Uma fina chuva caía enquanto Alice cruzava o portão da escola. De longe, ainda conseguia ouvir os protestos de um Marcus bêbado, pedindo para que ela voltasse. Mas Alice não voltaria. Não se o que estava em jogo era a vida de Enzo. A mãe de Tinker, a diretora tentou colocá-la para dentro, mas Alice a ignorou.

Ao contrário disso, embarcou na noite fria.

A mansão estava escura. Parecia não ter ninguém. Nenhum movimento humano, nada. Tudo estava calmo. Alice bateu na grande porta de madeira, porém, ninguém apareceu. Com um movimento simples, a porta se abriu sozinha. Dentro, a mansão estava escura e sem nenhum barulho. O silêncio era mortal. Alice não sabia o que fazer.

Se gritava por alguém, como Enzo talvez. Ou se saía correndo e esperava até amanhã, para ouvir alguma explicação razoável de Enzo. Mas Alice não iria desistir. Tivera ido até ali, na chuva, rasgou o seu vestido e não iria desistir. Começou a caminhar lentamente pela escuridão.

Encontrou as escadas e subiu.

O segundo andar estava tão escuro quanto, e ela cambaleou, tentando achar o quarto com a escada para o terceiro andar. Uma luz fraca aparecia no topo da escada, e ela subiu em direção a ela, sentindo-se oprimida pelas paredes, que pareciam fechar nela de ambos os lados.

A luz vinha de debaixo da porta fechada. Alice bateu nela ligeira e rapidamente.

— Enzo — ela sussurrou, e então chamou mais audivelmente: — Enzo, sou eu. Alice.

Sem resposta.

Ela segurou a maçaneta e abriu a porta, tentando olhar pela escuridão ao redor.

— Enzo...

Ela estava falando com um quarto vazio.

E um quarto cheio de caos. Parecia como se algum poderoso vento tivesse despedaçado tudo, deixando destruição em seu caminho. Tudo estava revirado. Os baús que tinham estado serenamente em cantos estavam deitados em ângulos grotescos, suas tampas abertas, seus conteúdos espalhados no chão. Uma janela estava de vidro estava estilhaçada. Todas as posses de Enzo, como roupas, todas as coisas que ele tinha mantido tão cuidadosamente e que parecia valorizar, estavam espalhadas como lixo.

Terror varreu Alice.

O alçapão que existia no teto estava aberto, e um ar frio estava soprando.

Ah, pensou Alice, e ela sentiu seu corpo se arrepiar.

Aquele telhado era tão alto... Tão perigoso...

Ela nunca tinha subido algo tão alto antes, e sua saia longa deixava isso difícil. Ela emergiu do alçapão lentamente, ajoelhando-se no telhado e depois se levantando. Ela viu uma imagem negra no canto, e ela moveu-se em direção à ela rapidamente.

— Enzo, me desculpe, eu estava preocupada e tive que vir... — ela começou, e parou abruptamente, porque um relâmpago iluminou o céu enquanto a imagem no canto virava-se. E então foi como se cada mau presságio e medo e pesadelo que ela já teve estivesse se tornando realidade de uma só vez. Não adiantava gritar; nada adiantava.

Ah, Deus... não. Sua mente se recusava a achar sentido no que seus olhos estavam vendo. Não. Não. Ela não olharia para isso, ela não acreditaria nisso...

Mas ela não podia evitar ver isso. Mesmo se ela pudesse ter fechado seus olhos, cada detalhe da cena estava entalhado em sua memória. Como se o relâmpago forte tivesse cauterizado isso em seu cérebro para sempre.

Enzo.

Enzo, tão polido e elegante em suas roupas comuns, em sua jaqueta de couro preta com o colarinho virado para cima. Enzo, com seu cabelo claro como uma das agitadas nuvens de trovão atrás dele. Enzo fora pego no relampejo de luz, parcialmente virado na direção dela, seu corpo torcido em um agachamento bestial, com uma confusão de fúria animal em seu rosto.

E asas. Aqueles ombros fortes, que espelhavam força, tinham asas brancas atrás deles. E no chão, uma pessoa magra sangrando, também tinha asas, mas parecia morto. E na boca de Enzo, naquela boca cruel e irresistível, tinha sangue. Um sangue inebriante. Vermelho rubi.

Destacava-se mais pela brancura de sua pele. O homem jogado ao chão estava com mordidas em todos os membros do corpo. Nos braços, no pescoço, e seu corpo era coberto de uma luz branca.

Alice deu um passo para trás.

— Oh, Deus... Não. — ela disse, com medo. Sua voz enfraqueceu. Ficou mais trêmula. Ela começou a andar para mais distante dele. Com medo. Ela tivera sido uma presa fácil, assim como o garoto caído no chão. Ela veio como uma ovelha é levada ao matadouro.

— Alice, não — o pior de tudo era isso. Ouvir Enzo, depois do rosnado, fazer uma cara de assustado. De quem foi pego de surpresa. Seu olhar de choque e desespero. Enzo limpou a boca.

— Ah, Deus, não! — Os gritos estavam tentando cortar seu caminho para fora da garganta dela. Ela foi mais para trás, tropeçando, à medida que ele dava um passo na direção dela. — Não! — ela gritava.

