Notas iniciais
Voltamos~~ Considerem esse lindo capítulo gigantesco como um pedido de desculpas pelo atraso, nos esforçamos ao máximo para suprir as expectativas de vocês – que estão acompanhando a história e comentando. Boa leitura ♥

POV Yoongi

Algumas comemorações na empresa eram tão pragmáticas que chegavam a ser indispensáveis, quase sagradas — pelo menos para Yang Hyun Suk. A confraternização de fim de ano era uma delas. O fundador da YG Entertainment não perderia a oportunidade de ostentar o poderoso corpo de funcionários à luz das câmeras dos maiores sites e canais de entretenimento da Ásia.

Ainda que a finalidade da cerimônia fosse meramente exibicionista, era uma boa oportunidade para fortalecer as parcerias e propor novas alianças. E a minha manager, Yeri noona, sabia muito bem disso.

Ela não tardou em oferecer drinks para dois dos principais produtores da empresa na nossa mesa, e foi assim que conseguimos os convencer a produzir o meu próximo álbum.

— São letras boas, Sugashi, embora eu ache que algumas estão um pouco diferente do seu estilo. Fez isso intencionalmente? — perguntou o produtor Kimura.

Assenti, pousando a taça de champanhe na mesa.

— Veja bem, acredito que o ano que vem é um ano de mudanças, e isso envolve a música também. Estou apostando nesse novo estilo, e acredito que o público alvo vai se interessar. Além de que a faixa principal e boa parte do álbum estão no meu estilo tradicional, as outras que estão um pouco mais... maduras. Pretendo inovar, mas sem abrir mão da minha identidade.

O produtor Kwon bateu palmas, excitado.

— Perfeito! Está mais do que na hora de uma inovação nas rádios, não aguento mais as mesmas músicas cheias de efeitos sonoros que acabam deformando toda a voz do artista. E é melhor mesmo que seja dessa forma gradual; grandes mudanças, quando incompreendidas, são temidas e repudiadas. — Ele jogou a alça do seu cachecol azul por de trás do ombro. — Você tem o meu número. Estarei esperando pela sua ligação amanhã.

Concordei, satisfeito. O avanço com as músicas de Nami se deu de forma muito rápida. Ela gravara mais de nove músicas em poucas semanas de trabalho. Não eram nada como o meu estilo musical usual; suas composições eram compostas em sua maioria só pela voz acompanhada pelo violão e às vezes por um piano.

De qualquer jeito, eu não precisava da melodia; as letras que importavam. Fiz as modificações necessárias para deixá-las mais próximas das minhas composições e as encaixei num ritmo de rap. Yeri noona mal pode acreditar quando mostrei as novas músicas.

O curioso foi que, depois disso, o maldito bloqueio decidiu me dar uma trégua; foi mais uma coincidência do que inspiração, na verdade. Estava mexendo em umas pastas relativamente recentes nos arquivos do meu computador e experimentei reunir parte das músicas inacabadas e mal escritas. Em quase quatro noites, as transformei num trabalho decente.

Das oito músicas do álbum, cinco eram verdadeiramente minhas e somente três eram as que “peguei emprestado” de Nami. Se o maldito bloqueio finalmente acabasse, talvez eu não precisasse mais correr riscos e estender o plano com Nami. Não haveria mais necessidade.

— Devo dizer que também estou interessado em patrociná-lo, Sugassi — o produtor Kimura bebeu um gole da sua bebida, sorrindo sutilmente. — Acredito que será ótimo trabalhar com você, meu rapaz.

Isso. Não que eu precisasse do apoio financeiro, mas o peso do nome daqueles dois em especial traria bastante prestígio ao álbum.

— Que sorte a minha! — o produtor Kwon sorriu. — Nossa parceria será memorável, de fato.

— Sortudo é o velho Hyun Suk — ele deu de ombros, acenando para que o garçom enchesse seu copo novamente —, que tem dois rappers de peso na mesma empresa. As ações da YG vão subir, com certeza. Fiz bem em não vender as minhas.

— Mas é obvio. Entretenimento nunca rendeu tanto dinheiro quanto hoje — o produtor Kwon riu, cobrindo a boca com a mão. — A juventude se espelha nos idols com a pele perfeita e os cabelos sedosos e esquece que os heróis de verdade são os anônimos. Uma pena, mas piedade não enche o bolso.

— Estou sóbrio demais para entrar nesse assunto — o produtor Kimura bufou. — Estou a três meses tentando me livrar de um processo porque as propagandas dos meus produtos ‘’instigam a padronização da beleza em um objetivo inatingível’’, acredita? Os donos da ONG que me processaram devem ser feios.

— E você vende que produtos?

— Eu financio idols. É a mesma coisa. — Deu de ombros. — De qualquer forma, foi um prazer conversar com você, Sugassi.

O produtor Kim concordou com a cabeça.

— Sim, esperarei ansiosamente pela sua ligação de amanhã.

— Digo o mesmo sobre os senhores. — Apertamos as mãos antes deles se levantarem para sair.

— Agradeço a atenção e perdoe-nos o incômodo — Yeri noona, que permanecera calada a meu pedido até então, completou, curvando-se brevemente.

Os produtores despediram-se e voltaram para a festa. Franzi a testa, não acreditando que a YG tem sobrevivido até hoje às custas de trintões fanfarrãos.

— A falta da fama te deixou mais esforçado, não foi? — Noona comentou.

— Nada se compara ao prazer de estar no palco. Quero voltar o mais rápido possível.

Ela bagunçou meu cabelo, sorrindo gentilmente.

— Sabia que só precisava de uma pressãozinha pra voltar a ser o incrível compositor de antigamente. O último ano pode não ter sido fácil, mas estou certa que vamos superá-los.

Dei de ombros.

— Isso foi mais fácil do que eu pensei que seria.

— É claro; eles estão putos com o produtor Chan — ela explicou, mexendo no celular. — No início, ele foi o único que ofereceu apoio financeiro a Kim Namjoon; agora o cara está rendendo rios de dinheiro. Os outros produtores estão procurando alguém pra lucrar também. Você é a aposta mais certa, e eles sabem disso.

— Hum.

— Ah, Yoongi. Nem vem com essa cara. Não posso nem dizer o nome do cara que ‘cê fica todo emburradinho. Rap Monster é um sucesso, mas você também é. Supera.

— Só quando eu voltar ao topo da Billboard.

— Esse é o espírito.

Senti uma mão apertar meu ombro, seguida de uma exclamação:

— Daisuke Kimura e Shin Tae Kwon de uma só vez?! — Mino puxou uma cadeira e sentou-se conosco — Diga-me o que você fez para conseguir a parceria deles, vou tentar também.

— Batizei a bebida dos dois e coloquei um decote na frente deles.

Noona deu um tapa estalado no meu ombro, e Mino gargalhou.

— Está muito engraçadinho para o meu gosto, não acha? — Ela balançou a cabeça negativamente quando murmurei um Não e colocou sua bolsa sobre o ombro. — Eu já vou indo.

— Você não está zangada, está? Foi só uma brincadeira-

Ela fez que não com a cabeça.

