Condenados ao Inferno e a Tábua dos Anjos
5 5. O Primeiro Diálogo
Alice saiu mais cedo essa manhã. Não estava querendo ficar em casa. O sol que estava fazendo hoje não era como o sol vermelho e opaco de todos os dias. Estava mais vivo. Mais forte. Ela não quis ficar para o café da manhã, saiu rapidamente ainda ouvindo os protestos de tia Judith sobre: “Você tem que ficar em forma, menina”.
Quando chegou a escola, não tinha quase ninguém. Alice ficou assustada de ter saído cedo demais de casa. Ela pegou o celular no bolso do short cor-de-vinho e olhou a hora. Marcava 07h00.
Então, não. Ela não tivera chegado mais cedo. Estava em seu horário normal. Mas os outros alunos não. Ela não sabia o que fazer agora. Olhou para os lados e sorriu. Duas garotas estavam vindo ao seu encontro. Vanessa e Meredith.
— A senhorita quer nos matar de preocupação? — gritou Vanessa.
— Como assim.
Meredith a interrompeu.
— Bosque. Ontem à tarde. Choro. Saída surpresa. Acha pouco, ainda?
Alice ficou envergonhada. Ela não gostava quando ficavam preocupadas com ela. Não gostava de saber que fariam o possível e o impossível para ajudá-la. E se, se metessem em perigo? Ela não iria se perdoar. Já tivera perdido seus pais.
— Me desculpem — Alice sussurrou.
— Está desculpada. — disse Meredith espontânea.
Vendo as caras tristes a sua frente, Vanessa abriu sorridente a sua bolsa. Houve um “Ah, isso de novo não” de Meredith, mas ela a ignorou. Tirou de dentro o seu livro sobre magia e abriu numa página amarelada. De um lado um círculo e do outro algumas letras em latim e as traduções.
— Olhem só; eu sei que não acreditam nisso — disse Vanessa revirando os olhos —, mas realmente funciona, para quem tem o Dom. — ela se abaixou e pegou uma pedra na mão, logo em seguida pôs na mão de Alice. — Agora, irei fazer essa pedra levitar.
Meredith abafou uma risada.
Vanessa encarou a pedra, os olhos quase fechados. As mãos estavam para frente, apontando para a pedra. Com um simples movimento ela disse a palavra:
— Levitate.
A mão de Alice começou a ter turbulências. Estava tremendo. Alice estava assustada. Mas não era a mão de Alice que estava tremendo. Era a pedra que se debatia, e agora não estava mais na palma da mão de Alice. Ela estava flutuando, e indo para o alto.
Vanessa abriu um sorriso, como quem estivera praticado a noite toda, mas que só funcionara agora.
Alice estava perplexa.
Nunca tivera visto algo desse jeito acontecer. Uma vez tivera ido a um show de mágicas e eles não faziam coisas do tipo. Agora ela tinha certeza que o que eles faziam era truques. E o que Vanessa fez não.
O sinal tocou.
— Qual o problema Alice? — Vanessa perguntou.
— Nada — ela respondeu — Vamos entrando? — perguntou enquanto caminhava para dentro do prédio, indo em direção ao Caixote.
— Estão com fome? — perguntou Meredith, depois de um longo tempo em silêncio, abrindo um pacote de biscoito de chocolate.
— Não. — Entoaram Vanessa e Alice juntas.
Alice entrou na frente, sorridente, mas ainda olhava para o livro com capa marrom nas mãos de Vanessa. Meredith perguntara duas vezes, com um tom desnecessário se Alice estava bem. Alice disse levemente irritada que estava bem — e estava. Não sabia o motivo pelo qual estava parecendo ruim.
Ridículo. Ela não precisava se importar com a opinião dos outros.
Mentira, precisava sim. A verdade é que Alice sempre se importou de como as pessoas olhariam para ela. Como a veriam. Uma garota popular desumilde que pisa em qualquer pessoa. Ou uma menina normal do Ensino médio que está apaixonada por um garoto que a desprezou?
Enzo...
Seu coração palpitou. Ele acabara de passar por ela, seus ombros se tocaram e ela sentiu seu perfume. Era doce. Ela e as garotas caminharam para um dos acentos vazios no Caixote, enquanto Enzo caminhava para o banheiro masculino.
Ele era tão lindo, que Alice nunca acharia que ele entraria no banheiro da escola. Quase ninguém entra. Os banheiros são sujos, e os maus-cheiros podem se sentir a distancia. Cheiro de privada, lama, sujeira. Tudo junto.
Quando ele saiu do banheiro, Alice começou a examiná-lo. O modo como gesticulava as mãos molhadas. O modo como fechava o zíper que mostrava um grande volume em que todas as meninas comentavam. O modo como caminhava. Seu carro. Sua vida...
— Para onde Alice está olhando? — perguntou Meredith e Alice saiu do seu transe admirador.
