Condenados ao Inferno e a Tábua dos Anjos
7 7. O Baile Dos Recém-Chegados
Assim que saiu do grande prédio azul que era o Joaquim, ouviu Tinker gritar lá dentro. Como se estivesse querendo pegar a garota, depois ouviu os passos de meninas correndo atrás do que parecia Tinker.
O que ela irá sentir quando não me achar na escola?, Perguntou-se Alice. O que eu vou sentir em não poder bater nela novamente quando ela não me achar?
O que aconteceu em seguida foi rápido demais. Tão rápido que Alice não conseguiu pensar. Não fora como nos filmes, em câmera lenta, foi com bastante adrenalina. E real. Primeiro ela ouviu o barulho de um carro freando em cima dela. Depois os faróis em cima de seu corpo. Logo em seguida ela viu Enzo. O rosto assustado de Enzo; e a mão dele estava segurando o carro. Alice não conseguiu processar muito rápido.
Estava deitada no chão, com a mão no rosto, enquanto Enzo tinha segurado o carro que ia atropelá-la. Mas espera aí, desde quando ele estava ali? Ela não se lembra de tê-lo visto ali. Não se lembra de nada. Tudo que via era um clarão branco em sua mente. Ela estava enlouquecendo. O carro não era exatamente um carro — era um caminhão com uma grande bagagem. Ela agora conseguia processar. Tivera tentado atravessar a rua, mas não tinha visto o caminhão. Agora ela entendia tudo. Alice estava deitada no chão, mas seus olhos encaravam os de Enzo.
Ele a ergueu, suas mãos frias ao redor de sua cintura.
— Você está bem? — ele perguntou.
Alice assentiu, engolindo em seco.
A porta do caminhão se abriu e um homem gordo, com um macacão azul desceu, ele estava tremendo. Estava preocupado. Ele estava tremendo muito. Suas pernas bambas.
— Me desculpe... Eu não queria fazer isso, eu perdi o controle.
Enzo se aproximou dele, olhou fixamente em seus olhos e sussurrou:
— Está tudo bem, agora saía e finja que nada disso aconteceu.
Os olhos do homem ficaram vazios. Ele caminhou como um zumbi até o caminhão e ligou o carro. O motor rugiu como uma pantera e alguns segundos depois o caminhão começou a andar para distante deles.
— O que houve aqui? — Alice perguntou depois de um tempo.
— Nada — ele lhe respondeu.
— Nada? — ela perguntou abismada. — Eu quase morri e não aconteceu nada?
Enzo bufou.
— Viu como você sabe o que aconteceu?
Alice revirou os olhos. Tudo ficou realmente silencioso até que Alice começasse a ficar intranquila. Ela estava trêmula. Tremendo por quase ter morrido e não ter vindo ao baile.
— Você está bem, Alice? — ele perguntou.
— Sim. — sua voz soou estranha. Meio embarcada. — Eu estou bem — ela disse e se sentou no meio fio. Enzo fez o mesmo. Alice começou a rodar a cabeça tentando relaxar.
— Tenha cuidado — ele disse quando ela fez isso —, acho que você bateu a cabeça no chão. E não foi levemente.
Então Alice sentiu uma pontada de dor em sua cabeça.
— Au — ela disse, gemendo. — Agora está doendo.
Ele deu uma risada.
— Ah, e agora você está rindo de mim.
— Não. — ele disse, mas a sua risada se prolongou —, não. Não. Eu apenas achei engraçada a forma como você falou.
Alice segurou uma risada. No fundo ela também achava engraçado tudo aquilo. Menos a parte como Enzo aparecera ali. Ela ainda não sabia explicar tal coisa. Ela tinha que perguntar.
— Como... Como você conseguiu chegar aqui tão rápido? — ela fez uma pausa, tentando refletir. Como conseguiu chegar aqui tão rápido? Digo, como chegou aqui?
— Eu estava no portão principal, Alice — ele disse como se isso fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Você sorriu para mim de longe.
Alice olhou para ele.
— Não, não estava — e depois de um minuto, como se ainda estivesse processando ela falou: — E eu não sorri para você.
