Condenados ao Inferno e a Tábua dos Anjos
4 4. Lembranças
Alice estava frustrada. Ela não sabia o que fazer. Mas não poderia chorar ali. Não agora. Como... Como ele fez aquilo? Ele a ignorara depois... Depois daquele choque térmico. Alice estava saindo da escola, pelo segundo dia consecutivo e, sozinha. Sem Vanessa, sem Meredith. Apenas ela. Mas no momento ela só queria desaparecer.
A Rua Ally estava vazia, ninguém aparecia nas janelas, ou nas calçadas. Alice começou a correr, e entrou na sua casa. Chamou por tia Judith na entrada, porém, ninguém apareceu. Ela olhou de relance pela janela e viu que não tinha carro na garagem.
Provavelmente, tia Judith tivera saído com Julie e tio Rob, Alice pensou. Julie nunca mais tivera saído, depois do acidente. Ela ficava chorando pelos cantos nos primeiros dias. Pedia o colo da mãe, as brincadeiras do pai. Tia Judith nunca disse a verdade. Ela sempre achou que essa parte da história, Alice era quem deveria contar.
Alice estava feliz por estar sozinha. Ela poderia fazer o que não conseguiu fazer na escola: chorar. Ela subiu para o seu quarto, no segundo andar da casa. Era um quarto bonito, branco, com uma janela de vidro enorme na parede que dava de frente a rua. Tinha cortinas brancas e a cama era enorme e ficava centralizada no meio do quarto.
Ela queria chorar.
Apertou os olhos, e tentou fazer com que a primeira lágrima saísse. Ela sabia que seria fácil depois que a primeira lágrima escorresse por seu rosto. As outras viriam logo em seguida. Mas nenhuma gota de água escorreu.
Alice estava frustrada.
Ela pensou em Enzo. No que ele tivera feito quando olhou para ela: o horror em seus olhos. Quando ele a ignorou. O sorriso cruel nos lábios de Tinker essa manhã. Pensou no Sr. Lyman atacando-a. E mesmo assim, as lágrimas não desciam.
Pensou em Marcus, chamando-a de manipuladora... Acusou de ela tê-lo feito de fantoche. Pensou no Baile dos Recém-Chegados, e que mandara Marcus convidar Enzo.
Seu coração quase saiu pela boca. As mãos tremeram. O coração palpitou e Alice gemeu. O que ela estava fazendo? Se entregando assim para um garoto? Será que era do fetiche dela ter uma atração incontrolável por um garoto que acabara de conhecer? Não, Alice não era assim.
Nem ela mesma estava se reconhecendo.
Alice ouviu batida na porta.
Quem seria?
Ela começou a caminhar pelo corredor, descendo as escadas e abrindo a porta principal da casa. De frente a ela tinha duas pessoas: uma garota com cabelos cacheados, pequenina, com um sorriso que mostrava todos os dentes, e a mão levemente acenando. A outra estava séria, mas os olhos estavam arregalados. Uma menina de cabelo castanho e uma pele branca como porcelana. Alice abriu um sorriso. Vanessa e Meredith.
— Não vai nos convidar para entrar? — perguntou Meredith, levemente irritada.
— Oh, sim — Alice riu — claro, entrem — disse enquanto abria a porta e as duas garotas entravam.
Vanessa parecia surpresa.
— Uau, quando vim aqui essa parede estava três tons mais claros e aquela parede estava ainda com tijolos à mostra.
— Quanto tempo faz que não vem aqui?
— Três meses.
O tempo que Alice tivera passado viajando pelo mundo.
Vanessa estava com uma cara triste.
— Está tudo bem? — ela perguntou a Alice.
— Por que não estaria?
— Nós vimos o que houve hoje na sala de vídeo Alice.
Alice bufou enquanto se sentava no carpete vermelho.
— Todo mundo viu — ela quase chorou —, até a Tinker viu.
O que estava acontecendo com ela? Alice nunca tivera ficado assim antes. Tudo bem, Enzo tinha aquela beleza, e era difícil, o que o tornava o centro das atenções. O tornava irresistível... Excitante...
