Estava sentada em uma exuberante erva muito cuidada que se estendia até onde sua vista alcançava em todas as direções. O céu era de um azul muito impecável, o ar era cálido e perfumado.

Os pássaros cantavam.

— Fico feliz por ter vindo — disse uma voz, fina e elegante. Alice virou-se e lá estava ele. Não como tivera visto no começo da semana passada. Não tinha asas negras espalhadas no ar. Nem uma maldade mortal. Estava elegante tanto quanto a sua voz. Estava de terno — e com os acessórios completamente pretos. O cabelo longo e negro estava penteado e úmido para trás.

Alice fechou a cara.

— Tive escolhas? — ela perguntou, sem medo. — Você entra em meus sonhos e faz o que quer comigo e com eles.

Ela agora via um sorriso se formar em sua boca cruel.

— Mais suco?

Alice olhou para sua mão e viu que tinha um copo de vidro, no interior dele tinha um líquido amarelado. Ao olhar para o copo, Alice olhou também para seu corpo, estava vestindo um vestido do século XVII de musselina branca transparente que estava grudada ao seu corpo, mostrando claramente sua magreza.

Alice não conseguiu responder, o copo se encheu novamente de suco sem ela nem ao menos dizer que sim.

Ele sorriu novamente e caminhou em sua direção, valsando.

— Quer sangue?

— O que?

— Digo, quer sanduíches acompanhando seu suco?

— Sim — ela conseguiu responder sem que antes um pequeno pão recheado com salsichas aparecesse em sua mão, propositalmente.

O sanduíche era de pepino, e tinha pequenas fatias de tomate rodeadas por carne. O pão era sem casca, do jeito que ela gostava. Toda a cena era tão brilhante e linda. Perfeitamente ampliada.

Ele se aproximou dela com um sorriso cruel. Tudo estava de certa forma lindo demais... Bem feito demais. Alice caminhou até perto dele. Suas roupas pretas e básicas estavam justas ao corpo.

— O que você quer comigo... Aqui?

Alice não se preocupava em estar falando com algo que não existia. Ela sabia que estava em um de seus pesadelos com um Príncipe-Negro...

— Oh, pesadelo não. — Ele disse, parecendo estar lendo os pensamentos de Alice. — Pesadelo não. Pesadelo é ruim. Que tal dizer que é um sonho? Um dos melhores da sua vida?

Alice impulsionou os braços em irritação.

— Não!

Ele riu.

— Não me olhe assim, com esses olhinhos críticos. Sabe que não dou a mínima.

— Eu sei — ela disse —, o que eu não sei na verdade é o que você quer?

— Não é óbvio?

— Você vive das minhas energias?

Ele deu uma gargalhada.

— Porque só assim para você estar nos meus sonhos.

Ele se aproximou dela, suas mãos grandes e macias tocaram seu rosto.

— Será que eu estou apenas em seus sonhos?

Alice deu um passo para trás.

— Eu acho que sim. — disse ela com firmeza.

Ele revirou os olhos.

— Se não está apenas em meus sonhos, me diga onde você vive?

O Príncipe-Negro, como Alice preferia chamá-lo, caminhou para mais perto dela. Contando os passos, calmo, silencioso. Seus lábios aberto em um sorriso sarcástico. Suas roupas negras cobriram Alice quando ele ficou bem perto dela.

Depois, soprou as palavras em seu ouvido:

— Eu estava no cemitério. No bosque. Na escola. Eu estava em todos os lugares em que te aconteceram coisas estranhas

Alice arregalou os olhos. Olhou para ele, que ainda estava sorrindo. Depois gritou.

Quando deu por si, estava gritando em cima da cama.

Tivera sido só um pesadelo, Alice pensou. Mas era verdade. Sua testa ainda suava fria. Ela estava se tremendo. Aquele pesadelo tivera sido muito real. Caminhou ainda tonta pelo quarto e abriu as janelas. O sol quente iluminou todo o quarto. Estava fazendo vinte graus Celsius e ainda eram cinco e meia da manhã.

Onde eu estou?, Perguntou-se Alice. Ela não tinha certeza. Estou em um universo paralelo onde à luz do sol está iluminando o estado de Lawrence como se fosse duas horas da tarde? Ela pensou rindo.

°°°

Quando chegou a escola Alice procurou por Enzo, mas não o encontrou. Ela achava que ele ainda iria chegar. Realmente achava. Caminhou até um dos acentos de cimento vazios.

