Oito horas daquela noite de quinta-feira e nada do Reid. Se eu não fosse a perseguida da história, estaria mais preocupada do que já estava.

Peguei o celular mais uma vez e nenhuma mensagem foi respondida. Liguei para o celular que caiu na caixa postal e deixei o décimo recado:

— Reid, onde você está? Estou ficando muito preocupada! Não me diga que você me trocou pela Lila... — falei brincando — Venha logo, por favor.

Mandei uma mensagem para Hotch e ele disse que Reid havia saído da UAC há aproximadamente uma hora, já era tempo de ele estar em meu apartamento.

Finalmente, escutei o doce som da campainha e sem nem hesitar — porque só poderia ser uma pessoa —, abri a porta.

Mas não era Spencer que estava do outro lado. Alguém, vestindo um gorro preto que escondia seu rosto, enfiou uma agulha em meu pescoço e despejou o conteúdo em meu sangue.

Não demorou trinta segundos para que eu fechasse os olhos e ficasse inconsciente... pela terceira vez?

Abri meus olhos lentamente e percebi que eu olhava o teto sujo. Minha visão estava turva, mas percebi que era um local escuro. Eu iria me desesperar, mas escutei a voz de Spencer me chamando:

— Alexis? Você está bem? Está machucada?

— Reid... — eu gemi, girando no chão para ver de onde vinha a sua voz.

Eu estava desnorteada, meus sentidos voltando aos poucos e não conseguia ver Reid o que me deixava mais agoniada. Será que eu estava tendo alucinações?

Até que, levantei um pouco a visão, e vi Spencer entre as barras da cela que nos separavam. Nós estávamos presos juntos num tipo de porão e separados por grades iguais aquelas de cadeia. À nossa frente, tinha uma parede a uns três metros de distância que, mais para o canto esquerdo, tinha uma abertura que se escondia na escuridão. O ambiente era pouco iluminado por duas lâmpadas incandescentes em cada lado do porão.

Eu estava vestindo meu pijama de quando fui raptada em casa, um short de algodão justo preto e uma blusa regata branca que, por eu ter sido jogada no chão imundo, não estava mais tão branca assim.

— O que é isso? Onde estamos? — perguntei, sentando no chão e passando a mão no pescoço no lado que fui picada pela agulha.

— O perseguidor sequestrou nós três. — Reid respondeu.

— Nós três?

— Eu estou aqui também! — a voz vinha de trás de Spencer, numa terceira cela ao fundo.

Inclinei meu corpo para lado, pois ele estava na frente da terceira pessoa em cativeiro e pude vê-la distante: era Lila Archer.

Engatinhei em direção às barras que separavam a mim e Spencer, para ficar perto dele, mas ele me repreendeu:

— Alexis, não toque nelas! Estão cobertas por alguma toxina que queima severamente a pele. — ele ergueu a mão esquerda e mostrou seu pulso com uma vermelhidão, a pele bastante irritada — Tentei chegar o mais próximo de você quando te vi desacordada e encostei nelas...

Parei a uma distância segura da cela intoxicada e cruzei as pernas, sentando como índio no chão. Larguei as minhas mãos em minhas coxas e olhei para o lado de Spencer:

— É sério? Não podemos nem chegar perto um do outro? — perguntei e ele fez positivamente com a cabeça — De jeito nenhum é Sean quem está fazendo isso...

— Não, não é o Sean quem está fazendo isso. — respondeu uma quarta voz e... ela era feminina!

A voz vinha da abertura na escuridão que eu não conseguia ver o que tinha.

Não demorou muito para que a voz misteriosa se revelasse como alguém toda vestida de preto e com o capuz escondendo o rosto.

Em passos lentos, ela parou em frente à cela de Reid e jogou o gorro para trás, revelando sua identidade.

— Mas o nome é com S também. Susan. — a mulher desconhecida se apresentou.

Ela tinha mais ou menos 1,75cm de altura, cabelos ruivos lisos; sua pele era clara como se ela não visse o sol há bastante tempo e os olhos verdes como as heras venenosas que enviou e aparentava ter lá seus vinte e seis anos.

— Quem diabos é você? Tenho certeza que não a conheço. — falei rispidamente como se minha vida não estivesse correndo perigo.

— Mas você não me conhece mesmo, fofura, quem me conhece aqui... é ele. — ela apontou para Reid.

Spencer estava confuso, encarando a mulher que, para mim, continuava sendo uma desconhecida, todavia eu soubesse seu nome.

Com a voz fraca, ele anunciou:

— Susan Campbell.

— Awn você se lembra de mim! — ela parecia animada — Pena que isso não vai te ajudar muito agora. — depois, fechou a expressão em ameaça.

Lila e eu esperamos que Reid explicasse qual a ligação entre os dois.