Quando falou com ele hoje, Alice sentiu o seu corpo se desfalecer. Sentiu as mãos se quebrarem, sentiu seu mundo se desmoronar perante seus olhos. Quando ele ergueu a cabeça que a viu pela primeira vez, ele parecia ter tomado um choque. Mas eles tomaram um choque. Ou pelo menos, ela tomou. E quando ele se levantou Alice não sentiu borboletas em seu estômago — sentiu morcegos das trevas.
Alice ainda não sabia o motivo de estar a fim dele. Ele a enxotou, a ignorou na frente de alunos que a idolatravam. Que dariam suas almas em uma briga por ela. Ele a fez de palhaço, e o que ela estava fazendo? Se magoando, sem saber o que fazer.
Isso não é uma razão boa para estar apaixonada, Alice pensou. Nenhuma garota descente gostaria de ser tratada mal. Pelo menos não em público.
Mas também tinha aquela boca. Aquela boca esculpida que fez seus joelhos ficarem bambos com algo totalmente diferente do que nervosismo. E aquele cabelo claro como o sol — seus dedos coçavam para se entrelaçar naquela suavidez. Aquele corpo flexível e de músculos lisos, aquelas pernas longas... E aquela voz. Fora a voz dele que a fizera se decidir ontem, deixando-a absolutamente determinada a tê-lo. Sua voz era fria e desdenhosa quando estivera falando com a professora Sophia, mas estranhamente convincente para tudo aquilo. Ela se perguntou se poderia ficar clara e iluminada como o sol também, e como soaria dizendo seu nome, sussurrando seu nome...
— Alice!
Alice saiu do transe artificial. Não era ele pronunciando seu nome. Era Vanessa, ela estava sentada no carpete, de frente a ela.
— Você vai ficar bem — Vanessa disse, e suas palavras eram convincentes.
Alice passou a mão nos olhos, secando as lágrimas. Agora elas saíam. Quando estava só não saíra uma gota sequer.
— Você não entende...
— Claro que entendo — disse Vanessa, cortando-a — Já amei antes. Amar é como uma droga. No começo vem à sensação de euforia, de total entrega. Depois, no dia seguinte, você quer mais. Ainda não se viciou, mas gostou da sensação, e acha que pode mantê-la sob controle. Pensa na pessoa durante dois minutos e esquece por três horas. — Vanessa parou, mas continuou rapidamente. — Mas aos poucos, você se acostuma com aquela pessoa, e passa a depender completamente dela. Então tudo muda. Você pensa por três horas, e esquece por dois minutos. Se ela não está perto, você experimenta as mesmas sensações que os viciados têm quando não conseguem a droga. Neste momento, assim como os viciados roubam e se humilham para conseguir o que precisam, você está disposto a fazer qualquer coisa pelo amor.
Alice olhou para Vanessa.
— Só queria que Deus, ou meus tios, minha irmã, minhas amigas, ou qualquer outra pessoa, me dissesse o que está errado comigo. Só queria que essa dor passasse. E que desaparecesse.
Os olhos dela estavam cheios de lágrimas. Alice não queria que ninguém a visse chorar, ela levantou-se do carpete com as mãos cobrindo os olhos e começou a correr para fora da sala. Abriu a porta da casa num movimento rápido e começou a correr em direção à rua, indo para o bosque.
— Alice — gritou Vanessa.
— Droga — arfou Meredith —, para onde acha que ela está indo?
Vanessa parou por um momento, como se estivesse pensando onde Alice poderia ir indo pela direção do bosque.
Os lábios de Vanessa se abriram num sorriso como se ela soubesse exatamente para onde Alice tivera ido.
— E esse sorriso? — perguntou Meredith.
— Pense bem, aonde Alice iria se quisesse chorar sem ser incomodada?
Agora, ambas as garotas, sabiam onde Alice estava e iriam atrás dela.