— Alice, por favor... tenha cuidado... — Aquela coisa horrível, a coisa com o rosto de Enzo, estava indo atrás dela, os olhos verdes queimando. Ele estava mandando-a tomar cuidado? Ela tomaria se ficasse longe dele. Ela se arremessou para trás à medida que ele dava outro passo, sua mão esticada. Aquela mão longa e de dedos magros que tinha acariciado seu cabelo tão gentilmente...

— Não me toque! — ela gritou com nojo. E então ela gritou mesmo, quando suas asas a deixou de novo contra a grade de ferro da sacada. Foi um ferro que estivera lá porque quase um século e meio, e em alguns lugares estava quase enferrujado por completo. Alice estava com medo. O brilho delas. As asas brancas e brilhantes. O pânico de Alice pesou demais contra ele, e ela sentiu-o ceder. Ela ouviu o som rasgante de metal forçado demais e de madeira unindo com seu próprio berro. E então não havia nada atrás dela, nada para se agarrar, e ela estava caindo.

Nesse instante, ela viu as nuvens roxas efervescentes parecerem vibrar, o volume escuro da casa ao seu lado. Parecera que ela tivera tempo o bastante para vê-los claramente, e para sentir uma infinidade de terror enquanto gritava e caía, e caía.

Mas o impacto terrível e estilhaçador nunca chegaram. De repente havia braço ao seu redor, apoiando-a no vazio. E ela estava presa no ar, com asas impedindo que ela se chocasse contra o chão de pedra.

Então tudo ficou quieto.

Ela se segurou imóvel dentro do círculo daquelas asas, tentando ajustar seu senso de direção. Tentando acreditar em mais outra coisa inacreditável. Ela tinha caído de um telhado de três andares, e ainda assim estava viva. Ela estava de pé no jardim atrás da pensão, no silêncio profundo entre explosões de trovões e as luzes elétricas dos relâmpagos, com folhas caídas no chão onde seu corpo quebrado e horrendo deveria estar.

Lentamente, ela olhou para cima para o rosto daquele que a segurava. Enzo. E nesse momento, suas asas se esconderam.

Havia tido muito que temer, golpes demais essa noite. Ela não podia mais reagir. Ela só podia encará-lo com algum tipo de assombro.

Havia tanta tristeza em seus olhos. Aqueles olhos que tinha queimado como gelos verdes estavam agora escuros e vazios, sem esperança. Aqueles músculos dele, ela nunca os veriam como antigamente. E sua boca, ela sempre sentiria o gosto de sangue, e condenação amarga. Ela não conseguia suportar isso.

— Enzo — ela sussurrou, sentindo aquela tristeza entrar em sua própria alma. Ela ainda conseguia ver a matiz de vermelho em seus lábios, mas agora isso acordava uma sensação de pena junto com o horror instintivo. Estar tão sozinho, tão alienado e...

— Ah, Enzo... — ela sussurrou.

Não houve resposta naqueles olhos vazios e perdidos.

— Venha — ele disse silenciosamente, e a guiou de volta em direção à mansão.

Enzo sentiu seu coração bater mais forte enquanto chegavam ao segundo andar, e ele a levava para o seu quarto. Tudo estava revirado, assustador. Ele sentou-se em uma cama quebrada e puxou um banco de madeira para que Alice fizesse o mesmo. Mas ele ficou feliz de ver Alice com medo, ela poderia ver agora, o que ele poderia fazer.

Ela se moveu lentamente e sentou-se no banco de madeira. Estava assustada. Depois de sentar e ver se o banco era confiável, seus olhos azuis olharam para Enzo. Depois de um minuto, sua boca se abriu e ela sussurrou:

— Me diga — foi o que ela disse. E foram as duas palavras que mais machucaram Enzo.

Enzo sentiu uma dor no coração.

— O que quer saber? — ele pousou o pé na cama, e olhou para ela, apontando para o quarto revirado a sua volta. — Quem fez isso? — ele se perguntou. — Fui eu, Alice, tudo isso, para conseguir beber o sangue daquele homem lá em cima.

— O que ele é? — perguntou Alice.

— Nós os chamamos de Arimâs, são fracos e vagam pela terra matando os humanos, eu os usos como bebidas quando estou fraco. São como vitaminas para... Para pessoas como eu...

— Mas você é forte.

Enzo sorriu, um sorriso falso e sem graça.

— Eu era forte. Já fui. Mas ficou no passado. Quando eu era um dos Querubins. Eu conseguia controlar tudo.

— Mas ainda consegue ser mais forte do que um humano. — ela disse.

Enzo assentiu.

Ele não entendia. Cadê o medo dela? Ele queria que ela ficasse com medo dele, assim iria embora. Mas Alice não tinha medo. Ela já tivera aguentado tudo calada. Estava no seu limite.

— Mas o que tem no sangue deles, que não tem nos humanos?

— Alice, você tem que entender que não sou um vampiro. — Alice assentiu, mostrando que sabia. As asas atrás dele não significava que ele era um vampiro-voador. — O sangue humano não tem nenhum efeito sobre nós. Poderíamos beber, mas nada adiantaria. Bebemos sangue dos Arimâs como forma de punição.

