Notas iniciais
Desculpem o atraso, boa leitura~~ ˆˆ OBS: Vale ressaltar que o capítulo é um flashback

Choi Sunhee POV

Suspirei. Não havia muito para fazer, agora que todas as solenidades haviam acabado e esperávamos pelo último anunciamento para fim da noite. Eu estava na mesa da família, rodeada por pessoas – em sua maioria velhos – que eu conhecia de rosto, mas seus nomes não me vinham à memória. Alguns evitavam se dirigir a mim (nem mesmo se permitiam um olhar em minha direção), mas outros sorriam animadamente, como se eu fosse uma espécie de animal fantástico. Francamente, mais de um ano havia se passado e ainda assim essa gente agia como se minha sexualidade fosse algo anormal.

A maioria ali estava satisfeita depois do escândalo da família Choi. Quem diria que, dentro da família perfeita, a primogênita tivera um caso com outra mulher? E, como se não bastasse, a bendita mulher a processara – foi assim que descobriram sobre o meu relacionamento. Eu nunca pensei que poderia ser processada por ‘’iludir’’ alguém. Não fazia ideia de que existiam leis para aquilo. Bem, pelo menos eu ganhara o processo e as coisas voltaram ao normal (ou tão normal quanto possível, com a Coreia inteira sabendo da minha sexualidade).

Isso era um saco na maioria das vezes – os olhares, os cochichos. Mas, em sua maioria, era bom não precisar fingir. Eu nunca havia sentido a obrigação de contar sobre minha sexualidade para os meus pais – afinal, isso não dizia respeito a mais ninguém senão eu. Claro que eu tampouco planejava esconder aquilo para sempre. Mas queria tê-los dito pessoalmente, em vez de deixá-los descobrir através de uma notícia de jornal.

Não adiantava mais chorar pelo leite derramado. Eu já havia superado, mesmo que todos não agissem mais da mesma maneira.

Suspirei novamente. Eu não queria mexer no celular, então estive olhando para o nada por vários minutos. Levantei, indo a procura de Jinhee – que tinha saído a procura de alguém.

Andei por entre as mesas, percorrendo o salão com o olhar.

— ... da Jinhee — escutei alguém falar. — Pensei que fosse ser algo só do trabalho, mas ela é realmente interessante. E bela, diga-se de passagem.

— Quando foi comigo, ela estava bem envergonhada. Disse que nunca havia ido a um encontro as cegas antes.

Parei perto da mesa, reconhecendo algumas de suas faces. Eram médicos do hospital Choi. Três deles conversavam sobre a minha irmã, alheios à minha proximidade.

— Ela é muito jovem, não é? — perguntou um deles. — Não sei se devo aceitar o convite da senhora Choi. Fiquei muito surpreso, mas talvez seja melhor eu não-

— Fez dezoito recentemente — respondeu um deles. — Acredito que realmente valha a pena conhecê-la; sair da rotina. Posso apresenta-la, se quiser. Ela está aqui. Ela-

O homem se atrapalhou, virando a cabeça para procurar por Jinhee e se deparando comigo ali, encarando-os.

— Sunheessi.

— Boa noite, senhores — cumprimentei, abrindo um sorriso. Eu sabia que minhas feições estavam hostis demais para deixá-los calmos, mas não me dei o trabalho de confortá-los. Era da minha irmã de quem estavam falando, afinal. Procuraria me informar sobre aqueles ‘’encontros’’ mais tarde. — Vocês por acaso saberiam me dizer onde está a minha irmã?

— Na última vez que eu a vi, ela estava no saguão de entrada com a senhora Choi.

Assenti, indo naquela direção. Ouvi um suspiro de alívio quando me virei, e o ignorei com certo desgosto.

Perto do balcão de bebidas, conversando com um homem de meia idade, estava Kim Taehyung. Ah, como eu queria sacudir aquele menino por não ter ficado do lado de Jinhee... Francamente, ele só podia ser muito burro ou muito descrente de que tinha chances com a minha irmã para acreditar na história que o Hoseok criou. Mas enfim, Jinhee me prometer que não me envolveria naquilo. Idiotas.

O barulho da música e das conversas tornou-se abafado ao passar pelas portas de vidro do saguão. Era um breve corredor largo com vários espelhos, e suas duas extremidades levavam ou para o salão de festas ou para a saída. O piso, assim como na parte de dentro, era de granito branco, e meus saltos faziam um barulho retumbante ao caminhar. Não havia ninguém ali, além das poucas pessoas que saíam da festa ocasionalmente. Já prestes a dar meia volta para procurá-la no jardim, reconheci a voz da minha irmã – no entanto, em um tom não usual, que fez meu coração apertar de preocupação.

— Eu sei! Eu sei — escutei, aproximando-me das portas que levavam para o banheiro feminino. Jinhee estava chorando, e, a julgar pela sua voz embargada, provavelmente bêbada. — Mas você nunca fez coisas de mãe comigo. Nem mesmo recebeu meus presentes de dia das mães na escola. E eu queria muito que você tivesse ido pra minha apresentação de balé na quinta série. Eu sei que eu era ruim, mas você deveria ter ido do mesmo jeito, porque eu acabei sendo a única bailarina sem mãe.

