Quando se levantou pela manhã, Alice ainda tinha quase certeza de que tudo na noite passada tivera sido um sonho. Nada mais, além disso. Mas as dores da briga de Tinker eram reais. E todo o seu corpo estava dolorido. Ela se levantou da cama antes mesmo do despertador tocar. Foi ao banheiro e fez tudo conforme seu período matinal.

Escovou os dentes, lentamente. Tinha tempo para tudo. Menos para encarar Enzo. Ela não conseguia mais. E se tudo tivera sido um sonho? Como ela chegaria nele hoje e o abraçaria? E se aquele momento mágico entre os dois nunca tivera acontecido?

Alice se demorou muito em seu ritual matinal, e agora estava atrasada.

Desceu as escadas e não tinha ninguém no andar debaixo. Tia Judith já tivera saído com Julie e tio Rob. Alice mal passara tempo com seus tios nesse recomeço de aulas.

O dia hoje estava nublado. A tempestade da noite anterior deixou caos. A Rua Ally estava alagada, tinha água em vários lugares. Calçadas. A casa do Sr. Lyman estava inundada. Alice ficou perplexa. Mas não tinha tempo para isso, ela estava atrasada e começou a correr.

Alice estava na saída da rua, ultrapassando vários carros quando viu que tinha mais um lá. Esse estava em movimento.

Um carro amarelo.

O coração de Alice disparou. Ela sentiu seu corpo se desfalecer, sentiu seu coração se abrir. Sentiu a pulsação e sua pressão subir. Ela estava tremendo. O carro se aproximou, e como num filme, as janelas escuras se abaixaram e quando ela menos reparou, ele estava abrindo as portas para ela.

— Você poderia dar uma volta comigo? — ele perguntou, seu tom de voz implorativo. Alice não iria conseguir negar. Deus, mesmo sendo sobrenatural, ele continuava lindo. Ainda mais irresistível.

— Claro — ela disse, mas o que estava pensando por dentro era: “CLAROOOOOOO, ÓBVIOOOOOOOO, SEMPREEEEE”. Ela não sabia o que fazer. Sua mente estava uma bagunça. Quando Alice entrou no carro percebeu que o casaco que tivera esquecido na escola, estava no banco do carona.

Oh, me desculpe. Eu o peguei para você. Ele nem se explicou.

Entrou no carro e acelerou.

Ele estava tão calmo. Tão tranquilo. Silencioso enquanto dirigia. Alice não sabia se falava alguma coisa. Ela tinha medo da resposta.

Depois de certo tempo em silêncio, resolveu perguntar:

— Para onde estamos indo?

Depois de alguns segundos que pareciam a eternidade ele respondeu:

— Vamos para escola, para onde mais iríamos?

— Não sei — Alice disse desafiadora —, você me sequestra na saída de minha casa para a escola, e acha que eu iria achar que estávamos indo para ela?

Ele sorriu, uma risada seca e forçada.

Alice se sentiu incomodada, então se arrumou no carro e ficou em silêncio. Alice repousou o casaco em cima da perna. Estava frio, mas ela não iria colocá-lo. Não agora.

— Põe o casaco — ele disse, como se tivesse lido os pensamentos dela. — Está frio, não quero que você pegue alguma gripe.

— Não sou mais criança, Enzo — ela disse firmemente.

— Essas suas atitudes me mostram o contrário.

Alice pôs o casaco.

Estava com raiva. Com raiva de que mesmo depois de Enzo ter contado seu segredo, ainda continuasse tratando-a daquela forma. Alice pôs o cinto de segurança em volta de sua cintura. Eles dirigiram pelas ruas frias e alagadas de Magic Fells, indo sempre rápido demais. Alice sentia de vez uma quando uma breve vontade de vomitar.

Enzo se aproximou de Alice, com um gesto simples e surpreendente. Ele estava sorrindo. As mudanças de humor dele deixavam Alice atordoada. Ele laçou o pescoço de Alice com um braço. O aperto foi forte. Depois, seus lábios gelados tocaram sua testa em um beijo.

— Você me assusta às vezes — ela disse.

Ele se recostou no banco macio.

— É a intenção — falou como se estivesse se espreguiçando.

Quando pararam na frente da escola, ele se inclinou para pegar o rosto de Alice com as duas mãos. Ele a segurou cuidadosamente, pressionando só a ponta dos dedos levemente em suas têmporas, enquanto todos a sua volta olhavam. Tinha Tinker, estava com uma fúria nos olhos — depois da briga, ela estava com um dos olhos roxos.

— Você não deveria se preocupar com nada — ele sussurrou e o doce hálito dele a varreu por inteira. — Eu te protegerei de qualquer coisa — ele disse ao canto do ouvido e Alice se arrepiou. Ele não parecia mais o garoto que ela tivera conhecido no primeiro dia de aula. Ele era mais sensível, mais calmo, mais apaixonante, não era o garoto rude e insensível que a tratou mal duas vezes seguidas no mesmo dia. E Alice estava se apaixonando cada vez mais.

— E se eu não quiser parar de me preocupar? — ela perguntou, a respiração desigual.

Seus olhos verdes cintilantes queimaram.

— Que pena.

Alice já estava um pouco atordoada quando ele chegou mais perto e a abraçou. Mas o que ela queria mesmo era um beijo — e Alice ainda não sabia porque tão tivera recebido um ainda.

Mas ele a queria.

Como ele queria, ela sem dúvida, esqueceu-se dos problemas com Tinker ou qualquer outra garota.

Então, ele a segurou pela mão magra e a conduziu para dentro da escola, entrando no Caixote e indo em direção à sala de aula no segundo piso. Eles estavam sorridentes. Alice como nunca tivera ficado há meses e Enzo como se pela primeira vez tivesse descoberto a felicidade.

Mas isso não era verdade. Enzo já tivera sido feliz ao lado de uma garota, e ele estava ficando convencido novamente que ao lado de Alice ele seria feliz novamente. Mesmo não querendo confiar. Ele tinha medo. Medo de que algo pudesse acabar com sua felicidade. Mas Enzo jurou que se ele voltasse, ele mesmo acabaria com o ser de uma vez por todas nem que custasse sua vida. Ele não deixaria nada nem ninguém atingir Alice. Pois ele a amava...

Alice sentou-se no fundo da sala, como sempre fazia, e Enzo sentou-se ao seu lado. Vanessa e Meredith se distanciaram. Elas não queriam atrapalhar nada. Mas não iriam.

Alice se sentiu incomodada. Mas resolveu não se preocupar.

Nesse momento a professora Sophia entrou na sala de aula. Ela estava mais feliz do que nunca. Enzo tocou as mãos de Alice. Ela se arrepiou com os dedos frios em cima de sua mão quente. Ela soltou um livro em cima da mesa, e segurava um tipo de caixa embrulhada em papel-de-presente.

— Bom dia — disse ela, majestosa. E caminhou para o meio da sala. — Hoje eu estava dando uma olhada na biblioteca e vi isso — ela agitou a caixa ou sabe-se lá o quê dentro do papel-de-presente.

Enquanto ela falava algo que nem todos prestavam atenção, Alice se virou para Enzo.

— Sobre a Tábua dos Anjos?

Enzo suspirou profundamente.