O sol quente de verão estava iluminando o céu quando Enzo voltou à mansão. Ele estava tonto, depois do choque que tomara hoje na escola, sua cabeça parecia conter mil martelos batendo em cada lado. Ele bebera sangue no caminho para casa, mas nem mesmo aquele tipo de sangue era capaz de fazê-lo se curar perfeitamente. Afinal, ele sabia que era pecado fazer o que ele estava fazendo.
Enzo estava arfando de choque.
Ele agora sabia seu nome. Procurou na lista dos alunos de sua sala e viu seu nome. Era o primeiro nome da lista de chamada. O que houvera acontecido? Ele ainda não sabia explicar ao certo. Estava com a cabeça baixa em seu colo, quando sentiu os dedos quentes dela tocar sua pele. De uma forma inexplicável ele sabia que poderia confiar nela, mesmo sem querer. E por causa desse desejo ele liberou uma amostra de seu Poder.
Ela tivera tomado um choque.
A princípio Enzo não sabia o que fazer. Ficou com medo de que de certa forma ela captasse tudo que tivera acontecido e que ela descobrisse o seu segredo. Enzo estava suando de uma maneira inexplicável. Ele sabia que o motivo era o sangue que tivera bebido depois de tanto tempo sobrevivendo de Energia dos Querubins.
Agora a imagem de Alice quando ele começou a caminhar deixando-a falando sozinha veio em sua mente. A pele cremosa, os belos lábios, as roupas que a deixavam excitante... Os olhos dela eram de uma cor que ele nunca tivera visto antes: azuis como a água do mar. Seu cabelo negro, longo caído sobre os ombros.
Ela ficou magoada, e ele sabia disso. Ele não ligava. Mas a verdade era que ele não poderia. Ele queria, mas não poderia. Depois que viu a sua áurea... Era quase igual à de Kab. Tão pura. Tão branca e iluminada. Tão irresistível para alguém como ele.
Mas ele não poderia ficar com ela.
Ele se lembrava agora, de Kab e do que acontecera à ela quando ele resolveu se apaixonar por uma humana. As imagens vieram a sua mente quando ele se deitou sem camisa na cama.
— Você tem que ir agora, Kab — Enzo sussurrou, as palavras saindo doce e gentil de sua boca —, entenda que não posso lutar contra eles. São muitos. E são mais fortes...
— Eu lutarei com você.
— Não... Entenda: você nunca viu algo tão grande em sua vida. Eles não são como você acha que são, Kab. Eles são maus e perversos e matariam para proteger as suas identidades. Eu não quero correr esse risco.
— E não vai — suas mãos sempre tão quentes estavam gélidas quando ela tocou o rosto dele —, eu te amo, Enzo. E eu morreria por você.
Os olhos dele encheram de lágrimas.
— Você me ama — ela disse.
Seus olhos se arregalaram ainda mais, e sua boca estava aberta como se estivesse tomando fôlego. Ele parecia torturado, vulnerável. E disse:
— Sim. — murmurou. — Amo.
— Então me deixe ficar com você, eu quero enfrentá-los assim como você.
Enzo não queria tentar. Estava com medo.
Ele bufou.
— Está bem — disse e sua voz saiu com sofrimento. Ele não queria deixar ela no meio do fogo, porque, de certa forma Enzo sabia que quando as coisas piorassem o lado fraco sairia perdendo. E tanto ele, quanto Kab sabiam que eles eram o lado fraco.
Uma fina faísca dourada resplandeceu no céu. Kab se juntou mais nos braços de Enzo. Escondeu o rosto na camiseta dele. Ela agora estava com medo. Sabia que deveria tê-lo ouvido. Deveria ter fugido e deixasse com que ele enfrentasse tudo. Mas agora era tarde. Teria que sofrer as consequências de suas escolhas.
Uma carruagem de ouro estava descendo dos céus, com cavalos transparentes guiando-a. Os cavalos relinchavam enquanto eram açoitados por um homem com roupa de soldado. Na carruagem tinha em média seis homens e três mulheres. Todos bem vestidos. Os homens com roupas de gladiadores douradas e as mulheres parecendo princesas guerreiras. Todas tinham o cabelo negro e estava amarrado em um rabo-de-cavalo para trás.