— Se realmente tivermos um comeback pela frente, tenho que reorganizar a equipe o quanto antes. Divirtam-se. — Ela parou e apontou para nós dois, séria. — E juízo, hein? Não quero vê-los metidos em escândalos. Se apostarem as suas roupas de novo em algum jogo ridículo, vão ficar pelados até alguém sentir pena, porque eu não venho buscar.

— Tudo bem, mãe.

Yeri apertou minha bochecha antes de caminhar em direção à saída. Um garçom passou com uma bandeja repleta de drinks, e eu descartei minha taça de champanhe e pedi um copo de uísque.

— Ah, cara. Quem dera eu tivesse uma manager dessas. Vocês dois nunca...? — Ele arqueou a sobrancelha sugestivamente.

Fiz uma careta, franzindo as sobrancelhas.

— Você sabe que nós dois somos parentes.

— E daí? Entre primos não conta.

— Claro que conta. E ela é a minha única família — dei de ombros. — Yeri noona era a minha única companhia na casa dos meus tios. — O garçom colocou minha bebida na mesa, e eu acenei com a cabeça. — Eu não poria nosso relacionamento em risco. Não seria certo.

— E desde quando você se importa com o que é certo?

Dei de ombros, dando um gole no uísque.

— Existem situações nas quais a gente simplesmente não pode perder a moral — falei.

Ele assentiu, pegando seu celular e abrindo nas notas.

— Se importa se eu pegar essa frase? Pode vir a calhar em alguma música.

— Quero meu nome na dedicatória — sorri.

Tomei outro gole e suspirei, girando o copo e observando o líquido balançar. A conversa morreu ali. Mino e eu já fomos grandes amigos, nos metendo em encrenca juntos e fugindo de compromissos tediosos para virar a noite nos clubes de Gangnam. Poderíamos ter sido o mais icônico dinamic duo do hip hop coreano, mas, de uns tempos para cá, nos tornamos apenas colegas de trabalho. Não me surpreendia que a conversa tivesse morrido tão rápido.

— A festa está um pouco parada, não acha? — Mino suspirou.

Dei de ombros.

— Quando foi que uma festa promovida pela YG foi boa?

— As de antigamente eram, ou, pelo menos, a maioria. Não se lembra dos velhos tempos?

Claro que eu lembrava. Éramos impulsivos, irresponsáveis, fazíamos o que queríamos por pura diversão, desde fugir da empresa para comprar comida até causar escândalos em níveis internacionais. Nenhum de nós se preocupava com as consequências, agíamos como se elas não existissem.

E, bem. Eu estava respondendo por isso agora.

— Muita coisa na YG mudou. Ainda bem que mudaram o treinamento dos trainees. Imagina como seria se eles fossem tratados como a gente era? Essa empresa seria um zoológico.

— Que isso — ele riu. — Nós fomos experimentos bem sucedidos, não fomos?

— É diferente. Nós dois tínhamos talento e sorte.

— E o que mais um trainee precisa pra debutar?

— Patrocínio.

— Bem, a meu ver esses trainees são muito disciplinados. Sofrem mais do que precisam.

— Não estou dizendo que concordo, mas taxa de desistência só anda aumentando.

Mino suspirou. Passamos um tempo em silêncio, nos lembrando dos velhos tempos, até que ele direcionou o olhar para uma mesa próxima do bar, onde três meninas estavam sentadas. Seu rosto pareceu se iluminar.

— Sabe o porquê de as festas de antigamente serem melhores? — começou. — Porque nós sabíamos que iríamos encontrar os idols nelas. Agora a gente já conhece todo mundo que queríamos conhecer desta empresa, então não tem mais tanta graça. Mas, se você pensar assim, as trainees de hoje estão animadas para nos conhecer.

Ele levantou a sobrancelha sugestivamente, apontando com a cabeça para a mesa com as três garotas.

— O que me diz? Estou de olho na de vestido vermelho desde que cheguei.

A menina era bonita; cabelo liso preto preso num coque no alto da cabeça. Conversava sua amiga que estava de costas para nós, com um vestido de renda branco. A de vestido azul marinho abafava com a mão um bocejo, e aparentava mal ter completado dezesseis anos.

— Elas parecem ser bem novas.

— As trainees estão cada vez mais novas. — Deu de ombros.

Mino as encarou por um tempo, esperando que elas reparassem — A reação delas premeditaria as ações dele a seguir. Por um momento, desejei que elas não olhassem. Nada havia nelas que me interessasse, aquelas trainees que pareciam novas demais para estarem ali. Olhei ao redor, procurando alguém que chamasse minha atenção, mas estávamos no andar de baixo; a maioria do pessoal ali era trainee, e eles eram todos muito jovens. Ou talvez eu que me sentisse um velho.

Em pouco tempo, a de vestido azul percebeu o olhar de Mino, e cutucou a de vestido vermelho. Elas corresponderam a atenção, trocando risinhos e cochichando uma à outra. A que estava de costas virou-se rapidamente para conferir de que as outras estavam rindo. E, então, imediatamente após nossos olhos se encontrarem, ela desviou o olhar.

Arqueei a sobrancelha em surpresa, percebendo que a garota não somente era Kim Nami, como que seus cabelos, antes longos e pretos, agora estavam na altura do pescoço e tingidos de castanho claro, quase loiros.

— Acha que pode arranjar algum problema? — Mino perguntou.

Tomei o restante da bebida em um só gole e levantei-me da cadeira. Já fazia algum tempo que eu não a perturbava. Poderia ser uma boa ideia.

— Arranjar problemas nunca te preocupou antes — abri um sorriso.

POV Nami

Diferentemente das comemorações anteriores, os trainees foram convidados para as festas de fim de ano da YG. Nós geralmente éramos excluídos das confraternizações da empresa, por isso estranhei quando deixaram comunicados e vestidos no nosso dormitório e exigiram a nossa presença. Pela urgência da convocação, pareceu ter sido uma escolha feita em última hora, isto é, de nos convidar. Pensei que algo importante fosse acontecer ou que fôssemos participar de algum programa ou performance, mas assim que cheguei lá percebi que a função dos trainees naquela festa era fazer com que ela enchesse de gente. Fora nós, o resto dos convidados pertencia ao corpo de funcionários, acionistas e patrocinadores da empresa. E só eles não formariam um público satisfatório.

Como eu era a mais velha do meu dormitório, a regra era a de que eu ficaria responsável pelas outras meninas; teria que prestar atenção e trazê-las de volta antes do toque de recolher às onze da noite. O toque era uma obrigação legal para menores de idade — como uma maneira de comprovar que os trainees tinham uma quantidade saudável de horas de sono — mas a maioria dos inspetores aplicava essa regra para qualquer um que usasse os dormitórios.

Éramos três: eu; Mei, a trainee chinesa; e Sara, a mais nova. Sentamos longe do palco, onde um palestrante era ignorado enquanto dava seu discurso desnecessário sobre as metas da empresa para o ano que se seguia. Na verdade ainda era dia 20 de dezembro, mas como os idols ficavam todos bastante ocupados durante aquela época, a confraternização era realizada sempre mais cedo.