Alice pôde ver que Enzo estava trêmulo. Como se fosse demais estar falando tudo aquilo. Estar ali com ela, contando algo que não deveria ser contado.

— Então quer dizer que... O que o professor Rape falava era verdade?

— Sim — ele disse.

— Em que parte?

— Toda.

Alice sentiu sua carne se arrepiar.

— Me diga — Alice disse novamente. Enzo ficou em silêncio, Alice sentira que se ela não pedisse, Enzo não diria mais nada. — Enzo, você sabe que tenho o direito de saber disso.

Enzo não poderia negar. Ela realmente precisava da verdade.

— Eu sei que você tem — ele disse. Depois de um minuto, ele falou: — Alice, você acredita que nasci há mais de cem séculos?

Alice olhou para ele, depois olhou para o seu rosto. Ele não parecia mentir. Olhou os móveis a sua volta, as roupas jogadas no chão, tudo dos tempos antigos.

— Sim — ela disse — eu acredito, Enzo.

— E você ainda quer saber mais? De onde eu vim? O que eu fazia?

Alice assentiu.

Depois de um momento, ele continuou.

— Eu vi a criação do homem. Eu estava com Deus quando ele decidiu criar a terra. Quando decidiu fazer Adão à sua imagem e semelhança. Eu estava ao seu lado quando ele deu o sopro da vida. Eu vi a queda de Lúcifer.

Alice se arrepiou.

Enzo caminhou pelo quarto, foi em direção a janela. Não tinha mais nada a esconder. Ele tinha que falar tudo a ela. Não poderia esconder mais nada. Iria dizer a ela o que nunca tivera dito a nenhuma outra alma. Mesmo que isso a afastasse no final, ele iria falar. Ela tinha esse direito.

E então, encarando a escuridão do lado de fora da janela, onde relampejos de fulgor azul ocasionalmente iluminavam o céu, ele começou.

Ele escolhia as palavras com cuidado. Não queria assustá-la antes do momento certo. Não queria fazer com que ela fugisse dele.

— Eu não me lembro de quando Steven começou a me odiar — ele disse. — Foi sempre desse jeito, desde que eu consigo me lembrar. Talvez porque nosso pai confiava mais em mim para missões terrestres. Steven o amava muito, e eu sempre tive a sensação que ele me culpava. — Ele parou e engoliu em seco. — E depois, mais tarde, teve a garota.

— Que garota? — Alice disse suavemente.

— Kab — ele disse e um sentimento triste tomou conta de seu rosto.

— A garota — ela disse, mais hesitante olhando para a sua mão —, que te deu o anel?

Ele olhou para baixo para o anel prateado em seu dedo, então encontrou os olhos dela. Então, lentamente, ele tirou o anel que usava na corrente debaixo de sua camisa e olhou para ele.

— Sim. Ela aprendeu esses truques com a sua avó que era Medium — ele disse. — Sem tal talismã, os Serafins nos encontram rapidamente e nos levam para o lugar de punição.

— Então ela era... como você?

— Não. Apenas tinha uma leve paixão por histórias de seres sobrenaturais. — Com hesitação, ele contou à ela sobre Kab. Sobre a beleza e a doçura de Kab, e sobre seu amor por ela. E sobre o amor de Steven por ela. — Ela era gentil demais, cheia de afeição demais, Steven gostava de garotas assim, quando ele nos viu decidiu se rebelar e cair também. Mas escolheu a maneira errada de descer — ele disse por fim, dolorosamente. — E acabou caindo como um anjo negro.

A memória daquela noite, daquele doce e terrível noite veio arrebatadoramente. Ela tinha ido a ele. E ela ficara tão feliz, tão cheio de admiração e alegria. Ele tentou contar à Alice sobre isso, achar as palavras. A noite toda ele esteve tão feliz, e mesmo na manhã seguinte, quando ele acordou e ela se fora, ele estava na mais embriagada felicidade...

Isso quase poderia ter sido um sonho, mas os dois pequenos machucados em suas asas eram reais. Ele ficou surpreso ao descobrir que eles não doíam e que já pareciam estar parcialmente curados. Eles estavam escondidos pela gola alta de sua camisa.

O sangue dele era quase-impuro agora, ele pensou, e as meras palavras fizeram seu coração acelerar. Ela tinha dado sua força à ele; ela tinha escolhido-o. Ele até mesmo sorriu para Steven quando eles se encontraram no local designado naquela noite. Steven esteve ausente de casa o dia todo, mas ele apareceu no jardim meticulosamente cuidado precisamente à tempo, e ficou reclinado contra uma árvore, ajustando seu punho. Kab estava atrasada.

— Talvez ela esteja cansada — Enzo sugeriu, observando o céu cor-de-melão dissipar-se em uma profundo azul meia-noite. Ele tentou manter a presunção tímida longe de sua voz. — Talvez ela precise de mais descanso que o normal.

Steven olhou para ele severamente, seus olhos escuros abrindo caminho pela comoção de cabelo escuro.

