Connected Spirits

4 De volta à perseguição


Minha imaginação. Isso foi a minha imaginação, ninguém falou isso. Abraço-me a Elliot e tento dormir de novo.

Vany, para de me ignorar!

Arregalo os olhos. Não, isso não foi da minha imaginação.

Não se preocupe, você pode conversar comigo. Eu garanto que ele não vai escutar nossa conversa.

Sento-me na cama, e Elliot nem se move. Ajeito seus cabelos pretos e desejo que seja verdade o que Jaden disse. Olho para todos os cantos do meu quarto, mas não vejo nada, como sempre. Suspiro, esperando que ele comece a falar de novo.

— Oi, Vany. — A voz era mais consistente, quase como se eu pudesse tocá-la. Olho para minha poltrona e de repente vejo algo.

A imagem ainda é borrada, mas consigo distinguir algumas coisas: um sorriso branco, mãos fortes segurando algo, pés batucando o chão, cabelo loiro-claro, olhos azuis que pareciam analisar cada respiração que eu fazia. Meu Deus, que merda é essa?

— Que foi? Parece até que viu assombração! — Noto que em uma de suas mão há uma garrafa de uísque e na outra, um copo.

— Você... Quem você é?

— Por favor, Vany! Você sabe muito bem quem eu sou. — Ele dá uma leve risada. Ele lentamente deixa a bebida cair dentro da vidraria e fica me olhando sério. — Você não se lembra de mim?

— Se você for quem eu acho que é...

Ele olha para mim, suas íris brilhando de alegria.

— Diga meu nome, então?

— Por que você não foi embora? Eu jurei que você tinha ido, cinco anos atrás. Por que... Eu pedi tanto para que você fosse embora!

Ele desvia o olhar, agora o fixando no copo cheio. Faz menção de leva-lo a boca, mas para no meio do caminho e coloca os vidros, copo e garrafa, na minha mesinha de centro. Então ele volta a olhar para mim, com um leve sorriso triste.

— Eu nunca quis te fazer triste, Vany. Se eu pudesse, eu teria ido.

— V-verdade? — Pergunto.

Ele está sério em um momento, mas logo depois solta uma gargalhada estrondosa. Olho para Elliot, temendo que com a risada ele tivesse acordado, mas ele nem se moveu. Olho para Jaden, que continua com uma risada baixa. Ele... Ele estava segurando uma risada! Mas que...

— Claro que não! Não é mentira o fato de eu querer você feliz, mas eu não vou te deixar. Tanto por eu não poder quanto por eu não querer.

— Jaden... – Suspiro.

— Pensei que ia ficar feliz em poder ver como eu verdadeiramente sou. – Ele olha para a janela, devaneando. – Eu me lembro da época em que você tentava de tudo pra me ver. Até farinha você espalhou pela casa toda!

Ele está rindo de mim. Como eu detesto isso!

— Bom, eu nunca fui embora. Só dei um tempo pra você. — Ele explica. — A perda da sua mãe foi difícil pra você, apesar de eu não entender. Como você pôde sentir pena de uma mulher que nunca te deu atenção, carinho, amor?

Fico em silêncio. Nem eu mesma entendia.

— Achei melhor que você ficasse um tempo consigo mesma, sabe? Não queria te deixar mais triste, ou com mais raiva da vida. — Ele me olha sério. — Mas eu não fui embora. Esses anos todos eu estive aqui com você.

— Devia ter ido. – Murmuro. – Devia ter me deixado em paz.

Ele pega o copo novamente.

— Eu ainda não entendi – Ele se levanta da poltrona e anda pelo meu quarto. – O porquê de tanta raiva de mim. Eu nunca fiz mal a você, fiz?

— Nunca fez? Quantas vezes eu tomava sustos com meus brinquedos que se mexiam sozinhos? Quantas noites eu quis ir pro quarto dos meus pais, pedir pra dormir com eles, pois estava com medo de você? Quantas noites eu fiquei sem dormir por sua causa, sussurrando em meu ouvido sobre uma merda de carta?

— Merda de carta? — Ele me olha com fúria. – Se você tivesse me ajudado antes, com certeza você não teria vivido esse sofrimento todo!

Levanto-me da cama, indo em direção a ele. Minha mão direita está coçando para dar um tabefe naquele homem, mas assim que faço isso, minha mão atravessa sua cabeça como se não houvesse nada material lá. Minha nossa...

— Mas que porra é essa? – Sussurro.