Ficamos sentadas a mesa, conversando eventualmente sobre qualquer coisa aleatória que acontecia e desviando de cantadas de bêbados inconvenientes. Estava tudo um tédio, até que Mei chamou a nossa atenção, apontando com a cabeça para uma mesa trás de mim.

— Ok. Olhem discretamente e me confirmem se Mino está realmente olhando pra cá — sussurrou — ou eu estou sendo uma trouxa iludida.

Não virei a cabeça imediatamente, pois a direção que ela apontava era bem atrás de mim. Eu teria que virar o pescoço todo, e ele com certeza perceberia – isto é, se estivesse mesmo olhando.

— Está sim, e é pra você, unnie — Sara cochichou, abrindo um sorrisinho.

Virei a cabeça, praguejando logo em seguida. Suga estava ali; eu havia o percebido antes, de olho nele desde que o vira descendo as escadas, embaraçosamente esperançosa de que talvez estivesse a minha procura — por que outro motivo ele estaria no andar dos trainees, afinal? —, só para eu virar a cara e o ignorar que nem ele havia feito comigo nas últimas semanas. Mas, não, além de não ter notado a minha presença, estivera ocupado conversando com dois caras com ternos caríssimos e mesmo assim nenhum charme.

— Será que ele está interessado em mim? Porque eu estou super interessada nele — Mei puxou o sutiã discretamente para cima, como se aquilo fosse milagrosamente transformar as azeitonas em limões.

— Não olhem agora, mas o Suga está fazendo uma cara bem sugestiva — Sara se abanou com a mão. — Chega o açúcar derrete.

Fiz uma careta.

— Não os encarem de volta — cochichei —, pode ser que venham pra cá.

— E essa não é a intenção? — Sara perguntou, ainda olhando na direção atrás de mim.

— Ele tem vinte e três anos — Mei franziu os lábios para ela.

— E daí?

— Você tem quatorze — a lembrei.

Ela deu de ombros.

— Pareço mais velha.

— Quatorze anos.

— Devo ter mais experiência com homens que você — ela fez um muxoxo, como normalmente fazia quando eu a contrariava.

— Olha, isso agora foi rude.

Ela deu de ombros, mas eu sabia que tinha se arrependido das palavras logo após tê-las proferido.

— Eles estão vindo para cá — Mei informou discretamente, sem mexer a boca.

Revirei os olhos e desviei o olhar, fingindo que o lustre de cristal que pendia da cobertura abobadada era interessantíssimo.

— Olá, meninas — Mino nos cumprimentou, sua voz risonha.

Sara deu uma risadinha e Mei o cumprimentou de volta. Suspirei baixinho, ainda sem olhar para eles.

— Como vai, Namiah?

As meninas arquejaram em surpresa quando Suga se dirigiu a mim. Revirei os olhos pela enésima vez naquela noite.

— Vocês se conhecem? — Mino perguntou, as sobrancelhas arqueadas, me estudando melhor. Ele não havia realmente dado atenção a minha presença desinteressante ali do lado da menina que ele estava secando.

— Nã-

— Sim. — Suga respondeu, o sorriso maroto. — Estudamos juntos na Shinhwa, não é mesmo?

Eu nem pisquei antes de discordar.

— Juntos não seria o termo adequado. Você faz Música, e eu, Biologia. E nossos turnos são diferentes.

— Já vi você antes. — Mino semicerrou os olhos.

— Claro que já viu. Eu trabalho aqui.

Ele ficou alguns segundos em silêncio – e por um momento eu pensei que o tivesse ofendido com a minha cortada – até que arregalou os olhos e apontou para mim.

— Ah! — estalou os dedos, de repente. — Você é que a garota que cantou com o Rap Monster. Um idol e uma trainee, que performance inédita. O que fizeram para a YG permitir uma colaboração daquele tipo?

— Ela estava substituindo a Dara. — Sara respondeu prontamente com a voz falhada.

Ela estava tentando ser prestativa, percebi. Queria agradar os dois, nervosa. Mino franziu a sobrancelha, sem destiná-la o olhar.

— Dara estava doente e não pôde se apresentar — justifiquei.

— Doente? — ele parecia confuso. — Aquela festa foi em outubro, não foi? A Dara estava em Las Vegas, se não me engano. Você lembra, Yoongi? Ela até nos chamou pra lá.

Baixei os olhos para os meus anéis, tentando disfarçar o nervosismo que aflorou na minha nuca. Com o canto do olho, percebi quando Suga deu de ombros, sentindo seu olhar sobre meu rosto.

— Achei que não valesse a pena comentar.

— Que estranho. Nem sabia que Dara e Rap Monster eram próximos assim.

— Eles não são — disse Suga, com a voz aveludada.

Mino deu de ombros, esquecendo o assunto, e puxou uma cadeira vazia da mesa ao lado para próximo da nossa.

— Importam-se se sentarmos aqui? — perguntou com um sorriso galanteador.

— Talvez não valha a pena — franzi o cenho, numa tentativa de dissuadi-lo —, vamos ter que ir embora daqui a pouco.

— Ah, unnie! — reclamou Sara. — Ainda temos quase uma hora antes do toque de recolher.

Suga pousou seu copo na nossa mesa.

— Sendo assim...

Sentou-se na cadeira que Mino havia puxado para si mesmo, entre eu e Mei. A mão de Sara faltou esmagar a minha, por de baixo da mesa. O outro idol bufou e puxou outra cadeira, sentando-se de frente para mim, entre as outras duas.

— Querem beber alguma coisa? — ofereceu. — Fica por nossa conta.

O rosto de Sara se iluminou.

— Qualquer coisa que não tenha álcool — sugeri.

Ela me fuzilou com o olhar, indignada.

— Você é menor de idade. — Dei de ombros.

— Qual o problema? — Mino riu. — Quem nunca bebeu antes do tempo, não é mesmo? E não me digam que vocês seguem essa regra estúpida de que trainee não pode beber.

— A gente nunca sabe quando os managers irão fazer os testes de bafômetro — Mei sorriu amarelo.

Suga e Mino se entreolharam, sorrindo de algo que parecia ser alguma piada interna.

— Sei que não irão fazer amanhã, senão mais da metade da empresa já era — apontou para trás com a cabeça. — Seus companheiros não parecem muito sóbrios.

E, bem, ele tinha razão; os trainees não estavam recebendo bronca por estarem bebendo, alguns até conversando com seus superiores com copos na mão. A pista de dança ainda estava vazia; a música só iria começar após o discurso interminável daquele cara acabar. O barman não parecia estar checando quem era trainee, tampouco. Mas, bem; provavelmente só eu que não podia arriscar dar mais um motivo para os managers quererem repensar meu contrato, seja bebendo ou deixando minhas dongsaengs beberem.

Mino brandiu seu copo.

— O que preferem? Soju? Vodca? Algum drink especial?

Mei e Sara olharam para mim, esperançosas.

— Água, por favor — insisti.

Mei suspirou decepcionada e Sara bufou, irritada.

