Quando volto a abrir os olhos, vejo Elliot vestindo sua camiseta cinza. Ele se volta para mim e sorri, meio desajeitado.

– Bom dia. — Ele me beija. — Teve uma boa noite?

Eu me lembro de tudo o que aconteceu. Lembro do momento maravilhoso que passei com ele, mas lembro também de Jaden. Em vinte e um anos da minha vida, eu nunca havia visto ele, só sentido sua presença. Mas agora... é muito forte. Mais forte do que nunca, eu estou sentindo ele. Eu me sinto observada exatamente agora, e sei que não é por causa dos olhos de Elliot em cima de mim.

E eu detesto essa sensação.

– Tive. — Sento-me na cama e o abraço. — Já vai?

– Desculpa, mas eu tenho que. — Ele me dá um leve selinho e se levanta da cama. — Se você quiser, eu volto mais tarde.

– Com certeza. — Sorrio para ele, que retribui.

– Então eu vou indo. Acho que já estou atrasado para a faculdade. — Ele me dá mais um último beijo antes de sair dizendo tchau.

– Tchau. — Escuto a porta fechar.

Eu gosto mesmo dele. Elliot me faz feliz, de um jeito que eu nunca senti antes. Nenhum homem me olhou do jeito que ele me olha. Não que eu nunca tivesse me relacionado com alguém antes, mas não da mesma maneira que estou com ele. Eu me sinto completa. Oh, e pensar que Jaden nos viu... Deus!

Por que você tem tanta vergonha? Já te vi fazendo outras coisas com outros caras...

O homem loiro reaparece no canto do quarto. Seus olhos incrivelmente azuis me fitam, seu sorriso branco me envolve. Mas que merda é essa que ele faz comigo? Não se esqueça, Vanessa, que ele é um fantasma. Eu não devia sentir nada por ele, quer dizer, devia sentir raiva. Raiva por tudo que ele fez... Ou talvez medo. Sim, eu devia ter medo de fantasmas, mas algo me liga a ele, algo tão forte que não consigo entender... Minha cabeça começa a doer.

– Acho que estou ficando maluca. — Levanto, tentando voltar a raciocinar e abrindo a porta do armário. — Será que dá pra virar de lado? Eu quero mudar de roupa.

Ele me dá um sorriso e se vira. Visto rapidamente minha blusa e um short e volto a olhar para ele, que está olhando pra mim.

– Você se lembra de quando a gente brincava de boneca? — Ele se senta na cama. — Bem, nas vezes que você brincava, por que toda vez que eu pedia pra você vir, você corria para os braços da empregada, chorando.

– É claro! — Rio. — Eu era uma criança amedrontada por um fantasma. E eu ainda sou.

– Uma criança? — Ele pergunta, irônico.

– Não! Eu ainda sou amedrontada por um fantasma! — Exclamo, irritada.

– Você devia falar mais baixo. Seus vizinhos podem te escutar, mas a mim não.

Ele deita na minha cama bagunçada, continuando a me encarar e suspira, pega um lençol e se cobre. Olho duvidosa para ele.

– Os objetos não deviam atravessar seu corpo? — Pergunto. — Por que isso não acontece?

– Não, os objetos não, só quando eu quero. — Ele se senta, fixando suas íris azuis em mim. — Mas as pessoas sim. Quer dizer, nem sempre.

– Como assim? — Sento-me ao seu lado.

Eu sei, era pra eu fazer várias outras perguntas mais relevantes, do tipo "quando você vai embora?" ou "por que você falava tanto em cartas?", mas quando eu estou perto dele, olhando para ele, é como se eu esquecesse disso. Minha mente fica bloqueada quando converso com ele.

– Eu sou, na maioria das vezes, "atravessável", como você diz. Mas há uma maneira dos vivos poderem me tocar, ou vice-versa.

– E... Como isso é possível? — Indago, e ele sorri. Deus, que dentes brancos!

– Tão curiosa... Quer me tocar? — Ele pergunta malicioso. — Se você quiser...

– Não! Tocar um fantasma, isso é impossível! Sem falar que eu não quero isso! — Exclamo. — Eu só estou curiosa.

Ele ri e se levanta novamente.

– É preciso de uma... Permissão. Não precisa ser dita, basta querer. Mas os dois precisam querer.

– Por isso que minha mão te atravessou ontem? Por que você não queria que eu te tocasse?

– Eu não queria que você me desse um tapa, e isso é bem diferente. — Ele responde, andando pelo quarto. — Mas há outra questão que faz com que nós dois não possamos nos tocar.

Sento-me na poltrona. Ele suspira.

– Você precisa me ajudar antes de qualquer outro contato mais forte. Levou vinte anos para que eu pudesse aparecer pra você... Talvez leve uma eternidade para que eu possa tocá-la.

– Ah, entendi... Mas ajudar em quê? — Pergunto.

– Me ajudar a poder descansar em paz. — Ele senta no chão. — Há mais de vinte anos eu luto para conseguir descansar, atingir o paraíso. É tudo que eu mais quero na vida, quer dizer, na morte.

Olho para ele, que está encarando o chão. Por um momento eu sinto pena dele, tanta pena que a minha vontade é de abraçá-lo, mas sei que não posso.

– Como eu posso ajudar você?

– Você precisa encontrar a carta pra mim.

Olho para ele. Desde criança ele me pede para ir atrás dessa tal carta, mas nunca me deu detalhes. Será que hoje ele vai me explicar melhor sobre isso, e por que eu tenho que fazer isso para ele?

– Eu nunca entendi isso...

– Bem, eu não posso ir para o céu, paraíso, atingir o nirvana ou seja lá como queira chamar, até encontrar essa carta e entregá-la para Alice.

Alice?

– Quem é Alice? — Pergunto.

– Minha esposa. Quer dizer... Ela era minha esposa, quando eu era vivo.

Esposa? Ele nunca havia me dito que tinha uma, ou que teve. Eu nunca diria que Jaden poderia ser ou ter sido casado. Ele sempre me aparentou ser tão jovem... Bem, o tanto quanto um fantasma pode aparentar.

– Esposa... — Olho para ele. — Mas por que eu? Por que eu tenho que ajudar? Por que não outra pessoa?

Ele sorri, mas seus olhos mais parecem tristes, cansados... Mortos.

– Por que nossas almas, nossos espíritos... Estão conectados. Para sempre.