— Talvez — ele disse com uma nota crescente, como se fosse dizer algo mais. Mas então eles escutaram um passo leve na estrada, e Kab apareceu entre o murro de cerca-viva. Ela estava usando seu vestido branco, e ela estava tão linda como um anjo. Ela sorriu para ambos. Enzo retornou o sorriso educadamente, falando sobre o segredo deles apenas com seus olhos.

Então ele esperou.

— Vocês me pediram para fazer minha escolha — ela disse, olhando primeiramente para ele e então para seu irmão. — E agora vocês vieram na hora que eu determinei, e eu lhes direi o que eu escolhi.

Os dois pretendentes ficaram calados.

— Os dois sabem que não sou um anjo caído — ela disse olhando para Enzo. — Ou um anjo maligno. — disse e olhou para Steven. — Mas ambos sabem que quem viver comigo deverá abandonar sua missão e negar a Deus.

Enzo estava escutando sem compreender, mas quando ela se virou para ele sorriu novamente, encorajadamente.

— E então — ela disse, olhando em seus olhos. — Eu tenho um presente para você. — Ela tomou sua mão e pressionou algo contra ela. Quando ele olhou ele viu que era um anel, grande e pesado, folheado a prata. — Você ainda não precisa dele para encarar o Céu — ela disse suavemente, sorrindo. — Mas logo você precisará. Quando se rebelar literalmente a Deus.

Orgulho e êxtase o fizeram se silenciar.

Ele alcançou sua mão para beijá-la, querendo pegá-la em seus braços lá mesmo, mesmo na frente de Steven. Mas Kab estava se afastando.

— E para você — ela disse, e Enzo pensou que suas orelhas deviam estar enganando-o, porque certamente a ternura e o afeto na voz de Kab não poderiam ser para seu irmão, — para você, também. Você precisará disso muito em breve também.

Os olhos de Enzo deviam ser traidores, também. Eles estavam mostrando a ele o que era impossível, o que não poderia ser. Na mão de Steven, Kab estava colocando um anel exatamente como o seu próprio. O silêncio que se seguiu foi absoluto, como o silêncio depois do fim do mundo.

— Kab... — Enzo mal podia dizer as palavras. — Como você pode dar isso a ele? Depois do que nós compartilhamos...

— O que vocês compartilharam? — A voz de Steven era como o estalo de um chicote, e eles se viraram para Enzo nervosamente. —Na noite passada ela veio a mim. A escolha já foi feita. ― E Steven abaixou seu colarinho alto para mostrar dois pequeninos machucados em suas asas. O símbolo da rebelião.

Enzo encarou-os, lutando contra o enjoo lúcido. Eles eram idênticos aos seus próprios machucados.

Ele balançou sua cabeça em completa perplexidade.

— Mas, Kab... não foi um sonho. Você veio à mim…

— Eu fui a ambos. — A voz de Kab estava tranquila, até mesmo contente, e seus olhos estavam serenes. E ela sorriu para Steven e então para Enzo, um após o outro. — Isso me enfraqueceu, mas eu estou feliz por ter feito isso. Não percebe?

Ela continuou enquanto eles encaravam-na, estupefatos demais para falar.

— Essa é a minha escolha! Eu amo ambos, e eu não irei desistir de nenhum de vocês. Agora nós três ficaremos juntos, e seremos felizes.

— Felizes... — Enzo engasgou.

— Sim, felizes! Nós três seremos companheiros, companheiros alegres, para sempre. — Sua voz elevou-se com júbilo, e a luz de uma criança radiante brilhou em seus olhos. — Nós ficaremos juntos sempre, nunca nos sentindo doentes, nunca envelhecendo, até o fim dos tempos! Essa é a minha escolha.

— Felizes... Com ele? — A voz de Steven estava tremendo com uma fúria, e Enzo viu que seu irmão normalmente controlado estava branco com raiva. — Com esse garoto ficando entre nós, esse tagarela, balbuciando pagãos de virtude? Eu mal posso aguentar a visão dele agora. Eu peço a Deus que nunca mais o veja novamente, nunca mais ouça sua voz!

— E eu peço o mesmo de você, irmão — resmungou Enzo, seu coração rasgando em seu peito. Isso era culpa do Steven; Steven tinha envenenado a mente de Kab para que ela não mais soubesse o que estava fazendo. — E eu estou com vontade de me certificar disso — ele acrescentou selvagemente.

Steven sorriu maliciosamente.

— Então abra suas asas e vamos lutar?

— Steven, Enzo, por favor! Por favor, não! — Kab gritou, colocando-se entre eles, pegando o braço de Enzo. Ela olhou de um para outro, seus olhos azuis arregalados com choque e brilhantes com lágrimas não derramadas. — Pensem no que estão dizendo. Vocês são irmãos.

— Isso não é culpa minha, e não somos irmão, éramos quando fazíamos parte do céu, agora não mais. — Steven rangeu, transformando as palavras em uma maldição.

— Mas vocês não podem fazer as pazes? Por mim, Steven... Enzo? Por favor.

Parte de Enzo queria derreter ao olhar desesperado de Kab, às suas lágrimas. Mas orgulho ferido e ciúme eram fortes demais, e ele sabia que seu rosto estava tão duro, tão inflexível, quanto o de Steven.

