Connected | BTS Fanfic
21 Amo Cada Um de Vocês
Notas iniciais
Choi Jinhee POV
— Perdão?
— Feliz natal — repetiu ao telefone.
Apesar de ter escutado auto e claro da primeira vez, tive a necessidade de confirmar se aquilo era verdade e não uma ilusão da minha mente.
Eu fiquei decepcionada naquela manhã ao acordar e perceber que não havia correspondência. Por um lado, pensei que o lado positivo era que não recebera um cartão postal escrito ‘’feliz natal’’ por alguma de suas secretárias. Por outro, não recebera nada, e o pensamento me entristecera.
Agora, no entanto, eu não só fora lembrada, como recebera uma ligação. Só pra mim.
— Feliz natal – respondi, minha voz tão surpresa quanto me sentia.
Sentia-me eufórica. Alternava repetidas vezes meus movimentos, tirando e recolocando o celular na orelha para confirmar se realmente estava falando com ela. O nome Choi Sunsaenim continuava a brilhar na tela do meu celular, não importava quantas vezes eu olhasse.
O silêncio que se seguiu passou devagar, interminável.
— Mais alguma coisa? — perguntei.
— Hã?
— Você tem mais alguma coisa pra dizer?
— Não, não consigo pensar em nada agora. E você?
— Também não.
Após outra infinita pausa, ela fungou.
— É só isso, então. Vou desligar.
— Tudo bem. Tchau, Sra. Choi.
Percebi, contudo, que a ligação ainda não tinha sido finalizada. E, por causa da calmaria do outro lado da linha – sem secretárias, televisões ou reuniões –, senti a obrigação de permanecer em silêncio, esperando que ela desligasse.
— Tchau, filha.
Prendi a respiração, aturdida. O bip anunciou o fim da chamada e, lentamente, sentindo-me confusa como nunca antes, afastei o celular do rosto.
Eu não queria estar feliz. Eu não queria me sentir esperançosa. Aquilo não relevava todos os outros natais passados sozinha em casa, mas- Mas nada, Jinhee. Isso não muda nada. Tentei me convencer.
Mesmo assim, estava feliz. Estava esperançosa. E a receberia de braços abertos, se ela quisesse outra chance.
Chance de quê?
Balancei a cabeça rapidamente, lembrando-me de respirar.
Quando o fogão anunciou que a fornada de biscoitos estava pronta, senti-me aliviada por alguns segundos, grata pela distração. Apressei-me para tirá-los de lá, colocando a segunda forma para assar.
Analisei os biscoitos. Mesmo irregulares, não haviam pregado um no outro.
— Parabéns, Jinheeah – parabenizei. – Bem melhor que da última vez.
Esbocei um sorriso, orgulhosa.
Sentei num dos bancos de madeira branca da cozinha, apoiando minha cabeça nos ladrilhos claros da parede. Agora teria que esperar esfriar, para então colocá-los dentro de seus respectivos pacotinhos.
Escutei alguns passos, abafados pela pantufa que usava, anunciando a presença de Yuri. Sorridente, ela costumava ser bem humorada pelas manhãs.
— Bom dia! — cantarolou, alongando seus braços.
Por reflexo, sorri de volta.
— Acordou cedo, unnie. Ainda são oito horas.
Yuri vestia uma camisola branca que descia até o meio da sua coxa, com mangas compridas pretas e um desenho de panda estampado na frente. Estava -4ºC do lado de fora, mas nosso termorregulador mantinha o apartamento em 20ºC – perfeito para Yuri, mas um tanto quente para mim.
— Com um cheiro bom desses, minha fome conseguiria me acordar até da morte, se duvidar – abraçou sua barriga.
— São biscoitos de natal. Fique a vontade para experimentá-los.
— Você não pode dar asas para quem já tem perna, Jinheeah. – Com um sorriso travesso, ela pegou um cookie da forma. — Quente. Quente. — Mesmo assim, ela os mastigou, respirando pela boca. — Ai. Queimei a língua. Mas está muito bom.
Soltei um risinho quando ela deu um beijo na ponta dos seus dedos.
— Esqueci-me de avisar que eles podem estar quentes. – Fiz uma careta.
Ela mostrou a língua, e pegou outro biscoito.
— Por que você fez tantos?
— Eu não comprei presente pra ninguém, então pensei em dar uma lembrancinha pra todo mundo. São biscoitos de cacau com amêndoas.
Estranhei quando sua expressão ficou séria.
— Eu amo biscoitos de cacau com amêndoas – declarou, mantendo sua postura. — Você precisa me deixar longe desses biscoitos, eu também quero ser altruísta.
— Tudo bem, unnie. A receita rendeu bem mais do que eu esperava.
Ela arqueou uma sobrancelha, pensativa.
— Então, se eu ajudar você a embrulhar… eu tecnicamente estarei sendo altruísta, não é? – questionou-se. — Mesmo que eu receba o meu pagamento em biscoito.
— Isso foi uma pergunta?
Como se uma luz tivesse acendido em cima da sua cabeça, balançou a cabeça.
— Não, não. Isso foi uma proposta de ajuda sem fins lucrativos.
Estendi minha mão para ela.
— Fechado, Sra. Lee.
— Temos um acordo, Sra. Choi – antes que ríssemos, ela ficou apreensiva. — Tudo bem, não vou chamar você de Sra. Choi nunca mais. Parece que estou falando com sua mãe. É estranho.
Tentei parecer indiferente ao ouvir o nome dela.
Trabalhamos enquanto Yuri alternava sua concentração entre: embrulhar dois biscoitos, comer um biscoito e mudar de música. Ela mudava as canções antes mesmo que completassem 2 minutos. Enquanto ela trocava a música do Suga por uma do Namjoon, sugeri que comêssemos biscoitos com leite e, pelo seu sorriso, não precisei nem ouvir a resposta. Percebi, então, que eu estivera com fome há algum tempo – e que, na verdade, estava sem comer até aquele horário. Aquilo não era algo incomum para mim, mas a presença de Yuri me lembrava de que precisava comer regulamente.
Eu não estava mais perdendo peso. E, na verdade, consegui engordar um pouco: a balança estava parada em 45 há alguns meses.
Com exceção de uma época curta dos meus quatorze anos, nunca me preocupara em ser magra o suficiente. Ainda conseguia recordar daquela fase, privando-me de alimentos dos quais gostava, mas, felizmente, não havia durado tanto tempo assim. E, na maior parte da minha vida, beirando o sobrepeso, levei um estilo de vida saudável – exercitando-me e comendo bem, sempre com os incentivos de Seokli.
Que Deus a tenha.
Depois de ter perdido tanto peso, achava que a maior vantagem foi ter dito adeus à minha rotineira dor nas costas, em virtude dos peitos grandes – que passaram de 48 para 44. Mas eu não estava feliz com as outras consequências que vieram: estrias surgiram no ventre, onde havia concentração de gordura. Elas me incomodavam. E, apesar de estar sendo acompanhada por um dermatologista, as mudanças eram demoradas demais.
Finalizamos tudo por volta das nove horas, colocando cada saquinho dentro de duas caixas vermelhas, rasas e compridas, estilizadas com um Feliz Natal na tampa. Quando Yuri saiu para tomar banho, tratei logo de lavar os pratos, para então seguir os seus passos.
Quando finalmente descemos do elevador, já estávamos atrasadas.
— Com licença! — chamei na portaria. — Jongunssi?
— Aqui, Jinheessi. — O senhor apareceu por de trás da sua bancada.
— Desculpe, estou atrasada — entreguei-lhe uma das caixas com os biscoitos. — Se alguém perguntar, eles não têm lactose.
— Oh, certo, certo. Não se preocupe, pode ir. Vou coloca-los na recepção; quem passar por aqui irá vê-los.
— Obrigada! — agradeci, correndo para a garagem. — Feliz natal!
— Feliz natal, Jinheessi!
Quando entrei no carro, Yuri já estava concentrada em seu celular – deitada confortavelmente no banco de passageiro cantando a plenos pulmões a trilha sonora de Moana. Tentei não correr tanto a caminho da universidade e, por sorte, conseguimos estacionar a tempo do primeiro sinal soar, anunciando os cinco minutos de tolerância antes que o diretor da Shinhwa começasse seu discurso anunciando as férias de inverno.
Corremos até o departamento de Artes Cênicas, ao lado do refeitório. Em todo o seu deslumbramento, o auditório largo e cumprido estava lotado pelos estudantes da USH. As poltronas vinho pareciam totalmente ocupadas e, enquanto procurávamos por assentos, um burburinho de conversas animadas preenchia o ar – os jovens agitados pelas tão sonhadas férias.
Yuri puxou seu celular do seu bolso, apressada.
— Jungkook guardou dois lugares lá na frente.
Assenti, e seguimos naquela direção. Reconheci os rostos de alguns colegas de classe, realmente surpresa pela lotação. Comparecer àquela ocasião na universidade era opcional, e eu realmente não esperava tantas pessoas. Parecia que todos estavam ali, até mesmo o corpo de funcionários. Várias pessoas tiveram que ficar de pé, no fundo: sem lugares para sentar ou sem coragem para arriscar procurar.
Atravessando o auditório, avistei Jimin, Jungkook e Jinyoung antes que eles nos visse, sentados em uma das primeiras fileiras de acentos – os três olhavam para a porta, nos procurando. Acenei, tentando chamar suas atenções. Mas, no entanto, quem reparou a minha mão ao ar foi Jung Hoseok, sentado algumas fileiras mais a frente. Quando percebeu o meu olhar, assentiu com a cabeça, ostentando uma feição séria e se virando em seguida. Sentado juntamente com o F4, percebi que alguém chamara por ele. Ao seu lado, Taehyung riu, comentando sobre alguma coisa no palco.
Voltando o olhar para os meninos, Jimin havia nos notado. Ele sorriu, seus olhos desaparecendo em luas crescentes – aquela visão sempre me fazia sorrir –, e acenou de volta. Lentamente, passamos por entre os joelhos das pessoas sentadas para chegarmos aos nossos lugares. Jungkook se levantou para nós passarmos, e sentamos na ordem: ele, Yuri, eu, Jinyoung e Jimin.
Quase que imediatamente após sentarmos, as luzes se apagaram e, provocando uma salva de palmas da plateia, o diretor da Shinhwa subiu ao palco. Breve e carismático, ele discursou sobre a importância da caridade nas nossas vidas e desejou a todos um feliz natal – explicando, em seguida, o fato de Jung Shinhwa não poder estar lá. Falou sobre o leilão anual que teríamos logo após a performance dos alunos (o comitê do evento teria votado entre os grupos que se inscreveram, e os finalistas se apresentariam agora) e agradeceu a nossa presença ali. E então, provocando outra salva de palmas da platéia, Jung Hoseok, representando o corpo estudantil e seu pai, subiu ao palco e cumprimentou a todos.
Quando as solenidades acabaram, o primeiro grupo subiu ao palco – Artes Cênicas. A regra era que eles não poderiam ultrapassar cinquenta minutos de performance, então não demoraram introduzindo seus nomes.