— Namiah, não seja chata — Suga cutucou o meu braço. — A melhor parte das regras é poder quebrá-las.

Sara riu alto demais, e então parou abruptamente – como que percebendo a altura exagerada da sua risada.

— Fácil falar quando não é você quem vai receber a punição — fiz um muxoxo irônico.

— Ela é a mais velha do dormitório — Mei explicou. — É responsável por nós duas, então — deu de ombros, como que se desculpando.

— Suga também era o hyung mais velho e ele deixava a gente se divertir — Mino falou, rindo para o amigo.

— Suga é um exemplo de responsabilidade, não é mesmo? — murmurei.

Sara abriu a boca para defendê-lo, mas o que eu disse fez os dois rirem, e eu me incomodei – não era minha intenção entretê-los.

Um garçom passou pela nossa mesa e Mino o parou, avaliando as bebidas na bandeja. Pegou cinco taças com bebidas coloridas em um dégradé de vermelho, laranja e amarelo, e as colocou no centro da mesa.

— Tecnicamente, eu sou mais velho que vocês três, e estou dando permissão para beberem. Não se preocupem, não é forte.

Sara e Mei pegaram suas bebidas – a mais velha hesitante – e olharam para mim, esperançosas. Suspirei, fechando os olhos, e assenti com a cabeça.

Quando abri os olhos novamente, a taça de Sara estava pela metade, descansando na mesa, e Mei ainda bebericava sua bebida. Lancei um olhar enfurecido para Suga, soprando um vão embora; ele respondeu com um sorriso, murmurando um ''oops’’.

— É doce! — Mei sorriu. — O gosto é ótimo.

— Quer mais? — Mino ofereceu, inocentemente até demais. — Podemos pegar no bar.

Ela concordou, e então hesitou – olhando na minha direção com o canto do olho. Eu sabia no que estava pensando; ela e Mei haviam me prometido que ficariam perto de mim durante a festa, para que nenhum desastre como o da última vez acontecesse; perdemos o toque de recolher porque Sara não estivera onde dissera que estaria quando nós fomos a procurar.

Mino seguiu o seu olhar na minha direção, levantando a sobrancelha, confuso. Bem, ele provavelmente não era acostumado a ter que dar satisfação a ninguém.

Franzi os lábios, sentindo o olhar de todos em mim, e assenti para Mei, embora insatisfeita.

— Volte antes do toque de recolher — a lembrei com a voz incerta, quando Mino ofereceu a mão para ajuda-la a se levantar.

Mei assentiu brevemente, embora não tivesse certeza se me escutara; a música havia começado a tocar – uma espécie de indie rock, alta o suficiente para ter que levantar a voz para sermos ouvidos.

Mino sorriu maliciosamente para Suga – uma troca rápida – e, quando ele percebeu que eu vi, piscou o olho para mim, sugestivo. Franzi os lábios quando se virou, uma mão nas costas de Mei.

— Alguém vai ter muito pra falar hoje à noite — Sara deu uma risadinha, apontando para a amiga com a cabeça.

Sorri fraquinho quando ela olhou para mim, concordando.

— Não é óbvio o que vai acontecer? — Suga chamou o garçom com um levantar de mãos gracioso, e ele lhe serviu um copo de uísque.

— Que eles vão se pegar? — Sara respondeu; eu podia ver como ela estava se controlando para manter aquela conversa, surpresa e animada a cada palavra proferida pelo idol.

Olhei pesarosa para ela, percebendo que seu tique nervoso estava a tona; ela enrolava um cacho do cabelo nos dedos quando ficava agitada.

— E vocês vão passar a noite falando sobre o quê? Não é só ela confirmar se rolou ou não?

Sara abriu a boca para responder, mas hesitou, e então olhou para mim, em pânico. Revirei os olhos, mas respondi a pergunta por ela, tomando a atenção de Suga.

— Não é bem assim que funciona no dormitório feminino — tinha certo desdém na minha voz, já que eu estava irritada por ter que falar com ele, o oposto do tratamento de silêncio que eu tinha planejado na minha cabeça. — Toda vez que alguma trainee beija um idol, as garotas fazem uma reunião e discutem os detalhes. É meio que tradição, então a garota não tem escolha.

Ele arqueou as sobrancelhas, pasmo.

— Que horror. — Sacodiu a cabeça.

— Anda pegando muitas trainees por aí, oppa? — Sara deu uma risadinha tímida.

Eu pude ver gotas de suor na sua face, de nervosismo.

— Bem, vocês duas saberiam, não? — Ele fez uma careta.

Ela assentiu com a cabeça e a careta dele se aprofundou.

— Não se preocupe — a voz dela estava falhada da tão nervosa —, a sua fama é ótima.

Ele arqueou as sobrancelhas, curiosidade agora estampada no rosto.

— Sara — repreendi.

— Sim? — ela pulou na cadeira, ouvindo seu nome, seus olhos saltando de mim para Suga.

— Tudo que as garotas dizem lá é segredo — murmurei.

Suga olhou de mim para ela, pendendo a cabeça para o lado. Tinha um o início de um sorriso nos lábios, e seus olhos estavam abertos de uma maneira que eu sabia que fazia quando estava intrigado.

— O que elas falam sobre mim?

Franzi os lábios.

— O que é dito lá fica lá.

— O que é dito aqui também fica aqui — ele tentou.

Fiz que não com a cabeça.

Ele se virou para Sara, inclinando-se sobre a mesa.

— Você vai me contar?

Ela abriu a boca e a fechou imediatamente, olhando dele para mim, e então lágrimas vieram aos seus olhos. Yoongi imediatamente distanciou-se na direção do encosto da cadeira, como que a dando espaço. Sara olhou para mim, em pânico, com um sorriso forçado nos lábios. Ela estava nervosa, e – como fora para mim no início – não sabia bem como se portar perto de um idol. Além de ter apenas 14 anos. Por trás de toda a revolta adolescente, ela ainda não se sentia em casa naquele ambiente estranho, e Suga a estava fazendo surtar.

E, bem. Eu conhecia Sara. Ela dividia dormitório comigo há meses; sabia que ela tinha as habilidades perfeitas para uma idol. Seu único atributo que a colocara sob observação pelos professores era sua instabilidade emocional. Quando se sentia desconfortável ou sob pressão, ela chorava. Estivera recebendo acompanhamento psicológico para trabalhar aquilo, uma característica perfeitamente normal em uma pessoa, porém abominável numa empresa de idols, e nunca mais tivera nenhum breakdown. Não podíamos deixar os managers ali presentes na festa a verem chorar; iriam rebaixar sua posição.

Estendi o braço para pegar sua mão e olhei ao redor.

— Querida, por que você não se senta ali com as meninas do 9? — Apontei com a outra mão para uma mesa ali perto.

Com o canto do olho, percebi quando Suga se abaixou para amarrar seus sapatos. Notei – com um quê de agradecimento – que seus sapatos não tinham cadarços.

Ela assentiu.

— Me ligue qualquer coisa — Falei, apertando a sua mão.

