Confissões Do Exílio
1 Prólogo
Tenho estado em um estado inercio de mim mesmo. Parei. Talvez no tempo, talvez na história, talvez num quarto escuro sem ventilação. Não sei e pouco me importo. Quando puxo o ar com mais esforço, num suspiro longo e doloroso, sinto uma forma de apatia pela vida como se, de repente, já estivesse morto. Não que eu esteja. Não escrevo memórias póstumas. Como disse, respiro ainda. Sinto meu coração bater. Cada batida, uma pontada, um facada, um instante de agonia. Estou vivo, ainda. E talvez essa seja a conclusão mais assustadora a qual já cheguei.
Confesso que ainda sinto a ânsia em pôr-me para fora desta masmorra de mim mesmo. Mas não é como na juventude, quando poderia sair correndo pelas pradarias com o vento em meu rosto sem se quer me dar conta das milhões de outras coisas que importavam mais que aquele instante em questão. Agora, como citei, já não me sinto motivado à uma existência que supere essa na qual estou. Tenho a vontade, sim. Um sopro morto que balança de leve as cortinas do quarto, deixando à mostra o céu azul de outono. Olho, desejo e desapego. Os três quase que no mesmo instante. A esperança me deixou para ser feliz sozinha, em algum ponto da estrada.
Procurei-a, confesso. Mas em vão. Tudo em vão. O esforço feito, as palavras ditas, os olhares que escaparam, os sorrisos que doei. Tudo em vão.
Encontro-me deitado num quarto branco. Tudo hipotético. Tudo imaginário. Não encontro ânimo para descrever minha vida real. Não a chamo de vida, então me perdoe o erro. Aquilo que faço com pouca vontade e pouca atenção tenho também pouco ânimo para descrever. Assim coloco-me melhor em relação à realidade. Perdoe-me também os perdões que peço, mas o ódio tem me corroído de tal forma que já não encontro mais palavras para escrever. Sinto que erro em cada sílaba que deito no papel.
Mas serei então um pouco mais sincero. Não sinto tanto ódio quanto gostaria. Passo grande parte do tempo pensando. Não sei no quê. Penso o dia inteiro, a noite inteira. Perdi um pouco do sono, ultimamente. Mas em alguns dias, pareço não querer ficar acordado, simplesmente. Acontece que tenho tido dificuldade em captar pensamentos, em acorrentar as ideias e desenvolvê-las. Note que minhas frases mostram-se curtas, ao contrário do normal. Apenas temo que ao prolonga-las eu possa perder a ideia inicial quando começar a me aproximar do fim. Vou confessar-lhe outra coisa: já não sei para que anoto minhas confissões. Há dias que não conseguia juntar realmente as ideias. Mas agora que consigo, perco o objetivo. Pra quê? Como se um punhado de palavras minhas fossem realmente mudar o mundo.
Penso que não precisavam mudar o mundo, mas talvez mudar... Algo.
Acontece que me falta a magia. A magia da juventude, a magia da vida. É como se tivessem me tirado a alma e não apenas o poder. Como se nada fizesse sentido depois do que me ocorreu. Acabou-me o ânimo novamente. Já não consigo prender-me mais à lucidez. Despeço-me aqui. Voltarei assim que meus devaneios cessarem e meu raciocínio voltar a ser confiável. Espero encontrar alguém para dar-me ombro. E quando digo ombro, quero dizer apenas atenção. Cansa-me ter de explicar. Cansa-me ter de contar. Essa história talvez não valha a pena. Talvez eu não valha a pena. Adeus. Espero ter forças para ainda voltar. Há coisas à serem ditas, que valem à pena ou não.
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