Tinker estava se aproximando, com um leve sorriso nos lábios.

— Alice — ela disse abrindo os braços como se estivesse pedindo um abraço.

— Oi — Alice disse, enquanto laçava os braços lentamente nas costas de Tinker.

Tinker apertou seu braço, como se fosse contar um segredo enorme.

— É hoje, é hoje, é hoje — ficou repetindo sem parar, com uma felicidade enorme estampada no rosto. Depois começou a pular e a gritar.

— É o hoje o quê? — perguntou Alice.

Tinker parou, como se tivesse tomado uma pedrada na cabeça.

— Você se esqueceu?

— Esqueci-me de...?

— O Baile dos Recém-Chegados? Esqueceu que você é do Grêmio Estudantil e tem como dever nos ajudar a organizar?

Oh, Deus, Alice tivera esquecido completamente. Esqueceu que tivera falado com a diretora na última semana de aulas no ano passado. Esqueceu que tinha que comprar os enfeites. Esqueceu-se de tudo. Ela estava frustrada.

Frustrada por Tinker se lembrar de coisas confidenciais e ela não.

Alice se afastou um pouco.

— Que horas vamos começar a organizar tudo?

— Provavelmente — disse Tinker olhando uma mensagem no celular — umas cinco e meia.

Alice relaxou, ela teria tempo para organizar tudo.

— Eu estarei aqui cinco horas — ela prometeu.

Tinker assentiu e sumiu no aglomerado de alunos dentro do Caixote.

Alice não sabia o que fazer. Não tinha ideia do que comprar. De como enfeitar. Mas o socorro veio logo em seguida. Pelo portão da escola, entrara Marcus e suas melhores amigas. Vanessa e Meredith.

Alice correu até eles.

Vanessa e Meredith não estavam muito felizes.

— O que houve? — perguntou Alice, sem entender.

— Tinker mal fez o Baile dos Recém-Chegados e já planejou o Dia das Bruxas fora de época.

Alice não entendeu.

— Como assim?

— Assim, Alice — explicou Meredith calmamente: —, Ela quer fazer o Dia-das-Bruxas-Fora-de-Época na semana que vem.

— Mas o Dia das Bruxas é só em outubro — disse Alice.

— Por isso a parte do Fora de Época, idiota — explodiu Meredith.

— Nossa... calma. — disse Alice.

Vanessa abafou um riso.

— Enfim — intrometeu-se Meredith. — Nos vemos mais tarde.

E embarcou no Caixote, levando consigo Vanessa e Marcus. Alice ficou para trás e começou a andar em direção ao portão principal. Todos os alunos estavam entrando e a calçada estava vazia. Nenhum aluno estava de frente, olhando, ainda se decidindo se entraria ou não. E depois de alguns segundos a inspetora Shelby fechou o portão com um barulho ensurdecedor.

Ela começou a caminhar vagarosamente para dentro do Caixote.

E de repente, uma voz chegou a seu ouvido.

— O que houve? — era Enzo. O coração de Alice disparou. Ele veio.

— Nada — ela sussurrou.

O olhar dele agora ficou avaliativo.

— Quê? — ela perguntou.

— Nada — ele disse, sua voz calma.

Alice passou a mão no rosto, achando que tinha algo.

Ele deu uma risada forçada.

— Não acredita em mim? — Enzo perguntou.

— Deveria?

— Não sei — ele disse —, o que você acha? Deve ou não?

Alice agora estava com raiva. Com raiva do seu jeito de falar. Calmo, sem alterar o tom de voz nem um pouco. Nem elevá-lo, sem fazer nada. Raiva do jeito com ele andava. Do jeito como sorria. Ironia. Felicidade. Ele mudava seu temperamento rápido demais.

Os ombros se tocaram.

— Alice... — sua voz era tão doce. Tão irresistível... —, Por que você é assim? Digo, desse jeito.

— De que jeito? — Alice perguntou.

— Você é diferente das outras garotas da cidade — ele disse. — Você parece ser mais forte. Como se soubesse a realidade da vida. Não aquela garota que acha que tudo é fácil, não. Você é diferente, e eu gosto disso. Porque a realidade da vida é que quando tudo parece dar certo, vai dar errado.

Alice fez uma careta para ele, tentando segurar o impulso de mostrar a língua, como sua irmã Julie fazia quando ela dava as costas.