Os olhos dele estavam suplicantes.
— Por favor, Alice.
— Tudo bem — Alice disse, tentando fazer com que ele não desse nenhum discurso. — Tenho que ir agora, mas você vai me explicar tudo direitinho.
— Sim — prometeu ele —, agora, permita-me que eu te leve até sua casa?
— Tudo bem — disse Alice, enfurecida.
O carro dele estava estacionado a alguns metros de distância dali. Alice caminhou até o banco do carona e ele sentou-se ao seu lado. Pôs a chave na ignição e ligou o carro. O motor rugiu. Não tão forte como o do caminhão, mas foi parecido.
Alice apertou o cinto contra si.
Estava frio, já eram quase sete horas. O baile iria começar às oito e meia. E Alice não tinha um par. Ela não sabia o que fazer. Claro que sabia o que fazer, ela olhou para o garoto lindo e irresistível ao seu lado. Seus olhos brilhavam enquanto ele perguntou:
— O quê?
— Quer ir ao baile comigo?
Enzo pareceu indeciso.
— É...
— Se não quiser ir, tudo bem — Alice fez uma tristeza falsa resplandecer em seu rosto, enquanto Enzo a olhava, e olhava para a estrada.
— Não... — ele disse —, eu irei sim. — depois de um minuto ele acrescentou: — Senhorita Curie.
— Oh — Alice disse, com um sorriso. — Muito obrigado, senhor Fanning.
O carro parou a duas casas da de Alice. Enzo desligou o carro. Seus olhos verdes cintilantes se viraram para Alice.
— Que horas começa o baile? — ele perguntou, calmo.
— Oito e meia — ela disse. — Minha amigas Vanessa e Meredith virão com Marcus e seus acompanhantes. Se quiser passar aqui...?
— Não, eu te encontrarei na escola. Acho melhor não encarar o Marcus.
Alice soltou um riso.
— Por quê?
— Ah, porque ele é seu ex–namorado, ele ainda sente algo por você, e eu não vou me arriscar com um garoto do Ensino Médio capaz de fazer de tudo por seu amor por uma garota.
Alice deu uma gargalhada.
— Ainda acho meio idiota — ela disse. — Mas se prefere assim, tudo bem. Não irei discutir. Nos veremos lá. E obrigado por ter aceitado de última hora.
Alice desapertou o cinto de segurança em volta de si, e se levantou. Ela não sabia o que fazer. Se agradecia a Enzo por ele ter lhe dado uma carona até sua casa. Não sabia se dizia somente um: “Obrigado”, ela se levantou do banco e estendeu metade do corpo até próximo dele.
— Obrigado — disse e lhe plantou um beijo no rosto. Sentiu o rosto gelado dele. Era prazeroso. Mas não no frio.
— De nada — sussurrou ele em seu ouvido e lhe devolveu outro beijo no rosto. Alice abriu a porta do camaro e saiu, depois, com um gesto repentino fechou a porta do camaro e começou a caminhar pela calçada de mármore, e Enzo falou pela janela: — Até às oito e meia, senhorita Curie.
°°°
— Fique parada — disse tia Judith a Alice enquanto amarrava uma fita vermelha em seu cabelo. O seu vestido azul estava iluminando todo o quarto. Ela não tivera dito a sua tia nada sobre o acidente. Afinal, ela estava viva não estava? E achava que não era necessário.
Alice estava parecendo uma das princesas dos contos de fadas. Estava tão linda e exuberante. Tia Judith estava com um sorriso de orgulho nos lábios, ela estava atrás de Alice e caminhou até ela e sussurrou em seu ouvido:
— Você está igualzinha a sua mãe.
Alice encheu os olhos de lágrimas.
— É perfeito ― ela disse calorosamente. ― Nós não precisamos mudar nada.
A garota no espelho podia ter saído de um dos livros de história sobre a Renascença Italiana. Sua garganta e ombros estavam nus, e o espartilho apertado do vestido azul mostrava sua cintura fina. As mangas longas e cheias foram cortadas para que camisola de seda branca abaixo ficasse transparente, e a saia longa e vasta varresse o chão ao seu redor.