— Como assim? – Ele pergunta realmente em dúvida, mas logo depois ri da minha cara de pânico. – Eu sou um fantasma, bebê. Não pode fazer nada em relação a isso.

— Fantasmas não existem.

— Então acho melhor chamar a polícia, porque tem um homem estranho dentro do seu apartamento. Mais estranho ainda seria se os policiais entrassem e vissem você sozinha nesse apartamento enorme, vestida com um baby-doll de adolescente. Se bem que seria capaz de os policiais prenderem Elliot, já que eles jamais me veriam. – Ele novamente faz como se fosse dar um gole na bebida, mas algo o impede. Mais uma vez o copo vai para a mesinha.

Rio da expressão de tristeza que ele faz.

— Por que não bebe? – Pego o copo e viro-o na minha boca. Oh, Deus... Devia ter feito isso mais devagar. – Talvez só bebendo pra eu entender.

— Eu não posso. A menos que você queira que eu manche seu lindo piso de mogno com uísque.

— Oh, então até seu sistema digestório é atravessável.

Ele sorri.

— Você fica uma gracinha fazendo ironias, sabia? – Jaden pega a garrafa da bebida e enche meu copo novamente. – Devia ter dado isso pra você antes.

— Você é grosso. Grosso, arrogante e estúpido.

Seus olhos parecem até mudar de tom quando termino a frase. Ele baixa a cabeça, sentando-se na poltrona de novo. Eu volto para a cama, sem tirar os olhos daquele homem, quer dizer, fantasma, muito bonito por sinal.

— Desculpe. – Ele passa a mão pelos cabelos ligeiramente grandes, porém muito bem alinhados. – Sinto muito por meu comportamento. Não é correto eu falar assim com uma dama, principalmente uma que eu acabo de conhecer.

A súbita mudança de comportamento dele me confunde.

— Você me conhece há muito tempo, Jaden.

— Mas nunca fomos apresentados devidamente. Em geral eu não trato as mulheres assim. – Os olhos dele encaravam o chão. – Só as que eu tenho certa intimidade.

A última frase saiu como uma confissão. Eu pude sentir a tristeza na fala dele.

— Você está grudado no meu pescoço desde que eu me entendo por gente. – Bebo mais um gole, dessa vez devagar. – Não considera isso certo grau de intimidade?

— Não é o grau “perseguidor” que eu falo. E sim...

— O de homem e mulher. – Fico vermelha, sem saber exatamente o porquê disso. – Casal. Amantes.

Ele também está ruborizado. Engraçado, por que eu pensava que ele não tinha sangue. Sento-me na beirada da cama e olho piedosamente para Jaden.

— Por que você agiu assim comigo, se não temos esse grau?

— Eu... Não sei explicar, Vanessa. – Ele desvia o olhar. – Desculpa por isso. Não devia tratar ninguém dessa maneira.

Sorrio.

— É a primeira vez na noite que você me chama pelo meu nome inteiro.

Ele ri, olhando novamente para mim.

— É um nome bonito, apesar de eu preferir Alice. – Ele se levanta e pega o copo, agora vazio, das minhas mãos. – É melhor descansar.

— Por que você voltou agora? Por que você nunca vai embora? Por que você só se mostrou agora? O que eram essas cartas das quais você tanto falava? Você vai estar aqui quando eu acordar? – Engulo em seco. – Me responda.

— Nossa, perguntas demais... – Ele põe o copo no criado mudo. – Só posso responder uma agora. Eu vou estar aqui amanhã, assim que você acordar.

— Eu não vou conseguir dormir.

Por quê? Ouço um sussurro, mas a boca dele não se moveu.

— P-porque... E-eu tenho medo de fantasmas.

Ele abre um largo sorriso.

Não se preocupe. Não vou os deixar pegar você.

A frase ainda ecoa nas paredes quando ele desaparece.

Deito minha cabeça na cama. Por que ele só apareceu agora? Não que se ele tivesse aparecido antes fosse mudar algo. Ele ainda precisa de mim? Mas por que eu? Ele estava esse tempo todo aqui... Ei, espere aí!

— Jaden? — Sussurro. Algo me diz que Elliot já voltou a nos escutar.

Sim? A voz marcante dele me responde.

— Você viu eu e Elliot... — Falo, cada vez mais baixo.

Transando? Claro que sim! Ele diz. Que safado! E você me pareceu muito boa nisso.

Morro de vergonha, enquanto escuto sua risada pelas paredes. E, como numa mágica, minhas pálpebras pesam e fecho meus olhos.

Notas finais
Reviews?