— Continua desaparecida. Eu a rastreei nessa direção. Mas eu acho que me enganei. Afinal, não está aqui. E eu tenho que encontrá-la. Se cair em mãos erradas, Kadath pode retornar, e aí será o fim. Ele iria voltar forte novamente. E aí seria o fim da humanidade.

— Ele iria querer vingança?

— Ele era o Rei do Inferno, Alice. Ele era poderoso, alguns dizem que Lúcifer foi apenas uma criação depois dele. Eu penso diferente. Eu vi a queda de Lúcifer dos céus. Eu antes de qualquer outro o vi descer em chamas das alturas. Kadath ficou e enganou á Deus e os querubins. Até que ele matou Kab, e eu o destruí e todos os amantes do inferno o levaram de volta.

— E como ele era?

— Ah, quando estava no exército do céu, ele estava poderoso. Lindo e majestoso. Tinha uma armadura feita de ouro, com uma coroa do mesmo objeto, resplandecia, ele era adorado. Não tanto quanto Deus. Mas chegava perto.

— E preferiu trair a todos?

— Sim. Ele nunca se importou na verdade. Não se preocupava. Ele tinha algo que nem todos tinham. A confiança de Deus. E ele se vangloriava por isso. Era o líder do exército.

— E quando ele dói destruído.

Enzo fez um resmungo.

— Minhas perguntas irritam você? — Alice perguntou.

— Não — ele disse — de maneira nenhuma. É só que...

Nesse momento eles foram interrompidos pela professora Sophia. Ela já tivera desembrulhado a caixa de dentro do papel-de-presente e agora todos os alunos viam o que era. Era um livro em 3-D. Ele saía, mostrando imagens altas. De castelos, torres e máquinas. Ela estava fazendo um: “hum-hum” para chamar a atenção de Enzo e Alice. Como se sua garganta coçasse.

— Obrigada — disse com um sorriso infantil —, agora como estava dizendo, as torres desse lado do castelo foram derrubadas logo após a queda dessa e...

Alice deixou de ouvir e virou-se para Enzo novamente.

— Aquela história que o professor Rape nos contou na aula passada — ela disse, surpresa —, era sobre você.

Enzo mexeu no cabelo.

— Eu lhe disse que éramos famosos. Uma história de amor com um fim trágico. Sem mais delongas. A maioria dos livros de histórias mudam algumas partes, mas continuam com o mesmo fim. Já vi mudarem os nomes dos personagens, incluírem pessoas inexistentes, mas sempre começa da mesma forma. Um amor entre um anjo e uma humana.

— E um demônio — Alice acrescentou pensativa. Pensando em Steven.

Enzo apenas concordou com um aceno de cabeça.

— Certo — disse a professora Sophia —, agora vamos deixar os exercícios para a próxima aula. Hoje é sexta-feira e...

— Que dia é hoje? — Alice perguntou perplexa.

— Hãa — Enzo fez uma pausa, como se estivesse pensando —, sexta-feira — ele disse.

— Então quer dizer que hoje, faz um mês que você chegou.

— Exatamente — ele concordou.

O sinal tocou.

Nesse momento a diretora Eva, entrou na sala. Todos a conheciam como dona Eva. Era uma mulher morena, de cabelo crespo de alto volume. Estava usando uma calça social e um casaco. Ela não parecia feliz — ela nunca parecia. Era do tipo de mulher que deixava seus assuntos pessoais em casa e vinha para a escola com o seu lado profissional apenas.

Ela se dirigiu ao meio da sala.

— Bom dia gente — ela disse e sua voz era melancólica. Ofegante e parecida com a voz da mulher que faz os comerciais do Top Therm. Ela mexia as mãos enquanto falava. — Houve um pequeno problema na escola e vocês serão liberados mais cedo.

Houve um “Êeeehhh” da galera do fundo.

— Silêncio. Não estou pedindo um coral. Se não calarem a boca, ficarão todos aqui até o final. E só sairão no horário normal. — depois que todos os alunos ficaram em silêncio ela continuou. — Pois bem, os pais foram avisados, e agora eu vou pedir que saiam vagarosamente e vão pelo corredor até a secretaria.

Alice estava saindo do grande prédio azul, abraçada a Enzo. Caminhavam lentamente enquanto umas turmas de alunos cruzavam o portão principal. A diretora estava escandalizada, tentando fazer com que os alunos parassem de badernar.

Enzo permanecia ao lado dela. Abraçando-a. mantendo-a segura, até que Alice resolveu se envolver colocando o braço em volta do pescoço dele e se jogou em seus braços com mais entusiasmo, esquecendo-se novamente de todos os problemas. Tia Judith estava em seu velho Ford esperando Alice. Ela estava parada no estacionamento e sorriu para Enzo quando o viu abraçado e dando gargalhadas ao lado de Alice.

Alice torceu o lábio, ela não queria ir com tia Judith para casa, ela queria seguir Enzo até sua casa e ficar com ele lá novamente. Onde estava livre de qualquer perigo. Ela teve a vontade de chegar a sua tia e a mandar sair com uns amigos e se divertir. Mas antes que ela desse um passo a frente para fazer isso, Enzo a agarrou.

— Seja boazinha, por favor — ele respirou em sua bochecha.

Ele pressionou seus lábios gentilmente na orelha de Alice mais uma vez e então se afastou, descruzando seus braços do estômago dela. E antes que Alice pudesse sair para ir em direção ao carro da tia, Enzo, sentindo sua total frustração, passou um braço encorajador por sua cintura e deu um beijo no topo de sua testa.

— Acho melhor me apresentar a sua tia também, eu acho.

— Acho que ela já te conhece — Alice lembrou a ele, ontem à noite quando ele foi falar pegá-la para levá-la ao baile, tia Judith o viu no quintal da casa.

— Eu quero dizer, como seu namorado.

Alice o encarou com um olhar suspeito.

— Por quê?

— Não é esse o costume? — ele perguntou sorridentemente.

— Eu não sei — Alice disse. Sua vida amorosa tivera acabado quando ela terminara com Marcus, seu namorado do colegial, havia alguns anos. Não que as regras de um namoro normal se aplicassem as dele. — Isso não é necessário, sabe. Eu não espero que você tenha de fingir por minha causa.

Seu sorriso estava paciente.

— Eu não estou fingindo.

Alice afastou-se um pouco de Enzo. Olhando para tia Judith que esperava pacientemente do outro lado da rua, batendo o pezinho levemente no chão.

— Você vai dizer para sua tia que sou seu namorado ou não? — ele perguntou.

— É isso que você é? — Alice escondeu a alegria que tomava conta dela ao pensar em Enzo Fanning e tia Judith e a palavra namorado juntos no mesmo lugar.

— É o que eu quero.

— Na verdade, eu tinha a impressão de que você queria algo mais — Alice confessou, olhando para ele.

— Bem não temos que massacrá-la com tudo agora, quero dizer, entrando em detalhes — ele se inclinou para ela levantando seu queixo com um dedo frio, incrivelmente gentil. — Mas ela precisa de alguma explicação para o motivo de estarmos aqui por muito tempo e eu estar te beijando na testa e te fazendo carinhos e te abraçando junto a mim. E eu não quero que a Sra. Curie me expulse a vassouradas quando eu for lhe pegar para o Baile da Meia-Noite.

Alice riu. Ela não sabia que Enzo gostava de bailes. Para falar a verdade, ela não sabia quase nada a respeito dele. Nem sobre esse tal Baile, mas achou melhor não falar nada agora...

