Connected Spirits

16 A história por outro ponto de vista


O ônibus então para em Garsdale. Pela janela, as únicas coisas que consigo ver são altos pinheiros encobertos por uma grossa névoa. Também vejo prados e um monte ao fundo. Aqui deve ser tão bonito no verão...

— Vamos, Vanessa. — Elliot me puxa, e então noto que todos já desceram do ônibus.

— Oh. Foi mal.

Pegamos nossas bagagens do compartimento superior e no bagageiro e vamos direto ao enorme ponto de táxis. E, quando eu falo isso, entenda que é bem pequeno. A maioria das pessoas vai a pé mesmo para seus destinos — sim, a cidade é pequena mesmo — e também há várias pessoas esperando por eles, então há taxistas de sobra. Chegamos perto de um deles e pedimos o serviço.

— Para onde? — Ele pergunta, e Elliot não se aguenta. Não bastava ele achar sotaque britânico engraçado, tinha que ser britânico e caipira.

— Gayle. — Respondo por ele.

— Não vão passar nem um pouquinho aqui em nossa cidade? — O taxista pergunta, dando a partida no carro. — É um lugar lindo. Na primavera, então, nem se fala.

— Algum dia, talvez. — Elliot finalmente para de rir. — Temos muita coisa a fazer.

— Oh. Mas não deixem de ir à estação de trem, visitar a estátua de Ruswarp.

Russup? — Eu pergunto. Realmente esse sotaque não ajuda.

— Sim, mas se escreve "warp". Já assistiram ao filme Sempre ao seu Lado?

— Já. — Eu e Elliot respondemos ao mesmo tempo. Por que ele mudou de assunto?

— Dizem que a história foi baseada numa do Japão, mas eu tenho lá minhas dúvidas. Ruswarp era um cão que sempre acompanhava seu dono, Graham Nuttall. Mas um dia Graham morreu, e Ruswarp sempre continuou indo para a estação de trem aonde seu dono ia todo dia com ele, para ir ao trabalho.

— Mas essa história é idêntica ao filme. — Elliot murmura.

— Pois sim. Em homenagem ao cão, foi criada uma estátua para ele. — Ele diz. — Bem, vale a pena ir lá.

— Iremos. — Eu termino rapidamente a conversa. Eu nunca fui fã de filmes com cães. Principalmente se eles morrem no final.

Depois de uns quinze minutos, chegamos à entrada de Gayle. Meu coração se acelera. Eu estou quase terminando isso tudo... Oh, Deus, ainda bem.

— Para onde exatamente, senhor?

— Rua Harker Hill, 559.

Oh, minha nossa... Ouço Jaden murmurar em meu ouvido. É mesmo a casa dela.

E por um momento coloco-me no lugar dele. Deve ser tão difícil voltar para a cidade onde você passou sua vida toda... Como será quando ele estiver no local da morte dele? Por que eu sei que vou precisar ir lá, de alguma maneira. Aquele pesadelo me deixou nos nervos.

Em menos de cinco minutos chegamos. As casas da cidade são tão parecidas que me fazem arrepiar. Como se uma única pessoa tivesse construído um condomínio, mas que na verdade é uma vila. Que estranho, parece um jogo de louças.

— Aqui estamos. Quinze libras.

— Uau. Barato. — Elliot entrega a quantia para o homem.

— Fiz um preço justo para que vocês voltem a minha cidade. Tenham um bom resto de dia!

Saímos do carro e ele faz o caminho de volta. Encaro a porta daquela casa. Não comento com Elliot, porém aquela porta era bastante parecida com a do meu mais recente pesadelo, a única diferença sendo a maçaneta, que era prateada nessa casa. Não me surpreendo, as casas são mesmo parecidas, mas a porta à minha frente me deixou sem palavras. Engulo em seco e olho para meu namorado.

— Devíamos ter ligado para avisar que estávamos chegando.

— Ela disse que não precisávamos nos preocupar com essas formalidades, era só bater na porta. — Ele anda até ela e bate três vezes. Esperamos cinco segundos e então ela nos recebe.

Anna, nossa anfitriã, tem a mesma altura que eu. Cabelos curtos e castanhos, olhos tão escuros quanto os de Elliot e pele clara. Ele disse que ela tinha uns quarenta anos, mas com certeza aparentava mais. Suas rugas de expressão já estão bem visíveis, mas ainda sim ela consegue ser uma mulher bonita. Então noto que ela tem uns tubos em seu nariz, acoplados em um carrinho com sei lá o quê.

— Vocês dois são Elliot White e Vanessa Miller, sim? — Ela sorri e assentimos. — Vamos, entrem.

Elliot olha para mim, dando um leve sorriso. Entro primeiro e ele vem logo depois.

— Não liguem para a bagunça, minha sobrinha não vem aqui faz dias, e desde quando o médico me proibiu de fazer qualquer esforço, não pude fazer muita coisa em casa.

A voz dela soa amargurada.

— Qual a doença da senhora? — Ouso perguntar.

— Oh, querida... Eu tenho câncer no diafragma. Não consigo mais respirar direito, por isso as máquinas. — Ela responde minha pergunta calmamente. — Eu sei que morrerei logo.