— Estou errado? — ele perguntou depois de ver sua reação.

Alice não quis responder.

— Eu acho que não.

— Mas porque isso é tão importante? Eu aprendi com a vida. Realmente aprendi. Aprendi que mesmo você sendo uma boa pessoa, gentil, amorosa, boa, e sadia, você morre. E morre da forma mais insignificante possível.

— De quem você está falando? — ele perguntou.

— Dos meus pais.

— Eles morreram de...? — depois de ver a cara de Alice, ele acrescentou: — Se não quiser falar, pode permanecer em silêncio. Eu entenderei.

— Não — Alice disse — está tudo bem.

Os dois cruzaram o portão do Caixote, e caminhou para um dos acentos de cimento aos lados do Caixote. Todos estavam olhando-os. Vanessa e Meredith estavam surpresas, olhando de longe e Marcus nem queria ver.

— Há alguns meses eu perdi meus pais em um acidente de carro.

— E ainda não se conformou?

Alice estava perplexa. Ninguém conseguiria se conformar tão rápido. Ela os amava, e disso ninguém poderia ter dúvidas. Alice não conseguiria se conformar nunca. Como ele poderia estar perguntando algo tão... Tão idiota?

— Não. — Ela disse e depois continuou —, nunca vou me conformar. Eu os amava mais do que a todo mundo. Eu daria a minha vida por eles. E eu ainda queria tê-los aqui.

— Com quem você mora atualmente?

— Eu moro com a minha tia e minha irmã Julie.

— E você ficaria dessa forma se elas morressem?

— Sim — Alice disse automaticamente, mas seria verdade? Será que ela sentiria essa mesma dor? Pela irmã, sim, e por tia Judith? Ela não tinha certeza, talvez, quem sabe.

— Tem certeza? — ele disse como se tivesse lido a mente de Alice.

— Por que isso te importa?

— Foi uma boa pergunta — ele disse, Alice olhou os alunos do Caixote, todos estavam cochichando algo, alguns olhavam diretamente para eles, outros disfarçavam. Depois de algum tempo, Alice percebeu que ele não iria dizer mais além disse.

Alice bufou e olhou para o pátio.

— Estou te enchendo?

Alice não queria falar, mas olhou para ele e quando deu por si já tinha aberto a boca e as palavras saíram:

— Não exatamente... Mas acho que você deveria me responder assim como respondo às suas perguntas.

Agora foi Enzo quem bufou.

— Tá certo, o que quer saber?

— Você já perdeu alguém muito importante?

O sinal tocou.

— Eu... acho melhor irmos andando, antes que a inspetora Shelby comece a gritar conosco.

Alice sentou-se no fundo da sala, como sempre fazia, e Enzo sentou-se na sua frente. Ela olhou para o lado, onde uma turma de alunos os olhava e na segunda fileira tinha uma cadeira vazia.

Nesse instante o professor Rape entrou na sala. Estava vestindo um roupão branco com um emblema “P.R.O.F.E.S.S.O.R” nas costas. Estava apressado, ele soltou rapidamente a grande pilha de livros que carregava nas mãos em cima da mesinha de professores e num movimento inteiramente rápido ele começou a digitar no quadro negro “Seres sobrenaturais” sua mão estava tremendo. Seus olhos estavam alarmados e ele olhava para cada um dos alunos de uma maneira assustada.

— Bom dia— disse ele, com a voz tremendo. O giz quase caindo da mão. — Hoje vamos aprender sobre os anjos da Mitologia Grega.

Todos ficaram sem entender. Professor Rape tivera enlouquecido ou estava fazendo alguma pegadinha? Todos sabiam que não existiam anjos na mitologia grega.

— Tinker, poderia me dizer o nome do anjo da Mitologia Grega que fugiu da Grécia e morreu?

Tinker estremeceu.

— Anjo? Da Mitologia Grega? Desconheço.

Enzo levantou a mão e o professor Rape despertou, ele estendeu a mão e apontou o dedo para Enzo. Enzo se levantou, e olhou para o professor, sério, como da primeira vez.