Era um lindo vestido, e o pálido e nítido azul parecia acentuar o azul mais escuro dos olhos de Alice. Enquanto ela se virava, o olhar de Alice caiu no relógio de pêndulo antiquado acima da cômoda.
— Ah, não... São quase sete. Marcus e a galera vão chegar a qualquer minuto.
— Aquele é o velho Ford de Marcus, — disse tia Judith, espiando pela janela. — Eu vou descer e deixá-lo entrar.
— Não tem problema, — disse Alice brevemente. — Eu encontrarei com ele eu mesma.
— Tchau, divirtam-se fazendo gostosura-ou-travessura! Ela se apressou pelas escadas.
Aqui vai, ela pensou. Enquanto alcançava a maçaneta, ela se lembrou daquele dia, há quatro dois meses agora, quando ela dançou em Paris, e a emoção foi enorme. Ela tinha tido essa mesma sensação de expectativa, de animação e tensão.
Eu só espero que isso funcione melhor do que aquele plano, ela pensou. Durante aquela última semana e meia, ela tinha cultivado suas esperanças para esse momento, para essa noite. Se ela e Enzo não se juntassem essa noite, eles nunca iriam. A porta se abriu, e ela saiu olhando para baixo, sentindo-se quase tímida, medo de ver o rosto de Marcus.
Mas quando ela abriu a porta — sentiu seu coração gelar. Ele a estava encarando com espanto, sim. Mas não era Marcus, era Enzo. Isso era algo mais próximo de choque.
— Nós não nos encontraríamos no baile? ― ela sussurrou, horrorizada com a ardência em seus olhos.
Ele se recuperou ligeiramente, como sempre, piscando e balançando sua cabeça.
— Não, não, eu mudei de ideia.
Estava tão lindo, de terno preto e com um sapato levemente engraxado.
— Você não gostou, — ela sussurrou, horrorizada com o modo como ele a olhava.
Ele abriu um sorriso.
— Não, não, é lindo. Você é linda.
Então por que você está parado aí parecendo como se tivesse visto um fantasma?, Ela pensou. Por que você não me segura, me beija — ou algo assim?
— Você está maravilhoso — ela disse silenciosamente. E era verdade; ele estava polido e lindo no smoking e capa que ele tinha feito para seu papel. Ela ficou surpresa quando ele concordou com isso, mas quando ela sugeriu ele pareceu mais divertido do que qualquer outra coisa.
Nesse momento, ele parecia elegante e confortável, como se tais roupas fossem tão naturais quanto seus jeans normais.
— É melhor irmos, — ele disse igualmente silencioso e sério. Alice concordou e foi com ele o carro, mas seu coração não estava mais meramente frio; estava gelado. Ele estava mais distante dela do que nunca, e ela não fazia ideia de como conquistá-lo de volta.
Tia Judith assobiou baixinho. Ela amava carros. Mas também amava segurança.
— Usem cinto de segurança. — ela se engasgou.
Enzo seguiu para o lado onde Alice iria entrar e abriu a porta para ela. E só agora ela pôde perceber que ele usava um anel de prata, com uma pedra vermelha e uma estrela de metal em cima que iluminava todo o seu dedo. Ela tomou uma pequena distância do banco e se preparou para pular nele. Ele suspirou e a levantou com uma mão. Alice pediu para que sua tia não tivera visto isso.
Enquanto ele ia para o lado do motorista com um passo levemente normal, Alice tentou colocar o cinto de segurança, jogando a mochila no chão do carro. Mas havia muitos engates.
— O que é tudo isso? — ela perguntou quando ele abriu a porta.
— É um passeio que daremos fora de estrada.
— Uh-oh.
Alice estava contente porque a chuva estava muito forte o suficiente para que ela não conseguisse ver tia Judith na varanda. O que significava que a tia não poderia ver o modo com Enzo não tocava Alice, como parecia ter nojo dela, ou algo assim.
