Notas iniciais
Bom, agora as coisas começam a acontecer pro Hugh. Ele vai descobrir um mundo inteiro longe da terra dele e pá. Mas isso é só o começo.

Com um saco de chita cobrindo minha cabeça, sentia falta de ar. O veículo balançava por baixo de mim. Não sei bem o que era que me levava para fora de minha terra, mas deduzi que pudesse ser um Renol. Um tipo de charrete movido à renas, que não possui rodas, pois nunca toca o chão. Eu podia ouvir o ar correndo por entre as frestas da cabine onde estávamos apenas eu, o motorista e o carcereiro. Deduzi também que o motorista era um elfo da montanha, devido a seu cheiro encardido. Recostei a cabeça na janela e imaginei a paisagem que não podia ver.

Depois do que devem ter sido duas ou três horas de viagem, senti o Renol inclinar-se levemente para frente. Alguns minutos depois, fui empurrado para fora dele e o carcereiro arrancou o saco de minha cabeça. Senti náusea ao contemplar seu rosto. Era um homem já velho, com mais de 400 anos, cabelo esverdeado pela idade e quase sem dentes. Percebi a falta de dentes quando ele sorriu torto, satisfeito por ter cumprido sua missão. Ele me chutou na barriga e retornou ao Renol. Pelo que pude notar, as renas eram enfeitiçadas para que não fossem vistas, pois eu mesmo não as vi, mas ouvi seu trote levando o Renol para longe, no céu.

Estava confuso, solitário e amedrontado. Deitei-me na relva por alguns instantes. Mas ao perceber que formigas azuis estavam se aproximando, levantei-me e segui pela pequena estrada de terra que se abria a minha frente. Olhei uma única vez para trás, onde notei a barreira de ar que se formava entre a Terra de Ignia e o resto do continente. Senti uma ânsia em voltar. Mas imaginei minha alma vagando pela terra durante toda a eternidade e então voltei-me para o horizonte.

Segui andando pelo que pareceram horas, mas que devem ter sido apenas minutos. As gramíneas e pequenos arbustos preenchiam toda a região. Aqui e ali eu via alguns cactos e vez ou outra passava um coelho com três olhos, às vezes quatro. O sol estava chegando ao oeste quando encontrei uma pequena formação rochosa que parecia um abrigo agradável para a noite. Senti um arrepio. Não era o tipo de lugar no qual eu gostaria de estar em uma situação normal. Ouvi meu estômago roncar e, por um instante, pensei em me alimentar. Depois pensei que merecia aquele castigo e então me deitei no chão.

Não sei por quanto tempo estive deitado, mas a verdade é que não dormir. Tinha uma agonia em mim que não me permitia sequer fechar os olhos. Meu coração insistia em palpitar. Eu queria pôr fim em minha vida, mas não queria ter de pagar por mais nenhum crime. O suicídio em Terra de Ignia é um crime contra a própria alma, que se paga na entrada do paraíso, ficando do lado de fora.

Levante-me assim que o sol nasceu e tomei a direção contrária a ele. Andei por horas, até que o sol estivesse em seu auge. Quando parei num riacho para tomar um pouco d’água e ouvi um relinchar. Não era um cavalo, eu sabia. Era um unicórnio.

Fiz a oração que se deve fazer na presença de um ser tão sagrado. Ele aproximou-se de mim, com olhos amarelos que pareciam sorrir. Sorri de volta, apesar de toda a minha tristeza.

A luz daquele ser superava o sol e qualquer outra estrela. Ele brilhava desde dentro, como se seu interior fosse completamente puro. Com uma piscada, ele me deixou em transe. Senti meu corpo fraquejar e desmaiei. Quando acordei novamente, ele tinha partido, o sol tinha se posto e eu já não estava no mesmo lugar. Encontrava-me em frente à um enorme muro e a minha volta, reuniam-se cerca de dez guardas, todos armados e equipados. Engoli em seco.

Notas finais
Espero que tenham gostado *-*