— Acredito que você esteja se referindo ao mito de Dédalo e Ícaro. Apesar de não serem anjos, criaram asas — a historia é contada mais ou menos assim: Dédalo era filho de Himention, neto de Eumolpe e bisneto de Ereteu, rei de Atenas. Era um artista e inventor de talento incomparável, que espalhou muitas de suas obras em Atenas. Foi inventor do nível, da machadinha, substituiu as velas por remos e fazia magníficas estátuas. Certo dia, porém, temendo que seu sobrinho Ácale lhe sobrepujasse, atirou-o do alto da Acrópole, causando-lhe a morte. Como castigo pelo crime cometido, Dédalo recebeu a pena de morte pelo Aerópago. Para safar-se dessa punição, Dédalo fugiu de Atenas, indo refugiar-se em Creta, na corte do rei Minos. Sob as ordens de Minos, Dédalo realizou muitas obras, sendo a mais famosa delas o labirinto, construção erguida com a finalidade de prender o Minotauro. Tempos depois, Minos, enfurecido ao descobrir que Dédalo auxiliou sua esposa em uma aventura extraconjugal, encerrou-o no labirinto juntamente com seu filho Ícaro. Para fugir dessa prisão mortal, Dédalo projetou dois pares de asas artificiais produzidas com as penas dos pássaros que sobrevoavam o labirinto e coladas com a cera das abelhas que ali viviam. Dédalo, então, adaptou as asas nas suas costas e de seu filho e recomendou a este que não se aproximasse excessivamente do sol. Pai e filho abriram suas asas e, juntos, voaram para além daquela prisão. Ícaro, contudo, extasiado com a sensação de voar, esqueceu-se da recomendação do pai e voou em direção do sol. Pouco a pouco a cera de suas asas foi derretendo e o rapaz acabou precipitando-se no mar Egeu, onde morreu afogado. Dédalo continuou em seu vôo até que, por fim, alcançou a Sicília, onde reinava o rei Cócalo. Esse rei recebeu Dédalo e lhe concedeu asilo, mas temendo a ira de Minos, acabou por sufocá-lo em uma estufa.

Professor Rape concordou mesmo não querendo acreditar no que o aluno dissera.

— Sr. Fanning — disse ele — suponho que seus descendentes vieram da Itália...?

Enzo concordou com um aceno de cabeça.

— Pois bem — ele agora olhava para todos da sala —, essa semana passei a noite em claro... estudando — ele olhou para Enzo com os olhos dilatados. Meu Deus ele estava horrível. — No século III, quando Santa Helena foi a Nazaré. Teria mandado construir uma igreja no local onde se encontrava a casa da Sagrada Família de Nazaré. Além de descobrir a Vera Cruz, tivera também encontrado o lugar da Encarnação. A tradição conta também que foi nessa casa que Maria foi educada e cresceu na companhia dos seus pais, Santa Ana e São Joaquim. No século XIII, os lugares santos cristãos foram ameaçados pelos sarracenos e a igreja construída por Santa Helena foi arrasada. A mesma sorte estaria reservada à casa de Nazaré. Segundo a lenda, Deus fez miraculosamente transportar a Santa Casa para a Croácia, para as localidades de Trsat — (Tarsatica) — e Rijeka — (Fiume) —, para o Monte Rauniza, com a ajuda de anjos. Esta ideia surgiu no pontificado do Papa Nicolau IV. Na casa, foi encontrada uma estátua que representava Nossa Senhora coroada e tinha o Menino Jesus ao colo. Ainda segundo a tradição, a Santa Casa foi novamente transportada pelos anjos para Itália, onde foi encontrada por uma senhora chamada Lorette em 10 de dezembro de 1294. Foi daí que provém a história de Nossa Senhora de Loreto. As litanias loretanas foram compostas pelo cardeal Savelli em memória deste acontecimento. O lugar hoje é conhecido por alguns fieis por Casa dos Anjos, ou até mesmo, a Ascensão dos Anjos. Digamos assim — Ele olhou para Enzo enquanto o aluno se sentava novamente. —, antes de tudo ser fundado algumas pessoas afirmavam que anjos tiveram caído no terreno. Que a terra era abençoada. E que tudo que tivera sido feito ali, era a vontade de Deus e a vontade dos anjos.