Em suas costas, tinham espadas de fogo.
Eles vieram preparados, Enzo pensou. O fogo em seu peito ardia de forma sobrenatural. Ele estava completamente desarmado. Fora expulso sem trazer nada consigo.
A carruagem parou em cima de alguns ramos verdes presos na terra. As pessoas que estavam nela desceram vagarosamente. Vinham com resplendor e beleza, andando em uma rígida formação. Moviam-se juntos. Os homens segurando as espadas de fogo na frente, as mulheres preparadas para um ataque surpresa. Eles correram em uma perfeita sincronia até se aproximar dos amantes desarmados.
Tinha um homem que estava na frente de toda a formação. Ele tinha um cabelo negro longo e ondulado que chegava um pouco abaixo dos ombros. Tinha os olhos negros e vestia uma armadura de bronze. Kadath. Sua espada era maior do que as outras.
— Kadath — Enzo sussurrou em desânimo. O homem pareceu ouvir, pois abriu um sorriso majestoso.
— Ora, ora... Enzo Fanning — ele bateu palmas de leve —, te deram até um sobrenome — ele deu uma gargalhada falsa e trincou os dentes. — Mas que decepção. Você era um dos meus melhores soldados e olha o que te aconteceu.
Enzo moveu os lábios num sorriso infeliz.
Kadath olhou para Kab com uma grande repugnância. Alguns deles não aceitavam os humanos. Tinham repulsas. Nojo. E Enzo estava na lista dos Adoradores de Sangue. Kadath dava esse nome aos Querubins que se apaixonavam pelos humanos.
— E você coisinha medíocre? — ele perguntou.
Enzo pôs Kab para trás dele.
— Não ouse falar assim com ela — Enzo bracejou.
Kadath deu uma volta olhando para a formação atrás de si.
— Olhe, ele está protegendo-a — ele deu uma leve batida de mãos enquanto todos riam atrás dele. — Você me causa ânsia de vômito, garoto. Quem diria que você iria se apaixonar por uma garota qualquer.
— Eu a amo, Kadath.
Todos deram altas gargalhadas.
— Eu posso ver — ele gesticulou as mãos em total repulsa. — Mas esse ser aí está com a Tábua dos Anjos, e você sabe que precisamos dela. Não queremos que caía em mãos erradas.
— Eu entendo — sussurrou Enzo. Ele olhou para Kab.
A garota saiu de trás dele e caminhou até a formação. Ficou de frente a eles, enquanto todos olhavam com cara de nojo. Alguns cochichavam entre si. Kab ignorou tudo isso. Ela tirou do bolso da jaqueta um pedaço de madeira que estava dobrado. Estava dentro de um saco plástico. O material todo era azul e tinha um triângulo de madeira solto dentro do plástico. Kab entregou nas mãos de Kadath.
Ele arregalou os olhos, olhando fixamente para ela.
— Eu nunca quis a Tábua — ela disse de cabeça baixa —, não sabia nem para que servia, até que consegui falar com Enzo — ela olhou para o garoto sério atrás dela.
— Compreendo — disse Kadath educadamente.
O que aconteceu em seguida, foi tão rápido que Enzo não teve tempo de fazer nada. Kadath tivera erguido a mão para a formação atrás dele, como um sinal. Enzo percebeu tudo. Tentou correr e pegar Kab o mais rápido possível, mas dois dos homens da formação seguraram-no pelo braço, e ele ficou imóvel. Kab ficou com medo, sem saber o que fazer...
Kadath estava com um sorriso cruel, ele foi tirando a armadura, vagarosamente. Kab tentou correr, mas estava com medo do que aconteceria se ela se movesse. Ficou parada ouvindo os gritos e urros de Enzo atrás dela.
— Kadath — ele gritou —, você prometeu.
— Eu sei — disse Kadath, tirando sua armadura, e só então Enzo percebeu que ele estava usando um sobre-tudo por baixo. — Mas essa vai ser a forma de puni-lo por ter se rebelado.