Ela se levantou rapidamente, limpando uma lágrima, e saiu sem dizer uma palavra.

Só relaxei quando a observei sentar-se a mesa com rostos conhecidos das nossas vizinhas no dormitório. Ela acenou para mim e mostrou o dedão, mostrando que estava tudo bem. Sorri, reconfortando-a.

Olhei feio para Suga.

— Vez ou outra isso acontece. — Expliquei, observando-o dar de ombros.

Franzi o lábio.

— Ela é trainee? Parece um feto. Tão jovem.

Não respondi, pegando meu celular para checar as horas.

— Ela nunca vai conseguir lidar com a pressão de ser um idol, se nem consegue conversar comigo — continuou.

— Você está se importando demais para alguém que não está nem aí para trainees.

— Posso não me importar, mas você sim. Quase debutou uma vez; sabe como é o teste psicológico, não sabe? Acha que ela passaria?

Franzi o cenho, pois a resposta era não. A série de perguntas durante aquele teste faria qualquer um pensar duas vezes se realmente queria ou não aquele estilo de vida, mesmo após tanto tempo e esforço investido durante o treinamento.

— Ela ainda tem muito tempo para se preocupar com isso — respondi.

Ele riu, seco.

— Você mais que ninguém sabe como trainee não tem tempo pra-

— Acho melhor eu ir — o interrompi, guardando o celular na bolsa. — Não queremos causar nenhum mal entendido sentando juntos, certo?

Ele piscou, surpreso, e fez que não com a cabeça.

— Os fotógrafos daqui trabalham pro YG, então não vão publicar nenhuma foto que prejudique a minha imagem.

— Mesmo assim, eu não acho-

— Não se preocupe — abanou a mão no ar —, não vamos ser-

— O quê você quer? — exclamei, surpreendendo-o.

Ele hesitou.

— Conversar? — sua voz estava cuidadosa. — É normal que pessoas se falem em festas, não acha? Uma ótima oportunidade para estreitar as nossas relações profissionais.

— Se estivesse preocupado com as nossas “relações profissionais” teria ido até o estúdio — falei, verbalizando a minha mágoa. — Você disse que seria meu produtor, mas não me auxiliou nenhuma vez até agora.

— Você está precisando de algum auxílio? — ele soou incerto, até surpreso.

Hesitei.

— Bem, não. Não sei. Mas, como é que eu vou saber?! — exclamei. — Posso estar fazendo tudo errado, mas nunca vou saber se ninguém me contar.

Ele analisou meu rosto atentamente.

Semicerrei os olhos, ansiosa pela sua desculpa. Quando Suga me levou até o estúdio pela primeira vez, achei que algo fosse mudar. Mas, fora o equipamento novo para compor, tudo continuara o mesmo. Depois do segundo dia de gravação, ele literalmente sumiu; não apareceu na Shinhwa e nem na empresa. Pelo menos, duas vezes por semana, Lee Shin (o engenheiro acústico que ele contratara) vinha para me auxiliar com algum equipamento e para me ajudar a compor a instrumentação. Agora, o Suga? Ele mesmo vinha sendo um completo inútil, e eu queria – precisava — que ao menos demonstrasse algum comprometimento.

— Eu acho — ele começou — que você se acostumou com o tratamento da YG. Eu lembro como eram as aulas; embora você esteja fazendo tudo da maneira que eles disseram para você fazer, vão sempre encontrar um erro para apontar. Eu, por outro lado, sou diferente.

— Percebi. Muito estratégico isso de jogar tudo nas mãos de Deus.

Ele negou com a cabeça.

— Você está confundindo com descaso a sua liberdade de criação. Pensei que fosse isso que quisesse. Compor suas próprias músicas sem ninguém pra te influenciar.

Fiz uma carranca, percebendo o sentido em suas palavras. Eu não queria perdoa-lo, mas não lembrava mais com tanta clareza os argumentos que tanto martelaram na minha cabeça naqueles últimos dias de mágoas.

— Eu preciso saber que você está sério nisso — funguei. — Esse... projeto vai mudar toda a minha vida.

Lentamente, ele assentiu com a cabeça.

— Se você quiser que eu apareça lá no estúdio, eu vou.

Concordei, um tanto apreensiva depois de ter jogado tudo pra fora.

— Não precisa ser todo dia, só... De vez em quando.

— Uma vez por semana? — ofereceu.

— Que tal segunda?

— Odeio segundas — ele fez uma carranca.

— Terças?

— Também não gosto de terça.

— Bem, tem algum dia da semana que você gosta?

Ele abriu um pequeno sorriso, e eu sorri de volta como que por reflexo.

— Sábados. À noite, de preferência.

Fiquei em silêncio, esperando.

— Segunda, então — concluiu. — Aí eu tenho o resto da semana livre pra não me preocupar.

Concordei.

Bem, menos uma coisa para me incomodar. Com aquele tópico resolvido, caímos em um silêncio, ou tão silêncio quanto conseguiríamos, estando em uma boate.

Um garçom passou e eu acenei para que recolhesse todas as taças na mesa, agradecendo em seguida. Procurei não olhar para as outras mesas – os olhares sugestivos dos meus companheiros seriam demais para aguentar. Suspirei, sem saber direito para onde destinar o olhar.

Discretamente, olhei para Yoongi com o canto do olho, e nossos olhares se encontraram. Ele abriu a boca para dizer algo, então virei o rosto em sua direção. Imediatamente, abaixei o olhar para a minha bolsa, que tremia no meu colo.

Yoongi acenou para que eu atendesse, bebendo um gole de sua bebida.

— Mãe?

Sua voz não passava de sons indecifráveis por conta da música alta.

— Não estou te escutando. Espere, não desligue! Estou indo para um lugar com menos barulho.

Levantei da mesa, procurando aonde seria melhor ir. Suga cutucou meu braço e apontou para a esquerda, para uma porta de vidro que levava para uma espécie de varanda. Assenti, andando a passadas longas para lá.

Ao fechar a porta, o ar frio me atingiu com força total — Afinal, era inverno. A música e o barulho das pessoas lá de dentro se tornou um ruído abafado, mas ainda assim dificultava o som da ligação. Havia uma escadinha de incêndio que levava para o andar de cima, e eu me perguntei se deveria subir – seria melhor para escutar a ligação? Subi lentamente, por causa do salto agulha que entrava nos furinhos dos degraus. Quando cheguei na plataforma entre os dois andares, coloquei o celular de volta na orelha.

— Pode falar, mãe.

— Namiah? — a voz dela estava hesitante, ansiosa. — Sabe há quanto tempo não escuto a sua voz? Por que você nunca liga para dar notícias? Nunca mais deu sinal de vida, eu fiquei preocupada.

— Desculpe. Eu estive ocupada. Eu ia-

— Tão ocupada que não pode fazer uma ligação? — pude perceber pela voz que ela estava ressentida, não que eu a culpasse, realmente. — Você está comendo bem? Está dormindo direito? Vi fotos suas no seu Instagram, parece tão magra!

Aquilo me fez rir.