— Francamente, Jinhee — a voz da Sra. Choi estava tensa, e talvez um pouco nervosa.— Essas coisas foram há tanto tempo que-

— Eu sei, e me des-desculpe por reclamar, eu me sinto muito mal dizendo isso — ela soluçou —, mas é que eu não consigo esquecer. Você não sabe como eu fiquei com vergonha quando eu fui na casa da Nami unnie e a Sra. Kim fez mingau e eu disse que-que eu nunca tinha comido mingau e — ela fez uma pausa, tentando respirar apesar dos soluços — e a Nami perguntou se a minha mãe não fazia mingau quando eu ficava doente e eu não sabia explicar porque você me odiava tanto para nunca ter feito mingau pra mim.

Ela fez uma pausa, fungando. Eu havia aberto uma fresta da porta do banheiro, mas decidi não entrar. Deixaria Jinhee falar tudo que guardou para si durante todos aqueles anos sem uma figura materna para se espelhar – algo que ele nunca falou para ninguém, nem mesmo para mim.

De onde eu estava, enxergava as costas da minha mãe, e minha irmã a encarava, seu rosto inchado por um choro incessante. Ela já não se dava mais o trabalho de limpar as lágrimas – porém, em algum momento Jinhee esfregara os olhos com as mãos e rímel estava espalhado pelas suas bochechas, seguindo a trilha das lágrimas. Meu coração batia rápido, embora eu não estivesse realmente surpresa diante da cena. Acho que esperava por aquilo, apesar de ter demorado tanto.

— Eu não odeio você— a voz da mamãe era comedida. — Nunca a odiei.

— Mas você também não gosta de mim.

— Claro que gosto. Você é a minha filha.

Jinhee negou com a cabeça violentamente.

— Você costumava ligar duas ou três vezes na semana lá pra casa, sempre por volta das oito horas — ela falava rápido, embolando as palavras uma nas outras. — Eu acordava cedo para esperar pelas ligações, apesar de você sempre pedir para eu passar para a Sunhee unnie. Você nunca ligava só pra mim. E, depois que ela se mudou, você praticamente nunca liga. Mas, Sra. Choi – mãe –, eu sempre estou acordada às oito. Só que o telefone nunca toca.

— Eu não entro em contato porque não há motivos. Você é mais responsável que a sua irmã, não precisa do meu auxílio para-

— Mas eu quero falar com você! Não precisa de um motivo. Só para dar bom dia, só para dar um oi. Eu quero sentir que você se preocupa comigo. Todo mundo pergunta o porquê de eu te chamar de Sra. Choi.

— Eu nunca pedi que você-

— Você provavelmente não se lembra de quando eu comecei a te chamar assim, não é? Eu tinha doze anos, e queria que você me desse atenção. Então pensei que, se eu te chamasse de Senhora Choi, você iria brigar e pedir para que eu voltasse a te chamar de mãe, mas você nem notou. Então eu continuei te chamando assim. E nunca mais-

— Você não pode me culpar por não ter me incomodado. A maioria dos meus funcionários me chama de-

— Mas eu sou sua filha! Mãe! Por favor — sua voz falhou, alta demais, desesperada demais —, eu sei que não estou sendo boba. Eu sei, mas eu me sinto assim. Eu não deveria precisar pedir para você se preocupar comigo.

— Eu me preocupo mais com você do que o seu pai, e mesmo assim você só está reclamando comigo, que-

— Eu sei, mas o papai atende os meus telefonemas, se eu ligar. E ele manda um presente de aniversário todo ano. E eu sei que é ele quem escreve o cartão porque os C são iguais ao da assinatura dele. Ele também manda fotos e livros todo mês, e eu gosto de saber que pelo menos ele pensa em mim.

— Eu também penso em vo-

— A minha maior desilusão deve ter sido quando descobri que os cartões de aniversário que você me dava todo ano não eram realmente escritos por você. Sempre tinham frases curtas desejando feliz aniversário, e um ‘’eu te amo’’, mas eu percebi que as letras mudavam quando você mudava de secretário.

Observei, com o coração partido, Jinhee abraçar seu corpo, fechando os olhos.

— Eu só queria que você pelo menos fingisse, sabe? Mesmo que aqueles ‘’eu te amo’’ nos cartões fossem falsos, eu ficaria feliz se tivesse sido você a escrevê-los. Seria o suficiente.

Jinhee esperou que ela respondesse, o lábio tremendo. Quando ela não respondeu, minha irmã desatou a chorar, cobrindo os olhos com as mãos. Esperei com o coração apertado que mamãe a abraçasse, dissesse alguma coisa, tentasse a reconfortar de algum modo. Observei, esperançosa, quando ela levantou o braço, indo em direção à Jinhee como que para afagar seu cabelo. Em pouco tempo, na mesma lentidão com a qual o levantou, ela o abaixou, e ficou observando a filha chorar – a dois passos de distancia. Quanto mais o tempo passava, mas eu tinha certeza de que aquilo não iria acontecer, e uma raiva nem um pouco inesperada me atingiu.