Unindo efeitos especiais deslumbrantes e poesia, eles encenaram um conto escrito por um dos estudantes de Escrita Criativa da Shinhwa. Era uma história sobre a filha de um pirata que se apaixonara pela sereia que não podia cantar. Enquanto um aluno lia, outros encenavam as cenas no plano de fundo. Foi lindo, e o final emocionante fez a plateia bater palmas por quase um minuto. Alguns alunos, como Jimin, até se levantaram, fascinados.
O segundo grupo – Música – fez uma apresentação menos chamativa, mas tão bonita quanto. Primeiro, Yoongi introduziu a performance, carregando consigo o seu violão – posicionaram para ele um banco e um microfone no meio do palco. Ele pediu para que, quando dissesse as palavras ‘’Merry’’ e ‘’Christmas’’, todos batessem palmas. Ensaiamos algumas vezes; ele dizia os comandos e nós obedecíamos.
Ele, então, começou a tocar uma música – antes, a apresentou como a música que o perseguia em todo show, não importando quantos anos se passassem, porque os fãs sempre pediam para tocá-la. Inicialmente, acompanhado somente do violão, era um rap leve, não tão rápido, e muitas pessoas da plateia acompanhavam as letras. A música falava sobre um amor inocente, mas as palavras ‘’merry’’ e ‘’christmas’’ não apareceram. Foi então que, lá para o meio da apresentação, a cortina vermelha atrás do Suga se levantou, mostrando uma arquibancada lotada com alunos fantasiados com roupas vermelhas de natal – com gorros e tudo. Acompanhando a música que ele cantava, os outros estudantes fizeram acapella. Durante o refrão, eles trocaram as palavras ‘’hope’’ e ‘’love’’ por ‘’merry’’ e ‘’christmas’’, e a plateia participou – batendo palmas nos momentos certos. No final, confetes brilhantes caíram pelo palco e todos aplaudiram. Fiquei arrepiada.
O espetáculo terminou, todos desejaram feliz natal e o diretor da Shinhwa nos direcionou para o refeitório, onde ocorreria o leilão beneficente. O dinheiro arrecadado seria doado em prol de instituições filantrópicas na Coreia.
Os estudantes se levantaram para sair do auditório, causando certo alvoroço nas filas. Nós decidimos esperar até que o número de pessoas diminuísse para sair. Sentados, conversamos animadamente sobre as apresentações, elogiando até os mínimos detalhes.
— Vocês querem assistir ao leilão? — perguntei.
Jungkook deu de ombros.
— É um saco, mas se vocês quiserem eu vou.
— Como assim ‘’é um saco’’? — Yuri perguntou, abismada. — Soube que os itens leiloados são maravilhosos!
— Bem, são sim — ele franziu o nariz. — Porém está mais para um show de ostentação do que pra caridade. Você vai ver.
— Você vai leiloar algo? — Jinyoung perguntou, apontando para a caixa em minhas mãos.
— Ah, não — neguei, sentindo minhas orelhas esquentarem. — Pensei que seria legal dar uma lembrancinha pra vocês, pelo tempo que passamos juntos.
— Isso é pra gente? — perguntou, surpreso.
Abri a caixa, mostrando os biscoitos.
— Você cozinha? — Jinyoung pareceu verdadeiramente encantado.
— É um hobby.
Jimin riu.
— Ela não cozinha, ela faz milagre — ele estendeu a mão para pegar um pacotinho de biscoitos. — Posso?
— Fique à vontade — sorri.
Yuri começou a comer um pacote e guardou outro na bolsa, com um sorriso levado.
Ofereci um pacote para Jungkook, que olhava estranho para Jimin – algo entre surpreso e desconfiado, observando o amigo comer. Quando percebeu minha mão estendida, ele agradeceu pelos biscoitos e olhou ao redor.
— Acho que já podemos ir. A fila já está quase no fim.
Levantamos dos assentos, seguindo as pessoas para o refeitório. Os alunos falavam animadamente, todos agitados com o feriado prolongado.
Os garotos gostaram dos biscoitos, então fiquei feliz. Dei mais alguns pacotes para eles, já que tinha feito muitos – no entanto, Yuri fez um muxoxo quando percebeu o número de pacotes reduzindo.
— Aqui, Jimin. Dê estes aqui para a Sra. Park e pro seu irmão, por favor.
Ele abriu um sorriso contente, assentindo com a cabeça.
Passamos pelas portas de madeira do refeitório e mais burburinho preenchiam o ambiente. Logo na entrada, uma garota nos entregou caderninhos com os itens que seriam leiloados. O espaço havia sido reorganizado de maneira que, onde antes ficavam as mesas, haviam cadeiras viradas em direção ao palco do leilão, onde um professor estaria encarregado de fazer as vendas.
Ficamos de pé atrás da última fileira de cadeiras, observando a cena.
— O que eles estão leiloando agora? — Yuri perguntou, analisando o caderno.
— Acho que isto aqui — Jungkook apontou.
— Uma adega?
— Caraca, olha a data desses vinhos. — Jimin leu a descrição. — São do século XVI. Devem ser– Opa, tem alguém me ligando — Ele tirou seu celular do bolso. — Diga, amor da minha vida. O quê? Espera, mãe, não estou te ouvindo. — Tirou o celular da orelha e falou —: Já volto.
Ele saiu apressado em direção à saída, e não pude deixar de sorrir.
— Jinheeah — Yuri me chamou —, aqui está dizendo que você está leiloando algo.
— Minha família doa um item todo ano — respondi. — Normalmente antiguidades da família Choi. Ano passado foram joias. O que é agora?
— Um piano.
Pisquei, surpresa.
— Diz aqui que ele foi o primeiro piano da Coreia, importado da França na dinastia-
— Eu conheço a história — a interrompi, abrindo o meu caderno. — Ele fica lá em casa.
Ela hesitou.
— Você parece desapontada. Gostava desse piano?
Bem, tinha boas lembranças com ele, de quando meus amigos iam matar tempo lá em casa e um deles tocava piano para nós. Seu som era maravilhoso – mesmo para mim, que não entendia muito de música. Suspirei mentalmente, analisando a imagem do piano no caderno.
Não era como se Yoongi fosse lá em casa tocar novamente.
— Na verdade, não — dei de ombros. — Só fiquei surpresa. Normalmente eu não conheço os itens que a Sra. Choi leiloa.
Observamos enquanto as pessoas faziam os lances. Será que tinham noção de quantos zeros estavam oferecendo nos cheques? Tinha uma garota que não parecia nem saber o que estava comprando, só fazendo lances enormes e ganhando as apostas.
— Os leilões são separados em três tipos; A, B e C — explicou Jungkook. — Esse é o A, e poucas pessoas realmente esperam por ele. Os itens são doados por alguns dos pais e professores, mas só aqueles que têm parceria com a Shinhwa há mais de não sei quantos anos.
— Todo mundo sabe quem vai comprar de quem — Jinyoung murmurou.
— Como assim? — Yuri arqueou as sobrancelhas.
— Veja bem, é apenas uma questão de conveniência — Jinyoung explicou. — As coisas que os Kwon leiloam são vendidas para a família Wu todo ano, por exemplo. Normalmente os grupos rivais brigam com os aliados durante os lances de alguém. A menos que alguém não envolvido no assunto realmente se interesse no item e também faça lances.
Como que para provar a veracidade dos fatos, o leiloeiro anunciou que a adega doada pelo Sr. Kwon fora comprada pela garota da família Wu.
— Isso soa perigoso — Yuri franziu a testa.
Jungkook deu de ombros.
— A maioria aqui não se importa com a rixa das famílias. Só fazem o que os pais mandam.
— Tá, e os outros tipos? — ela perguntou.
— Os leilões B são mais legais — sorri, explicando. — Os itens são obras dos estudantes. Os alunos de Fotografia devem ter falado algo sobre, não?
Ela fez uma careta.
— Eu fujo dos meus colegas de classe, na verdade.
Jungkook riu.
— Os veteranos de cada curso escolhem algo para ser leiloado — falou. — Mas costuma ser bem seletivo; o pessoal de Direito vai doar uns livros raros e só quem vai querer comprar é o pessoal de Direito.
— Nem sempre — Jinyoung fez que não com a cabeça. — Soube que o comitê de Artes vai leiloar uma das obras antigas do Seokjin. Aposto que metade da escola vai fazer lances. E o pessoal de Música decidiu leiloar um dos violões do Suga.
— É quase uma guerra, e ganha o curso que arrecadar mais dinheiro — justifiquei. — Por isso o pessoal usa os nomes de peso sem pudor.
— Falando nisso, eu escutei uns rumores que o pessoal de Administração vai leiloar a escova de dentes de Jung Hoseok — Jinyoung falou, rindo. — E o pior é que eu acho que iriam arrecadar uns bons milhões.
Yuri arregalou os olhos, surpresa.
— Vocês acham que eles fariam isso?
— Tudo pra vencer — dei de ombros. — Ano passado eles-
Jinyoung arquejou, me interrompendo.
— Alguém me explica o que diabos o Jimin está fazendo conversando com o F4? — Apontou para algumas fileiras a nossa frente, onde Hoseok conversava animadamente com Park Jimin.
Após um primeiro instante de hesitação, Yuri deu de ombros.
— O cartão vermelho não existe mais — ela disse. — Ele não está correndo perigo. Olhem, estão até rindo!
O que quer que estivessem conversando, foi breve. Logo, Jimin se despediu e veio caminhando na nossa direção.
— O que você-
— Minha mãe convidou vocês para almoçar lá no restaurante por conta da casa — ele sorriu. — Depois daqui. Para comemorar o natal! Vocês topam?
— Sim — Yuri bateu palmas. — Oba, comida de graça.
Jimin riu.
— Jinheessi, você vai? Ou já tem algum plano?
— Não, eu adoraria ir.
— Você pode entregar os biscoitos que você fez para ela, então — O sorriso dele se alargou. — Tenho certeza de que a mamãe vai adorar.
Jungkook pigarreou:
— Você estava convidando o Hoseok, não estava?
Jimin assentiu.
— Não só ele, como Yoongi hyung, Jin hyung e Taehyungssi.
Meus olhos se esbugalharam.
— Você está chamando eles de “hyung”? – Jinyoung exclamou. — Essa palavra soa suja quando você se refere à eles.
Jimin deu de ombros.
— E eles vão? – Jungkook perguntou, no mesmo tom.
— Disseram que iriam ver — Jimin falava como se fosse natural, sem entender o porquê do alarme. — Hoseok hyung quer que todo mundo vá para conhecer. Falou tão bem da nossa comida, estou até surpreso.
Ao seu lado, Jinyoung suspirou, olhando em seu relógio e sussurrando algo para Jungkook.
— Por que nós não vamos logo? – falou. — Podemos terminar de comer antes que o F4 chegue.
***
A caminho do restaurante, mandamos uma mensagem para Nami, perguntando se ela tinha planos e, caso não, se ela não gostaria de almoçar conosco. Yuri recebeu uma resposta positiva e repassou-a para mim, alegre. Parecia que fazia um século desde a última vez que nos vimos.
Já tendo feito os pedidos, Jungkook, Jimin, Jinyoung, Yuri, Nami e o seu acompanhante (Jaegun, se não me engano) interagiam animadamente na mesa redonda. O restaurante estava cheio, as pessoas preenchiam o lugar com uma aura animada. Eu estava no balcão, esperando a Sra. Park aparecer – ela havia entrado na cozinha, momentos antes. Quando atravessou a porta e me viu, abriu um largo sorriso – semelhante ao do seu filho, o que tornou-o cômico.