— Então foi você quem curtiu todas as minhas fotos? Quem foi que te ensinou a usar o Instagram?

Aquilo pareceu tê-la acalmado um pouco, descontraindo seu tom para um menos perturbado.

— Hum, me respeita. Sou uma mulher atualizada, aprendi sozinha. Talvez seu irmão tenha me dado uma ou duas dicas, mas o grosso do negócio fui eu.

— Namjoon? Quando foi que você esteve com ele?

— Não mude de assunto. Você está bem? De verdade?

Hesitei. Talvez, por um momento de fraqueza, por estar ouvindo aquela voz materna familiar, eu tivesse negado. Mas, então, ela acrescentou:

— Sabe que pode sempre voltar para casa.

Meu momento de fraqueza foi abafado.

— Eu estou bem.

— Tem certeza?

— Você não precisa se preocupar.

Ficamos em silêncio. Não tinha nada de espetacular na minha vista – somente a parte de trás da empresa, o estacionamento deserto. A quietude só tornava tudo ainda mais frio.

— Sentimos tanto a sua falta, Namiah.

— Eu também sinto falta de vocês.

— Sei que quase não tem tempo, mas prometa que vai me ligar algumas vezes. Se não fosse pelo seu irmão, eu já teria me convencido que você havia morrido durante uma cirurgia plástica.

Uma risada masculina se fez ouvir pelo telefone.

— Não vai se livrar dela tão fácil, mãe — com um sobressalto, reconheci a voz de Namjoon. — Nami fugiu de todas as três cirurgias que marcaram.

— O quê diabos o Namjoon está fazendo aí? — perguntei. — Era para ele estar numa temporada de fanmeetings do outro lado da Coreia.

— Seu irmão é outro sem juízo. A equipe dele parou em Gimpo porque a rodovia para Seoul estava interditada por causa da neve. Acredita que ele pegou o carro e veio dirigindo até Ilsan? Poderia ter morrido e matado toda a equipe nesta tempestade.

— Bem, isso soa como algo que ele faria — falei. — Nem sei porquê estou surpresa.

— Seu pai viajou e eu estou sozinha em casa. Imagine o susto que tive quando abri a porta para três homens encapuzados.

— E duas mulheres — a voz dele soou ao fundo. — Eu não queria gastar dinheiro em um hotel.

— E o que diabos você faz com todo o seu dinheiro? — mamãe brigou. — Fica me dando presente caro que eu nunca vou usar, isso sim. Namiah, você acredita que ele colocou uma TV de 52 polegadas aqui?

— É pra você me ver quando eu aparecer em algum programa — Namjoon retrucou, sua voz mais perto do telefone que anteriormente. — Quero todo mundo aqui me mandando good vibes durante as entrevistas.

— Good vibes? — ela não pronunciou a palavra estrangeira direito. — Nem vem com esse negócio pra perto de mim.

— Significa vibrações positivas — ele explicou.

— Hum, eu sei o que significa. Sabe quem me explicou? O JuMin. E, sabe onde ele está agora? Internado num centro de reabilitação.

— O que diabos isso tem a ver?

— Mãe — chamei —, nossa casa em Ilsan é minúscula. Onde vocês colocaram essa televisão? E onde a equipe está dormindo?

— Na parte nova. Reformamos a casa no meio do ano passado, não lembra? Mandei fotos. Seu pai insistiu para não mexermos na parte original, então os quartos e a cozinha continuam os mesmos, mas agora temos cômodos novos! Os homens vão dormir na sala e as meninas estão no seu quarto.

— Mas no meu quarto só tem uma cama de solteiro minúscula, elas devem estar-

— Namiah! — mamãe gritou, me assustando. — Namjoon disse que vocês se encontraram com a Yuriah e a Jinheeah. Como elas estão?

— Ah, sim. Elas estão ótimas, eu acho.

— Como assim você acha? Elas estão chatas?

— Não. Elas são muito legais. E bonitas.

— Ownnn! — ela suspirou. — Vocês três eram tão fofinhas quando pequenas. Faziam tudo juntas.

— É.

— E aí? Vocês estão se encontrando ainda?

— Bem, elas estão sempre me convidando para almoçar com elas num restaurante de uma amiga, mas eu acabo nunca podendo. Já estou com vergonha por ter recusado tantas vezes.

— E por que você não vai?

— Estou muito ocupada com-

— Ah, pelo amor de Deus, Nami! — brigou. — Viva um pouco. Um almoço com as amigas é sempre bem-vindo. Você está desperdiçando a sua juventude.

— Olha, eu estou em uma boate agora. Isso não é jovem o suficiente pra você?

— Eu te conheço. Deve ser alguma coisa da empresa, não é? Olha só, o Namjoon acabou de dizer que sim. O quê? Comemorando o ano novo?! Mas, já? Ainda falta mais de uma semana. Gente doida. Enfim, filha, da próxima vez que elas te chamarem, você vai, está me ouvindo?

— Não é como se eu não quisesse, eu quero, mas a empresa-

— Está me ouvindo?

Bufei.

— Sim.

— E vai postar uma foto no Instagram das três juntas pra eu ver.

— Não me culpe se eu esquecer a foto.

— Ei, seu irmão está dizendo que as meninas também estudam na Shinhwa. É verdade? Cala a boca, Namjoon, é claro que eu confio em você.

— Bem, sim. Só que lá na Shinhwa temos dois turnos; eu estudo no da manhã e elas no da tarde. E nossos cursos são diferentes. Jinhee estuda Medicina e Yuri, fotografia.

— Vocês deveriam vir aqui para casa, qualquer dia. Tente convencê-las com comida. Yuri com certeza virá se o seu pai fizer o ramen especial dele.

— Uma viagem dessas duraria no mínimo três dias. E a empresa não vai aprovar.

Mamãe ficou em silêncio, e eu sabia que ela estava se segurando para não falar mal da YG.

— Já disse que se quiser desistir, desista — murmurou. — A multa é cara, mas nós podemos pagar.

— Não vou discutir isso com você. Minha resposta não mudou e nem vai mudar.

Ela fez um muxoxo irritado.

— Tudo bem, então — respirou fundo. — Como vai a vida na empresa?

Esfreguei uma das mãos no nariz, tentando aquecer a ponta congelada.

— A audição pro dorama é nesta semana, e eu ainda preciso dar uma revisada em algumas falas, mas estou bem confiante, desta vez. Além disso, estou trabalhando num projeto extra. Não posso falar nada agora, mas está avançando rapidamente. Talvez você me veja livre dessa empresa mais cedo do que imagina.

— Projeto extra? Você está trabalhando demais, não é?

— Não, mãe. Eu vou ficar bem.

— Não quero ouvir um vou ficar, quero ouvir um estou bem.

De repente, ao fundo da ligação, alguém arquejou e escutei um grupo de vozes masculinas sobressaltadas exclamando entre si com um quê de desespero no tom.

— Mas o quê- — Ela começou, confusa, e então gritou: — Desliga o fogo! Desliga! No botão redondo! Sai daí, é assim, ó.

Escutei a voz de Namjoon se desculpar, prometendo limpar tudo.