Entrei no banheiro e mamãe se virou de súbito, assustada. Logo, suspirou aliviada.

— Sunhee, você está aqui.

— Você não vai fazer nada? Ela é sua filha, e está chorando.

Ela assentiu. Abriu a boca para falar, mas foi interrompida quando Jinhee arquejou, e correu para um dos boxes do banheiro. Parei de frente para a porta, que ela havia trancado, escutando-a vomitar violentamente.

— Eu preciso falar com algumas pessoas antes de sair da festa — ela falou. — Leve sua irmã para casa antes que ela faça uma cena em público.

Semicerrei os olhos.

— Você vai voltar para casa para conversar com ela?

— Eu preciso passar em casa para pegar minha mala. Tenho uma viagem amanhã de manhã para-

— Não quero saber sobre isso. Estou perguntando se você vai só ignorar que sua filha está infeliz ou se vai fazer algo a respeito.

Ela hesitou, e percebi que os nós dos seus dedos estavam brancos por conta da força que aplicava ao segurar a bolsa. Ela estava desconfortável e parecia, de certa forma, com medo. Provavelmente ela não queria encarar a realidade do lixo de mãe que era. Eu tinha certeza de que já havia percebido o descaso com que tratava as filhas, mas estava adiando aquele momento de realização. Bem, ela não tinha mais para onde fugir.

— Eu não posso lidar com isso agora — concluiu. — Tenho assuntos mais importantes a tratar no Japão com-

Ela se atrapalhou. Ouvi o barulho do tapa antes de realmente perceber a ação, minha mão ardendo subitamente. Senti o coração afundar, e realmente doía. Lágrimas indesejadas irromperam em meus olhos, nós duas sem reação. Segundos se passaram, tão longos que se poderia encaixar horas, dias, anos naquele curto espaço de tempo.

Ela não olhou para mim quando repetiu:

— Leve sua irmã para casa.

Virei de costas para ela, aproveitando para limpar uma lágrima, e esperei que Jinhee abrisse a porta do boxe. Ela já não estava mais vomitando, mas eu podia a escutar tossindo.

— Vou levar. Para bem longe daqui, bem longe de você. Vocês duas se vêem – o que? Duas vezes ao ano? Três? E você ainda faz o esforço de fazê-la chorar. Da próxima vez que isso acontecer, eu vou fazer uma cena.

— Cuidado para ela não ser vista quando sair. Usem o motorista particular.

— Para isso você se importa, não é? Ela pode chorar, contanto que não seja vista.

— Eu não sou o monstro que vocês parecem achar de mim.

— Acredite no que te fizer sentir melhor. Eu já desisti de você, mas ela continua achando que você vai subitamente passar a se importar com algo mais além do trabalho.

Ela não respondeu. Quando eu a espiei com o canto do olho, a observei – indignada– passar base na face avermelhada pelo tapa que eu lhe dera.

— Unnie? — Jinhee chamou com a voz rouca.

— Sim?

— Não estou me sentindo bem.

— Eu sei. Vai passar. Vou te levar para casa.

— Unnie, eu não quero ficar sóbria ainda.

Fiz uma careta, levemente consciente de que a sra. Choi havia passado pela porta e saído do banheiro apressadamente.

— Você consegue sair daí? Acha que vai vomitar mais?

— Eu só vomitei água. Acho que porque não comi nada hoje.

— Jinhee, eu te ensinei melhor que isso — Ela abriu a porta, e caminhou até a pia. — Por que você não me espera aqui? Eu vou chamar o motorista.

Ela assentiu.

— Vou passar no bar, antes. Preciso beber alguma coisa.

— Sim, água te faria bem. Comer algo também é bom, mas não sei se você vai conseguir segurar se comer agora.

Ela assentiu, olhando para baixo, para seus pés.

— Obrigada por me defender.

— Sempre que precisar, querida — passei os lenços de papel em seu rosto, limpando a trilha mais recente de lágrimas.

— Ela vai esquecer o que você fez, viu? Não se sinta mal, sei que fez sem pensar.

— Nem acredito que bati nela.

Ela franziu o cenho, reagindo à palavra.

— Vai ficar tudo bem, unnie — ela falou.

— Por que está me consolando? — sorriu. — Você que bebeu todas.

— Eu sei que você tem muito rancor da Sra. Choi, e por isso reagiu daquela maneira, não foi? Bem, não se sinta mal, viu? Ela vai esquecer. Ela sempre te perdoa.

— Pare de se preocupar comigo. Vá lavar o rosto.

Ela assentiu, obedecendo. Estendi uma toalha de mãos quando ela acabou.

— Unnie — sua voz estava baixa. — Você pode voltar para casa comigo? Eu não quero ficar só.

— Não vou te levar pra lá. Você vai dormir no meu apartamento hoje.

— Então... e amanhã? Por que não volta? A Sra. Choi não vai perceber.

— Não se preocupe com isso agora, okay? Vou ir buscar o carro. Espere aqui, eu volto para te procurar.

Jinhee assentiu.

Só que ela não estava lá quando eu voltei.

Notas finais
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