— Jinheeah, querida!
— Aqui — estendi a caixa de biscoitos para ela. — Lembrancinhas de natal.
Ela arregalou os olhos, pegando a caixa.
— Oh, Jinheeah! — choramingou, me abraçando. — Muito obrigada! Ah, estou emocionada. Obrigada por pensar em mim, meu anjo.
— São apenas biscoitos — ri da sua reação, abraçando-a de volta.
Escutei a voz de Jimin chamar:
— Mãe, você vai esmagar a filha alheia logo no natal?
— É minha filha também, agora — ela falou, soltando o abraço. — Oh, arrecadei tantos filhos novos neste ano. Yuriah, querida, venha cá me abraçar também.
Yuri levantou, rindo, e se espremeu entre a cadeira de Nami e a parede para chegar até o balcão. Nosso abraço triplo foi desengonçado, desconfortável e muito, mas muito caloroso. Do tipo que meu peito continuou quente mesmo após nossos braços se separarem.
— Quais os seus planos para hoje? — a Sra. Park perguntou, posicionando-se atrás do balcão. — Com quem vão passar o natal?
Eu e Yuri sentamos nos bancos em frente ao balcão. Deixei que Yuri respondesse.
— Nós não vamos passar o natal juntas — falou. — Meus pais vieram para a Coreia! Agora eles estão dormindo, já que o fuso horário é bem diferente do Brasil, mas quando acordarem vou ir visita-los na nossa antiga casa. Estou animada — ela sorriu.
— Que ótimo, Yuriah! Deseje feliz natal aos seus pais por mim. — A Sra. Park apoiou as bochechas nas mãos, virando-se para mim. — E você, Jinheeah?
— Eu vou ficar em casa.
Yuri virou a cabeça para mim, confusa.
— E a Sunhee unnie? Pensei que vocês fossem sair para jantar.
Sorri amarelo para ela, encolhendo os ombros.
— Ela vai ter que fazer plantão no hospital. Um dos pacientes dela está em observação.
— Puxa — Yuri assentiu, decepcionada, as feições entristecidas por um momento. E então —: Por que não passa o natal comigo e com os meus pais? Tenho certeza de que eles iriam adorar rever você.
— Não, de jeito nenhum — neguei. — É um momento de família, eu não quero atrapalhar.
Ela franziu a testa.
— Você não iria atrapalhar. E eu não quero te deixar sozinha.
A Sra. Park tinha um olhar preocupado sobre mim.
— E os seus pais?
— Eles estão viajando. — Dei de ombros.
Ela fez que não com a cabeça, procurando uma solução para o meu ‘’problema’’.
— Yuri está certa, querida. Ninguém deve ficar sozinho hoje — disse.
Neguei com a cabeça, sem nem cogitar a ideia. Eu não queria que elas dessem tanta importância àquilo; já estava habituada a passar aqueles feriados sozinha. Às vezes até ficava melancólica, mas geralmente era tudo normal.
Procurei acalmá-las.
— Não precisa se preocupar comigo, sério. Além de que meu natal foi ótimo. Hoje de manhã, minha mãe ligou para me desejar feliz natal. E todo mundo gostou dos meus biscoitos, ao que parece. Nós assistimos uma apresentação deslumbrante na escola, e agora vou comer um almoço delicioso com os meus amigos. Está sendo um dia muito bom.
Eu estava convencida do que tinha dito, mas a Sra. Park não parecia satisfeita com a minha explicação. Negou com a cabeça.
— Hm... Eu quero muito convidá-la para passar o natal comigo, mas não sei se você vai querer.
— É sério, não precisa se preocupar. E eu não quero atrapalhar.
— Mas você não estaria atrapalhando — ela justificou. — Eu e o Jimin passamos o natal no Lar da Esperança, aqui perto.
— O orfanato? — Yuri perguntou, surpresa.
— É — assentiu. — Nós somos voluntários há anos. Uma mão amiga sempre é bem vinda, se você não se incomodar — ela sorriu para mim. — Não convidei antes porque não sabia que estaria livre.
Eu ia recusar, mas repensei. Seria bom ajudar, não é?
— Eu nunca... fiz caridade — hesitei. — Quero dizer, já doei dinheiro pra instituições, mas nunca, sabe. Nunca me voluntariei.
A Sra. Park abanou a mão no ar, compreendendo aonde eu queria chegar.
— Não se preocupe, não é um ambiente sofrido como as pessoas costumam achar. As crianças são uns doces. E adoram conhecer os amigos do Jimin — Ela riu.
Sentado na mesa atrás de nós, Jimin exclamou:
— Escutei o meu nome!
— É de você mesmo que estamos falando — sua mãe respondeu, mostrando a língua.
— Fofoqueira — ele disse, e então riu de algo que Jaegun falou.
A Sra. Park virou-se para mim novamente.
— Então, estamos combinadas? Hoje à noite, sete horas.
Oscilante, concordei com a cabeça.
— Eba! — Ela bateu palmas. — As crianças vão adorar conhecer você. Vai ser ótimo. Vou pedir pro Jimin te pegar umas seis e meia, pode ser? Eu posso dar carona na volta, também. Não precisa se preocupar.
Assenti, retirando-me com Yuri quando um cliente foi até o caixa.
**
Quando a nossa comida chegou, Hoseok entrou no restaurante. Ele parecia deslocado, vestindo calça e camisa social, segurando seu sobretudo bege no braço. A conversa na mesa cessou, e Jimin olhou para trás e sorriu, se levantando.
— Hyung! — Ele puxou a cadeira ao seu lado para que Hoseok se sentasse. — Chegou bem a tempo, a comida acabou de ser servida.
Ele permaneceu parado, analisando a mesa. Seus olhos passaram pelos meus, e então pararam em Yuri. Ele a cumprimentou com um sorriso, e então sua atenção voltou-se para Jimin.
— Onde está a sua mãe? Quero agradecer pelo convite.
— Hoseokie! — A Sra. Park exclamou, indo de encontro ao garoto. Ela o abraçou rapidamente por trás, equilibrando uma bandeja com bebidas em um dos braços. — Como está você, querido? Planos para o natal?
Ele sorriu para ela – suas bochechas um tanto avermelhadas, embaraçado pela recepção calorosa.
— O de sempre — respondeu, e então explicou —: minha mãe faz uma festa para a família no natal. É bem chato, na verdade.
— Que isso, Hoseokie — ela o guiou até sua cadeira na mesa, ao lado de Jimin. — Tenho certeza de que deve ser ótimo rever velhos rostos. Minha maior alegria no natal é perceber o quanto meus filhos cresceram. Dá um pouco de tristeza e a gente se sente meio velho, mas faz parte.
Ela serviu nossas bebidas e sentou-se ao meu lado.
— O que estão esperando? — perguntou. — Podem comer!
Pelo menos, então, todos tivemos uma desculpa para continuarmos calados, as bocas ocupadas demais mastigando. Ah, a comida era tão boa que me fez esquecer por alguns momentos o ambiente estranho de antes. Eram raras as ocasiões nas quais eu tinha a chance de comer pratos coreanos típicos de ocasiões especiais, então fiquei quase emocionada após a primeira garfada no caprichado japchae. Eu tentei comer um pouco de tudo, servindo pequenas porções de cada.
— Aqui, Hoseokie — a Sra. Park colocou uma porção do prato para ele. — Instruí para que fizessem bastante apimentado, como você gosta.
Ele agradeceu, de boca cheia.
Jungkook franziu a testa, olhando para mim como que perguntando se aquilo realmente estava acontecendo.
— Oppa — Yuri chamou.
Percebi a rapidez com que Hoseok virou a cabeça, achando que era pra ele, quando na verdade ela estava falando com Jungkook. Seu sorriso se tornou uma careta.
— Você não chegou a explicar como é o leilão do tipo C — ela disse.
— Ah, sim. — Ele terminou de mastigar antes de continuar a falar. — É o leilão das garotas.
A Sra. Park começou a rir.
— Não acredito! É sério?
— Como assim, ‘’leilão das garotas’’? — Jaegun perguntou.
— Tem panfletos espalhados pela universidade inteira falando sobre a votação das meninas — Nami falou. — Vocês não leem o mural do refeitório?
— Engraçado você dizer isso — ele levantou a sobrancelha para ela. — Que quase nunca vai às aulas.
Ela revirou os olhos.
— Não deem ouvidos para ele, gente. Ainda não superou que eu faltei a palestra de pinguins.
— Bem, você tinha prometido que iria comigo.
— Votação...? — Yuri chamou atenção ao assunto anterior.
Hoseok respondeu:
— É que nem no baile de formatura nos Estados Unidos, onde a garota mais votada é nomeada rainha. Só que nesse caso, são vinte delas. E elas são leiloadas, depois.
— É — Jimin continuou. — Quem der o maior lance pode leva-las para um jantar no dia 26.
— Ah! — Jaegun exclamou — Já li uma fanfiction que tinha isso.
— Cinquenta Tons de Cinza já é considerado um livro original, Jaegun — Nami murmurou, rindo com o canudo do suco na boca.
Ele olhou para ela, traído por ela ter revelado aquela informação.
— Ah, é? E eu o peguei emprestado de quem mesmo? Não foi de você?
— Eu li também! — A Sra. Park exclamou, apontando para Jaegun. — Amei os livros. Nossa, tive bons momentos ali. — Ela suspirou. — Cadê o meu Christian Grey?
Yuri gargalhou e Nami engasgou com a bebida. Eu abaixei a cabeça, escondendo o riso.
— Mãe.
— Sim, filho querido?
Jimin abriu a boca, estupefato, e a fechou, balançando a cabeça.
— Nada não. Contanto que você seja feliz.
Ela riu, estendendo a mão para bagunçar o cabelo dele.
— Boa resposta.
De repente, minha boca começou a arder. Inicialmente tolerável, mas, quanto mais mastigava o Tteokbokki, mais minha língua ficava irritada. Uma mordida em especial pareceu acentuar a pimenta da comida, e trouxe lágrimas aos meus olhos. Arquejei, largando os hashis na mesa, e peguei meu copo d’água, sorvendo-o rapidamente.
— Jinheessi? — Jimin chamou.
— Pimenta — arquejei, tentando controlar a careta.
— Ah, ela comeu do Tteokbokki — Hoseok percebeu. — Não beba água, vai piorar a ardência.
Hesitei, já servindo outro copo. Minha vontade era a de por a língua para fora e respirar como um cachorro, para ver se amenizava aquela sensação horrível.
— Sooah — ouvi a Sra. Park se apressar, abordando o garçom que passava pela nossa mesa —, traga pão. Rápido.
Escutei cadeiras sendo arrastadas, mas meus olhos estavam cheios de lágrimas que me impediam de enxergar.
— O que eu faço? — Yuri se desesperou do meu lado, segurando a minha mão. — Ai, meu Deus, ela tá chorando.
— É a pimenta. — Hoseok falou, sua voz perturbada.
Parecia que minha boca estava pegando fogo, e a mão que não segurava a de Yuri estava apertando com toda a foça o braço da cadeira. Temi que fosse perder o sentido do paladar.