— Nós fizemos uma matéria de mestrado juntos sobre a cultura grega, mas ela se especializou em... botânica. — ele falava como se as peças finais do quebra-cabeça tivessem aparecido.

— Nossa, você se lembra? — Susan parecia impressionada — Não sabia que eu era tão especial para você.

— E não é, querida. — falei, em desafio — Ele só tem memória fotográfica.

Susan estreitou os olhos para mim, provavelmente me achando muito corajosa em desafia-la na posição que eu estava, e quando se dirigia a mim, parou de andar quando Lila disse:

— Espere um minuto... Tudo isso está acontecendo por causa do Doutor Spencer Reid?

Questionada, ela deu meia volta e andou em direção à cela de Lila:

— Não. Tudo isso está acontecendo porque o Doutor Spencer Reid nunca me notou! — ela foi aumentando o tom de voz enquanto terminava a frase.

Ela notou que estava perdendo o controle e respirou fundo, retomando o tom de voz calmo e dissimulado:

— Tudo bem, isso são águas passadas. Agora, eu não dou a mínima para o Doutor Reid e somente quero me vingar por anos de rejeição.

— O que quer dizer com anos? — ele perguntou — Nós estudamos juntos por apenas um ano.

— Correto. Mas foi o ano mais feliz da minha vida... — suas feições eram apaixonadas e ela não tirava os olhos de Spencer.

De repente, sua expressão se fechou e ela se agarrou nas barras de ferro da cela dele e, não se queimou, então, descobrimos que a toxina estava apenas nas barras entre as celas, para não nos aproximarmos entre nós.

— Depois daquele ano, passei minha vida toda secretamente apaixonada por você, obcecada por sua vida e escondida na escuridão... — ela esticou o braço as barras o máximo que conseguia, tentando agarra-lo, mas ele deu passos para trás — Nunca me procurou, nunca se interessou por mim... E eu sonhava pelo dia que ficaríamos juntos, Doutor.

— E pode continuar sonhando. — falei, debochada — Sonhar é de graça.

Susan se afastou da cela de Reid e deu dois passos para ficar em minha frente:

— Estou te achando muito petulante para alguém na sua posição. — ela estava próxima à cela e decidi me aproximar também para desafia-la.

— Não tenho medo de uma mulher mal amada. — respondi categoricamente.

Em súbito, Susan colocou a mão entre as barras de ferro e segurou meu cabelo, puxando fortemente minha cabeça para trás, me obrigando a erguer o queixo, dizendo entre os dentes e com os olhos espumando raiva:

— Mas você vai ter.

Ainda segurando meus cabelos, senti uma picada na pele da agulha que ela acabara de enfiar no meu braço, depositando todo o conteúdo em mim. Eu seria dopada mais uma vez... Comecei a sentir uma sonolência e fiquei inconsciente.

Quando recobrei os sentidos, eu estava amarrada a uma cadeira com uma corda nos pulsos e tornozelos; ao meu lado direito, Lila estava igual e, à nossa frente, quase um metro de distância, estava Reid.

Agora nós estávamos em um cômodo diferente, como um quarto, porém com encanações expostas, uma luz forte em nós, o chão úmido e sem piso, era possível ver instalações elétricas e de esgoto; o ambiente era insalubre demais. Sentíamos um odor de água sanitária como se tivesse sido passada ali para disfarçar o mau cheiro.

Ouvi passos se aproximando atrás de mim e Susan se revelou vestindo um vestido branco de um ombro só, igual àqueles que as antigas gregas usavam e um salto com bico fino branco.

— Oh meu queridos do Olimpo! — ela fez uma reverência como se estivesse apresentando um show e notamos que ela estava em posse da arma de Spencer — Vamos começar?

Ninguém respondeu, apenas nos entreolhamos e depois para ela, observando qual seria a próxima jogada.

Susan começou a andar em círculos, passando por trás de nós três em passos ritmados e a arma na mão.

— Então, Doutor Reid, eu sempre achei que não era boa suficiente para você. Aliás, que eu não era inteligente o bastante para você... Mas aí... Você se envolveu com ela! — Susan encostou a arma por detrás da cabeça de Lila que fechou os olhos, apavorada — E eu pensei “bem, tenho certeza de que sou mais inteligente do que Lila Archer, a celebridade”. Claro que ela é linda... — a maluca pegou o revolver e deslizou o cano delicadamente pela lateral do rosto de Lila — Até eu ficaria encantada com ela, mesmo sendo apaixonado por você, mas mesmo assim... Ela nunca foi boa o suficiente.

Ela voltou a andar em nossa volta.