“Mas a história não parou por aí” disse o professor Rape teatralmente “a população que acreditava na queda dos anjos achavam que eles tinham um propósito na terra, claro, teve os que foram expulsos do paraíso, como Lúcifer.” Depois de uma pausa ele continuou: “Mas teve outros que continuavam com a aura imune. Sem impureza. E esses deveriam ter caído por algum motivo. E algumas semanas depois, eles descobriram. Os anjos puros que caíram do céu estavam atrás de algo superior. Algo que nenhum humano conseguiria pegar: A Tábua dos Anjos. Era uma tábua capaz de fazer com que qualquer humano conseguisse falar com o outro lado. Mas parecia apenas mito até que uma humana conseguiu achar nas Colinas de Israel, em Golã. No começo disseram que era para o reforço militar, mas não. Nenhum humano as teria feito, foi um anjo, um anjo que foi morto por se negar a Lúcifer. Ele a escondeu lá. Mas essa garota que não tem o nome revelado na história achou e conversou com um anjo através da tábua. Ela se apaixonou e o anjo veio ao seu encontro. Ele deu seu coração, porém um anjo superior chamado Kadath que era o braço direito de Lúcifer e que se dizia ser fiel a Deus resolveu se vingar de sua expulsão do céu, matando assim, a garota pela qual um dos querubins tivera apaixonado. O anjo não pôde mais voltar para o céu depois que a história foi confirmada aos seus superiores, depois de alguns anos, a parte final da história foi revelada.”

“Depois de anos de conspiração, a Tábua dos Anjos foi encontrada. Mas não estava no território de Israel, estava no estado de Lawrence, Kansas. E o anjo que um dia perdera sua amada veio atrás da Tábua, pois destruindo-a, ele tem o perdão que o permita entrar no céu novamente, prometendo, não voltar a amar outra humana.” Disse o professor e logo após ficou em silêncio. Tudo estava tranquilo, ninguém falava nada. Apenas ouviam. Enzo baixou a cabeça como se tivesse doendo ouvir aquilo. Ninguém o olhava. Depois de um minuto o professor continuou: “Mas é claro que não existe só um dos anjos atrás da Tábua, o lado ruim dos anjos, ou seja, os Malignos, os Sangues Impuros estão atrás da Tábua, pois assim quaisquer humanos que eles queiram manter contato ficariam sabendo da existência dos sobrenaturais e ninguém viveria em paz. Haveria guerra. Racismo. Mortes. Destruição. E é claro que os Sangues Puros; o lado do bem não quer colocar os humanos no meio de uma Guerra Mística. Nós não suportaríamos. Com a morte de Kadath os Sangues Impuros querem vingança” Um aluno perguntou — quem são os Sangues Impuros e o professor respondeu: “Os Sangues Impuros são os seguidores de Lúcifer e fiéis a Kadath. Eles não acreditam em sua morte. Acham que foi inventado e esperam pelo retorno de seu mestre das trevas.”

Quando o sinal tocou, Enzo saiu correndo rapidamente como no dia em que ignorara Alice, e ela o observou dessa vez maravilhada.

Quando saiu da sala, Vanessa e Meredith a esperavam.

— Desde quando está saindo com Enzo Fanning?

Alice passou por elas.

— Não estou saindo com Enzo Fanning — um sorriso se formou nos lábios de Alice quando ela acrescentou: — Ainda. — as garotas riram. —, Ele apenas é meu colega de sala. E se vocês tivessem ficado ontem na sala teriam visto.

Vanessa e Meredith se entreolharam.

— Oh, me desculpe, mas a inspetora Shelby nos expulsou do banheiro e nos fez levar uma advertência.

— Como é?

— Isso — Vanessa disse tristemente e mostrou um papel com letras de computador escrito: “Advertência Escolar Permanente” quando Alice pareceu não entender o que isso significava, Vanessa disse: — Quer dizer que estamos suspensas mais temos que fazer nossas lições e assistir aula em um quartinho com o professor Rape e a professora Sophia.

— Duas horas cada um — disse Meredith sem ânimo.

Alice não queria falar, mas disse com um sorriso:

— Por que Vanessa não faz um de seus feitiços para escapar dessa Advertência?

Meredith deu uma gargalhada eufórica.

Vanessa pareceu gostar da ideia.

— É uma boa ideia — ela disse mostrando os dentes brancos.

— Vanessa era brincadeira — disse Alice.

— Eu sei — ela disse —, mas é uma boa ideia a que eu tive agora. Posso não conseguir com que essa advertência seja anulada, mas posso fazer com que um feitiço faça nossos deveres de casa.

Meredith pareceu feliz.

— Até você? — perguntou Alice.

— Ué, os exercícios não enormes, O.K?

Ela abriu um bloco de folhas de ofício, e tinham 50 folhas, todas escritas em letras bem pequenas no frente e no verso. Alice abriu a boca surpresa.