— Eu sinto muito mesmo, senhorita Hills. — Murmuro. Por que eu tive que perguntar?

— Não sinta! — Ela abre um largo sorriso. — Eu fiz um bolo para vocês. Não costumo receber visitas, mas depois que fui diagnosticada, faço questão de ter jovens perto de mim. É como se a alegria de vocês pudesse me renovar. Ficar um pouco alegre sabe? — Ela faz menção para nos sentarmos. — E não me chame de senhorita, por favor. Já estou velha demais.

— Obrigada por nos receber em sua casa. — Sou sincera.

Olho para Elliot, que encara a mulher com curiosidade. Ele sabia que ela era doente? Deus, se ela morrer enquanto estivermos nessa casa? Eu detesto ir para hospitais ou coisa assim, desde o acidente da minha mãe.

— Não há de quê. Então, o que fazem nesse fim de mundo? — Ela brinca.

— Passeio. — Elliot responde por mim. — Somos dos Estados Unidos e nosso sonho sempre foi conhecer o interior da Inglaterra, cidades pequenas. Nada como o ar puro do campo e das fazendas.

É incrível como Elliot consegue mentir bem.

— Oh, então vocês vão adorar Gayle! — Ela sorri. — Se eu pudesse, sairia com vocês e mostraria a cidade, mas não posso. Ordens médicas.

Eu quase sinto um pouco de compaixão, um pouco de pena daquela mulher, mas aí eu me lembro do que Jaden falou para mim. De como ela lhe agarrou bem em frente da esposa, aproveitando-se do fato dele estar bêbado. Ela destruiu o casamento, a vida dele. E talvez, se não fosse por ela, ele ainda estivesse vivo. Talvez ele estivesse com Alice, e eu talvez tivesse uma vida normal.

E então eu passo a detestar essa mulher.

— Nós também viemos em busca de familiares. — Digo, e Elliot olha para mim espantado. — Pode não parecer, mas acho tenho uns parentes aqui em Gayle.

Ela olha para mim. Tá, eu não sei mentir. Só de olhar para mim dá para se saber que não tenho parentesco nenhum com pessoas da pele clara e olhos azuis. Seria mais fácil se estivéssemos na Grécia ou coisa assim.

— Sério? — Ela parece cair na minha conversa. — Quem? Talvez eu possa lhe ajudar, conheço praticamente todos da cidade.

— O nome dele é... Matthew. — Respondo, lembrando-me do nome verdadeiro de Jaden. — Matthew...

Audreys.

— Matthew Audreys. — Digo, por fim. — Esse era o nome dele.

As mãos dela começam a tremer. Sua testa fica coberta por várias gotículas de suor, e ela as seca em um só movimento com o braço. Ela olha para mim.

— Eu conhecia um Matthew Audreys. Infelizmente ele morreu há muito tempo.

— Oh. — Finjo-me desapontada. — Que pena... O que aconteceu com ele?

Vany, você está indo longe demais. Jaden adverte-me.

— Ele foi assassinado. — Ela engole em seco. — Eu o conhecia. Éramos amigos, mas eu fiz um enorme erro para com ele.

Vejo ima lágrima descer por ser rosto.

— Eu o amava. Desde criança eu o amava. — Ela começa. — Mas ele nunca me viu da mesma maneira. E então ele se apaixonou por Alice, minha segunda melhor amiga.

Melhor amiga... Patética. Ela sempre detestou Alice.

— Eu tive tanta, mas tanta raiva deles, que fiz de tudo para separá-los. E eu consegui. Eu o forcei a me beijar, e sei que, lá no fundo, ele gostou. Mas eu só tinha feito isso para que Alice visse e se separasse dele.

— Oh, minha nossa... — Sussurro.

— Me desculpe. — Ela continua. — Eles se separaram, mas Matthew não quis saber de mim. Foi inútil. E então...

— Então? — Elliot pergunta.

— Ele foi assassinado bem em frente ao portãozinho da casa dela. — A voz de Anna falha. — Acho que ele ia pedir perdão a ela, mas não conseguiu.

Sinto uma pontada no coração. Oh, Deus... Ele não merecia isso. Jaden não merecia isso, de maneira nenhuma.

— Até hoje eu me culpo pela morte dele. — Ela guarda o bolo, fungando o nariz. — Se eu não tivesse o agarrado, ele ainda estaria com Alice, vivo. E às vezes eu penso que esse tumor foi um castigo, uma penitência que Deus me mandou por ter separado aquelas almas gêmeas. Nunca encontrei ninguém. Vi meus irmãos casando, tendo filhos, e eu sobrei. Agora sou só a doente que dá despesas a família.

Eu consigo sentir o arrependimento na voz, nos atos dela.

— Senhora Hills — Elliot começa. — Você sabe como podemos fazer para falar com Alice? Talvez ela saiba algo sobre parentes de Matthew, que possa nos ajudar a esclarecer algumas coisas...

Ela dá um sorriso fraco, e mais uma lágrima escorre por seu rosto.

— Infelizmente não vai ser possível. — Ela suspira. — Alice morreu de depressão dois anos depois de Matthew.

Notas finais
É sério, eu sou movida por reviews. Como vou saber se vocês estão gostando ou não?