“NÃAAAAAAAAAAAAAAAAAAAOOOOOOO!!!”
Foi só o que Kab ouviu. De repente o mundo ao seu redor ficou vazio. Kadath acabara de tirar o sobre-tudo negro que estava usando e Kab caiu no chão com o que viu. Ela abriu a boca e soltou um grito. Um grito ensurdecedor enquanto Kadath a segurava pelos ombros e a erguia do chão, forçando-a a ficar de pé. Houve um lampejo de luz dourada e ruído farfalhante e Kab desabou. Morta antes de seu corpo encostar-se ao chão.
Enzo pulou da cama com um grito. As lembranças estavam deixando-o louco. Ele iria pirar se pousasse a cabeça no travesseiro novamente e visse aqueles terríveis pesadelos invadir sua mente.
Ele se levantou; a testa suando fria. Enzo estava com náuseas. Ele estava mal. Começou a caminhar pelo quarto. Ainda pensando em Kab. Abriu a janela e esperou que o vento gelado invadisse o quarto como sempre fazia. Seus cabelos encharcados de suor começaram a secar quando a brisa de verão começou a bater contra seu rosto.
Enzo olhou para o céu. A fúria em seus olhos. Procurando por algum sinal deles. Mas infelizmente nenhum surgiu. Mas agora Enzo estava decidido. Iria deixar as coisas acontecerem. Ele queria vingança, de Kadath, de sua formação. De Lilith. Ele não iria se negar a paixão.
Exatamente, Enzo Fanning estava apaixonado novamente.
Por Alice.
E ele iria fazer de tudo para conquistá-la. Ele iria tê-la. Se ela o quisesse, ele seria dela. Enzo Fanning iria lutar até não ter forças para ter a sua liberdade depois de séculos de solidão. Ele se deitou e voltou a dormir.
Quando saiu correndo de casa, Alice não tinha ideia para onde iria. Não sabia que tinha pegado o caminho do bosque até ver algumas plantas rurais. Então, quando passou por uma pequena cerca e se viu distante da cidade ela decidiu. Iria ver os seus pais.
Não foi uma caminhada muito longa, ela passou pelo bosque, cruzando o riacho Downing, andando por um pequeno caminhozinho de areia. Ela cruzou a ponte de madeira da cidade, e subiu os Pilares, passando pela Antiga Igreja, então desceu para um grande portão de ferro.
O portão tinha um grande letreiro escrito: “Land of Rest”, Alice o empurrou e pisou numa grama bem verde. Nesse lado do cemitério tudo era bem cuidado. A grama tinha uma cor mais viva e estonteante. Alice começou a caminhar entre as lápides, um frio em sua barriga.
Sentou-se uma que estava escrito: “Curie”. E embaixo um letreiro que dizia: “Ao grande casal Curie, por seu amor, dignidade, honra, respeito, afeto e por saberem criar uma família feliz.” Essas tinham sido as palavras ditas pelo Padre Honório na missa de trigésimo dia em homenagem aos pais de Alice.
— Olá mamãe, olá papai — ela sussurrou, uma dor em seu peito. Ela se curvou para frente e pousou a mão na lápide soltando um ramo de flores. Tudo estava tão lindo. Tão limpo. Sua vontade era de deitar ali e nunca mais sair.
Há quatro meses, Alice estava em uma festa. Não exatamente uma festa. Era na casa de Tinker. Alice tinha saído para a Noite-do-Pijama-na-casa-da-Tinker e teve bebidas alcoólicas. Ela bebeu até cair. Estava tonta e não poderia voltar para casa no carro de sua tia, poderia sofrer algum acidente.
Tinker pediu para que ela ficasse e dormisse lá, mas Alice não aceitou. Afinal, só tivera aceitado ir à festa por pedido de Vanessa. Alice nunca gostara de Tinker. Nunca a suportou.