— Obrigado — disse Meredith.

— Agora gente — disse Alice olhando o celular —, tenho que ir, afinal, tenho que fazer meus deveres sem feitiços — disse dando uma risada para Vanessa —, até mais tarde.

Disse e viu as garotas ficando para trás enquanto saía do Caixote.

Quando era exatamente cinco e meia Alice estava no pátio da escola, sentada ao redor de várias garotas de mini-shorts. Todas com o cabelo amarrado por uma fita amarela. Alice estava segurando uma grande caixa de enfeites de papel. Eram coloridos e variados.

Ela estava sentada ao lado de Vanessa e Meredith. Ninguém estava na escola, a diretora tivera saído para arrumar algumas luzes, a vice-diretora tinha saído para receber verbas e as inspetoras não trabalhavam no período da quase-noite.

Alice se levantou e foi até o depósito da escola que ficava na quadra. Pegou uma grande fita de barbante e começou a laçar de um lado ao outro no Caixote. Vanessa e Meredith ajudavam enquanto Tinker desenhava alguns rascunhos num caderno de desenho.

— Certo; garotas — Disse Tinker depois de um momento —, vocês vão começar a passar a cola com glitter nos desenhos. Não quero só uma cor. Quero todas as 12 cores coladas em cada desenho. Depois de secas vocês entreguem à Alice e as outras meninas.

As garotas ao lado de Tinker concordaram com um aceno de cabeça e começou a passar a cola nos desenhos. Alguns eram de corações. Outros eram pequenas bandeiras. Alguns eram na forma de um disco de vinil.

Depois de alguns minutos Alice, Vanessa e Meredith tinham passado o barbante em todas as paredes do Caixote. E sentaram-se exaustas nos bancos de cimento.

— E então conseguiu fazer o tal feitiço para copiar os exercícios para vocês? — perguntou Alice depois um momento.

Meredith e Vanessa se entreolharam.

— Não. — disse Meredith de cara fechada.

— Não tivemos tempo, pois a bonequinha de cabelo loiro chegou aqui às uma e meia e nos mandou fazer serviços que não eram necessários. — estavam falando de Tinker.

— Que tipo de serviços? — perguntou Alice.

— Humm, deixe-me ver — disse Meredith. — Que tal, passar quase duas horas resolvendo equações? Ela acha que é diretora para nos passar exercícios?

— Não e diretora, mas é filha da diretora.

— Verdade — disse Meredith desapontada. — Tinha se esquecido dessa pequena parte.

Vanessa e Alice deram risadinhas.

— Mas enfim — disse Meredith —, temos que passar mais barbantes naquela parte do corredor — disse Meredith, não apontando, mas falando da parte do corredor que levava a escada circulatória.

Alice bufou, com preguiça.

— Verdade — disse e saiu arrastando consigo Vanessa e Meredith.

Quando estavam colocando os barbantes, as garotas que estavam sentadas ao redor de Tinker se aproximaram envergonhadamente e entregaram os enfeites cheios de lantejoulas as meninas. Depois, recuraram e voltaram a se sentar no pátio.

— O que essas garotas têm? — perguntou Alice depois que as meninas saíram do alcance de sua vista.

— Estão com medo...

— Medo de que?

— De Tinker. Foi Tinker quem disse à sua mãe, que elas estavam querendo participar da organização da festa.

— E era verdade? — perguntou Alice.

— Não — Disse Meredith — Tinker queria ferrar com elas, por terem ignorado-a na hora do lanche de hoje.

Alice sentiu sua carne se arrepiar.

— Por que ela está fazendo isso com as garotas?

— Para mostrar que do mesmo jeito de sua mãe, ela também têm voz nessa escola.

— Sobre o que estão conversando? — Tinker surgiu do nada.

— Sobre... — Vanessa pensou numa desculpa, porém, nada saiu.

— Sobre mim, não é? — ela disse. — Vão em frente, finjam que eu não existo e comecem a falar mal de mim por aí, como se eu não estivesse aqui para escutar.

— Para que? — perguntou Meredith — Para você nos ferrar igual ferrou aquelas garotas ali? Eu acho melhor não, obrigada.

Tinker se aproximou, com os olhos cheios de lágrimas.

— Vocês me odeiam não é mesmo? — ela disse.

— Tinker — disse Meredith, cansada —, acho melhor maneirar no seu teatrozinho bobo.