— Então você quer ficar e falar — ela perguntou. — Você vai mesmo ficar?

— Até quando você me quiser — ele a assegurou.

— Eu sempre vou querer — ela avisou. — Para sempre, se possível.

Eles caminharam juntos, de mãos dadas até o carro de tia Judith. Todos os alunos já tiveram ido embora, alguns foram com os pais. Ninguém fazia ideia do que tivera acontecido. Alice tinha certa desconfiança, mas assim como o resto da turma, ela não viu nada e não poderia sair falando o que não sabia. Por enquanto.

Tia Judith estava esperando Alice e ela abriu os braços quando Enzo e Alice se aproximaram. Ela tinha o rosto na forma de um coração, tinha os cachos macios, na cor de um amarelo caramelo, pareciam aqueles dos filmes épicos. Era uma tia pequena e esbelta, um pouco mais cheinha do que as pessoas na sua idade. Ela estava usando uma de suas roupas casuais, com roupas claras que chegavam a combinar com o carro. Ela deu um sorriso de boas-vindas a Enzo, mas não fez nenhum movimento que revelasse aproximação. Alice pensou que a tia estava tentando não o assustar. Mas Enzo não parecia assustado. Pelo contrário, ele parecia firme.

— Tia Judith — a voz de Alice quebrou o silêncio. — Este é o Enzo.

— Olá de novo, Enzo — os passos de tia Judith eram controlados enquanto ela se aproximava para tocar a mão de Enzo. Enzo deu um passo à frente para tocar a mão de Judith.

— É bom vê-lo novamente, Senhorita Curie.

Deus, ele era tão educado. Tão cheio de si.

— Por favor, me chame de Judith.

— Judith — ele sorriu para ela. Um sorriso amargurado. E Alice podia sentir o alivio de Enzo ao seu lado.

— Então, Enzo, temos que ir, estamos com pressa nos falamos outra hora, sim? — disse tia Judith, colocando Alice no banco traseiro, enquanto entrava no banco da frente. Antes de o carro começar a acelerar Alice soprou as palavras “eu falo com ela a caminho de casa” e Enzo depositou um papel amassado em suas mãos. Alice abriu e estava o número dele. Os dez dígitos bem desenhados.

Tia Judith se despediu e o carro começou a andar.

Tia Judith deixou seu batom cair no banco ao lado.

— Você está saindo com o Enzo Fanning?

Alice fingiu não reparar na reação dela.

— Sim.

— E onde você estava na noite passada? Com ele? Ou na festa? — ela perguntou mas não pegou o batom.

— Bem eu meio que saí cedo da festa e fui para a casa dele, e tenho um encontro com Enzo essa noite, então, ele queria que eu dormisse lá hoje... Tia?

Tia Judith parecia estar tendo um ataque cardíaco.

— Você está saindo com Enzo Fanning, realmente? — sua voz parecia um trovão, escandalosa.

— Pensei que não ligasse com quem eu saía.

— E não ligo — ela se alterou.

— Então pode o engolir em seco — Alice a corrigiu, sem nenhum sorriso.

— Espera... — ela pausou — Ele não quer que você durma lá hoje, para...?

— Não tia — Alice agora alterou o seu tom de voz também. — Nós ainda não pensamos nisso... — Mentira! Uma voz interior gritou em sua cabeça. Você deseja. Mais do que tudo...

— Menos mal — tia Judith suspirou — melhor, eu acho. Eu não quero isso para você. É muito nova, muito infantil e bobinha. E ele é maduro demais, poderia te levar a fazer... rapidinho... e desde quando você e esse Enzi estão namorando?

— É Enzo, tia.

— Isso — ela concordou — desde quando...?

— Uma semana, eu acho. — ela mentiu.

Tia Judith se silenciou. Pelo menos ela tivera pegado o batom do outro banco e começou a se maquiar, então Alice sabia que tudo de ruim já tivera passado.

— E quando ele vai vir te buscar?

— Em algumas horas.

Tia Judith deu uma olhada assassina em Alice.

— Para onde ele vai te levar mesmo?

Alice gemeu alto.

— Para algum restaurante. Sabe, aqueles lugares que vendem comida barata e boa...?

O rosto dela se contraiu, e então ela finalmente deu uma gargalhada.

— Você vai comer?

— Sim. Provavelmente sim. — ela observou cheio de suspeitas.

Agora, estavam encostando-se à grande garagem dos Curie, Alice saiu rapidamente, fechando os vidros do carro, e tia Judith ia abrindo a porta e entrando em casa. No sofá, estava Julie, assistindo seu desenho favorito, ao lado de Luca, seu amigo da escola. Ela foi até a irmã e deu um beliscão em suas bochechas. A menina retribuiu com uma risadinha e ela subiu as escadas.

Ligou o celular, digitou os números e mandou uma mensagem para Enzo. Ela estava feliz, finalmente tudo estava melhorando, e ela mal podia acreditar. Jogou-se na cama e ficou olhando para o teto. Era tão boa a sensação de repouso que ela quase ficou ali.

Mas tinha algo melhor para fazer do que ficar deitada na cama. Ela tinha um encontro. Com o garoto dos seus sonhos. Ou ela deveria chamá-lo de anjo? Era correto o termo garoto para alguém com a idade dele? Ela achava que não. Ela subiu para se arrumar.

A lua estava no alto do céu, quando Enzo chegou à mansão. Ele estava feliz por ter tido um tempo a sós com Alice, por ter se deitado com ela e dormido... Mas ele estava preocupado em relação ao professor Rape. Todos começaram a desconfiar. Ninguém fica no escuro por muito tempo quando se lembra de acender a luz. E as pessoas de Magic Fell’s não eram bobinhas como eram antigamente. E ele sabia disso mais do que ninguém.

A lembrança o engolfou. Já era bem ruim estar ao lado de Alice depois de tudo, agora tinha que se lembrar de Kab. Maldita Tábua dos Anjos — e maldito poder sobrenatural. O que ele desejava era apenas ser um humano normal como qualquer outro e estar livre de ser o que ele é. Ele amava Kab e ama Alice. Ama sentir seu cheiro inebriante na escola. Ama estar com ela. Abraça-la. Senti-la. E odeia ter algo que os afasta. Ele não queria saber de nada, ele estava decidido a fazer o que ele iria fazer hoje. Odeia o modo como tem que se esconder.

Ele ouvira cada pulsação dela, sentiu quando ela teve prazer em estar com ele. Ele ouviu seus pensamentos, passaram como uma música em sua cabeça. Ele conseguia ouvir os pensamentos dela, Enzo, poderia ouvir os pensamentos de cada um na escola, sua cabeça era uma bagunça, ele não gostava de ser assim. Mas ele gostava de Alice. A amava. E queria estar junto dela — para sempre.

Ele tirou a roupa e entrou no chuveiro. A água morna caía em sua pele gelada e ele se arrepiou. Era quase a sensação que tinha quando estava com Alice. Era como misturar coisas que não se misturavam. Como água e óleo. Como fogo e gelo. E isso o atraía. Depois de lavar o seu corpo, Enzo se enrolou na toalha e foi para o quarto.

Vestiu uma de suas melhores roupas e saiu noite a fora.

Alice estava usando um vestido que não chegava ao joelho. Era branco e tinha um cinto de pano preto enrolada na cintura. Estava com o cabelo negro preso em um rabo de cavalo. Estava simples, porém irresistível.