Ela ligou para seu pai e pediu para que ele fosse buscá-la. Alguns minutos depois, veio à notícia: Casal sofre acidente na Ponte de Madeira. Alice nunca se perdoou. Ela vinha ao cemitério regularmente depois do acidente. Ela sempre desabafava. Falava coisas que não falaria se eles ainda estivessem vivos. Julie estava no banco de trás na noite do acidente, e foi à única que escapou. Ela não se lembra de nada, nem dos pais. Mas sempre fica repetindo: “Homem gande e olhos vêmelhos”. Alice sentia falta deles.
Sua mãe com um sorriso que mostrava todos os dentes brancos. E seu pai que sorria de uma forma tão linda. Enrugava todo o seu rosto. Alice ainda lembrava-se deles como se os pais estivessem em casa agora mesmo. E ela tivera saído para ver um de seus amigos.
Na noite do acidente, tia Judith veio de sua casa em Lawrence com tio Rob e agora permanece até hoje na casa dos Curie. Ela não é uma Curie, tio Rob sim. Ela é noiva com tio Rob e Alice e Julie a consideram tia. Alice gosta de tia Judith. E a admira. Ela nunca sairia de sua casa, seu aconchego para cuidar de dois sobrinhos — de consideração — órfãos.
Algo se mexeu nas sombras do bosque.
Alice olhou assustada.
— Quem está aí? — ela perguntou ao nada.
O vento balançava as folhas no alto das arvores e Alice começou a olhar. Era uma ventania sobrenatural e Alice não sabia o que fazer. Ela se levantou, com medo. O vento açoitava o seu cabelo e fazia as pontas darem chicoteadas em seu rosto.
Do chão, uma névoa branca começou a surgir. Alice olhou para os lados, assustada, suas mãos tremiam e ela queria correr. Precisava correr. Ela apanhou sua bolsinha-de-mão do chão e deixou cair uma das fitas de seu cabelo. Quando tentou pegar do chão a névoa ficou mais branca e ela não iria mais ficar ali.
Alice deu um beijo na lápide de seus pais, ainda com o coração palpitando de pavor. Estava assustada e não poderia negar. Nem dera tempo de falar com seus pais a respeito de Enzo. Do que ele tivera feito. Do choque que tomou ao tocar nele. As lágrimas desceram com os pensamentos.
O vento começou a ficar forte, e o sol que estava no céu ficou escuro. Parecia que ia cair uma tempestade a qualquer momento. Alice se levantou, seria uma grande caminhada do cemitério até a sua casa.
Quando se levantou um clarão cortou o céu.
Alice olhou para cima.
As nuvens que antes eram brancas, estavam acinzentadas e entre elas surgiu uma sombra negra. Alice arregalou os olhos e começou a correr. Ela não sabia o que fazer. Um barulho farfalhante ecoou em seus ouvidos.
Ela começou a correr mais assustada, tropeçando entre as fileiras das lápides. Ela não sabia quem estava ali, mas queria ela, queria pegar ela. E Alice sabia que tinha chances de não escapar viva se ele a pegasse.
Um barulho de corvos começou a ecoar. Parecia que tinha várias aves brigando por uma comida. Alice se sentiu perseguida, começou a correr, mas ela não arriscaria passar pela Ponte de Madeira. As cordas eram facilmente arrancadas e ela poderia cair. Decidiu descer e ultrapassar pela água. O barulho parou.
Olhou para cima mais uma vez, para se checar se não havia mais nada. Sem sombra, sem barulho farfalhante e sem luz dourada. Alice seguiu seu caminho de volta para casa.
Enzo estava dormindo. Deitado relaxadamente em sua cama, ele demorou horas até que conseguisse fechar os olhos. Estava com medo do que poderia ver, caso adormecesse. Tinha medo dos pesadelos que poderia ter com Kab, Kadath ou Steven. Tinha medo de reviver o passado mais uma vez.
Mas quando adormeceu Enzo não estava mais vendo Kab morrendo de uma forma lamentável, sem que ele pudesse fazer mais nada para ajudar. Ele estava sonhando algo bom. Ele estava sonhando com Kab depois de ter revelado a ela o seu segredo.