— Você está proibido de mexer com fogo — ela repreendeu. — Todos os três estão. Saiam daqui, não quero mais ninguém na minha cozinha. Francamente — murmurou, e eu escutei barulhos do que pareciam portas de armário abrindo e fechando — três homens adultos e nenhum deles sabe ferver um leite.

— O que aconteceu? — perguntei.

— Deixaram o leite esquentando tempo demais e ele borbulhou no meu fogão inteiro — ela reclamou. — Vou ter que limpar essa bagunça, Namiah. Me liga depois?

— Quando eu puder.

— Amanhã.

— Só estarei livre bem tarde na noite, você não vai estar acordada.

— Me mande mensagens, então. Boa noite, filha. Eu amo você, muito mesmo.

— Eu também te amo.

Um bip anunciou o fim da ligação.

Apertei o telefone entre os dedos e abracei meus ombros. A ligação me causou um efeito estranho; um aperto no peito que era uma quase culpa, misturado com cansaço e nostalgia. Já fazia quase um ano que eu não via os meus pais. A empresa nos liberava por poucos dias durante os feriados, mas eu não tinha como desperdiçar dois dias para viajar até minha cidade natal. Apesar de não ser tão apegada à família quanto Namjoon, eu ainda sentia bastante falta deles – um sentimento constantemente abafado pela rotina de responsabilidades ali em Seoul.

Guardei o celular na bolsa e levantei um dos pés para desafivelar um dos saltos, repetindo então o processo demorado com o outro pé. Talvez não tivesse sido uma boa ideia; o alívio de ter tirado os sapatos desconfortáveis não fazia jus ao frio que congelava meus dedos. Levei minhas mãos até a boca, assoprando o ar quente para aquecê-las. Meu vestido de renda com mangas compridas tinha o tecido tão fino que chegava a atrapalhar mais do que me proteger do clima, e as pontas das minhas orelhas doíam como se tivessem congelado.

Preocupada demais em proteger-me do clima, sobressaltei-me quando um tecido preto fora estendido em minha direção.

— Está frio. — Yoongi balançou o paletó entre nós dois. — Vista.

Neguei com a cabeça.

— Eu já estava voltando lá pra dentro.

Ele arqueou a sobrancelha, não convencido, olhando dos sapados no chão para o meu rosto.

— Descalça?

Hesitei, e então peguei o paletó. Não ficou tão grande em mim — nós dois tínhamos a mesma altura quando eu usava salto, apesar de ele ser um tanto mais largo — e tinha cheiro de madeira e de... limão?

Ele encostou-se nas barras de segurança da varanda e observou a completa quietude do estacionamento abaixo de nós.

— Há quanto tempo você está aqui? — perguntei, me dando conta de que ele talvez tivesse ouvido a conversa.

Brevemente, uma sensação horrível de pânico me afligiu enquanto eu tentava lembrar o que havia comentado sobre Namjoon – havia citado a palavra irmão? — até que ele suspirou, parecendo desinteressado, àquele ponto, no entanto, eu já havia percebido que aquela era a cara padrão dele.

— Você é de Ilsan? — ele murmurou. — Tenho um amigo morando lá.

Não respondi.

— Então, você e Rap Monster são próximos ao ponto de ele estar na casa da sua mãe sem nem mesmo você saber que ele ia.

— Eu realmente não acho que devo te dar satisfações sobre a minha vida pessoal, mas isso já está ficando sem rumo — usei meu tom de voz profissional, direto ao ponto. — Eu e Namjoon somos amigos de infância. E ele é bem vindo à minha casa.

— Eu não entendo porque você continua negando o óbvio — ele olhava para a vista a sua frente enquanto falava. — Não precisa esconder esse namoro de mim. Somos parceiros, não somos?

— Nada além de colegas de trabalho. E eu não estou namorando ele.

— Tudo bem, então — ele sorriu com o canto da boca. Por que ele parecia se divertir? Estava enchendo o meu saco de propósito? — Não precisa ficar na defensiva.

— Não estou na defensiva. Só acho ridícula essa sua obsessão pelo meu- — calei-me abruptamente, percebendo aonde aquele caminho levaria.

— Seu? — ele riu — Se está com ciúme, deixe-me tranquilizá-la. Eu sou majoritariamente hétero.

Grunhi, deitando a cabeça na grade por cima das minhas mãos.

— Pare de agir como se fosse o tipo de pessoa com quem eu compartilharia meus segredos — murmurei.

— Sem querer decepcioná-la, mas já compartilhamos um.

Olhando para baixo, percebi quando seu sapato se aproximou dos meus pés, e levantei a cabeça, aproveitando para dar dois passos para o lado, ficando de frente para ele. Minhas costas tocaram a grade da lateral do pequeno espaço em que estávamos, entre o primeiro e o segundo andar, sem janelas para denunciar nossa presença.

— Um segredo meramente profissional — retruquei, cruzando os braços.

— Não deixa de ser um segredo. — Ele abriu seu sorriso de lado.

Observei enquanto ele espelhava a minha posição, cruzando seus braços e apoiando a cintura na grade ao seu lado. Eu estava levemente consciente da sua presença próxima, a nuvem de vapor da sua respiração quase encostando no meu rosto.

— De onde conhece Jinhee? — perguntou, de repente.

— Perdão?

— Estava falando de Choi Jinhee, não? Que cursa medicina na Shinhwa. A Raposa.

Franzi o cenho.

— Não a chame assim.

Ele arqueou a sobrancelha.

— Você não pode julgar alguém só por causa de rumores — falei. — Eu sei o que as pessoas falam dela, mas ninguém estava lá para dizer se as histórias realmente aconteceram.

— Eu estava. Éramos amigos.

Pausei, e então balancei a cabeça, sem saber o que aquilo significava. Não iria deixar aquilo mudar minha impressão da minha amiga.

— Acabei de compartilhar um segredo — ele deixou a cabeça pender de lado. — Agora é a sua vez.

Franzi o cenho, não concordando com aquela troca.

— Eu também — contei, lentamente. — Também era amiga dela, digo. Quando éramos pequenas.

— E perderam o contato? — ele deu um passo para frente.

— É — franzi a testa —, mas nos encontramos de novo.

Pensei em pedir para ele se afastar, mas fiquei pesarosa de que ele recusasse só para me irritar, afinal, achava que aquela era a motivação para ele estar fazendo aquilo. Como eu não podia recuar para trás, dei dois passos para o lado, encostando minhas costas no canto entre a grade e a parede do prédio. Percebi, então, quando ele virou o corpo para acompanhar o meu movimento, que estava encurralada.

— E a outra garota, Yuri? — perguntou.

— Ela também — eu olhava para a imagem do estacionamento de cabeça erguida, observando-o com minha visão periférica. — Nós três éramos amigas.

— Hm... — ele deu um passo para perto e colocou a mão na grade logo ao lado da minha cintura — A Coreia é um ovo. Todo mundo aqui está conectado de alguma forma.

— Bem, nem eu nem você acreditamos em destino, então- — me atrapalhei quando ele deu outro passo na minha direção. — O que há com você? Quer parar com isso?