— Depois veio Maeve Donovan... — Reid ficou ereto na cadeira ao ouvir o nome — que, por motivos de... digamos, força maior, não pôde se juntar a nós. Mas até que devo agradecer à Diane Turner por tê-la matado, do contrário, eu teria que construir mais uma cela... — Susan pausou repentinamente, reformulando o pensamento — Ou, na realidade, não. Porque se Maeve estivesse viva, você nunca teria entrado na vida de Spencer. — ela olhou para mim, apontando com a arma — Alexis, você só está aqui como uma substituta, minha querida. A sua cela, originalmente, pertencia à outra.

Eu gargalhei.

— Acha mesmo que me atinge dizendo essas coisas?

— Diga-me. — Susan ignorou minha gargalhada — Estou dizendo alguma mentira, querida Io?

Fiquei quieta e fechei a expressão.

— Você é mesmo tão cega de amores por ele — ela apontou para Reid — a ponto de achar que se Maeve tivesse sobrevivido à Diane, ele se interessaria por ti? — ela gargalhou — Ele nem ao menos teria te notado na UAC! Você seria apenas a nova estagiária...

Spencer estava com a cabeça baixa, impossibilitado de me olhar nos olhos e eu o encarava, de certa forma, deixando as palavras de Susan penetrarem em minha mente.

— Bem, por mais que eu seja uma pessoa rancorosa e apegada ao passado, tanto que estou me vingando por algo que aconteceu há alguns anos, vamos voltar ao tempo atual.

Ela parou atrás da cadeira de Reid e ficou de frente para mim e Lila, sempre com aquele revolver ameaçador.

— É claro que vocês não desvendaram minha charada, porque se tivessem, não estariam aqui. — ela riu pela obviedade do que estava falando — Eu vou contar a historinha para vocês: Zeus, o deus do Olimpo — ela pousou sua mão sobre o ombro de Reid, indicando que ele era o Zeus do conto — era casado com Hera. — ela apontou para si mesma — Porém, Zeus, sempre se deixava levar por tentações como Io e Calisto... E a esposa dele não ficou muito contente com a sua infidelidade e, mesmo sabendo que o marido não mudaria, impossibilitada de deixa-lo por ama-lo muito e prezar pela sua união, ela resolveu cuidar de suas amantes pessoalmente. Se ele não poderia ser feliz com Hera, então, não poderia ser feliz com mais ninguém. — ela cravou suas unhas em Reid — Entenderam ou querem que eu faça um teatro de sombras?

— Você é com-ple-ta-men-te maluca! — disse Lila, sibilando cada palavra.

— Eu posso até ser. — ela respondeu, calmamente — Mas não ligo. Quem deveria estar preocupada é você que está nas mãos dessa maluca. — ela deu um sorriso de lado, agressivo.

Eu estava tão abismada com o nível de loucura que o ser humano podia atingir que não conseguia dizer nada, fiquei observando todo aquele espetáculo tentando maquinar uma maneira de sair dali. Spencer deveria estar fazendo a mesma coisa, provavelmente traçando o perfil dela para tentar a salvar a todos.

— Estou cansada de dar as cartas. Vamos passar a vez para nosso deus dos deuses. — ela abaixou-se e aproximou sua boca do ouvido de Reid, mas falou num tom que todos escutariam: — Sou uma esposa misericordiosa, então, vou deixa-lo escolher uma amante para viver. E escolha sabiamente, porque a outra vai morrer aqui mesmo. — ela destravou a arma.

Spencer demorou uns segundos para responder e estreitou os olhos para mim, como se ele estivesse planejando alguma coisa. Depois, desviou o olhar para Lila e estava aflita, afinal, ela sabia que ele me escolheria.

— Lila. Eu escolho Lila.

Fiquei de boca aberta e Lila também. Susan se afastou dele e veio para trás de nós duas, ficando bem no meio.

— Deixe-me ver se entendi: você quer salvar Lila, uma garota que você trocou dois beijos, e matar Alexis, a garota que você apresentou à sua mãe? — ficamos nos olhando sem saber como ela tinha conhecimento disso — Eu vi no celular dela a foto que vocês tiraram. — explicou.

O clima era tenso e tudo parecia confuso.

Reid reafirmou:

— Sim, é isso.

— Mas que reviravolta! — Susan exclamou — A não ser que... — parecia que uma ideia se formava em sua mente — Ah Doutor, você se acha muito esperto, não é? — ela gargalhou — Já entendi. Você, nessa sua mente genial, traçou meu perfil e sabia que eu mataria a garota que você escolhesse, porque, a escolhida seria o seu verdadeiro calcanhar de Aquiles. Então, se você escolheu Lila, na verdade, queria escolher Alexis. — raciocinou.

Ela encostou a arma na minha têmpora direita.

— Diga adeus à Io, Zeus!

— Não! — Spencer gritou.

Fechei meus olhos e apertei o braço da cadeira, sentindo o cano da arma em minha cabeça.