— Jinheessi, abra a boca. — Jimin falou, de repente ao meu lado.
Virei o rosto na sua direção, piscando por causa das lágrimas, e algo duro e quente forçou entrada pelos meus lábios. Demorei alguns instantes para perceber que aquilo que eu estava tentando mastigar era uma colher de pau cheia de arroz.
— Caraca — Jinyoung cobriu a boca com as mãos. — Coube isso tudo aí?
Coloquei a mão sobre a de Jimin para tirar a colher da minha boca lentamente, tentando ao máximo não engasgar e vomitar arroz em cima da mesa. Nossa, aquilo devia ser uma visão linda: eu, com o rosto todo vermelho por falta de ar e de vergonha, tentando lidar com uma montanha de arroz dentro da boca e uma colher de pau do tamanho do meu antebraço.
Enquanto eu mastigava, Jimin se agachou ao lado da minha cadeira, esperando que eu dissesse alguma coisa. A ardência diminuía a cada mastigada, mas eu não arriscaria cuspir algum arroz ao falar – nem que para acalmá-lo. Minha vontade era a de me esconder debaixo da mesa e ficar ali em posição fetal, tentando lidar com a vergonha. Como pude ser tão descuidada e colocar na boca uma colher cheia do prato mais apimentado da mesa? E eu nem era fã de pimenta.
— Taehyung? — Hoseok perguntou, olhando em direção à porta.
Segui seu olhar – só não fiquei boquiaberta porque aquilo estava fora de questão, embora os maxilares doessem tentando mastigar aquela quantidade exagerada de arroz. Taehyung tinha o olhar fixo em mim, e eu não queria nem imaginar há quanto tempo estivera ali observando o meu pequeno show.
Desviei o olhar para Jimin, que olhava para mim em expectativa. O garçom Soo chegou com uma cesta cheia de pães, e a colocou sobre a mesa. Os olhares estavam todos em mim, esperando que eu dissesse algo.
Tentando não transparecer a vergonha que sentia, arrastei a cadeira para trás e me levantei. O movimento acabou por derrubar Jimin, que estava agachado ao meu lado. Ele caiu para trás com um arquejo, e eu me abaixei imediatamente para ajuda-lo a se levantar, sendo tão desengonçada quanto possível.
— Desculpe.
— Que isso — ele sorriu, abanando a mão no ar. — Ah, aqui.
Paralisei quando ele estendeu a mão na direção do meu rosto. Ele hesitou, e então, mais devagar, aproximou-a de minha boca. Brevemente, retirou a mão. Em seus dedos, segurava um grão de arroz.
— Com licença. — Virei-me, caminhando tão rápido quanto podia sem parecer que estava fugindo.
Abri a porta do banheiro com um puxão, quase dando de cara com uma senhora que saía. Talvez fosse paranoia, mas podia sentir os olhares da mesa na nuca. Prendi a respiração enquanto a mulher passava por mim tão rapidamente quanto sua muleta deixava.
Dentro do banheiro – a porta já devidamente trancada -, agradecendo profundamente por ele ser unitário, fechei os olhos e soltei o ar. Então, usei uma das técnicas que o doutor Wu instruiu para liberar a energia acumulada (no caso, em forma de vergonha): esperneei os braços e as pernas e respirei e soltei o ar forçadamente várias vezes, até sentir que tinha controle das minhas emoções. A vergonha ainda estava lá, porém mais fácil de lidar.
Respirei fundo, ajeitei o meu reflexo no espelho, lavei as mãos. Esperei minhas bochechas voltarem a uma cor natural e saí calmamente do banheiro.
Aproximando-me da mesa, reparei que haviam voltado a conversar. Uma olhadela rápida foi o suficiente para perceber a fachada reservada de Taehyung – ele nunca se sentia completamente a vontade perto de pessoas novas. Hoseok não parecia incomodado, embora um tanto quanto cuidadoso, medindo suas palavras. A Sra. Park liderava o falatório, não percebendo ou ignorando a aura estranha que preenchia a mesa.
O mais discretamente possível, sentei-me na cadeira.
— Melhorou? — Yuri murmurou.
Assenti com a cabeça. Minha língua estava dormente e áspera, quase como se estivesse seca, mas pelo menos já não ardia mais.
— O que você cursa, Taehyungssi? — a Sra. Park perguntou.
Ele limpou a garganta antes de responder.
— Administração.
— Olha só, então você estuda com o Hoseokie? — Ela sorriu.
Ele assentiu com a cabeça.
— A maioria das cadeiras são as mesmas.
— Cadeira é tipo matéria, certo? — ela perguntou para Jimin, e ele assentiu. — Eu não cheguei a entrar numa universidade — explicou —, então tenho apenas uma vaga noção de como é lá dentro. Mas, de acordo com o que eu estou vendo, essa Shinhwa só tem gente bonita, hein? — Ela apertou as bochechas de Hoseok, sentado ao seu lado. — Ah, se eu fosse jovem...
— Mãe, com todo respeito — Jimin pediu. — Para de assediar o filho alheio. Por favor — acrescentou.
— Quem você está chamando de filho alheio? — ela perguntou, a voz brincalhona. — Hoseokie já foi cadastrado como meu filho.
— Se você continuar colecionando meus amigos pra serem seus filhos, vai faltar comida lá em casa pra alimentar tanta boca.
— Que bom que temos um restaurante, então — ela gargalhou da própria piada.
— Jinheeah, você está melhor? — Nami perguntou, reparando a minha presença.
— Sim, já não arde mais a-
— Jinheeah, aqui, pão — a Sra. Park se levantou para colocar a cesta de pães no meu prato. — Sua boca ainda está ardendo muito? Eu li que sorvete também ajuda.
Expliquei que já estava melhor (como a mãezona que era, ela deve ter perguntado ‘’você tem certeza de que não quer mais nada?’’ umas cinco vezes antes de se convencer de que eu estava bem). Tive que beliscar uns pedaços de pão para acalmá-la, no final.
A conversa continuou normalmente, então, e ela começou a questionar Taehyung sobre como ele conheceu Hoseok. Eu, como vinha fazendo nos últimos anos, me esforcei para não direcionar o olhar para a parte da mesa onde Tae estava sentado – que, obviamente, ficava bem na minha frente.
— Nós somos amigos de infância.
Ela assentiu, e então sorriu, pensando em algo.
— Como era o Hoseokie quando criança?
Um sorriso tímido apareceu nos lábios de Tae.
— Barulhenta.
Arqueei a sobrancelha. ‘’Barulhenta’’ era pouco; Jung Hoseok era uma criança mimada e birrenta que fazia tudo que queria na hora que queria, e ai de quem negasse algo a ele.
A Sra. Park riu.
— Quem diria que você era levado, Hoseokie — brincou, cutucando o braço dele.
— Todo mundo tem a sua fase. — Ele deu de ombros, sorrindo.
— Nem todo mundo — ela discordou. — Meu Jiminie sempre foi quietinho, só a uns anos atrás que ele começou a ganhar mais confiança, acredita?
Jimin suspirou, e Jungkook colocou a mão no seu ombro; imaginei que os dois já ouviram aquela conversa algumas vezes.
— Lá vai ela falar das aulas de dança — murmurou.
Mesmo um tanto incomodado, um sorriso leve ameaçava em seus lábios. Jimin não parava de sorrir nem quando estava chateado; devia ser de família.
— Ele gostava muito de estudar — a mãe continuou, olhando para o filho com uma expressão amável no rosto. — Era muito tímido! Fora o Kookie, quase não trazia amigos para visitar. Então eu o coloquei em aulas de dança, e foi ótimo para a autoconfiança dele, não foi, Jimin?
Ele assentiu, resignado. Percebi Nami segurando o riso, e eu mesma senti vontade de rir. Aqueles dois eram ótimos de se assistir.
— Ele se apaixonou por dança.
— Se apaixonou pela professora, isso sim — Jungkook adicionou, e Jimin deu um tapa no braço dele.
Aquilo puxou risadas da mesa, e até Taehyung, que estava reservado, riu.
— Ela era mesmo muito bonita — a Sra. Park assentiu. — Mas daí ele decidiu mudar o gênero da música. Já dançou de tudo; hip-hop, jazz, dança contemporânea, ballet clássico. Até tango ele já aprendeu.
Arqueei as sobrancelhas, impressionada. Eu adorava dançar, embora não tivesse técnica nenhuma. Sozinha no meu quarto dando shows imaginários ao som das minhas músicas preferidas era o meu nível de ‘’dança’’.
— E como era o Jungkook? — Yuri perguntou.
A Sra. Park começou a rir, lembrando de um determinado assunto aparentemente hilário.
— Sra. Park, responda esta pergunta com cuidado, por favor — Jungkook pediu. — Ainda tenho uma reputação a zelar.
— O Kookie era uma peste!
— Já era, hyung — Jimin fez um muxoxo.
— Mais danado que o Jungkook só o cão. — Ela apoiou os braços na mesa.
— Eu não era tão ruim assim — ele se defendeu.
— Não era? — retrucou, incrédula. — Todo dia era uma tramoia nova.
— O que ele fazia? — Jaegun arriscou perguntar.
— A pergunta certa é o que ele não fazia. O que o Jimin tinha de timidez era o que ele tinha de desinibição. Juntava os dois e eles saíam pra brincar. Voltavam só o bagaço, as roupas sujas e os joelhos ralados. E eu tenho certeza de que não sei nem metade das coisas que eles fizeram.
Jungkook gemeu, prevendo as histórias que ela tiraria do baú. A conversa era acompanhada por risadas e o farfalhar de talheres enquanto as pessoas comiam.
— Uma vez chegaram os dois de cabeça raspada em casa, dizendo que iriam se alistar no exército. Imagina a minha cara tendo que explicar pra mãe dele o que tinha acontecido.
Jungkook apontou pra ela.
— Nem vem, Sra. Park, que aquilo foi ideia do Jimin.
— Eu não te obriguei a raspar a cabeça — ele se defendeu.
— Você que chegou com a história de se tornar o Capitão América da Coreia — Jungkook bufou. — Eu queria ser o Tony Stark.
— Teve outra vez — continuou a Sra. Park — que o tio do Jungkook os levou para pescar e eles acharam que seria uma brilhante ideia deixar um peixe dentro de uma caixa de presente em cima da minha cama.
Jimin riu, cutucando Jungkook.
— A gente realmente achou que você fosse gostar.
— De um peixe? Escorreu água fedida nos lençóis e demorou anos para sair o cheiro. Graças a Deus vocês foram dormir na sua casa, porque eu provavelmente os teria esganado naquela noite.
Com o canto do olho, percebi quando Nami se levantou para atender uma ligação.
— Com licença.
— Fique a vontade, querida — a Sra. Park disse.
— E você, Hyung? — Jimin perguntou para Hoseok. — Você aprontava muito quando criança?
— Não, eu era mais do tipo que ficava em casa jogando videogames.
Taehyung abafou uma risada.
— O quê? — a Sra. Park questionou. — Ele está mentindo?
Não olhei quando ele falou.
— Hoseok não aguentava passar três minutos parado, nem que para jogar — sua voz estava discretamente risonha.
— Vocês têm alguma história engraçada de infância? — Jimin perguntou.
