim.

— Sim, eu sei. — Eu me levanto do chão e ele faz o mesmo. — E eu gosto de saber que você está comigo. Eu não sei se aguentaria ter feito isso tudo sem você ao meu lado.

Eu bocejo e ele sorri, ainda com os olhos vermelhos.

— Você tá cansada. Anda, vamos dormir.

Eu visto meu pijama rapidamente e me deito na cama. Ele não se preocupa muito com as roupas e se deita ao meu lado. Elliot me abraça forte, e eu não posso deixar de sorrir. Ele acaricia minha bochecha e me dá um selinho.

— Boa noite. — Ele fecha os olhos.

— Boa noite.

E eu tive mais um sonho.

Alice está chorando em casa, sozinha. Ela está segurando uma foto de Jaden, alisando seu rosto com o polegar. E então vejo Harry saindo da cozinha e sentando na cadeira a frente dela.

— Alice... Você devia ter escutado ele melhor. — O homem bem vestido tira a foto das mãos da irmã. — Você precisava ver a cara dele no supermercado. Ele está mais deprimido que você, com certeza.

— Não me importa. — Ela tenta parecer forte, mas a voz vacilante dela não me convenceu. Provavelmente não convenceu Harry. — Eu vi aquilo tudo. Irmão, você não sabe o tamanho do ódio que eu senti na hora... — Os olhos dela estavam marejados. — Eu vi ele a beijando. E ele parecia estar gostando.

Harry suspira pesado, segurando a mão de Alice.

— Ele te ama. Só digo isso. — O loiro devolve a foto para ela. — Dê uma chance a ele. Você não vai se arrepender.

Alice pondera por alguns minutos, e Harry continua a olhar para ela. É estranho e engraçado ao mesmo tempo. Ambos tinham essa conexão que era tão visível quanto as estrelas num céu escuro.

— Será que... — Alice pigarreia. — Será que você pode falar com ele? Talvez pedir para que ele venha aqui, ou que nos encontremos em algum outro lugar? Se não for para a gente voltar a ser um casal, que pelo menos a gente resolva a situação.

A alegria no rosto de Harry era inegável.

— Vou falar com ele. Matthew com certeza vai querer falar com você.

Minha nossa, ele tem o mesmo sorriso de Elliot. E as mesmas ruguinhas entre as testas. Ele se levanta da cadeira e diz que tem que ir embora, mas antes de sair da casa, ele a abraça.

— Não importa o que acontecerá quando você conversar com ele, eu vou te proteger pra sempre.

E então eu acordo. Os olhos de Elliot em cima de mim estão arregalados, segurando minha mão firme.

— Não se preocupa, Elliot. Não foi um pesadelo tão ruim.

— Você estava se mexendo muito. — Ele beija a ponta do meu nariz. — Parecia até que estava andando de bicicleta.

Eu rio e ele também cai na gargalhada.

— Acho que os pesadelos estão ficando mais leves. Esse foi bem interessante.

Conto para ele que ouvi uma conversa de Harry e Alice. Ele parecia fascinado, claro, ele não teve nenhuma outra visão depois daquele dia em Gayle, e eu sei que ele ainda quer saber se ele tinha alguma relação com Alice na vida passada. Apesar disso, evito dar detalhes. Saber que Harry tentou juntar eles novamente, e que não deu certo, me faz sentir uma dor no coração.

— Ainda bem que estão ficando melhores. — Elliot beija minha bochecha. — De qualquer maneira, sempre que você tiver um sonho ruim, pode contar comigo. Eu vou te proteger pra sempre. — Ele fala, e eu me arrepio. Não era só uma frase. Era uma promessa, uma promessa que ele havia feito muito antes de nascer. Eu não tenho mais dúvidas. Harry, Elliot... Mesma alma. Eu o abraço e deitamos novamente.

Eu sei que essas sensações ruins vão desaparecer com o tempo. Os pesadelos e a tristeza vai passar, mas a lembrança dele nunca vai sair da minha mente. Aquilo que ele disse, para eu não esquecer que estamos conectados, sempre volta a minha mente. Eu sei que algum dia eu vou revê-lo. Será que vou reconhecer o novo Jaden, ou não vou nem perceber a presença dele perto de mim?

— Ei, Vanessa.

— O que foi? — Bocejo, ainda agarrada à ele.

— Quer morar comigo?

— O quê? — Pergunto, surpresa.

— Morar, lá no meu apartamento. — Ele fala. — Sabe, ele é mais espaçoso e tem local de sobra pra suas coisas. É melhor do que a gente ficar se desdobrando entre aqui e lá. – Os olhos dele estão brilhando. – Não quero te deixar sozinha.

— Você tá falando sério? — Sorrio. — Não é precipitado? Afinal, começamos a namorar agora.

— Não é! — Ele exclama. — Eu te amo. Você me ama. Tudo bem, oficializamos tarde, mas... Eu te quero ter perto de mim, para sempre. Por favor.

Eu penso por menos de um segundo.

— Eu adoraria morar com você, mas acho melhor a gente pensar um pouco mais sobre isso. — Beijo-o. — Amanhã a gente pode conversar melhor, certo?

— Só se você pensar com carinho nisso. — Ele tira alguns fios de cabelo do meu rosto.

— Claro, Elliot. Vamos dormir, certo?

Ele me encara, esplendidamente alegre. Elliot concorda e voltamos a dormir, mas antes que eu caia no sono, um pensamento vem em minha mente.

Boa noite, Vany.

Eu sei que ele não está mais realmente aqui, mas, de certa forma... Sempre vai estar.

Notas finais
Reviews? O próximo capítulo já será o epílogo!