— Não. — ele disse. — Nós não podemos. Deve ser um ou outro, Kab. Eu nunca dividirei você com ele.

A mão de Kab afastou-se de seu braço, e as lágrimas caíram de seus olhos, gotas grandes que salpicaram o vestido branco. Ela recuperou sua respiração com um violento soluço. Então, ainda chorando, ela levantou suas saias e correu.

— E então Steven pegou o anel que ela havia dado a ele e o colocou — Enzo disse sua voz rouca com uso e emoção. — E ele disse à mim, ‘eu ainda a terei, ex-irmão.’ E então ele se afastou. — Ele se virou, piscando como se tivesse entrado em uma luz brilhante na escuridão, e olhou para Alice. Ela estava sentada bem quieta na cama, observando ele com aqueles olhos que eram tão parecidos com os de Kab.

Especialmente agora, quando estavam cheios de aflição e temor. Mas Alice não correu. Ela falou com ele.

— E... o que aconteceu depois?

As mãos de Enzo se fecharam violentamente, reflexivamente, e ele se afastou da janela. Não aquela lembrança. Ele próprio não podia aguentar aquela lembrança, muito menos tentar falar sobre ela. Como ele podia fazer isso? Como ele podia levar Alice naquela escuridão e mostrar à ela as coisas terríveis espreitando lá?

— Não — ele disse. — Eu não posso. Eu não posso.

— Você tem que me contar — ela disse suavemente. — Enzo, é o final da história, não é? É isso que está atrás de todas as suas paredes, é isso que você tem medo de me deixar ver. Mas você deve me deixar ver. Ah, Enzo, você não pode parar agora. Eu tenho que saber a verdade.

Ele podia sentir o horror se aproximando dele, o buraco escancarado que ele tinha visto tão claramente, sentido tão claramente naquele dia a tanto tempo. O dia quando tudo tinha acabado — quando tudo tinha começado. Ele sentiu suas mãos serem pegas, e quando ele olhou viu os dedos de Alice fechados nela, dando-lhe calor, dando-lhe força. Os olhos dela estavam nos dele.

— Conte-me.

— Você quer saber o que aconteceu a seguir, o que aconteceu com Kab? — ele sussurrou. Ela concordou, seus olhos quase cegos, mas ainda fixos. — Eu te contarei, então. Ela morreu no dia seguinte. Kadath, o braço direito de Lúcifer a matou. Como punição por nossa rebelião contra os céus. Ele era o maioral. Mas eu me vinguei, lutei com ele e destruí a lenda.

Alice sentiu seu corpo se congelar.

— Como assim, a lenda?

— Kadath tinha muitos seguidores. Alguns servos fiéis. E quando ele morreu, queriam vingança. Tentaram lutar com Deus, enfrentá-lo de uma vez. Alguns dos Sangues-Impuros nem acreditam na existência de Lúcifer. Eles acreditam em Kadath e em sua força. Acreditam no que ele foi capaz de fazer com Deus. Ele enganou Deus. Conseguiu fingir que estava do lado dele, mesmo não estando.

“Ele matou Kab sem piedade. Ele a puniu por seu amor por mim. Ele queria que eu sofresse. Encontrou-nos parado com a Tábua dos Anjos na floresta. Eu não queria entregar, eu nunca confiei na lealdade de Kadath. Ele nunca me pareceu confiável. Mas ela me convenceu. Quando entregamos, ele estendeu suas asas. Eram negras e mortais. Como o veneno de uma cascavel. Com um lampejo de luz branca, Kab caiu no chão. Eu me lancei ao corpo dela chorando. Ele a matara. Eu o odiava. Levantei-me e avancei em cima dele.”

“Todos estavam zombando de mim. Diziam que eu era fraco. Mas eu não estava com medo. Eu queria vingança. E eu iria ter nem que custasse a minha vida. Ele tivera levado toda uma formação, e eu não estava com medo dela. Lilith, que era sua fiel escudeira estava no meio, engolindo em seco, ainda vendo o corpo de Kab no chão. Eu avancei em cima dela, e com um movimento rápido arranquei sua cabeça. Agora eu poderia pegar sua espada de fogo. Eu caminhei para perto dele, com um ódio, enquanto ele me olhava alarmado. De uma forma assustadora. Ele estava pronto para lutar e eu estava pronto para enfrentá-lo e matar minha sede de vingança.”

“Nossas espadas se encontraram num movimento mortal. Ninguém pode matar um anjo, se não outro. Mas Kadath não era um anjo, ele era um dos seres mais poderosos, tirando Deus. E eu não achava que pudesse destruí-lo. Mas eu estava lutando. E não iria desistir. Num movimento repentino que até eu me surpreendi, a ponta da espada tocou o peito de Kadath e ele caiu no chão. As chamas se espalharam por seu corpo, e ele virou cinzas no chão. Pequenos pedaços de cinza.”

“Uma tropa desceu do céu para levá-lo, mas descobriram logo em seguida a quem Kadath realmente pertencia: ao Inferno. E ele foi levado para lá. Por seus seguidores. Bem, o que restou dele. Eu pude enterrar o corpo de Kab e depois de tudo, passei a vagar pela terra.”