Eles dois se entreolharam, pensando.
— Uma vez — Taehyung começou — ele inventou de acampar no jardim. Não avisamos a ninguém onde estávamos, e a mãe dele colocou uma frota de guardas para procurar por nós pela casa.
— Tá, mas aquilo foi um em um milhão. — Hoseok justificou, rapidamente. — Eu não fazia ideia de que estavam preocupados com a gente.
— Ainda tenho pesadelos com a cena — continuou Tae, cobrindo o rosto com a mão de uma maneira dramática —; cinco guardas armados invadiram a nossa barraca no meio da noite gritando ordens em walkie talkies. Jin hyung surtou e teve que voltar pra casa.
— Você já fez pior — Hoseok retrucou. — Uma vez a cadela dele fugiu e ele passou a noite toda fora de casa, procurando. Ele tinha doze anos. Ficou todo mundo doido achando que tinha sido sequestrado.
Nami voltou para a mesa e falou, sentando-se:
— Ah, a Yuri uma vez trouxe um vira-lata para casa — contou. — De alguma maneira nós conseguimos escondê-lo dos meus pais por quase uma semana, até que o meu irmão descobriu e contou pra eles.
— Que bom que descobriram — franzi a testa. — A gente estava alimentando ele com pão e o escondendo em uma caixa de sapatos.
— Ele fedia demais — Yuri franziu o nariz —, mas eu fiquei triste quando o deram para adoção.
Jaegun passou a mão pelos cabelos coloridos, arqueando as sobrancelhas.
— Eu já ouvi essa história. Oh — ele se lembrou. — Então era dessas duas de quem o seu irmão tanto falava, Nami.
— Ele te contou sobre nós? — Yuri perguntou, surpresa. — Já estou com medo do que deve ter dito.
— Você é a Yuri — ele percebeu —, a Furtadora de Salgadinhos.
Embora com as orelhas vermelhas, Yuri acompanhou o restante da mesa quando nós rimos.
— E você — ele apontou para mim — deve ser a belíssima Jinhee, de quem ele tanto falava. — Ele arqueou as sobrancelhas sugestivamente. — Ouvi muitas coisas a seu respeito.
Prendi a respiração – ao lado de Jaegun, Nami sorriu, cúmplice. A Sra. Park soltou uma risada abafada.
— Coisas boas? — perguntei, um sorriso amarelo no rosto.
Aquela vergonha era tolerável, apesar de que pensar em Namjoon me desse uma pontada dolorosa de culpa no peito.
— Ele compôs músicas a seu respeito — Jaegun sorriu, lembrando.
— Ohoho, parece que alguém falava sobre você com bastante carinho, Jinheeah.
— Eles dois eram apaixonados um pelo outro — Nami fingiu uma tosse, e eu revirei os olhos.
Eu não estava incomodada, na verdade. A atmosfera da mesa era familiar demais para ficar chateada.
— Traga-o para cá, algum dia — a Sra. Park sugeriu. — Podemos fazer disso uma tradição, o que vocês acham?! Reunimo-nos algum dia da semana para um almoço por conta da casa.
— Vocês vão acabar falindo, desse jeito. — Jungkook brincou.
— Bobagem — ela abanou as mãos no ar. — Sabe do que precisamos agora? Sobremesa. Permitam-me escolher para vocês.
Ela se levantou.
— Taehyungssi, querido — falou. — Você tem alguma restrição alimentar? Lactose, açúcar?
— Ãh, não.
— Perfeito — ela sorriu, e então saiu rumo à cozinha.
Em um momento de fraqueza, uma olhadela rápida na direção dele me fez reparar que o prato a sua frente não havia sido usado. Bem, conhecendo a Sra. Park, eu tinha certeza de que ela havia oferecido comida. E, conhecendo Taehyung, ele recusara por não se sentir a vontade comendo perto de estranhos – uma limitação que tinha desde antes de nos conhecermos.
Quando ela se retirou, eu estava certa de que cairíamos em um silêncio constrangedor. Jimin, no entanto, assumiu seu lugar no cargo de liderar a conversa. Questionou Taehyung sobre o que ele faria no natal; perguntou para Nami como era o training na YG; entrou em um debate com Jaegun e Jinyoung sobre as apresentações na escola. Falamos sobre os leilões, sobre as comidas – eu me lembrei dos pacotinhos de biscoitos e entreguei um para Nami e coloquei os restantes em cima da mesa, para quem quisesse comer.
E então, a Sra. Park apareceu carregando uma travessa grande com sorvete de creme – o garçom Soo a seguia atrás com um prato cheio bolinhos empilhados um em cima do outro (uns de chocolate, outros de doce de leite, alguns avermelhados e com morangos em cima).
— Esta é a sobremesa mais famosa daqui — contou, sentando-se no seu lugar. — Infelizmente não vou poder acompanha-los, já que tem tudo que eu estou proibida de comer aí dentro. Portanto, vocês têm a obrigação de raspar os pratos para me agradarem. Aqui, querido, passe adiante.
Ela serviu sorvete para todos, e os bolinhos nós pegávamos com espátulas que então foram trazidas pelo garçom Soo. Eles tinham o formato de um biscoito, redondos e com recheio dentro — eram sortidos, mas cada recheio era melhor que o outro. Creme, doce de leite, geleia de morango e chocolate foram os que peguei. Já no quinto bolinho, eu estava lotada e com açúcar saindo pelos olhos, mas era tão bom... Parecia um desperdício não comer, apesar de tão cheia.
Ninguém falou nada por um momento, concentrados em comer o máximo que podíamos daquela ambrosia que nos fora oferecida. A Sra. Park saiu da mesa brevemente para conversar com uns amigos que haviam chegado ao restaurante, voltando momentos depois com uma jarra d’agua – disse que sentiríamos sede após tanto doce.
Rapidamente, a montanha de bolinhos se reduziu a apenas uns dois ou três.
— Eu estou tão cheia — suspirei. — Comi cinco bolinhos.
— Nem me fala — Nami respondeu. — Comi sete. E meio, porque o Jaegun me deu metade do último que ele não aguentou.
— Os olhos foram maiores do que a barriga.
— Comi onze. — Yuri serviu-se um copo d’agua.
— Eu não contei — Jungkook riu.
— Nem eu — Jinyoung disse.
— Comi quatorze — Hoseok falou.
— Comi perto daí também — Tae revelou, mais confortável para falar após ter comido.
— Jimin? — chamei, franzindo a sobrancelha. — Você está bem?
Sua postura estava estranha, quase como se ele fosse vomitar. Uma de suas mãos tampava a boca e a outra segurava o braço da cadeira fortemente, os nós dos dedos brancos.
Jungkook colocou a mão nas costas dele, e murmurou ao seu ouvido palavras que não pude ouvir. Foi um momento breve, e eu franzi a testa.
— Acho que comi demais — Jimin tirou a mão da boca e sorriu. — Estou bem.
— Beba um pouco d’água. — A Sra. Park passou-lhe a jarra.
Ele serviu o copo, mas em momento nenhum levou-o a boca.
Pouco tempo depois, estávamos tomando café enquanto Jaegun e Yuri contavam a história retratada pela apresentação na Shinhwa para a Sra. Park – mostrando algumas fotos e recitando alguns trechos da poesia de cabeça.
Reparei que o olhar de Jungkook vagava preocupado continuamente em direção ao banheiro, para onde Jimin fora há algum tempo. Talvez estivesse passando mal. Jimin comia sempre tão saudável nos lanches da universidade; talvez a quantidade de açúcar que comeu tivesse sido demais para o seu estômago.
O celular de Yuri apitou, anunciando uma mensagem.
— São meus pais — ela pareceu quase decepcionada ao dizer aquilo. — Tenho que ir.
A Sra. Park riu.
— Teremos mais oportunidades para nos divertimos assim, querida, não se preocupe. Deseje um feliz natal para a sua família por mim!
Ela se levantou, e eu arrastei minha cadeira para me levantar em seguida.
— Posso pegar um taxi, se você quiser ficar — ela sugeriu.
— Não, não. São quase três horas, eu quero me arrumar antes de sair mais tarde.
Dei um abraço na Nami, que aproveitou aquele momento para partir também, e ao restante da mesa apenas um ‘’tchau’’ – a despedida coletiva me poupando de ter que falar com quem estava tentando ignorar.
Dentro do carro, percebi que não me despedi de Jimin.
*
— Desculpe pela demora! — Atrapalhei-me com as sacolas, saindo apressadamente do elevador.
Jimin virou-se para mim, tirando o celular da orelha. Ele estava de pé na frente da grande árvore de natal do saguão de entrada.
Foi então que percebi que estava arrumada demais; enquanto ele vestia um moletom cinza e uma calça jeans escura, eu estava com um vestido de lã rosa, justo e de manga comprida e botas de salto alto bege.
Ele se apressou para me ajudar com as sacolas.
— Não se preocupe, cheguei há pouco tempo.
— Eu estou arrumada demais, não estou?
Ele negou com a cabeça, sorrindo.
— Você está perfeita. Pronta?
Assenti com a cabeça, checando se todas as sacolas estavam ali. Ele esperou que eu fizesse menção de segui-lo para sairmos do saguão de entrada do prédio. Sorri para o porteiro JongUn quando ele abriu a porta para nós, adentrando o clima gelado do inverno. Nevava um pouco.
— Jinheessi — Jimin começou, um tanto cuidadoso —, o que tem nessas sacolas?
Eram três; duas da Forever 21 e outra da Prada.
— Foram as únicas que encontrei em casa — expliquei. — É um bolo. E biscoitos, para o caso de alguém não gostar do recheio de morango. Não queria aparecer de mãos vazias.
— Ah. — Ele abriu um sorriso largo. — Muito obrigado. As crianças vão fazer a festa.
Ele puxou o molho de chaves do bolso – tinha um grande pompom cor de rosa preso a ele.
— Juro que acabei de estacionar e não lembro onde coloquei o carro. Acho que está pra lá. — Ele apontou para a minha direita.
A rua estava engarrafada, com veículos estacionados nos dois lados da calçada. Éramos as únicas pessoas caminhando, apesar da quantidade de carros. Ali normalmente não era tão movimentado, mas, como era véspera de natal e morávamos perto de um shopping, as pessoas que deixaram para comprar os presentes na última hora encontrariam tráfego aonde quer que fossem.
Jimin caminhou ao meu lado, erguendo o controle do carro procurando por algum sinal.
— Você está melhor? — perguntei.
— Melhor?
— Você estava se sentindo mal, hoje no almoço.
Ele sorriu, ouvindo o carro destravar a alguns veículos de distância.
— Ali. — Apontou. — Eu estou ótimo, não se preocupe. Acontece quando eu como demais.
Caminhamos em direção a uma minivan prateada com várias falhas na pintura. Jimin apontou para um amassado particularmente grande em cima da roda, colocando as sacolas no banco de trás:
— Foi a Seona noona que bateu o carro. Eu mesmo dirijo bem. Está segura, prometo.
— Seona?
— A dona do Lar. Lar da Esperança, o orfanato.
Entrei e ele fechou a porta. Atravessou o carro correndo, e ligou-o rapidamente, colocando os aquecedores ao máximo.