Enzo girou a chave na ignição e o motor ligou. Eles estavam se afastando da alta casa vitoriana dos Curie.
— Esse é um camaro bem... Bonito.
— É herança de família. Achei que seria ruim irmos a pé.
— E desde quando você, digo, sua família o tem...?
— Desde que papai comprou uma loja de automóveis na França e deu o para mim.
— Você não vai colocar o cinto de segurança?
Ele olhou para ela sorrindo, logo em seguida, seu braço laçou o cinto em volta de seu corpo. E que corpo, Alice pensou, mordendo os lábios.
— Você tem um cheiro mais agradável quando o tempo está chuvoso — ele explicou.
— Isso é bom, ou ruim? — ela perguntou cuidadosamente, com medo da resposta.
— Dos dois, sempre dos dois.
Alice nem fazia ideia de como ele conseguiu encontrar o caminho com a névoa e a forte chuva que estava no caminho. Mas de alguma forma ele encontrou e o que importava era que eles estavam na escola Joaquim Moreira Bernardes. E agora, uma turma de garotos fantasiados estava de pé, em frente ao portão de metal. Alice se alegrou assim que saíram do carro, algumas gotas de chuva caíram neles enquanto entravam no Caixote. Ele estava iluminado, cheio de holofotes coloridos no teto, não parecia o mesmo Joaquim Moreira Bernardes, estava mai alegre, mais colorido. O ginásio era um caos mal organizado. Há algumas horas desde que Alice tinha saído tudo tinha mudado. Então, o lugar estivera cheia de veteranos: Membros do Conselho Estudantil, jogadores de futebol americano, o Clube Chave, todos arrumando os últimos detalhes nas colunas e no cenário. Agora estava cheio de estranhos, a maioria nem mesmo humana.
Alice estava horrorizada. Tinham armado para ela, ninguém aqui estava como nos Bailes dos Recém-Chegados de antigamente. Estavam vestidos como nos Dia das Bruxas. Dia das Bruxas. As palavras vagaram em sua mente, Tinker queria fazer um fora de hora.
Diversos zumbis viraram-se quando Alice chegou seus crânios zombeteiros visíveis através da carne apodrecendo em seus rostos. Um corcunda grotescamente deformado mancava em direção a ela, junto com um cadáver com pele branca lívida e olhos ocos.
De outra direção vinha um lobisomem, seu focinho resmungão coberto de sangue, e uma bruxa sombria e dramática. Alice percebeu, com um choque, que não conseguia reconhecer metade dessas pessoas com suas fantasias.
Então eles estavam ao seu redor, admirando seu vestido azul, anunciando problemas que já tinham se edificado. Alice acenou para que se silenciassem e se virou na direção da bruxa, cujo longo cabelo escuro inundava as costas de um vestido preto muito apertado.
Perto dela estava Meredith, uma menina ruiva, fantasiada de uma espécie de Drácula feminino, mas que estava chorando e que já tinha borrado toda a sua maquiagem de tanto chorar.
— O que foi, Meredith? ― ela disse.
— O professor Rape está doente — Meredith respondeu carrancudamente —, então alguém colocou o Vigo de substituto.
— O Sr. Vigo? ― Alice estava horrorizada.
— Sim, e ele já está criando problema. A Tinker já aguentou o suficiente. É melhor você ir até lá.
Alice suspirou e concordou, então foi em direção à rota descoordenada da turnê da Casa Maldita. Enquanto passava pela pavorosa Câmara de Demônios e a medonha Sala Sacrifical, ela pensou que eles haviam construído quase bem demais. Esse lugar era enervante mesmo na claridade. A Sala das Bruxas queimadas era perto da saída. Lá, um Stonehenge de papelão havia sido construído. Mas a pequena e linda sacerdotisa bruxa julgada a fogueira que estava de pé ao redor de colunas de pedras era bem realista e estava usando uma túnica branca e uma grinalda de folhas de carvalhos e parecia prestes a explodir em lágrimas.
— O que está havendo aqui? — perguntou Alice com uma leveza forçada.