A tempestade tinha passado, e através da janela quebrada Alice pôde ouvir os suaves barulhos noturnos, o gorjeio dos grilos, o vento balançando nas árvores. As corujas nos picos das arvores. No quarto de Enzo, estava muito quieto.

— E os seguidores de Kadath? — perguntou Alice.

— Ainda habitam na terra. Eles acham que seu mestre ainda vai ressurgir. Eu acho que não. Depois disso, eu virei uma lenda, e todos os anjos me conhecem.

— E essa Tábua dos Anjos?

— Quando Kadath matou Kab, eu peguei a Tábua e a lancei para bem distante, para longe de tudo isso. Não sei onde foi parar. E a verdade é que eu não ligo. Mas eu temo pela sua vida, Alice.

— Pela a minha vida, por quê?

— Eu tinha um motivo e ainda tenho para não querer ficar com você. Eu tenho uma punição, qualquer humana que eu amar é morta pelos Querubins. Não acho que seja punição, eu penso como maldição. É por isso que te amo tanto, e não demonstro.

Alice ficou vermelha.

— Você... me ama?

— Sim — ele sussurrou — te amava tanto, que tinha medo do que poderia lhe acontecer. Não iria me perdoar. Por isso quero te manter distante.

— Mas a decisão é minha — disse Alice. — E se eu não quiser ficar distante?

— Vai por mim, você quer.

— Pare de falar por mim, Enzo.

— Eu irei te forçar a ficar longe disso, se preciso for, Alice. — ele disse e sua voz tentava plantar um pouco de medo.

— Não há necessidade de me forçar — disse Alice. Ela pôde sentir sua pulsação em todo lugar agora; em seus pulsos e dentro de seus cotovelos e em sua garganta. — Eu tomei minha decisão, Enzo — ela disse suavemente, prendendo os olhos dele, porém, parecendo decidida.

— Eu quero. —

Ele engoliu em seco.

— Você não sabe o que está pedindo.

— Eu acho que sei. Você me contou como era com a Kab, Enzo. Eu quero que seja assim conosco. Eu não quero dizer que quero que você me deixe morrer. Mas podemos enfrentá-los se eles vierem, não podemos? Eu sei — ela acrescentou, mais suavemente ainda —, o quanto você amava Kab. Mas ela se foi agora, e eu estou aqui. E eu te amo, Enzo. Eu quero ficar com você.

— Você não sabe do que está falando!

Ele estava rígido, seu rosto furioso, seus olhos angustiados.

— Se eu uma vez perder o controle, o que vai me impedir de matá-la? A paixão não é forte como você imagina. Você ainda não entende o que eu sou, o que eu posso fazer?

Ela ficou de pé lá e olhou para ele silenciosamente, seu queixo levantado ligeiramente. Isso pareceu enfurecê-lo.

— Ainda não viu o bastante? Ou tenho que te mostrar mais? Não pode imaginar o que eu posso fazer com você?

Ele caminhou até a lareira gelada e agarrou um longo pedaço de madeira, mais grosso que os dois pulsos de Alice juntos. Com um movimento, ele quebrou-o em dois como um palito de fósforo.

— Os seus ossos frágeis — ele disse.

Do outro lado do quarto um travesseiro estava na cama; ele o pegou e com um corte de suas unhas deixou a fronha de seda em tiras.

— A sua pele suave.

Então ele se moveu na direção de Alice com uma rapidez sobrenatural; ele estava lá e estava segurando seus ombros antes que ela soubesse o que estava acontecendo. Ele a assustou por um momento, então, com um sibilo selvagem que ergueu os pelinhos na nuca de seu pescoço, afastou seus lábios.

Era o mesmo barulho farfalhante que ela tivera ouvido no cemitério. E em seus sonhos e em sua mente. Ela viu asas brancas iluminarem todo o quarto. Era um clarão de luz dourada.

— Sua alma.

Alice ficou paralizada por outro instante, olhando naquele semblante assustador como se estivesse sendo forçada, e então algo profunda em si mesma tomou conta inconscientemente. Ela esticou suas mãos no círculo refreador de seus braços e pegou seu rosto entre as suas duas mãos. As bochechas dele estavam geladas contra as palmas dela. Ela o segurou desse jeito, suavemente, tão suavemente, como se para reprovar o aperto duro nos ombros nus dela. E ela viu a confusão lentamente tomar seu rosto, à medida que ele percebia que ela não estava fazendo isso para lutar contra ele ou para empurrá-lo.

Alice esperou até que essa confusão atingisse seus olhos, quebrando sua contemplação, tornando-se quase um olhar de imploração. Ela sabia que seu próprio rosto estava destemido, suave, mas mesmo assim intenso, seus lábios levemente separados. Ambos estavam respirando rapidamente agora, juntos, em ritmo. Alice pôde sentir quando ele começou a chacoalhar, tremendo como quando as lembranças de Kab tinha se tornado demais para se suportar. Então, muito gentilmente e deliberadamente, ela encaminhou aquela boca raivosa para a sua.