— É estranho chamar o Lar de orfanato — falou, entrando na fila de carros. — Quero dizer, eu sei que são órfãos, mas somos como uma grande família.
— São muitas crianças? Fiz pouco mais de trinta pacotes de biscoitos.
Ele riu.
— Isso tudo? Vai dar com sobra. São... não sei quantos somos. Quatro meninas de 14, trigêmeos de 17, nove- não, oito crianças. E dois bebês. Dezessete pessoas, sem contar os voluntários.
— Ah, que ótimo, então. Espero que gostem dos biscoitos. Coloquei mais açúcar na receita, já que crianças preferem mais doce.
— Elas vão gostar, tenho certeza. As crianças comem de tudo. Talvez nem sobre nada. E olha que a minha mãe fez um batalhão de comida.
— A Sra. Park não brinca em serviço — brinquei.
Jimin batucava os dedos no volante enquanto esperava que a fila de carros andasse. Tinha um terço de madeira pendurado no retrovisor, e alguém havia escrito ‘’Gigi’’ com algo pontudo no painel do carro. Olhando para trás, havia três fileiras de bancos – e vestígios das crianças que passaram ali. Um livro de colorir ao lado dos meus pacotes; um coelho de pelúcia fora esquecido no chão; uma lancheira.
— Espero que você goste das crianças — Jimin disse. — Elas são muito legais. E engraçadas, também.
— Espero que elas gostem de mim — franzi as sobrancelhas. — Não levo jeito com crianças.
— Ah, mas elas vão gostar — ele deu de ombros. — Seus biscoitos são o passe livre para o coração de pelo menos 70% dos pestinhas.
Não pude deixar de rir, dando mais uma olhadela para os pacotes no banco de trás; estava com medo de que caíssem no chão. Jimin acompanhou o meu olhar e o interpretou errado.
— Seona noona leva as crianças para a escola nessa minivan, por isso a bagunça — explicou. — Os mais velhos pegam o metrô.
Ele esticou o braço e alcançou o coelho e pelúcia no chão, pondo-o no seu colo.
— São muitos voluntários? — perguntei.
— Não hoje, já que é natal. O Lar é financiado por uma escola particular, perto daqui. Nunca faltou nada, graças aos céus, mas estamos sempre arrecadando dinheiro para comprar presentes para as crianças nesses tipos de datas.
Assenti. Eu pensara em trazer dinheiro para doar, mas não tivera tempo de passar em um banco. Prometi a mim mesma que colocaria algumas notas na caixa de doações toda vez que fosse ao restaurante.
Jimin apontou para a janela do carro, tirando-me do meu devaneio.
— É muito bonito, não é?
Ah, ele não estava apontando para o vidro, e sim para a vista. Analisei o parque para o qual apontava. Apesar de morar ali há meses, nunca parara para reparar os arredores do caminho que percorria praticamente todos os dias ao voltar para casa.
Realmente, era bonito. Não era grande; uma praça circular em volta de um pequeno lago congelado. O todo formava uma imagem afável, o azul cinzento do céu com um ar romântico. Estava tudo coberto por neve, tornando branco os arbustos, as árvores, os bancos e até os brinquedos.
— Me deu uma vontade súbita de fazer um boneco de neve — ele falou.
Aquilo me fez sorrir.
— A Nami unnie dizia que o natal só começa depois de uma guerra de bolas de neve.
— Gigi diz a mesma coisa — ele abriu um sorriso. — É uma das nossas pequenas estrelas, lá no Lar. Ela tem oito anos.
— Você e a Sra. Park são voluntários há muito tempo?
Nosso carro finalmente conseguiu avançar na fila.
— Desde que me entendo por gente — respondeu. — Mamãe ficou órfã muito cedo, também. Então sempre esteve envolvida de alguma forma com orfanatos. Ela gosta muito de crianças, de qualquer jeito.
Assenti, pensativa.
— E você? Gosta de crianças?
— Gosto — ele assentiu, e então algum pensamento o fez sorrir. — Quero ter a casa cheia. Muitos filhos, dois cachorros e várias plantas. E pássaros, só que não quero que eles fiquem presos em gaiolas.
Dei uma risada.
— Você já tem a sua vida programada tanto assim?
— Você não?
Dei de ombros.
— O futuro é um papel em branco.
— Bem, então você precisa começar a escrever nesse papel — ele retrucou. — Qual é o seu sonho?
Pisquei, surpresa pela pergunta.
— O meu sonho?
— Umhum.
Hesitei.
— Não sei.
— Algo deve ter passado pela sua cabeça agora, não foi?
— Não, nada.
— Nada nada?
— Nada nada — respondi.
— Você não pode não ter um sonho — insistiu. — Posso te emprestar um dos meus.
Aquilo me fez rir.
— Você tem muitos sonhos?
— Vários. — Um sorriso raiou em seu rosto.
— E você já conquistou algum?
— Já, muitos. Com os anos, fui acumulando mais.
Assenti. Ele finalmente conseguiu fazer a volta no parque e avançamos alguns quilômetros antes de cairmos em outro engarrafamento.
— Ah, vamos — seu tom era brincalhão. — Eu sei que você quer perguntar.
— Eu não quero ser intrometida — dei de ombros.
— Vamos fazer um acordo, então — ele propôs. — Pode perguntar o que quiser e eu te digo se estiver sendo intrometida.
— Tudo bem, então. Quais são os seus sonhos?
Ele sorriu, satisfeito.
— O próximo a se realizar vai ser o de me formar. Depois, quero fazer uma pós-graduação fora da Coreia. Quero que as crianças do Lar se formem, também.
— Conte-me o último sonho que realizou.
— Ler um livro em mais de três idiomas.
— Quais idiomas?
— Coreano, japonês e inglês.
Ficamos em silêncio.
— Só isso? — ele reclamou, brincando. — Sou tão desinteressante assim que acabaram as suas perguntas?
Hesitei.
— Você disse que tinha vários sonhos. Ganhar dinheiro é um deles?
— Sim e não. Comprar o que o dinheiro pode pagar, no entanto, sim. Primeiro, vou comprar um skate para o Bonhwa, porque ele sempre pega o meu emprestado. Ele é uma das crianças lá do Lar. Depois, quero comprar uma van maior para levar todos eles para ver as estrelas fora de Seul, já que o céu daqui não é tão limpo. E, mais tarde, vou levar a mamãe para vários lugares, para visitar vários países. Ela sempre quis conhecer a Itália, então vou leva-la pra lá com certeza.
Um aspecto que me chamou a atenção foi ele incluir pessoas em seus sonhos. Nada do que ele dissera era feito só, sempre com e para alguém. E, bem, Jimin era uma pessoa boa; ele merecia. Falava com tanta certeza que iria conquistar cada um daqueles sonhos que eu me vi ansiando para que ele os conquistasse.
— O que mais?
Seu sorriso se alargou.
— Me casar — falou. — Na praia. E quero que cada uma das meninas do Lar sejam damas de honra. Quero ter uma casa na praia, também, porque quando entrarmos na rotina poderemos viajar para nos divertir.
— E os cachorros? — brinquei.
— Ah, eles vão também. Cachorros costumam gostar de areia. Mas vou ter que pedir para alguém regar as nossas plantas.
— Eu posso regar as suas plantas, se você quiser — ofereci.
Ele riu, assentindo com a cabeça.
— E aí? — perguntou. — Te inspirei para criar algum sonho?
— Hm — pensei.
— Sonhar é importante. É o primeiro passo para alcançar um objetivo, por mais improvável que ele pareça.
— É difícil pensar no que eu quero num futuro tão distante — franzi o nariz. — Não sei como vou estar daqui a alguns anos.
— Formada em Medicina? — sugeriu.
O pensamento aumentou a carranca no meu rosto.
— Não? — ele franziu a sobrancelha. — Pensei que gostasse do curso.
— Eu gosto — retruquei, mas a carranca não se desfez. — Acho que sim.
Senti seu olhar no meu rosto, curioso, mas não queria continuar falando sobre aquele assunto.
— Biscoitos — falei. — Meu primeiro sonho.
Ele piscou, surpreso.
— Biscoitos? — a lembrança de um sorriso surgiu em seus lábios, esperando para entender o sentido da minha fala.
— No restaurante — continuei. — Combinei com a Sra. Park para vende-los. Ela disse que vai coloca-los no caixa, e, se as pessoas gostarem, os colocará no cardápio para servi-los com café.
Minhas bochechas estavam avermelhadas quando terminei de falar. Se aquilo não desse certo, Jimin saberia que aquele meu ‘’sonho’’ não se realizara. Eu já estava antecipando a vergonha do fracasso.
— Isso é ótimo! — ele sorriu, me incentivando. — Farei a propaganda, não se preocupe. Tenho certeza de que os clientes vão adorar e vai ser um sucesso. Qual será o nome?
— Nome?
— É. Ou você planeja só chama-los de ‘’biscoitos’’?
— É. Não sei, acho que essa era a ideia. Vou pensar nisso.
Jimin começou a dar ré com o carro e eu percebi que havíamos chegado. Estávamos estacionando na garagem de uma casa de dois andares, com as paredes rosa claro e janelas de madeira. O pequeno jardim em frente às escadas que levavam à porta era cheio de flores, e havia um bebedouro de pássaros pendendo da telha da varanda. Na calçada, uma plaquinha dizia ‘’Bem Vindo ao Lar da Esperança’’.
— Chegamos — ele anunciou, desligando o carro.
Quando abrimos a porta, pude ouvir algumas vozes agudas e agitadas vindo até nós – vozes de crianças. Eu estava saindo do outro lado do carro, e elas ainda não haviam me visto. Riam, chamando por ‘’Hyung!’’ e ‘’Oppa!’’. Era uma visão engraçada, cada uma com um gorro vermelho de natal e pés descalços descendo as escadas correndo. A criança da frente, uma garota pequena com os cabelos negros e um óculos pendendo precariamente da ponta do nariz, carregava um rolo de cartolina nas mãos.
— Feliz natal! — Jimin exclamou, e eu sabia que estava sorrindo mesmo sem vê-lo. — Encontrei o seu coelho dentro do carro, Gigi.
Ele foi – na falta de palavras para descrever – atacado pelas crianças. Elas envolveram-no num abraço, pulando e rindo alto. Cada uma falava uma coisa diferente, agitadas demais para fazer algum sentido.
— Fizemos um presente para você! — a garota de óculos disse, estendendo a cartolina.
— Pra mim?
— Abre!
— Lá dentro, agora nós temos que entrar.
— Abre agora! Você vai gostar.
— Vou abrir, vou abrir. — Ele riu.
— Jiminah — uma voz familiar chamou.
A Sra. Park estava na porta da casa, vestindo uma roupa perfeita de mãe Noel. Um vestido vermelho longo com mangas compridas e um gorro de natal na cabeça.
— Crianças, já pra dentro — comandou ela. — Vocês estão descalças?! Quem sujar o chão vai ter que limpar!
Elas correram para as escadas, puxando Jimin junto. Perguntei-me se deveria segui-los. Eu não estava exatamente me escondendo, mas admitia estar um tanto pesarosa de aparecer para aquele tanto de crianças. E se elas não gostassem de mim? Crianças podem ser bem más. Bem, Jimin me assegurou de que elas eram legais. Mas todo mundo gostava dele, então era difícil dizer se eu deveria ou não me sentir segura.