Alice não sabia o que tinha, algo que seduzia. Algo que agradava a todos. Ela não entendia. Caminhou calmamente pelo quarto e passou seu pó-compacto vagarosamente pelo rosto.

Alice caminhou novamente em direção à janela. E ele tivera acabado de fechar a porta do carro e acionado o alarme. Estava lindo. Irresistível. Usando um blazer com uma calça social acinzentada, estava segurando um buquê de orquídeas vermelhas amarradas por um laço vermelho. A campanhinha tocou. Ela desceu as escadas apressadas.

Alice não tivera dado conta que estava chovendo lá fora, até que Enzo entrou. Ele ficou na luz da varanda, parecendo um boneco. Mas um boneco lindo, atraente e irresistível.

— Entre, Enzo.

Alice respirou de alívio quando sua tia acertou o nome dele.

— Obrigado, senhorita Curie.

Alice fez uma careta.

Enzo sentou-se na única cadeira que tinha na sala, obrigando Alice a sentar-se ao lado da tia na poltrona. Alice fez uma careta para ele. Ele deu uma linda piscadela enquanto tia Judith não olhava.

— Ah, essas flores são para você, senhorita Curie — ele disse, a voz suave entregando a tia de Alice um lindo buquê de orquídeas.

— Oh — tia Judith disse surpresa —, obrigado! Elas são realmente lindas Enzo. — Ela disse e inalou o perfume inebriante das rosas. — Então, eu ouvi dizer que vai levar Alice a um jantar?

— Sim, senhora, esse é o plano. — Ele não parecia surpreso, pelo fato de Alice ter mentido para a sua tia. Ela sabia que não iriam para um jantar qualquer. Era O Jantar. Iria ter algo a mais. Iria rolar algo a mais. E tanto ele, quanto ela sabia disso...

— Bem meus pêsames eu acho.

Tia Judith sorriu, e Enzo se juntou a ele.

— Tudo bem — disse Alice se levantando. — Chega de piadas as minhas custas. Vamos lá. — Ela caminhou para trás, para a escada onde pegou uma mochila com roupas. Eles a seguiram.

— Não volte muito tarde amanhã, Alice.

— Não se preocupe, Judith, eu vou trazê-la cedo — Enzo prometeu.

— Tome conta da minha garotinha, está bem?

Alice gemeu, mas ela ignorou.

— Ela estará segura, senhorita, eu prometo.

Tia Judith não conseguiu duvidar das palavras de Enzo, elas estavam em cada palavra.

Alice saiu. Os dois riram. Enzo a seguiu.

Alice parou envergonhada na varanda. Estava morta de vergonha. Lá, atrás do velho Ford de sua tia, havia um Camaro monstro. Os pneus deles eram mais altos que a cintura de Alice. Havia grades de metais sobre os faróis e quatro grandes holofotes sobre as barras de proteção. O capô era de um amarelo brilhante.

— Acho que poderia parar de se exibir com ele — disse Alice.

— Por quê? — perguntou Enzo, dando uma leve palmadinha no capô dourado — Ele é demais. — disse e entrou sorridente para dentro do carro.

Alice era um anjo.

Isso era o que esse vestido de algum jeito implicava. Era... bem, Enzo não sabia os nomes certos para tais coisas, mas era sem alça e meio que seguia as curvas dela no topo. A cor é um pálido branco-prateado que o fazia pensar na luz do luar na neve. A parte de cima era bordada com algum tipo de miçanga clara, e havia uma flor prateada em um ombro. A cauda do vestido era camadas e camadas de algum material transparente — chiffon? — e as camadas espumavam e borbulhavam até os joelhos de Alice. Suas lindas pernas compridas pareciam ainda mais compridas e lindas do que o normal, e ela estava usando um adorável sapato de salto alto prata com flores que combinavam com seu vestido.

Alice sorriu para ele enquanto entrava no carro. Os dois estavam tão lindos juntos, e tia Judith continuava a olhar para eles da sacada. Ele e Alice teriam uma noite maravilhosa juntos. Hoje à noite aquele sorriso era só para ele.

Sua voz era doce, com apenas um traço do sotaque sulista que se demorava em seus ouvidos. Fazia tudo que ela dizia soar como um segredo que ela estava contando somente a você.

Algo ficou preso na garganta de Enzo. Ele não conseguia fazer uma palavra sair, não enquanto ele estava tão perto dela, tão perto que conseguia sentir seu perfume. Ela cheirava a rosas no verão, e à lavanda de um baú velho. E também à... outro cheiro que devia ser sua fragrância natural, o perfume de Alice. Enzo estava feliz por ter raspado a sujeira e graxa de suas unhas com uma escova de dente e esfregado o resto de si mesmo até ficar vermelho como uma lagosta em um esforço de se livrar os cheiros do carro velho e do ático mofado.

Enquanto ligava o carro ele disse às palavras que não tivera dito antes:

— Você está linda.

Pela primeira vez, Alice riu em voz alta, olhando para ele de lado. E a risada era quente e genuína e como um bálsamo calmamente para todos os sentidos de Enzo. O olhar foi rápido, inteligente e alegre.

— Você é simplesmente cheio de surpresas — Alice disse, e para a surpresa dele, ela deslizou uma mão elegante e fria na sua.

Enzo não conseguira explicar a sensação então. Era simplesmente como raios flutuando dos dedos gelados dela para a palma dele e pelo seu braço acima e então para cima até que fritou seu cérebro com um milhão de volts.

Era a melhor coisa que já tinha acontecido a ele.

Era também uma sorte que seu carro sabia o caminho para a loja de flores sozinho, porque seu cérebro definitivamente não estava lá para dirigi-lo. Alice falava sem tagarelar, e sem deixar nenhuma pausa constrangedora quando ele tinha que engolir ar. Ela falava sobre a decoração do Baile de Outono, contou uma história divertida sobre como, enquanto tentava desenredar os refletores coloridos para o Baile, ela tinha acabado ficando presa nas estantes, e terminou com uma piada genuinamente engraçada, que não era vulgar ou humilhava qualquer cultura, raça ou sexo.

Enzo Fanning se apaixonou.

Ele não percebera que nunca tinha se apaixonado antes: só tivera paixonites. É claro que qualquer um podia ter uma paixonite por Alice, do modo como abelhas eram atraídas para flores. Ela exalava feromônios; ela se adequava à imagem perfeita de garota perfeita que de algum modo serpenteava nos genes de cada garoto caucasiano, ou que de algum outro jeito estava propagandeada neles quando tinham três anos de idade. A beleza de Alice era perfeita, absolutamente sem defeitos. Mas se era só até aí que você chegava, você não estava falando de amor.

Amor era quando você conhecia a garota por trás da máscara — e ele tinha certeza de que iria fazê-lo agora. Amor era quando você via o mundo através dos olhos de uma jovem inocente, alegre e divertida, o que ele não conseguia evitar fazer quando ela falava. É claro, ela era meio convencida, mas como ela poderia não ser, do jeito como todos a tratavam? Ele não achava que era uma coisa tão ruim.

Ele queria mimá-la.

— Está bem — ele disse. — Estamos chegando na primeira parada. Feche os olhos.

Alice riu.

O próprio som de sua voz era como a canção de um passarinho.

Enzo saiu do carro.