Ele tentou contrapor-se à ela. Mas a gentileza dela era mais forte do que toda a força sobre-humana dele. Ela fechou seus olhos e pensou somente em Enzo, não nas coisas horrendas que ela tinha aprendido hoje à noite, mas em Enzo, que tinha acariciado seu cabelo tão levemente como se ela fosse quebrar em suas mãos.

— Você nunca irá me machucar — ela sussurrou.

Era como se eles estivessem dando beijos de despedida a todo o medo e desolação e solidão dentro deles. Alice sentiu uma onda de paixão passar por ela como a luz do verão, e ela pôde sentir a paixão replicante em Enzo. Mas infundir todo o resto era uma gentileza quase assustadora em sua intensidade. Não havia necessidade de afobação ou aspereza, Alice pensou enquanto Enzo gentilmente a direcionou para se sentar.

Está na hora, Enzo, ela pensou. E, muito gentilmente, ela encaminhou a boca dele para baixo novamente, dessa vez para sua garganta.

Ela sentiu os lábios dele arranharem sua pele, sentiu o hálito quente e frio dele ao mesmo tempo. Então ela sentiu as asas brancas se abrirem e eram enormes.

Por fim ela encontrou a si mesma encarando o rosto dele, um rosto que por fim não tinha barreiras contra ela, não tinha paredes.

E o olhar que ela viu ali a fez se sentir fraca.

— Você confia em mim? — ele sussurrou. E quando ela simplesmente concordou, ele capturou os olhos dela e alcançou algo ao lado da cama. Era a adaga. Ela observou-a sem medo, e então fixou seus olhos novamente no rosto dele.

Ele nunca desviou o olhar dela enquanto ele desatava-a e fazia um corte pequeno na base de seu pescoço. Alice olhou para isso com olhos arregalados, para o sangue tão brilhante quanto um arbusto de bagas, mas quando ele a encorajou a ir em frente ela não tentou resistir.

Depois ele simplesmente segurou-a por um longo período, enquanto os grilos do lado de fora faziam sua música. Finalmente, ele se mexeu.

— Eu gostaria que você ficasse aqui — ele sussurrou. — Eu gostaria que você pudesse ficar para sempre. Mas você não pode.

— Eu sei — ela disse, igualmente silenciosamente. Os olhos deles se encontraram novamente em uma silenciosa comunhão. Havia tanto a se dizer, tantas razões para estarem juntos.

— Amanhã — ela disse. Então, inclinando-se contra o ombro dele, ela sussurrou — O que quer que aconteça, Enzo, eu estarei com você. Diga-me que acredita nisso.

A voz dele estava abafada, oculta no cabelo dela.

— Ah, Alice, eu acredito nisso. O que quer que aconteça, nós estaremos juntos.

— Sim — ela concordou — para sempre.

— Para sempre — ele repetiu.

— Durma bem — ele disse. Sua respiração soprou no rosto de Alice, deixando-a fascinada.

Era a mesma essência que exalava das penas dele, mas numa forma mais concentrada.

Ela piscou totalmente ofuscada pelo brilho das asas brancas atrás dela.

Alice não conseguiu se mover de novo até que o seu cérebro ficou regulado novamente.

Então ela saiu estranhamente da mansão, precisando usar alguma coisa como suporte.

Ela imaginou que tivera visto sorrindo, mas o som foi baixo demais pra ela ter certeza.

Ele esperou até que Alice estivesse na frente da porta, só então ele ligou as luzes da sacada e Alice viu um pouco distante que ele tinha apagado tudo lá dentro. Permanecendo na escuridão.

Alice sentiu a brisa fria da noite tocar seus ombros nus. Em sua mão ele tinha deixado uma chave.

A chave do Camaro.

Ela pegou a chave automaticamente, abriu a porta, deu mais uma olhada para a escuridão da mansão e então entrou.

Tia Judith a chamou da sala de estar.

— Alice...?

— Sim, tia, sou eu. — Ela entrou pra vê-la. Ela estava assistindo um filme romântico...

— Você chegou cedo.

— Cheguei...? — Ela estava surpresa.

— Ainda não são nem oito horas — ela lhe disse. — Vocês se divertiram?

— Sim, foi muito divertido. — Alice disse enquanto sua cabeça dava voltas, ela ainda estava tentando pensar e falar bem do agradável Baile dos Recém-Chegados que perdera — Não houve nenhuma briga sequer.

— Você está bem?

— Eu só estou cansada. Eu caminhei demais.

— Bem, talvez fosse melhor você ir se deitar. — Ela pareceu preocupada. Alice imaginou o que ela acharia quando saísse de manhã e visse o camaro amarelo na garagem.

— Eu só vou ligar para Vanessa; primeiro.

— Você não estava com ela? — ela perguntou, surpreso.

— Sim, mas eu deixei meu casaco no carro dela. Eu quero ter certeza de que ela vai levar para a escola amanhã.

— Bom, pelo menos a deixe chegar em casa primeiro.

— Certo — eu concordei.

Alice foi para se quarto. Estava exausta. Ela realmente estava se sentindo um pouco tonta agora. Ela imaginou se era o choque chegando ao fim das contas.