— Jiminah, onde está a Jinhee? — a Sra. Park perguntou.
— Ela está aqui — ele respondeu, parando no meio das escadas e olhando para trás.
Apressei-me para sair de trás do carro, aparecendo na linha de visão deles.
— Feliz natal — falei, curvando-me levemente.
— O que está fazendo aí, querida? Venham logo, vou servir o jantar — ela disse, entrando pela porta.
Meu olhar estava nas crianças, que me analisavam de cima abaixo desconfiadas. Estando paradas, pude contar oito delas ali.
Jimin as cutucou.
— Vocês ficaram tímidos? Cumprimentem a moça.
— Feliz natal! — fizeram coro.
A garota de óculos puxou ponta do moletom de Jimin.
— Quem é ela, oppa?
— Uma amiga.
Ela olhou para mim de cima abaixo, não convencida.
Afastando delicadamente as crianças do caminho, Jimin desceu alguns degraus e estendeu a mão para mim. Hesitei antes de pega-lo, pesarosa do que elas pensariam daquele ato.
Tive razão em temer. Elas começaram a rir, e subiram as escadas correndo.
— Jimin trouxe uma namorada! Jimin está namorando!
Ao meu lado, ele riu, e subimos os degraus rapidamente para fugir do frio.
— O quê? Isso é sério? — uma voz masculina falou, dentro da casa. — Ele nunca trouxe ninguém pra cá.
— Já sim, o Jungkook oppa — uma garota argumentou.
— É, mas não uma garota — o garoto respondeu, e sua voz soou estranhamente duplicada.
Eu me agachei para tirar os sapatos, agradecida pelo aquecimento caloroso da casa. Dois garotos apareceram no corredor – percebi duas frações de segundo atrasada que eram gêmeos. Eles não pareciam coreanos; eram loiros e com os olhos verdes. Vestiam o mesmo gorro de natal que as crianças, apesar de aparentarem ser bem mais velhos – a minha idade, talvez. Eram bem altos, e tinham aquele tipo de beleza simpática que você se apaixona de primeira.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Eles pareciam bem surpresos ao me verem.
— Olá, eu sou o Jinhyung — o primeiro sorriu.
— Eu sou o Jinhwo, ao seu dispor.
Sorri de volta, me esforçando para agir normalmente apesar de perceber as várias cabecinhas espiando pelo vão do corredor.
— Meu nome é Jinhee — me curvei. — Prazer.
— Ninguém vai me cumprimentar? — Jimin riu dos dois, me encarando.
Senti-me como um rato de laboratório, sendo analisada de cima abaixo.
— O que vocês estão fazendo? Saiam daí, vão assusta-la — a mesma voz feminina de antes repreendeu. — Oppa!
Uma garota alta e esbelta apareceu no fim do corredor, andando até nós com um sorriso estampado no rosto.
— Taeyang — Jimin a cumprimentou, tirando os seus sapatos. — Sejam bonzinhos, por favor.
Ela parou ao lado dos garotos, e só então percebi que eram irmãos – trigêmeos. Os três eram muito bonitos, e me observaram de cima abaixo.
— Boa noite — eu me curvei.
— Você é bonita — a garota disse.
Pausei, pega de surpresa pelo elogio.
— Obrigada.
— Eu não sei vocês — disse Jinhyung —, mas eu estou muito surpreso.
— Oppa — Taeyang chamou. — Ela é bonita demais.
— O que exatamente você viu no Jimin? — perguntou Jinhwo.
Hesitei.
— Perdão?
— Ei! — Jimin reclamou. — Eu estou bem aqui.
— Estou confuso.
— Jinhyung oppa — uma garota atravessou o corredor.
Ela também usava um gorro de natal, e parecia ter seus 14 anos.
— Pare com isso. Qualquer pessoa seria sortuda de namorar o Jimin oppa.
— Isso mesmo, Sookah — Jimin a incentivou. — Defenda o seu Oppa.
— Cadê ela?! — alguém exclamou no cômodo fora da minha linha de visão, e segundos depois outra garota apareceu no fim do corredor. — Oppa? Essa é a sua namorada?
— Não, ela é uma amiga — ele respondeu, colocando a mão no alto da minha cabeça. — Choi Jinhee.
— É mentira, eles deram as mãos! — uma criança exclamou, e as outras deram risadinhas.
— Ah, bom — os trigêmeos assentiram com a cabeça, como se tivessem descoberto o segredo de um enigma. — Faz sentido, agora.
— Onde está a Dongyul? — Jimin perguntou. — Nunca vi esse corredor tão cheio, e só falta ela.
— Ouvi meu nome! — uma menina apareceu, empurrando umas crianças no caminho. — Que diabos?!
— Unnie, o Jimin trouxe uma namorada!
— Ãh? — ela olhou para mim, surpresa. — Ah. Sério? Oppa, ela é bem bonita.
Caminhando na nossa direção, sorridente, ela se atrapalhou, olhando para mim.
— Prada? — Apontou para o meu vestido, boquiaberta.
— Ah. Não — corrigi, estranhamente envergonhada. Não queria dizer que era Dolce & Gabbana, tampouco.
— Vi um parecido com ele em alguma coleção de inverno recente. — Ela se apressou para dentro do nosso pequeno círculo, em frente à porta. — É lindo!
— Parece caro — constatou um dos trigêmeos.
— Unnie, você estuda na Shinhwa?
— Areia demais pro seu caminhão, hyung.
— Jinhyung oppa, o Jimin oppa é gentil e bonito — defendeu uma das garotas que eu não lembrava o nome. — Qualquer garota seria sortuda de-
— Cadê todo mundo? — a voz da Sra. Park chamou.
— Estamos aqui, mãe — Jimin respondeu.
— Venham jantar! — ela chamou.
Todos ficamos parados.
— Agora — ela gritou.
Apressamo-nos pelo corredor, entrando em uma sala espaçosa. As paredes tinham um tom de bege e o chão era de madeira. Havia um sofá grande em formato de L em frente a uma televisão na parede. Do outro lado, uma mesa de vidro com vários assentos em frente a uma grande janela com a vista para o jardim. A sala era toda decorada por quadros e jarros de cerâmica, e havia alguns brinquedos espalhados pelo chão. Um grande tapete de tricô amarelo me chamou a atenção, pois eu tinha certeza que já o vira em algum lugar.
A Sra. Park apareceu na sala carregando um pesado prato com sopa de alga, e os dois garotos mais velhos correram para ajuda-la.
— Todo mundo já lavou a mão? — ela perguntou. — O quê é isso, Jimin?
Ela apontou para as sacolas que eu nem percebera que ele estava carregando.
— Um presente da Jinheeah.
— Ah, querida! Muito obrigada.
— O que é? — perguntou uma das crianças. — Podemos abrir?
— Agora não, vamos jantar primeiro. Presentes só depois.
Jimin colocou as sacolas junto às outras várias caixas debaixo da árvore de natal no canto da sala. Percebi que os enfeites da árvore eram de super heróis, e a estrela no topo da árvore era um boneco do Gudetama.
— Crianças, quem pode mostrar para a Jinheeah onde é o banheiro para ela lavar as mãos? — perguntou a Sra. Park.
Estranhamente, elas começaram a rir. Então, alguém segurou a minha mão e fomos correndo em direção a outro corredor, e passamos por alguns quartos com beliches antes de chegarmos a um banheiro.
Havia um baú cheio de brinquedos de borracha em frente à banheira, e a pia era na altura do meu umbigo – feita especialmente para crianças. Tive que me curvar para lavar as mãos. Cada escova de dentes tinha uma cor diferente, e as pastas de dente tinham imagens de personagens de desenhos animados.
As crianças esperaram que eu terminasse para então usarem a pia, uma atrás da outra – haviam feito uma fila indiana. Ninguém foi embora até que todas terminassem de lavar as mãos, e eu esperei no corredor. O tempo todo, elas riam e espiavam na minha direção como que para garantir que eu ainda estava ali.
Jimin apareceu pouco tempo depois, e abriu a porta ao meu lado, mostrando um lavabo.
— Gente, o banheiro das visitas é este aqui — ele lembrou às crianças.
— Tudo bem, eu já lavei as mãos — falei.
— Se quiser usar o banheiro, pode- Kwanah, não faça xixi na frente das visitas.
O menino levantou as calças, meio sem jeito.
— Mas a Seona noona briga se a gente fechar a porta do banheiro — falou.
— Aqui, venha comigo. —Jimin estendeu a mão.
Os dois entraram no lavabo. Eventualmente, as crianças terminaram de lavar as mãos e ficamos esperando no corredor pelos que faltavam.
Quando todos estávamos finalmente sentados a mesa – eu me posicionara estrategicamente ao lado de Jimin e da Sra. Park -, depois do primeiro momento de balbúrdia enquanto as pessoas se serviam, houve silêncio enquanto comíamos. A comida estava divida, como o esperado da Sra. Park.
Vez ou outra percebia alguém me encarando, então comi sem levantar o olhar do prato. Pelo menos eu não me sentia mais como um rato de laboratório, e sim como uma espécie de celebridade.
Seona unnie, a dona do orfanato, era uma mulher mais ou menos da idade da Sra. Park, com o cabelo roxo e tatuagens pelos braços (suspeitava que tivesse em outras partes do corpo também, mas sua roupa cobria). Ela era muito engraçada e simpática, fazendo todos rirem com suas histórias. Contou sobre suas viagens para o interior da Coreia, sobre suas experiências de vida, sobre seus ex-namorados. Suas piadas eram inteligentes, e era engraçado ver as crianças rirem mesmo sem entender do que ela falava. A Sra. Park fez perguntas às crianças, falando da escola e de resoluções de ano novo. E fizeram perguntas para mim, também, mas eu já esperava que fizessem. Perguntaram de onde eu era, aonde eu havia conhecido o Jiminssi. Perguntaram por que eu não estava passando o natal com a minha família, e o que os meus pais faziam. O que eu queria ser quando crescesse e o que eu estudava na Shinhwa. Fizeram várias perguntas, algumas não intencionalmente incisivas.
— Como está o Jihyeon? —entreouvi Seona perguntar para a Sra. Park.
Não era minha intenção escutar seus murmúrios, mas elas estavam bem ao meu lado. E o nome Jinhyeon – o outro filho da Sra. Park, o irmão mais novo de Jimin – me chamara a atenção.
— Ele está melhorando! — ela respondeu, alegre. — O médico disse que desta vez os remédios estão funcionando, mas que um dos efeitos colaterais é o sono. Ele dormiu antes que fôssemos embora do hospital, acredita?
— E o Jimin?
— Ele está super alegre, é claro — respondeu. — Recebemos previsões de que talvez o Jinhyeon saia do hospital ainda no ano que vem!
— Jinhee unnie — uma das garotas chamou a minha atenção. — Você quer mais kimchi?
Algum tempo depois, quando todos terminamos de comer, a Sra. Park se levantou.
— Está na hora do meu discurso anual de natal. — Ela chamou nossa atenção. — Hoje nós recebemos uma convidada bastante especial — ela sorriu para mim —, e estou orgulhosa por vocês a terem tratado bem. Enfim, escrevi algumas palavras e gostaria que cada um escutasse-as com o coração.