E então seu coração começou a martelar — e não de um jeito bom. A porta para A Florida estava fechada e suas janelas estavam escuras. Ele tinha planejado tudo de antemão, até mesmo tinha pagado de antemão por uma única rosa branca. Ele iria dá-la à Alice, com uma única folha de samambaia macia atrás e um ramo de mosquitinho na frente — e ele tinha até mesmo pedido para ela ser amarrada com um laço azul.

E agora — a porta não abria sob sua mão que puxava com violência. Ele tinha perdido muito tempo. Ele tinha estragado isso. Os floristas tinham ido embora, e nem tinham ao menos deixado a sua rosa em um caixa perto da porta.

— Alice, eu... Eu não sei o que dizer...

— Tudo bem — disse ela.

Mas algo mudou. Nos lábios de Enzo se formou um sorriso. Um sorriso malicioso. Como se aquela parte estivesse em seus planos. Ele estendeu a mão para ela, como reverência, depois levantou a cabeça dourada e sussurrou:

— Quer sair?

Alice abriu a porta do carro, ainda sorrindo.

Ele estava tirando a roupa. Estava mostrando os ombros e barriga nus. E agora uma luz dourada iluminava todo o rosto de Alice. Ele se aproximou de Alice com um gesto majestoso. Sem aviso, as asas de quase quatro metros de altura se abriram dos lados de Alice, e ela não teve nada em que segurar, exceto no pescoço de Enzo. E eles estavam voando alto. A sensação era ótima e inexplicável. As asas de Enzo eram calmas enquanto se batiam, levantando voo; a sensação que Alice tinha era que estava prestes a se soltar no ar. Penas que mais pareciam plumas tocavam seus dedos, e Alice se sentia mergulhada nas nuvens. Era tão bom.

O vento em seu rosto era tão prazeroso. A noite nunca parecera tão linda. Afinal, nada se parece linda a não ser que se esteja perto. As estrelas que iluminavam o céu pareciam mais perto a cada bater de asas. Alice mal podia acreditar que estava voando.

Depois de alguns instantes, Alice sentiu seus pés no chão novamente. As asas de Enzo se fecharam e se esconderam por trás dos ombros. Alice não sabia definir a sensação que estava sentindo. Era algo misturado com prazer e êxtase. Alice nunca tivera essa sensação antes.

— Eu acho que você já teve — disse Enzo, parecendo ler a mente de Alice.

— Você consegue ler minha mente? — ela perguntou. Desafiadora.

— Nós podemos fazer o quisermos Alice. Mesmo sendo expulso do céu, não perdi meus talentos. Não todos.

Alice sorriu de forma envergonhada.

Ela não tinha percebido que nas mãos de Enzo tinha algo como uma caixa de madeira, com uma pequena toalhinha xadrez nas cores vermelhas e branco. Não percebera também que o chão onde pisava não era onde estava há alguns segundos. Ela estava no teto de um supermercado e de onde estava conseguia ver o camaro de Enzo reluzindo de bem distante. Metros abaixo. Alice mal via o chão, ele estava escuro, e nesse momento o que importava mesmo era Enzo, era estar com ele.

Alice voltou sua atenção para Enzo.

Quando deu por si, Enzo já tivera aberto a caixa e dentro tinha comidas. Só então lhe caiu a ficha que era um piquenique. Um piquenique bem romântico. No chão algumas velas estavam iluminadas e ela conseguia ver pelo clarão das velas que tinham pétalas espalhadas por todo o chão.

— É tudo muito lindo — disse Alice, tremendo de frio —, mas eu queria ter ido a um restaurante, o lugar é quente e eu ficaria bem

Houve uma luz dourada que iluminou todo o lugar, um barulho farfalhante, e no tempo de um piscar de olhos, Alice viu que não estava mais no teto de um supermercado. Existiam paredes a sua volta. Eram vermelhas. E tinham mesas espalhadas por um imenso salão. Estava em um restaurante. Estava em um restaurante com Enzo Fanning...

Quando o garçom particularmente de modo deliberal lhes deu seus cardápios, murmurando algo sobre álcool e identidades, Alice soltou uma artilharia de francês que teve o efeito de fazer o homem rastejar — quase fugir — para longe.

— Eu estou estudando francês para o próximo verão — Alice contou a ele, alegremente observando o garçom sair. — Eu já consigo insultar as pessoas muito bem. Eu perguntei a ele por que ele foi chutado da França, onde todos da nossa idade bebem vinho.

— O que vai acontecer esse verão?— Enzo perguntou.

— Eu vou para a França. Não é nenhum intercâmbio; é só algo que eu queria fazer. Para acabar com o tédio, eu acho.— Ela lhe deu um sorriso que pareceu transformar o mundo todo em um deslumbre. — Eu odeio ficar entediada.

Não seja um entediante. Não seja entediante. O comando foi declarado em voz alta no cérebro de Enzo enquanto Alice começava a contar uma história, enquanto seus processos de pensamentos superiores estavam em um redemoinho de confusão.

Ela é tão linda... delicada, como porcelana fina... seu cabelo como olho velho no restaurante obscurecido... e à luz das velas seus olhos são quase violetas — com dourado respingado neles.

Jesus, eu consigo até mesmo cheirar o perfume dela nessa cabine pequena — eu acho que nos deram a pior que tinham... mas ainda é bastante impressionante para mim.

Alice terminou a história e começou a rir. Ele riu com ela, incapaz de se impedir. A risada dela não era aguda; não era penetrante; era tão melodiosa quanto um riacho contorcendo-se para dentro e para fora de uma clareira na floresta.

Uau, veja só isso, isso foi quase poesia, Enzo pensou. Ele devia contar-lhe que tinha escrito um poema de verdade sobre ela em casa? Nem, ele apostava que uma dúzia de outros caras tinha dito isso a ela.

— Tudo bem — disse Alice e Enzo voltou a olhá-la. Naquela íris que espelhava doçura. Ela pôs as mãos gentilmente sobre a mesa coberta de um pano que parecia lã. — Agora, vamos falar sobre... você...

— Bem — ele disse. — Acho que já te contei tudo, Alice.

— Não contou, não — disse Alice — me explique como Kab era. O que você sentia quando estava com ela, essas coisas... Quero saber mais sobre o cara que eu estou... Digamos assim, particularmente namorando...

— Digamos assim, que por hora — ele fez uma breve pausa —, você já sabe o bastante.

Quando Alice saía com garotos da escola, de quem não gostava ela sempre dava uma de boba. Fazia ele se envergonhar como se ela fosse uma louca. Mas quando saía com garotos que estava realmente afim, ela fazia de tudo para saber sobre a pessoa. Com Marcus foi assim. Quando saiu com Marcus a primeira vez, ele disse uma piada sem graça, mas que Alice não tivera escutado. Quando ela perguntou, ele não quis responder. Alice revirou os olhos, como se isso a tivesse chateada. Marcus repetiu a piada.

Ela estava fazendo esse mesmo jogo com Enzo. O jogo de: “Ou me fala ou faço esse jantar se tornar o pior de sua vida.” Enzo se remexeu na cadeira e depois de um tempo disse:

— Está bem. — ele bocejou e continuou — O que eu não lhe contei, foi uma das partes que mais me machuca. Dói lembrar. Vem-me uma angústia. Uma dor horrível.

— É sobre quem...? — depois de ver o rosto de Enzo, Alice acrescentou: — Ou o que?