Vê se você se controla, ela disse para si mesma.

O telefone tocou de repente, assustando-a. Ela o tirou do gancho. Achando que era Enzo perguntando se ela tivera chegado bem em casa. Mas não era Enzo. Era Vanessa.

— Oh — disse Alice —, eu ia te ligar agora mesmo.

— Tudo bem? — ela perguntou.

— Porém eu esqueci meu casaco na escola, você poderia pegar e me entregar amanhã na escola?

— Claro. — disse Vanessa alegremente na outra linha. — Mas o que houve? Por que saiu daquela forma?

— Nada, estou apenas cansada.

— Ah, O.K, nos falamos amanhã, irei deixar você descansar.

— Não está tudo bem, Vanessa.

— Pode falar? É que na verdade eu sei por que você saiu. Foi atrás do Enzo. Marcus me contou tudo.

Alice deu uma risadinha.

— Ele não estava bêbado?

— Sim — disse Vanessa, depois acrescentou: — Mas não com amnésia.

Alice abafou um riso.

— A mãe de Tinker está sabendo das brigas. Levou ela para casa e ela está de castigo. Ela está uma fera. Todo mundo está fugindo dela. E os boatos é que Tinker irá castigar qualquer garota que zombar dela.

— Acho que não desacreditou-se Alice. — Tinker agora se ferrou. A mãe dela não irá mais acreditar em nada. Ela não terá poder. Estará fraca e qualquer garota irá poder ter a sua vingança.

O celular de Alice vibrou.

— Espera — ela disse a Vanessa — chegou mensagem.

Ela abriu a ala de mensagens no celular, e última que tivera recebido era de um número desconhecido. Mas quando começou a ler, ela reconheceu as palavras de que só poderia sair de uma boca. Uma linda boca.

Deixe as chaves do camaro em cima de sua janela. Deixe a parte de vidro aberta, eu a pegarei em um minuto. Não demore, está frio e eu estou nu.

Você poderia ficar aqui, se quisesse. Pensou Alice. E um sorriso se formou nos lábios. Ela pôs de volta na ala de ligação. Vanessa estava na linha e a chamada estava no modo de espera. Ela apertou em “retirar do modo de espera”. E a voz de Vanessa começou a soar alto.

— Oh, me desculpe pela demora — disse Alice.

— Quem era? Tinker te ameaçando? — Vanessa deu uma gargalhada.

— Não. Enzo.

O barulho de risos na outra linha parou.

— Como?

— É isso que você ouviu.

— Vocês estão ficando?

— Não.

— Mas então...

— Mas então o que?

— Ele veio com você para o Baile, ele dançou com você, ele estava na sala de aula com você. Tem mais alguma explicação?

— Sim — disse Alice. — ele é meu amigo.

Vanessa desacreditou.

— Me desculpe, mas tente inventar algo mais verdadeiro.

— Estou falando de verdade. Eu não mentiria sobre isso.

— Eu espero.

— Amanhã te conto tudo na aula de português.

— Só porque é aula mais chata e sem graça do dia.

— Sim — disse Alice sorrindo —, assim a história ficará mais emocionante.

— Humm — disse Vanessa — eu entendo.

Mas Alice achava que não.

— Bem então tudo O.K, amanhã nos falamos.

— Tudo bem — disse Alice — tchau.

Ela desligou o telefone enquanto colocava as chaves em cima da janela. Ela virou para o quarto e foi até a porta. Fechou e rodou a chave três vezes. As luzes do quarto começaram a tremer. Alice ficou com medo. Houve um barulho farfalhante um lampejo de luz dourada e quando Alice virou para a janela não tinha nada. E as chaves tinham sumido.

Ela se preparou para ir para a cama sem prestar a mínima atenção com o que estava fazendo. Não foi até que ela estivesse embaixo do chuveiro, a água muito quente, queimando sua pele, que ela se deu conta de que estava morrendo de frio. Ela tremeu violentamente por alguns minutos até que os jatos de água finalmente relaxaram seus músculos rígidos. Então Alice ficou embaixo do chuveiro, cansada demais pra se mexer, até que a água quente começou a acabar.

Ela saiu, se envolveu cuidadosamente numa toalha, tentando manter o calor da água para que os tremores não voltassem. Ela se vestiu rapidamente pra ir para a cama e se enfiou embaixo do edredon, se curvando até ficar no formato de uma bola, se abraçando para manter o calor. Uns pequenos tremores passaram por Alice.

Sua mente ainda estava rodando, cheia de imagens que ela não conseguia entender, e algumas que ela lutou pra reprimir. Nada parecia estar claro no início, mas quanto mais perto ela chegava da inconsciência, mais algumas coisas se tornavam evidentes.

A primeira; óbvio, Enzo não era um aluno normal. Era um anjo. E ela não sabia o perigo que corria por estar com ele. E até onde isso a levaria.

A segunda: existia um exército poderoso de anjos e demônios atrás da garota por quem ele se apaixonar. E nesse momento, a garota era ela.

E terceiro: ela estava perigosamente fixada por ele e pelo perigo que corria ao se apaixonar por ele.

Isso mesmo, Alice estava apaixonada.