Ela fez uma pausa, puxando um papel do sutiã – aquilo puxou risadas da mesa.
Ela pigarreou.
— ‘’Você nunca é tão pobre ao ponto de não ter nada para oferecer ao mundo, mesmo que um sorriso. Um elogio, um ato de bondade. O perdão, que representa uma segunda chance para você e para a pessoa que está perdoando. Carinho, amor. Tudo isso a gente dá de graça, mas colocamos um preço tão alto que as outras pessoas, por mais que queiram e se esforcem, não são capazes de comprar. Nesta vida, eu aprendi que não vale a pena viver sozinha, não vale a pena viver triste e nem vale a pena viver pela metade. Se eu vim pra esse mundo, foi com as mãos transbordando de amor para tornar nossa passagem por aqui mais agradável. Nós vivemos em um mundo duro – vocês, principalmente-, mas, se nos concentrarmos sempre nas coisas boas, por menores que sejam, ele se torna tão belo que você não pode simplesmente ficar calado e têm que mostrar essa beleza exuberante para os outros. Nossa felicidade dura mais quando estamos em grupo, compartilhando aquele sentimento de alegria e de pertencimento. Peço para que, no futuro, minhas crianças, vocês sejam capazes de encarar suas dificuldades com um sorriso no rosto, sempre se lembrando dessa nossa pequena grande família aqui no Lar da Esperança. Eu amo muito cada um de vocês.
*
Na hora da sobremesa, embora houvesse várias tortas e bolos feitos pela Sra. Park, meu bolo fora comido quase todo (não porque era melhor, mas porque as crianças realmente comiam muito). Comíamos sentados em cima do tapete de tricô. Ele me era familiar porque havia um no restaurante também. Taeyang dissera que Seona que o tricotara, e os jarros de cerâmica espalhados pela casa fora a Sra. Park quem fizera. Os quadros em sua maioria eram obras de Dongyul, que era apaixonada por moda e tinha um talento para artes em geral.
As crianças se reuniram no sofá em frente à televisão e cantaram uma música de natal (acompanhada no teclado por Jinhyung e no violão por Jinhwo). A Sra. Park chorou de emoção, e não havia uma pessoa naquela sala que não tivesse uma marca de beijo do batom vermelho que ela usava estampada na cara.
Jimin finalmente abrira a cartolina que recebera das crianças e era um monte de papel colado um no outro, cada um com desenhos, mensagens e fotos. O grande cartaz devia ter uns cinco metros de comprimento, e quase rasgou quando ele o abriu de uma vez, mas nada deu errado e Jimin acabou lendo as mensagens em voz alta. A maioria era agradecendo por ele ser um hyung tão legal, outras eram pedidos de desculpa por terem quebrado algo dele sem querer, e o resto eram declarações de amor para que ele nunca fosse embora.
Jimin ficou com lágrimas nos olhos, e aquela imagem me tocou profundamente. Eles eram uma família desengonçada, grande demais e cheia de diferenças, mas o que me emocionou foi porque eles valorizavam uns aos outros. Era como se, em vez de uma casa para órfãos, fosse um lar de duas mães e várias crianças. Ver tantos sorrisos pareceu mudar algo em mim, naquele dia.
Estava tudo ocorrendo na medida do normal, até que os trigêmeos começaram a implicar com o Jimin.
— Mas sério, levei um susto quando disseram que você trouxe uma namorada — Jinhyung o cutucou.
— Jinheessi, você é boa demais pra ele — Taeyang brincou.
Jimin aparentemente era uma pessoa inerritável, porque nada do que eles dissessem parecia o incomodar.
— Foi um mal entendido das crianças — falei.
— Claro que tinha que ser um mal entendido. — Eles riram.
Sookah deu um empurrão em Jinhyong.
— Quer parar? — ela brigou. — Jinhee unnie seria sortuda se namorasse ele.
— Ah, quer dizer que você está apaixonadinha pelo Jimin oppa — Jinhwo caçoou.
— Ela gosta de um oppa lá da escola — contou Dongyul, rindo.
Sookah virou-se para ela ameaçadoramente.
— Mais um pio sobre isso e eu conto de quem é que você gosta.
— Conta, conta. — Taaeyang riu. — Adoro fofoca.
— Fofoqueira.
— Sou mesmo.
— Jinhee unnie — Kwanah chamou —, tem alguém de quem você gosta?
— Não. — Sorri para ele, na esperança de soar gentil. — Minha vida amorosa nunca foi das melhores.
— Nem me fale. — Jimin riu.
— Por que vocês não namoram? — ele perguntou.
Hesitei, sem saber como responder àquela pergunta que somente uma criança faria tão inocentemente.
Jinhyong riu.
— Ela é boa demais pra ele.
— E como você não sabe que ele que não é bom demais pra ela? — Sookah retrucou.
Senti um calafrio quando as crianças se fecharam numa rodinha, cochichando uma para as outras.
— Porque eu cresci do lado dele — Jinhyung falou. — Acompanhei todas as fases vergonhosas da vida dele. Sabia que o Jimin já foi obeso?
Olhei para ele, surpresa, incerta se deveria ou não acreditar. Jimin riu.
— Eu não era obeso.
— Tá, mas você era muito gordo.
— Não fale como se fosse algo ruim. — Franzi a sobrancelha. Adicionei uma risadinha no final na esperança de não ter soado rude.
— Não é algum ruim, mas é algo a ser considerado — Jinhyong cutucou Jimin. — Ele comia feito um porco.
— É difícil de imaginar — falei. — Ele come tão pouco agora.
— Estou cuidando da minha saúde. — Jimin deu de ombros.
Ele fungou.
— Você nem comeu sobremesa! — Taeyang apontou. — Sinal de que muitas coisas mudaram.
— Não estava com vontade.
Lembrei-me dele dizendo que passava mal se comesse muito doce.
— Jinhee unnie! — uma voz aguda me chamou.
Uma criança – Gigi – estava de pé, na frente das crianças (como que uma representante).
— Sim?
— Eu fui nomeada Maga da Verdade para desafia-la num duelo.
Hesitei.
— Que tipo de duelo, exatamente?
— Vamos investigar se você é ou não merecedora de casar com o Jimin oppa.
— Não. — Jimin negou com a cabeça. — Nós não estamos namorando.
As crianças fizeram um lamurio.
— Por favor.
— Não.
— Por favor, oppa — ela pediu mais uma vez.
— Não, vocês só vão envergonha-la. E nem vem com essa cara de choro que eu já caí muitas vezes nisso pra não ter aprendido a lição.
— Mas você nunca trouxe uma namorada pra cá! A gente quer brincar com ela.
— Ela não é minha namorada.
Ela bufou, irritada.
— Sra. Park! — chamou. — O Jimin oppa não quer deixar a gente brincar.
A mulher levantou o olhar do sofá, onde ela conversava com um bebê nos braços.
— Ora, e por que não?
— Porque ele é chato.
— Jiminah, não seja chato — ela riu. — E do que vocês querem brincar?
— A gente quer que a namorada dele prove que merece casar com ele.
— E por que não? Não vejo problema nisso. É super necessário que ela se prove merecedora, não é mesmo, bebê? — ela brincou com o pezinho do bebê nos seus braços.
— Pergunta quem eles estão chamando de minha namorada — Jimin sugeriu.
— A Jinhee unnie — Gigi respondeu.
— Oh. — A Sra. Park franziu as sobrancelhas. — Isso se desenvolveu rápido.
— Mãe.
— Bem, eu não vejo problemas se a Jinhee não se incomodar. Você se importa, Jinheeah? Elas não vão fazer nada indecente, não é, crianças?
— Isso, nada incedente.
— Indecente — corrigiu Jimin.
— Incendente. Ince- indente.
— In.de.cen.te. — falou, pacientemente.
— Indecente — ela repetiu.
— Isso. Ó, toma um biscoito — ele puxou um pacote de biscoitos de uma das sacolas que eu trouxera.
As crianças se agitaram, querendo biscoitos também, e então – cada uma com seu pacote – sentaram-se ao meu redor para o meu ‘’duelo’’. Do sofá, percebi a Sra. Park tirando fotos nossas.
— Então, Jinhee unnie — começou Gigi. — Estamos aqui reunidos porque você precisa provar o seu valor se quiser casar com o Jimin oppa. Tipo em Sherk, que ele precisa matar o dragão pra ficar com a Fiona.
— Só que a gente não tem um dragão, e o Jimin não é uma princesa — Kwanah falou.
— Por isso eu fui nomeada a Maga da Verdade.
— Não pergunte nada indecente — Jimin pediu.
— Você não deve interromper o ritual — ela repreendeu.
As criancinhas fizeram ‘’shhhh’’, pedindo por silêncio.
— Repita comido — Gigi continuou —: ‘’eu, Jinheeah, prometo falar a verdade e não olhar nenhuma resposta na internet’’.
Eu teria achado cômico se elas não estivessem me olhando com tamanha seriedade.
Repeti o que ela disse.
— E agora? — uma criança perguntou, ansiosa.
— Estou pensando.
Esperamos em silêncio.
— Unnie, se o Jimin oppa fosse um vampiro que lesse a mente de todo mundo menos a sua e quisesse muito beber o seu sangue, o que você faria?
— Gigi, você tirou essa de Crepúsculo — Jimin reclamou.
— Oppa, se você der dicas para a guerreira eu vou ter que convida-lo a se retirar.
— É, querido — a Sra. Park apoiou. — Deixe as crianças trabalharem.
— Tudo bem, próxima pergunta — ela continuou. — Se você pudesse escolher entre ser uma fada ou uma sereia, qual escolheria e por quê?
Jimin bufou.
— Francamente, o que isso tem haver-
— Shhhh.
— Fada — respondi.
— Por quê?
— Porque quando eu tinha a sua idade eu queria ser que nem a Tinkerbell.
Ela assentiu, aparentemente satisfeita com a resposta. Pude ver que as crianças estavam se divertindo com aquela brincadeira.
— Tudo bem, você passou nesse teste. Agora você precisa provar que merece casar com o Jimin oppa.
— E como eu faço isso?
— Bem — ela pausou, pensando. — O Jimin oppa é a pessoa mais legal do planeta, então você tem que ser a segunda pessoa mais legal.
— E eu? — a Sra. Park perguntou.
— Você é adulta, não conta.
— Jinhee unnie — Gigi continuou. — Você tem dez minutos pra provar que é a segunda pessoa mais legal do planeta.
— Mas eu-
— Dez. Nove.
— Gigi — Jimin falou —, os biscoitos estão bons?
— Estão, mas não me distraia, estamos discutindo o seu futuro. Oito.
— Sabe quem foi que trouxe os biscoitos?
Ela olhou para ele, suspeita.
— A Sra. Park?
— A Jinheeah.
Gigi pausou a contagem regressiva. As crianças olharam para mim, com os pacotes de biscoito ainda em seus colos, e começaram a aplaudir.
— Parabéns, Jinhee unnie. Você passou no teste. Pode casar com o Jimin oppa, vocês têm a nossa bênção.
Gigi cuspiu na mão e a estendeu para que eu a apertasse, e a Sra. Park a interrompeu naquele momento.
— Tudo bem, quem quer abrir os presentes?!
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