— Alice, Graças a Deus — gritou Tinker com um tom sarcástico, como se a briga de tarde não tivera existido —, agora, poderia dizer ao Sr. Vigo que ele tem que vestir essa roupa? — ela disse apontando para uma pilha de pano amarronzado no chão.
— Sr. Vigo por favor...? — pediu Alice, mas foi interrompida rapidamente.
— Eu não vou usar nada disso — ele gritou, balançando a cabeça de um lado para outro, com um bico levemente exposto na boca. — Tsk-Tsk! Não, não, não. Isso é coisa de adolescentes banais. Sem alma. Sem espírito. Coisa de doente. Idiotas.
Alice estava irritada. Pelo simples motivo de ter que resolver problemas de Tinker. E por estar na mesma sala que Tinker estava. Uma fúria subiu por Alice agora. Ela não tinha mais controle na sua voz. Sua boca se abriu e ela começou a lançar as palavras como se fossem facas:
— O senhor vai vestir essas roupas agora ou eu conto para sua esposa o que o senhor anda fazendo nas horas vagas com a professora de matemática.
Todos ficaram boquiabertos.
— Ou o senhor põe agora mesmo essas roupas eu ligo para a Sra. Halb e ela irá precisar saber de algumas horas extras que o senhor anda fazendo na sala de informática, no período de duas horas. Na sala de inglês, no jardim, no Campus. Na quadra de futebol, e até na sala da diretora quando ela sai para o almoço.
— Mas... Mas...
— E então treinador Vigo? Como vai ser? Hummnn?
— Eu vou colocar a roupa — disse ele zangadamente e foi para o banheiro.
Tinker bufou enquanto se aproximava de Alice.
— Uhhh, obrigada — ela disse e suas mãos tocaram os ombros de Alice —, eu não teria conseguido sem você.
Alice a empurrou para trás, com uma frieza que ela nunca tivera tido antes. Não queria fingir que a briga não tivera acontecido.
— Da próxima vez resolve sozinha.
— Nossa — ela disse —, apenas precisava de ajuda. Não se preocupe, que quando você estiver queimando, com as retinas ardendo, e se arrebentando em pedaçinhos eu vou estar perto só para dar gargalhadas de você.
Alice olhou para ela novamente.
— Como é que é? — ela perguntou.
— Isso que você ouviu. Eu quero ver você queimando, quero ver como a deusa de cabelos negros sairá dessa. Quero estar ao seu lado para sentir o cheiro da sua carne queimando. Eu quero ver você morrer, Alice Curie.
Alice se aproximou mais perto dela, os lábios torcidos de fúria e acertou uma tapa no rosto de Tinker. A tapa foi forte, Tinker virou-se por puro esforço. Ela quase caíra no chão se não tivesse segurando-se em um dos pilares da sala. A menina voltou-se contra Alice com uma fúria inumana. As mãos se agarraram ao cabelo de Alice e as unhas arranharam sua face. Tinker estava mostrando uma força nunca vista antes. Estava lutando como um monstro.
Atirou Alice contra uma mesa de madeira, e Alice caiu derrubando no chão tudo que continha em cima da mesa. Mas Alice não desistiu. Pelo contrário, se levantou como se não tivesse sofrido nada e suas mãos tocaram a boca de Tinker, abrindo-a e apertando-lhe até que sangrasse. A menina gritou, mas o seu grito foi abafado pela música. Depois Alice segurou firme nos longos cabelos de Tinker puxando e arrancando alguns fios. E antes que pudesse fazer qualquer movimento o treinador Vigo apareceu e as separou, colocando Alice para fora da sala.
Alice saiu com um sorriso no rosto. Não tivera lavado sua alma em relação à Tinker. Mas estava feliz por ter dado um mínimo do que ela merecia. Alice desceu as escadas sorridentes, estava indo em direção a grande multidão de pessoas dançando. Estava tocando I’m Down do The Beatles e todos estavam dançando e cantando bem alto, usando fantasias absurdas. Alice foi para o meio do círculo de pessoas. Estava feliz. E queria comemorar.