Tinker olhou cheio de ódio para Alice.

— A culpa é sua — ela disse.

Alice arregalou os olhos.

— Minha?

— É — ela gritou —, desde que elas começaram a andar com você que me tratam mal, como se eu fosse um lixo. Elas eram minhas amigas.

— Suas? — Vanessa riu. — Amiga de verdade não nos faz copiar milhares de exercícios enquanto fica se vangloriando na nossa frente, Tinker. Saiba diferenciar amigas de escravas.

Ela olhou para Alice.

— Está vendo? A culpa é sua.

— Tinker, já chega, não tenho culpa se eu não sou uma garota que pisa nas outras e que ainda humilha mostrando que pode mandar em qualquer uma; somente por sua mãe ser a diretora da escola.

— O que isso tem a ver?

— O que isso tem a ver? Realmente me pergunta? O que você fez com aquelas meninas ali — disse Alice apontando para as garotas deprimidas sentadas no pátio fazendo enfeites em corações de papéis —, não tem preço. Aquilo não é o que uma amiga faz com a outra.

— Em pensar que eu te defendia — disse Tinker.

— Nunca pedi sua proteção — disse Alice, olhando no fundo dos olhos de Tinker. Não estava com raiva, mas não aceitaria ser tratada daquela forma.

— Esfrega na cara, fala que eu sou uma idiota que me preocupo mais com as minhas amigas do que comigo mesma. Fala o tempo que eu perdi te defendendo.

— Incrível que não são palavras de defesas que as pessoas falam que você faz ao meu respeito — disse Alice, sem controle. — Estão mais para acusações falsas.

— Em quem você vai acreditar?

— Para ser sincera... Nelas.

O choro falso de Tinker parou abruptamente.

— Você está louca — as mãos delas estavam apertando os braços de Alice, e estavam doendo. — Como assim...? Acreditar nelas? Você é uma... uma manipuladora... Vadia!

TAAP!

Foi tão rápido que Alice mal pôde acreditar que fez. Sua mão descera com um ódio e acertou o rosto de Tinker. A menina tivera torcido o rosto com o peso da mão de Alice. E agora, onde Alice tivera batido estavam formando pequenas marcas vermelhas de dedos.

— Me desculpe...

— Sua vagabunda. Como você fez isso comigo? Você merece o que aconteceu com os seus pais. Você merece. Eu espero que eles estejam queimando no fogo do inferno agora...

TAAP!

Alice não aguentou, a mão soltou-se do aperto de Tinker e lhe acertou outra tapa. A garota caiu no chão. A tapa foi mais forte. Mais potente. Com a mesma fúria que caiu a garota se levantou — talvez um pouco mais rápida e tentou arranhar o rosto de Alice. Mas ela era mais ágil. Bloqueou o golpe e acertou um chute no estomago de Tinker. A garota gemeu de dor enquanto se espatifava na parede. Alice deu outra tapa — e mais outro do outro lado do rosto — agora Tinker caiu de braços abertos, indefesa no chão. Alice sentou em cima de seu estômago bloqueando qualquer movimento e enquanto as garotas deprimidas vinham felizes pulando e gritando: “briga! Briga!” Alice esbofeteava a garota.

Agora, Alice pôde sentir braços a puxando de cima de Tinker. Mas a sua sede de vingança não tivera passado, ela ainda queria bater em Tinker, limpar sua alma de tudo que a garota lhe disse injustamente hoje. Mas não deu. Meredith e Vanessa a levaram para longe de uma Tinker que estava cuspindo sangue pela boca. Enquanto saía Alice soltou um: “Nunca fale mal deles na minha frente.’’ E disse algumas palavras e gestos obscenos.

— Vem — disse Meredith rindo —, vou te levar ao banheiro.

E só então Alice percebeu que estava com as mãos rasgadas e sangrando.

Depois que deixaram Alice se lavando no banheiro, Vanessa e Meredith voltaram para os seus afazeres. Alice ligou uma das torneiras e sentiu a água fria arder nas feridas expostas em seus dedos. Não era prazeroso, mas era relaxante.

Relaxante mesmo foi bater em Tinker, pensou Alice com um sorriso nos lábios. A garota olhou para o grande espelho no banheiro feminino e viu que seu rosto também estava sangrando. Ela não sabia o porquê, afinal, Tinker não lhe acertou um soco sequer.

Depois de um minuto, decidiu que ia embora.