As imagens vagaram por sua mente, enquanto Enzo se contorcia tentando acordar.
— Então quer dizer que se eu andar com esse anel, ninguém irá me ver? — Enzo perguntou, erguendo o anel de prata, com uma estrela em cima. A Estrela de Davi.
Kab deu um sorriso amargurado.
— Ele tem uma força inumana, Enzo. A Estrela de Davi é cheia de lendas para... — ela fez uma pausa — Para pessoas como você.
— Alguém usa isso por aqui?
Kab torceu os lábios em forma de sorriso.
— Na Virginia? Eu acho difícil ter Querubins.
Enzo deu uma gargalhada forçada.
— Tem razão.
Kab tocou o seu rosto com as mãos delicadas e frias. Ela estava tão linda essa manhã. Seu cabelo loiro, sua pele parda, seus olhos verdes. Seu corpo magro e seus lábios incrivelmente únicos. Enzo se aproximou mais de Kab. Seus braços entrelaçando e apertando sua cintura.
Ela tocou o cabelo cor de areia dele. Tão liso. Poderia enrolar ele de um lado para o outro, bagunçando, que ele voltaria para o mesmo lugar. Kab abriu um sorriso enquanto seus lábios se tocavam.
Depois de um longo beijo, quente e inumano. Eles se afastaram um pouco. Enzo olhou no seu relógio importado as horas. Marcavam exatamente 23h30. Ele olhou de relance para Kab enquanto sussurrava.
— Onze e meia da noite — disse Kab, fingindo estar surpresa —, isso não é a hora certa para uma moça descente de Florence sair da casa de seu namorado.
Ele sorriu, mesmo não querendo.
— O que vão pensar de mim agora?
Kab estudava em uma universidade do Japão, mas teve que vir para a Itália depois que alguns conflitos começaram a acontecer na universidade. Ela estava estudando História e sua aula era sobre escavações. Seu tema era para encontrar coisas antigas. Em uma de suas escavações ela encontrou uma espécie de tábua. Ela era azul, e alguns detalhes brancos em formas de nuvens. No começo ela não sabia exatamente o que era, mas hoje, conhecendo Enzo, ela já tinha uma ideia do que era e para que servia.
A Tábua dos Anjos.
Kab veio do Japão para a Itália, pois sabia que as lendas da Tábua vinham da cidade Florence. Hospedou-se em uma das pensões. Foi onde conheceu Enzo. E descobriu o que ele era realmente.
Enzo sorriu para ela, não disse nada como “eu te levarei em casa” ou “eu explicarei que conversamos por muito tempo.” Não, ele não fez nada disso. Em seu quarto, houve apenas um estouro de luz roxa e um barulho farfalhante e Kab estava em sua cama, há dois quilômetros de distância dali.
Ela o abraçou forte, como quem estivera assustada.
— Você sabe que isso me assusta — disse com a voz entristecida.
Ele sorriu enquanto colocava os braços em volta da cintura dela.
— Me desculpe — sussurrou em seu ouvido.
Os lábios de tocaram novamente. Primeiro gentilmente, ele a beijava de uma forma calma. Irresistível. Seus lábios eram frios como a noite, seu aperto ao redor da cintura era forte. Os barcos de Kab estavam enlaçando o pescoço de Enzo. Suas mãos eram quentes. Ele não queria soltá-la, o perfume dela, o gosto da boca dela, o seu cheiro natural...
Kab não conseguia mais pensar em nada. Só existiam Enzo e sua boca irresistível e o seu abraço caloroso. Segundos depois, — mesmo não se passando apenas segundos — Kab afrouxou o seu aperto em redor do pescoço dele e Enzo fez o mesmo. Ela o soltou lentamente, ainda olhando dentro de seus olhos verdes, sem olhar para mais nada. Ela estava nervosa demais com a situação, que nem ao menos conseguiu perceber que ele tivera ido embora ao momento certo em que a Sra. Dora — a dona da pensão — abrira a porta do quarto de Kab.
Enzo acordou.
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