— Isso o quê? — pude sentir seu hálito de tão próximos que estávamos.

— Isso! É irritante.

— Ah, isso?

Ele colocou a outra mão na parede ao lado da minha cabeça, me encurralando por completo. Se eu me movesse, encostaria nele. Minhas orelhas ficaram quentes – um calor quase bem vindo diante daquele clima frio, se não fosse pela situação.

— É, isso — bufei, me recusando a abaixar o rosto enquanto ele me fitava. Dois podem jogar o mesmo jogo.

— Caso contrário?

Ficamos ali, parados, ouvindo e vendo o vapor das nossas respirações se misturarem no ar entre nós dois. O barulho da música abafada se tornara nada menos que um mero ruído esquecido no plano de fundo. O frio não me incomodava mais, o calor do corpo próximo ao meu era quase convidativo.

Semicerrei os olhos, e ele semicerrou os dele.

Subitamente, algo começou a tremer na minha mão, e então o telefone tocou – o alarme era tão estridente que me assustou, mesmo prevendo o seu toque após a vibração.

— Salva pelo gongo — murmurei.

Desliguei o alarme, de volta ao mundo real de obrigações e responsabilidades, e empurrei seu braço, abrindo espaço para passar.

— Mais para presa pelo toque de recolher.

Ignorei sua risada atrás de mim, descendo as escadas rapidamente.

Encontrei Sara na metade do caminho para a mesa onde a deixara. Ela olhou de mim para a varanda, questionando, e eu dei de ombros, percorrendo o ambiente com os olhos.

— Onde está Mei? — perguntei com a voz alta, tentando ser ouvida por cima da música.

Seus olhos brilharam com animação, e ela apontou para um local não muito afastado dali. Semicerrei os olhos, tentando enxergar algo naquele breu. Foi quando uma luz dos holofotes os iluminou rapidamente que percebi a cena: Mino pressionava as costas de Mei contra um pilar e os dois beijavam-se como se estivessem sozinhos – o local era sim, afastado do restante das pessoas, mas, mesmo assim, qualquer um que soubesse o que estava procurando iria vê-los.

— O que vamos fazer? — Sara perguntou perto do meu ouvido.

Suspirei, entregando-a as chaves do nosso quarto.

— Vá na frente. Vou ali interromper a festa dos dois.

— Ainda temos oito minutos até trancarem os dormitórios — falou. — Deixa ela se divertir mais um pouco, ele a puxou pra lá não faz muito tempo.

Franzi o cenho.

— No final, sempre tenho que ser a estraga prazeres — reclamei. — Vou esperar três minutos, mas se eu tiver que dormir no hall de entrada de novo, vocês duas vão limpar o banheiro pelos próximos meses.

Ela mostrou a língua, rindo – respirei fundo para manter a calma — e se virou para a saída.

Suspirei, me aproximando do casal. Coloquei três minutos no cronômetro e esperei de costas para eles, dando tanta privacidade quanto podia.

— Mei — chamei. — Acabou o tempo. Temos cinco minutos até trancarem os dormitórios.

Ela abriu os olhos, parando o beijo, e eu fiz uma careta quando ele abaixou a cabeça para beijar o pescoço dela.

— Temos que ir — mostrei as horas do celular para ela.

Ela assentiu, o afastando. Observei enquanto ele a puxava por trás e falava algo em seu ouvido; eles trocaram números, e então Mino deu um selinho nela, sorrindo, e então o selinho se tornou outro beijo e limpei a garganta.

— Três minutos.

Mei riu, e então o afastou e veio correndo na minha direção, puxando-me para longe dali.

Corremos para a saída, ela rindo e tropeçando algumas vezes.

— Tô vendo que ele te deu mais bebida, não foi? — meu tom não era mais de briga, agora que estávamos voltando para o dormitório e a minha função fora cumprida.

— Unnie! — ela riu, apertando a minha mão. — Acho que estou apaixonada.

— Você está é com fogo no rabo, isso sim.

Ela riu, não exatamente negando.

Encontramos Sara um pouco antes do corredor principal e a partir dali caminhamos rápido na ponta dos pés para não atrair nenhum inspetor, até chegarmos ao dormitório. Mesmo ali, não diminuímos o passo até chegarmos ao nosso quarto. Sara trancou a porta no exato instante em que o sinal anunciou que as portas do dormitório se trancaram. Nós três suspiramos em uníssono, para então rirmos alto, gargalhando.

Mei se jogou na cama e começou a bater os pés no ar, rindo, e Sara pulou na cama dela, guinchando palavras agitadas.

— Olha isso! — Mei mostrou o contato de Mino. Ela havia salvo seu nome como “Mino Oppa ♥’’.

Observei, rindo, as duas terem o que parecia um mini ataque epilético, sem saber se batiam palmas, pulavam ou riam. Abri a gaveta da nossa penteadeira e tirei o demaquilante, dando algodões molhados para elas tirarem a maquiagem.

Percebi quando as duas se entreolharam, um sorriso no rosto, para só então entender que era para mim.

— Unnie, de quem é isso que você está vestindo? — Sara arqueou as sobrancelhas sugestivamente.

Percebi que ainda vestia o paletó de Suga, de repente ciente do cheiro de madeira e limão que me envolvia.

— É do Yoongi-oppa — sugeriu —, não é?

Semicerrei os olhos.

— Talvez.

— E onde estão os seus sapatos? — Mei continuou, sem conter o sorriso.

— O quê? — olhei para baixo, sem entender.

Meus pés estavam descalços. Meus dedinhos me encararam, rindo da minha cara.

— Merda. Merda.

Arquejei, caindo para frente quando as duas me puxaram pelo braço na direção da cama.

— Não! — cobri o rosto tarde demais.

Recebi uma travesseirada bem na cara, e outra na barriga.

— Política de convivência número oito — enumerou Sara, descartando o travesseiro na cama —: sem palavrões.

— Sou cinco anos mais velha que você — choraminguei.

— Regras são regras. Agora, o que tem entre você e o Yoongi-oppa?

Franzi o cenho, me levantando.

— Somos conhecidos.

— Conhecidos?

— Vocês sabem — dei de ombros —, o suficiente para não sermos estranhos, mas não para sermos amigos.

— Como vocês se conheceram?

— Aqui na empresa — respondi, tirando o vestido e pegando meu pijama.

Elas seguiram meus passos, trocando de roupa.

— Unnie, eu trabalho com detalhes — Sara reclamou.

— Em uma sala de training — suspirei. — Pensei que fosse a minha.

Elas grunhiram em desânimo, não satisfeitas com a resposta.

Fizeram mais algumas poucas perguntas, antes de o assunto ser esquecido e substituído por Mino-oppa ♥.

Finalmente, quando as lembrei de que acordaríamos cedo na manhã seguinte, apagamos as luzes e fomos dormir.

Na margem entre o real e o imaginário, prestes a cair no sono, meu celular vibrou.

Azedo [00:17]: Estou com seus saltos. E quero meu paletó de volta.

Notas finais
Até o próximo capítulo~