— Steven e Kab — ele sussurrou com o rosto dilatado. Estava quase chorando. — Eles estavam sempre juntos. Quando eu caí, Steven tentou me ajudar. Ele queria que eu voltasse para o céu. Mas quando viu Kab, se apaixonou também. E agora, éramos dois caras, apaixonados pela mesma garota.

“ Os moradores a chamavam de “Casa dos Heartbeach” mesmo passando anos que os Heartbeach moraram lá. Era uma casa enorme com paredes descascadas e amareladas, com janelas amarronzadas antigas feitas de uma madeira do século XIV. A casa ficou caindo aos pedaços no Vilarejo de Witn até que Kab — uma menina de longos cabelos loiros ondulados nas pontas — foi morar com uma de suas criadas na casa.”

“Todos os moradores ficaram encantados com a beleza de Kab. Ela tinha os olhos lindos que brilhavam e os dentes fortes exibiam um lindo sorriso. Ela era perfeita e assim como todos os moradores ela atraiu a beleza de alguém mais: Steven Fanning. Kab e Steven se falavam todos os dias, eles tinham uma conexão sobrenatural. Mas tinha algo que separava Kab de Steven e ele sabia exatamente o que era: seu irmão celestial. Eu. E Kab sabia muito bem, que eu e Steven estávamos apaixonados por ela. Sabia o que sentíamos e que era algo difícil de controlar.”

“Mas com Kab era diferente, eu conseguia sentir. Ela tinha algo a mais. Algo inexplicável e de um jeito estranho eles estavam ligados. E ele decidiu que iria contar a ela o seu segredo mais obscuro. Algo que poderia fazê-lo perdê-la para sempre. Mas ele tinha de se arriscar.”

“No dia 15 de novembro, estava tendo a festa da cidade — O vilarejo de Witn estava completando seiscentos e sessenta e seis anos de fundação. O prefeito Christopper estava no palco. Ele era velho e tinha um rosto coberto de grandes e profundas rugas com olhos quase fechados. O palco era feito de madeira, e tinha um alto-falante sobre uma mesinha de escrivaninha. O prefeito se encaminhou até ela e saudou a população que se encontrava em baixo do palco com um aceno de mão.”

“Boa noite senhoras e senhores”, ele disse. Mesmo estando em sua terceira idade, ele tinha uma voz fina e aguda que mal era ouvida se ele não forçasse. “Hoje é um dia lindo, de comemoração, hoje... Witn completa seiscentos e sessenta e seis anos de bondade, pureza, crescimento, fortalecimento, comunhão, amizade e...” O prefeito parou, como se visse algo por trás dos holofotes, mas ninguém se atreveu a olhar, exceto eu... Era ela.”

“Tão linda. Tão chamativa. Tão... irresistível... Estava em cima da sacada da prefeitura, vestida num grande vestido vermelho que descia até o chão e fazia uma volta que estava sendo puxada e colocada entre o braço de Kab. Ela desceu as escadas, vagarosamente, uma a uma, dançando enquanto andava em passos leves e fáceis como se o chão não fosse o limite. Era hoje. Ele teria de contar.”

“Você está... maravilhosa”, eu tinha dito. Meus olhos brilhavam em admiração. Kab devolveu o elogio com um sorriso timidamente branco e com as pálpebras dos dedos tocou levemente o meu rosto. Senti minhas asas se mexerem em minhas costas.

“Você não está bem...?”, ela perguntou, as sobrancelhas arqueadas como se pudesse me ver por inteiro. Como se pudesse ler minha mente, como se soubesse o motivo pelo qual eu tivera vindo hoje à comemoração de Witn.

“Podemos... Falar em outro lugar?”, eu perguntei. Estava tremendo. Eu não iria deixar que Steven contasse primeiro. Eu estava com ódio. Ganancioso. Não queria perdê-la. “Venha comigo, a minha casa. E te contarei o motivo de estar deixando-a tão preocupada. E saímos da festa...”

Enzo fez uma longa pausa, e ele não iria mais falar nada.

— Você foi com ela para...?

— Minha casa — ele disse.

— E lá... você... bem...?

— Contei o meu segredo.

Alice engoliu em seco.

— E ela? Digo, o que achou?

— Kab quase enfartou. Ela não acreditava, então mostrei minhas asas.

— E ela?

— Desmaiou. Pensei que tinha morrido. Algumas horas depois ela acordou e pensou ter desmaiado e tive que contar tudo novamente. Achava que tudo tinha sido apenas um sonho.

Era o que Alice desejava.

Ela não queria fazer parte desse mundo sobrenatural. Ela queria ser apenas Alice, com um namorado normal do ensino médio, que não tinha asas, ou que podia estar lendo sua mente agora. Ela arregalou os olhos. E mudou seu pensamento.

O garçom tinha trago para a mesa uma porção de fritas, com um Diet Coke, mesmo sem Alice ou Enzo ter feito o pedido. Quando ele viu a reação nos rostos dos garotos disse, sorridente:

— É por conta da casa. Presente de um amigo.

Alice ficou admirada.

Enzo olhava preocupado para o garçom.

— De quem? — ele perguntou secamente.

O garçom olhava para baixo, como se estivesse tentando lembrar.

Parecia um processo lento, ele olhava o chão, abaixo de seus pés. Suas mãos sobre a mesa tremiam. Ele tinha colocado a porção de fritas ao lado de Alice e a bebida (Diet Coke) ao lado de Enzo. Alguns segundos depois — que mais pareceram à eternidade, ele ergueu a cabeça sorridente.

— Olha que cabeça a minha — disse ele sorrindo, dando uma leve tapa na testa —, ele deixou uma carta.

O garçom tirou do bolso do uniforme um papel branco enrugado. Estava amassado e quando desembrulhou e entregou a Enzo, ele reconheceu a letra, assim que começou a ler.

Alice puxou de sua mão.

Espero que goste dessa porção de fritas, é de muito bom agrado, coma e beba a vontade, hoje o seu jantar é por minha conta. Sou o mais velho. Espero que não se importe.


Com amor, S.F

Alice releu o bilhete várias vezes.

Depois, ainda sem entender, olhou para Enzo, esperava que ele desse milhares de explicações. Queria ouvir muitas coisas. Mas a única coisa que saiu de sua boca foi:

— Quem é S.F?

Enzo estava ofegante. Ele não sabia o que falar. Ou como falar... Ele estava recostado na cadeira, olhando drasticamente para Alice. Ele parecia estar pronto para contar algo ruim. E estava. Ele se aproximou mais dela e sussurrou:

— Steven Fanning.

Alice sentiu um frio congelar sua espinha. Ela não o conhecia, e tinha medo do que aconteceria quando ela o conhecesse. Até onde Enzo tivera contado, ele vagava pela terra, matando quem cruzasse seu caminho. Ele gostava de garotas e as pegava para seu prazer.

Alice não gostava dele. Não gostava pelo menos da parte que conhecia dele. A parte predadora. A parte que domina quem quer, quando quer e como quer. Alice não gostava de pessoas assim. A última pessoa que tentou fazer isso com Alice, ela saiu na tapa.

Alice odiava se sentir humilhada. Ela não queria conhecer Steven, não queria saber mais sobre ele. Um homem que rouba a namorada do irmão celestial, não é um homem de verdade. É um covarde. Homem de verdade não entra numa briga usando argumentos alheios, ele tem os seus próprios. Steven não parecia ter isso.