Alice começou a rodopiar no salão. Dançava como uma garotinha que nunca tivera ouvido uma música na vida. Estava animada. Os holofotes vermelhos iluminavam todo o Caixote e os estudantes estavam erguendo uma garota e a lançando no ar por pura diversão. Seu vestido azul estava lindo, era de um azul profundamente cristalino, e ao redor de sua cintura ela usava uma corrente fina com pedras vermelhas brilhantes. As mesmas pedras tinham em seu cabelo negro. Quando ela rodopiou, a seda brilhou como as ondas do mar. Bem no final do Caixote, dois portões de ferro se abriram para dentro. Uma figura apareceu entre elas. Andou na direção dela, e ela viu que era um garoto vestindo roupas incríveis. E viu também que era o seu garoto.
— Enzo! — ela disse e caminhou em direção a ele. Sentindo o peso de seu vestido sobre seus pés, e sendo empurrada pela aglomerada multidão que dançavam e rodopiavam umas coladas às outras. Mas antes de chegar perto dele, ela parou. Ele estava inalando rapidamente. Estava assustado. Ela se preocupou.
Agora, ele estava indo na direção dela, confiante, casual, irresistível. Ele agora abriu um sorriso. Um sorriso amargurado. Alcançando-a, ele colocou uma mão em cima de seu coração e saudou-a. Então ele esticou a mão para ela, como se estivesse desafiando-a a tocar.
Mas ele não precisava desafiar, ela refletiu, ela tocaria nele... Para Sempre...
Nesse momento a música parou, junto com todos os estudantes que estavam dançando. E o Dee Jays colocou uma música mais lenta. Agora estava tocando Wheveever You Will Go do The Calling, e todos os estudantes deram as mãos e se abraçaram para dançar no ritmo.
Enzo sorriu. E Alice retribuiu o sorriso.
— Você gosta de dançar? — ele perguntou, soprando as palavras em seu ouvido quando a música aumentou.
Alice se afastou um pouco para que pudesse olhá-lo nos olhos.
— Se eu não gostasse acha mesmo que estaria aqui?
Ela deu uma risadinha.
— Wow! — ele disse em ritmo de diversão. — E dessa música?
— Gosto — ela falou, calma. — Mas prefiro você.
Ela moveu-se para o centro da multidão.
Ele a seguiu, gracioso como uma besta caçando. Os dedos dele estavam quentes e duros quando seguraram os dela.
Havia música, apesar de ela esvair-se e soar muito distante. Enzo colocou sua outra mão na cintura dela. Ela podia sentir o calor de seus dedos lá, a pressão. Ela pegou sua saia, e eles começaram a dançar.
Era adorável, como voar. E seu corpo sabia todos os movimentos a fazer. Eles dançavam continuamente ao redor da sala vazia, num momento perfeito, juntos.
Ele estava rindo para ela, seus olhos escuros brilhando com alegria. Ela se sentiu tão bonita; tão envenenada e alerta e pronta para tudo. Ela não conseguia se lembrar de quando se divertira tanto.
Gradualmente, contudo, seu sorriso dissipou, e a dança deles ficou lenta. Por fim ela ficou sem se mover no círculo dos braços dele. Os olhos escuros dele não estavam mais divertidos, mas ferozes e esquentados. Ela olhou para ele sobriamente, sem medo. E então pela primeira vez ela sentiu como se estivesse sonhando; era como estar em um lugar só seu. Que só eles sentissem, sem que ninguém pudesse atrapalhar.
Os dedos dela estavam descansando no cabelo dele, prendendo a cabeça dele a dela. Preguiçosamente, ela moveu-os pelos suaves fios de cabelo claro. O cabelo dele era como seda, quente e vivo debaixo dos dedos dela. Quando ela abriu seus olhos um pouquinho, ela viu que ele refletia arco-íris na luz de vela. Vermelho e azul e roxo, bem como uma ave.
A música parou.
Vanessa puxou Alice para longe de Enzo. Ela estava usando uma fantasia de feiticeira. Típico, pensava Alice enquanto caminhava com Vanessa puxando-a.
