Confissões Do Exílio
4 Masmorra
Notas iniciais
Era como uma guerra de milhões de vozes em minha mente. A diversidade de tons que atingem a mesma intensidade de ódio, que discutem bravamente por um ponto inatingível. Não há guerra que destrua como a que é travada por meio de palavras. As batalhas não arrancam sangue, porém a dor dilacera igualmente, senão pior. E as cicatrizes, as marcas, os resquícios do que um dia foi um campo de batalha ficam para na eternidade se perderem. Não há quem apague o que a palavra um dia marcou. E as vozes gritam, ecoam, dizem e desdizem coisas muitas vezes inteligíveis. Eu não me atrevo a contestar. Deito-me no travesseiro e oro. Peço a Deus a paz, o sossego, o silêncio. Bendito silêncio, que na falta de palavras, anuncia a trégua, a vitória, a derrota, o fim.
Quando o silêncio finalmente chegou, passavam das tantas daquela noite fria. Um dos guardas que havia me escoltado até aquela cela, particularmente limpa, veio até a grade e começou a abri-la.
– O Senhor quer te ver — satisfeito com as poucas palavras, ajudou-me a ficar de pé.
Após quase um dia completo sem comida ou água, meu estado físico estava realmente precário. Fui quase carregado pelo corredor escuro e pela escada, que levava a uma pequena porta de pedra. Pelo que percebi a meia luz, a porta era talhada na parede. Em seu outro lado, era quase imperceptível que havia uma abertura ali quando estava fechada. Logo entendi a razão.
A porta dava para um enorme e amplo salão, cheio de damas e cavalheiros bem vestidos e penteados. Claramente não era conveniente que soubessem da existência da passagem para as masmorras. O luar entrava por entre as grandes janelas nas paredes redondas. A brisa cortava os cabelos que jaziam soltos e minha alma sentiu uma picada ao ser tocada. Eu estava demasiado fraco para apreciar e beleza do baile ou da música que entoava.
O guarda me guiou em volta da sala evitando olhares bisbilhoteiros, e após meia volta, estávamos de frente a uma porta igualmente talhada na parede. Se ela não tivesse se abrido bem a nossa frente, eu não teria notado sua presença ali.
Entramos numa pequena saleta. O cheiro que a preenchia era doce e gostoso. A temperatura era revigorante, como se uma brisa emanasse das paredes. A sala era pura magia.
Bem a frente de onde paramos, pousava uma grande escrivaninha negra, repleta de pedaços de pergaminhos, uma pena, um tinteiro e alguns livros. As paredes estavam quase completamente escondidas por armários, cômodas, prateleiras e similares, todos abarrotados de artefatos mágicos, livros e pergaminhos.
Detrás da escrivaninha, sentava numa cadeira grande, combinando com o resto da mobília, um senhor por volta dos 450 anos. Um cabelo ralo e grisalho lhe cobria o alto da cabeça e o queixo era escondido por uma barba bem aparada, da mesma cor do cabelo.
Por seu olhar que esbanjava credibilidade e confiança e por seu cheiro agradável, notei que era um Mago. Não um qualquer, daqueles que cobram por seus feitiços por aí e aceitam qualquer trabalho medíocre. Era um dos grandes magos, raros na terra. Num impulso, senti grande vontade de contar meus mais íntimos segredos a ele.
Esforcei-me a ficar de pé assim que o guarda me deixou e, após breve reverencia, se retirou da saleta e fechou a porta. O senhor dirigiu o olhar penetrante a mim e sorriu leve.
– Hugh, sr. Hugh Pomfrey, não? Lamento não estar numa situação mais agradável e poder lhe apresentar da forma correta o mundo em que vivo.
Perplexo que estava, apenas consegui erguer as sobrancelhas e aparentar surpresa. O cansaço e o susto me impediam de falar qualquer coisa. Então o senhor continuou:
– Tive a infelicidade de saber de sua sentença, mas temo que não o esperava tão cedo por aqui. Entenda, hoje minha esposa faria 440 anos se estivesse viva, então seu espírito veio nos visitar. Creio que notou os convidados, sim? Centenas deles bem vestidos no salão.
Neste ponto, fez uma pausa e me encarou, na espera de uma resposta. Mal consegui reunir os pensamentos e me perguntar o que era óbvio de ser perguntado: quem ele era e como sabia tanto de mim? Confuso demais para organizar uma frase, soltei, por fim, apenas um:
– Como?
– Como disse, lamento não ter a oportunidade de dar explicações decentes ao senhor esta noite. Chamarei um dos empregados para lhe conduzir até seus aposentos e dar-lhe de comer. O senhor precisa urgentemente de descanso e tratamento. 3 horas após o amanhecer, a festa terá seu fim. Darei a mim mesmo um tempo de descanso e ao fim do almoço, estarei pronto para recebê-lo em minha sala. Claro que mandarei avisarem, não espero que o senhor adivinhe nada, ainda.
Prendi-me por um tempo no 'ainda', mas fiz esforço para concordar com a cabeça e esperar enquanto ele abria a porta da sala e chamava um de seus empregados.
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