Steven parecia o tipo de homem — ou anjo — que não se preocupa com as pessoas a sua volta. Que não ligava com quem ele sacrificaria em algo perigoso. Ele não sentia remorso pelo sangue derramado. Era um homem frio e cauteloso. E que amava a namorada do irmão — ou ex–irmão.

Enzo parecia agora nervoso. Ele olhava de um lado para o outro no restaurante. Procurando algo... Ou alguém... Alice tinha dúvidas de quem poderia ser. Depois de um momento, houve um arrastar de cadeiras e Enzo estava de pé, olhando fixamente para Alice.

Alice não sabia o que fazer.

— Vai ficar aqui?

Alice não sabia o que responder.

— Não sei — ela disse depois de pensar bastante —, quem sabe se você quiser me abandonar aqui...

Ele a interrompeu com um sorriso amargurado.

— Vamos — ele disse.

Alice se levantou da cadeira, ela deu obrigado ao garçom e depois de um tempo viu Enzo dar duzentos reais de gorjeta ao garçom. Ele ficou feliz o resto da noite. Caminhando de mãos dadas com Alice para fora do restaurante, ele foi até um lado escuro da rua, tirou a camiseta e Alice viu asas brancas douradas saírem de suas costas.

Não era como num filme. Onde as asas eram guardadas entre as roupas, elas eram enormes. Mas só eram grandes quando se soltavam de dentro do corpo dele. Eram mágicas. Tinham um tamanho que diminuía com a aproximação de seu lugar de descanso.

— Se segura — ele disse.

Alice estava tentando entender tudo. Porque ele iria sair do restaurante depois de uma carta de Steven sem nem ao menos levar seu carro? Ele iria simplesmente abandonar ali? No estacionamento de um supermercado? Alice não conseguia acreditar. E ela tinha que perguntar, por mais que não fosse gostar da resposta.

— Enzo... — ela sussurrou —, Você vai deixar seu carro no super...

— Sua sobrevivência e segurança são mais importantes que um latão dourado idiota — ele resmungou.

Alice apenas assentiu, engolindo em seco.

Ela se segurou nos ombros fortes dele. Eram tão macios. Tão gelados e tão mortais ao mesmo tempo. Ele era como o fruto proibido. Era uma tentação, um desejo de morte. Ele era como uma heroína, uma droga, feita para que Alice pudesse apreciar.

Houve uma resplandecente luz dourada seguido de um barulho farfalhante e Enzo e Alice não estavam mais no restaurante, estavam na mansão dele. No quarto dele. Quase deitados na cama. Alice sorriu quando sentiu seus pés no carpete.

Quando ela fez um leve assento e acomodou-se na cama, virou para Enzo e disse:

— Agora, poderia me explicar o que houve?

Ele estava inquieto.

— Steven. Ele estava lá. Mas ele não poderia estar lá. Ele estava tão longe. De Magic Fells e de todos. Mas agora ele voltou.

— E isso é ruim?

— Péssimo — Alice sentiu seu corpo se arrepiar com as palavras — Ele não veio aqui sem um propósito, e ele sempre consegue o que quer. Mesmo que demore, esse é o lado ruim do Steven. Ele consegue esperar o tempo que for. E eu nem ao menos tentei impedir. Não iria arriscar sua vida.

— Mas como... Arriscar a minha vida?

Enzo fez uma pausa.

— Se Steven veio para Magic Fells, ele tinha um propósito. Mas quando ele nos viu, tudo mudou. Eu pude sentir. A energia negativa, Alice. Ele te viu, sentiu o seu cheiro. Ele quer pegá-la. Ele quer beber seu sangue, Alice.

Alice sentiu sua carne se arrepiar.

— Mas... o que eu fiz?

— Não sabemos ainda, mas eu pude sentir Alice, senti o cheiro dele depois de receber o recado. Ele não vai parar por nada, agora. E você está vulnerável, até que...

— Até que...?

Enzo baixou a cabeça, suspirando.

— Até que eu o mate.

A carne de Alice se arrepiou.

Ele permaneceu imóvel, parado em uma posição levemente desconfortável. Ele começava a olhar em volta, enquanto a cabeça de Alice girava de um modo assustador.

— Alice? — ele perguntou, estava ansioso agora.

— Eu... acho que agora preciso me deitar Enzo — disse tremendo a voz. Tinha um colchão no chão, mas Alice não deitou.

— Oh, desculpe — ele se levantou da cama, mas Alice também não foi para ela.

— Eu acho que preciso de uma boa noite de sono.

Ele sorriu baixinho, querendo esquecer tudo que tivera acontecido. Ele agora se aproximou dela, calmo. Seus braços de mármore se enroscaram na cintura dela. Era tão mágico. Tão lindo. Então ele girou o rosto de Alice para ele, forçando-a a olhá-lo nos olhos. Ele a segurou por um tempo e depois a deixou repousar na cama primaveril.

— Como se sente?

Alice não sabia o que estava sentindo de verdade. Medo... Ansiedade... Mas, ansiedade do que? Ela se perguntou. Talvez de que o massacre comece logo. Ela pensou. Mas não.

— Bem — ela mentiu.

— Se agache e fique calma — ele disse.

Alice tentou fazer isso, e se acalmou. Ela respirava devagar, tentando juntar tudo de uma vez. Enzo ser um anjo, a Tábua dos Anjos ser roubada e vir parar em Magic Fells e Steven louco por seu sangue. Louco para matá-la. Alguns segundos se passaram e Alice sentiu seu corpo voltar ao normal. Ela ergueu a cabeça. Uma música estava tocando. Uma música que lhe trazia muitas lembranças.

Estava tocando “You and Me” do Life House. Alice tivera ouvido essa música no carro de seus pais, um dia antes do acidente que os matou. Ele pareceu ter lido a mente de Alice, pois disse depois de um momento:

— Acho que não foi uma boa ideia.

— Não — Alice sorriu —, eu gosto dessa música. — depois de um momento acrescentou: — Enzo, você consegue ler minha mente?

— Sim — ele disse, ainda sorrindo —, consigo ouvir os pensamentos de alguém a distância. Mas nem todos os anjos são assim.

— Apenas os querubins — disse Alice e Enzo assentiu.

— Isso — confirmou depois de um tempo, pensativo.

As mãos geladas dele tocaram os olhos de Alice, fazendo-a com que não enxergasse. Depois de um momento, ele tirou ainda sorrindo, mas Alice continuou com os olhos fechados.

— Abra os olhos, Alice — ele disse, sussurrando.

Quando Alice abriu os olhos, tudo estava mágico. As velas brancas estavam espalhadas por todo o quarto, tinha velas em cima das estantes do século XV. Alice ficou boquiaberta. E lá estava ele, de frente ao seu rosto. Sua beleza fascinou Alice, e ela não viu mais nada. Era demais. Era algo com o qual ela não iria conseguir se acostumar.

— Eu estava pensando quando estava voando com você — ele disse.

— Em não me jogar lá de cima — Alice disse.

— Bobona — ele gargalhou, e era tão bom ouvir a risada mágica dele. Não era ultrapassada, era calma e poderia ser uma simples melodia. Alice tocou as mãos dele e ele parou de sorrir.

Seus olhos verdes estavam olhando para Alice, e o brilho deles à luz de velas era incríveis.

— Continue — ela disse.