— O que houve? — perguntou ela.
Vanessa cochichou:
— Tem um pequeno probleminha acontecendo aqui...
— Qual? — perguntou Alice.
— Mantenha a calma — disse Vanessa —, uma pessoa foi assassinada.
Alice quase caiu para trás.
— Como assim? Quem?
— Não foi confirmado quem morreu ainda. Tinker não nos revelou.
— Porque ela sabia que você iria me contar.
— Exatamente, Alice — Tinker tinha surgido da escuridão e embarcado nas luzes dos holofotes. Nesse momento a música que estava tocando era “Feel so close” do Calvin Harris. E as luzes estavam piscando fortemente. Alice mal podia ver o rosto de Tinker, mas pôde perceber seu sorriso.
— Quem morreu Tinker?
— Não interessa Alice — disse Tinker —, quando todos descobrirem você também irá descobrir.
Vanessa bufou.
— É isso mesmo, chega de dar prioridade à Princesinha de cabelo negro. Eu não vou mais dar um passo para você Alice. Quer saber quem morreu? Quando todos os alunos do baixo escalão souberem, você saberá também.
Alice abriu um sorriso.
— Tudo bem, Tinker. — ela disse, sorridente — Quer saber, acho que nem vou querer saber. Irei me ocultar de tudo que sair de sua boca.
Tinker torceu os lábios.
— Faz isso, Alice — ela disse — me evite.
— É o que vou fazer.
Alice começou a caminhar para distante de Tinker, ainda sorrindo. A menina estava nervosa, Alice conseguia sentir. Tinker começou a se aproximar de Alice, xingando.
— A única que vai morrer aqui será você, maldita.
Nesse momento, do seu casaco, Tinker puxou uma faca, não era muito grande, e não parecia ser afiada. Mas era capaz de matar alguém. Inclusive Alice. Ela não estava com medo.
Uma multidão de alunos se aproximou e estavam tentando retirar a faca da mão de Tinker. Alice já estava cansada. Ela se irritou e correu para cima de Tinker mais uma vez. Deu um chute em seu estômago e pulou para cima dela. Suas mãos apertaram-se contra o cabelo loiro de Tinker. A menina gritou quando a mão de Alice saiu para longe com vários fios grudados.
Todos agora estavam felizes. Estavam empurrando Tinker para o círculo em que as mãos de Alice poderiam acertá-la. Eram tapas e mais tapas. Tyler e seu amigo Dick chegaram e tentaram tirar Tinker do que Meredith estava chamando de Roda-de-surra, e levá-la para longe. Mas estava difícil.
— Isso é para nunca mais me ameaçar com uma faca — disse Alice e acertou mais uma tapa na cara de Tinker. A garota jorrou sangue da boca.
Depois de alguns segundos, Alice saiu e foi em direção ao circulo do Caixote, onde deixara Enzo. E ficou procurando por ele. Mas Enzo não estava em lugar algum.
De longe, Alice viu um dos garotos do jogo de futebol e andou em direção a eles. Marcus estava no círculo de alunos. Alice se sentiu aliviada. E feliz. Caminhou em direção a ele e tocou sem ombro.
— Marcus — ela disse, depois de um minuto. — Você viu o Enzo?
— Não. — ele disse sorrindo, e Alice sentiu seu hálito com cheiro de álcool.
— Você bebeu?
Ele fez um gesto que significava que sim, mas que tivera bebido pouco.
— O que você bebeu Marcus?
— Vodca.
— Ai, meu Deus.
— O Enzo saiu tem pouco tempo. E depois que ele saiu, algumas ambulâncias passaram em direção à mansão.
Alice sentiu seu corpo se desfalecer. Era disso que Tinker se referia à morte? A Enzo? Será que ele tivera morrido? E era por isso que Tinker estava tão feliz? Alice não iria aguentar. Não iria deixar que o machucassem; que ferissem Enzo Fanning. Nunca.
Alice não sabia o que tinha acontecido, mas iria ajudar Enzo.
Ela correu, para fora da festa, em direção à mansão. Na chuva.
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