— Eu estava pensando em fazer algo que nunca tinha feito antes — ele disse —, não com você. — acrescentou. — Sabe Alice, eu já consegui a ira de um ex-irmão, fiz a revolta entre os anjos no céu, destruí o líder do inferno, a lenda como chamam seus seguidores, escondi a Tábua dos Anjos, e sabe... — ele fez uma pausa — Eu estou disposto a ir mais além... — e acrescentou: — Por você.

Alice não conseguia respirar.

Ele sorriu, não do jeito mágico, de um jeito humano.

Não do jeito que um homem sorri quando pega uma simples garota na rua, e a beija e sai falando para geral como pegou. Não. Ele sorria como um cavalheiro, feliz por estar fazendo tudo direito. Ele ainda hesitou, pensando se era o momento certo. Se ele poderia fazer isso e um pouco mais.

Depois de um momento ele sorriu e prosseguiu.

Seus lábios gelados tocaram os de Alice.

E foi como colocar fogo no gelo. Os dois sentiram uma queimação, um choque térmico. As luzes se acenderam e piscaram ao redor. Um trovão rasgou o céu e parecia tiros. O coração de Alice estava pulando na garganta. Ela conseguira irritar os Céus, e agora, todos no mundo sobrenatural estariam atrás dela. Não somente Steven, mas um exército de anjos e demônios, pronta para matá-la. Ela assinou sua sentença de morte.

E não ligava.

Poderia ser sua última noite, e Alice sabia o que fazer.

Então, os olhos se cruzaram mais uma vez, e o rosto dela foi se aproximando vagarosamente do dele, até que numa dose de doce paixão os lábios se encontraram, foi como se o corpo de Alice não a pertencesse mais, não resistia aquele encontro de desejos. A força do desejo era maior que eles, o céu parecia ter caído sobre eles. Ele balançou a cabeça, mas seus lábios estavam tão pertos do dela, e seu olhar era apaixonante. Seu corpo se agitou, e quando ela se aproximou novamente, inclinando-se para ele, ele não resistiu. Alice pôs a mão em seu rosto e Enzo piscou, sem se mover. Ela continuou devagar, com medo de afugentá-lo. E então quando estava perto o bastante novamente para se beijarem, seus lábios se tocaram e se apertaram um contra o outro. O toque de seus lábios, suave e leve como uma pena era a única coisa que os segurava, que os conectava, e um fogo se espalhou por Alice, e ela percebeu que precisava mais... de Enzo. E ela sabia o que teria de fazer, e para onde tinham que ir...

Enzo apertou o braço forte na cintura de Alice.

Ele olhou-a nos olhos, fixou-se naquelas íris que espelhavam a paixão de Alice, há muito ansiosa por este encontro. Pegou nela, com um gesto ao mesmo tempo firme e suave, e Alice sentiu o seu coração bater mais forte. Ele, com suavidade, aproximou o rosto do pescoço de Alice. Beijou, como se o tempo fosse uma maré no crepúsculo, aquela pele líquida e Alice, cada vez mais abandonada, ofegava a cada novo beijo. Com movimentos que só pôde ter aprendido naqueles anos em que se retirou do mundo e foi viver junto aos tios nas Bahamas, Enzo começou a desabotoar a alva camisa de Alice, deixando ver, aos poucos, o sutiã e a pele daquele peito que lhe era oferecido. Alice era já toda fogo, escaldando de antecipação.

Enzo, esse, passou devagar a mão direita pelas costas de Alice e, num gesto rápido que a surpreendeu, e que ele deve ter aprendido quando esteve refugiado na casa de um prestidigitador nos seus anos de exílio no Nagorno-Karabakh, desapertou-lhe o sutiã, colocando-o sobre a camisa que já jazia no chão. Beijou os seios de Alice, primeiro o esquerdo, num claro reflexo das suas preferências políticas, depois o direito. Ela sentia-se explodir. Como se fosse um dançarino de tango, que aliás aprendeu nos meses em que esteve perdido no La Bombonera após assistir a um Boca Juniors X River Plate que deu molho, Enzo tomou Alice nos braços e deitou-a na cama.

Tirou-lhe os sapatos.

Alice já só aguardava o momento de consumação daquele amor que ardia como o magma prestes a ser expelido de um vulcão. Enzo, contudo, não tinha pressas, mostrando que nada aprendera durante aqueles anos em que estivera infiltrado num grupo de investidores de risco de Wall Street. Começou a tirar, devagar, a sua gravata, de seguida a camisa. Enquanto cada botão dançava naqueles dedos que já tanto mataram e tanto amaram, Alice só pensava "despacha-te lá com isso e salta-me já para cima".

Enzo, contudo, permanecia impassível. Descalçou os sapatos, pé contra pé, desapertou as calças, deixando que a gravidade as atraísse para o chão e tirou os slips, revelando a Alice um sexo majestoso, efeitos talvez do fato de Enzo ter sido criado dos 5 aos 17 anos com a tribo africana que o adaptara depois de os seus pais o terem abandonado no Pingo Doce da Damaia. Enzo baixou-se e tirou as calças de Alice. Com pequenos ósculos, foi caminhando desde o pé esquerdo de Alice até ao ventre. Retirou-lhe as cuecas úmidas e osculou também aquela superfície rosada que tanto o aguardava. Alice gemia, convulsava, espasmava, espumava. Enzo voltou a beijar os seios e posicionou-se por cima de Alice, que aguardava, quase em desespero, por aquele momento. Começou a sentir o garboso falo de Enzo junto das suas coxas e a aproximar-se mais e mais e mais e mais... Alice não pensava que uma tal sensação seria possível. Quando o membro de Enzo, por fim, se resolveu a invadir o seu, Alice julgou-se no paraíso, aquele lugar onde tudo é bom, tudo é belo e o José Sócrates está suspenso no ar e a ser chibatado. Os vai-vens de Enzo, sempre lentos, intensificavam mais ainda o momento. Alice gritava, sorria, chorava, suplicava. Enzo, em silêncio, aumentava agora o ritmo.

Alice sentia-o, no mais fundo de si. Estava quase. Ela sabia-o, ele também. Apertaram-se mutuamente, num abraço que parecia conter em si todo o mundo, todo o universo, e explodiram os dois em simultâneo, ali, naquela mesma cama que acabara de suportar um ato de comunhão entre amantes como nunca antes se vira, nem mesmo nos livros da Barbara Cartland. Ela sentiu a mão dele tocar sua parte íntima com as mãos frias e ela se arrepiou. Ela o amava e sentia que ele também a amava mesmo não dizendo. Agora ela sentia o membro dele entrar em si e gemeu alto. Sentia algo quente a percorrer por inteira, estava lhe enchendo completamente.

Os braços de Enzo se apertaram contra o corpo de Alice, suas mãos agarraram com uma forte selvageria o cabelo longo e negro de Alice puxando-o para trás, fazendo-a arder em delírio. Parecia que ele conhecia seus desejos mais ocultos, como se soubesse o que ela queria realmente naquele momento. Alice não queria um amor fraco, não, ela queria algo real, algo que ela sentisse de verdade e ele estava dando isso. Estava fazendo-a gemer de verdade, sentir de verdade. As mãos dele deslizam suavemente sobre os seios dela, amassando-os. Era uma loucura. Sua primeira vez, e estava comemorando a sua irritação aos céus. Mas ela não se preocupava, estava com ele, descansando em seus ombros fortes. Ela repousou e dormiu.