Ela baixou a cabeça, colocando os longos cabelos negros na frente do rosto, para se esconder de certa forma. Agora ela notara algo de diferente: ele não estava como no primeiro dia de aula. Estava mais aberto. Com um sorriso nos lábios.
— Enzo Fanning está te encarando — disse Vanessa.
Alice levantou a cabeça para checar. E era verdade. Seus olhos verdes estavam olhando diretamente nos olhos dela. A boca tinha um sorriso, e ele estava imóvel. Depois de alguns segundos, ele desviou o olhar.
Vanessa e Meredith deram risadinhas.
— Para de olhar para ele — Alice sussurrou dando uma cotovelada de leve no ombro de Vanessa.
— Ele não parece assustado, parece? — Alice perguntou.
— Não, deveria?
— Não — Alice sussurrou —, não deveria ter se assustado ontem, mas se assustou. Apenas verificando se seria todo dia que olhasse para mim.
Vanessa riu.
Essa manhã algo mudou. As inspetoras que Alice e os outros alunos tivera visto nos primeiros dias de aula, não estavam mais lá. Agora, tinha uma mulher gorda, usando uma calça jeans que a deixara mais gorda, e uma blusa de lã branca, um boné na cabeça que estava solto de um modo desorganizado. Ela estava indo em todos os alunos que estavam sentados.
— NÃO OUVIRAM O SINAL? ESTÃO SURDOS? — ela bracejava severamente, quase gritando nos ouvidos dos alunos.
Ela estava dando a volta, e mesmo sendo assustadora, nenhum dos alunos saíam sem antes de ela começar a gritar.
Ela se aproximou das garotas.
— As donzelas não ouviram o sinal tocar? — ela perguntou de um modo irônico, e com um sorriso falso. As meninas assentiram que sim com a cabeça. — As aulas de vocês serão feitas aqui mesmo, ou querem subir LOGO PARA AS SUAS SALAS?
As meninas começaram a correr.
— Eu estou indo ao banheiro — disse Vanessa.
— Eu também — disse Meredith.
— Eu vou subindo para a sala — disse Alice, calma. Ainda olhando nos olhos da nova inspetora.
Alice começou a subir a escada circulatória ainda reclamando.
Malditas inspetoras reservas, ela pensou. Ainda sentindo falta das inspetoras sorridentes que tivera visto no primeiro dia de aula.
Uma vez dentro da sala, Alice teve que falar com todos os alunos. Eles vinham a ela como uma ovelha é levada ao matadouro. Todos em passos lentos e com um sorriso torto no rosto. Ela deixou para lá o zumbido e as conversas ao seu redor e sentou-se em sua cadeira. Ela abriu a mochila e tirou seu caderno. Era um caderno com capa de veludo rosa. Não era bem a cara de Alice. Mas fôra o último presente que ganhara de sua mãe.
Ela ouviu claramente o arrastão que fez quando a cadeira do seu lado se moveu, rapidamente. Mas achando que eram apenas alguns dos alunos bagunceiros fazendo pirraça, não olhou.
— Olá — disse uma voz. Calma.
Ela não entendeu o porquê dele estar falando com ela. Ele estava tão longe dela, o limite que a mesa permitia, mas agora a cadeira velha e amarelada estava virada na direção de Alice. O cabelo dele estava para cima, arrepiado, e os fios loiros eram lindos. Seu rosto estonteante era amigável, aberto, um leve sorriso nos seus lábios indefectíveis. Mas seus olhos eram cautelosos.
— Sou Enzo Fanning — ele soprou as palavras com um hálito doce — Eu não consegui me apresentar ontem. Estava um pouco atrasado. Você deve ser Alice Curie.
Alice assentiu.
— Ouvi falar de você. Uma das Soberanas. Do Grêmio.
Alice ainda não acreditava em nada. Ela ainda estava sonhando em casa? Perdeu a hora e sua mente a fez sonhar com uma das coisas mais inesperadas de sua vida? Ela não sabia o que fazer.
Ele estava perfeitamente educado. E irresistível.
— Como sabe meu nome? — ela gaguejou — Q-quero dizer, quem te disse tudo isso sobre mim?
— Sua amiga — ele sussurrou calmo — Tinker.
Alice fez uma careta. Ela e Tinker não eram amigas. A garota a odiava e isso estava espelhada em seu rosto. Elas nunca se deram bem. Uma vez na primeira série — que foi quando Tinker chegou à cidade — as duas começaram a se falar, e Alice brigou com Tinker. A garota ficou com raiva de ver Marcus abraçando Alice. Ela destroçou as bonecas de Alice. Ela tinha uma força sobrenatural para uma criança em sua idade.
— Mas Tinker não é minha amiga — Alice disse em tom surpreso —, nós nos odiamos desde o jardim de infância — ela riu —, mentira, desde a primeira série. Quando disputamos o mesmo namorado.
— Oh — Enzo disse surpreso.
Por sorte, nesse momento, a professora Sophia entrou na sala, estava carregando livros em cor de rosa. Suas roupas hoje eram azul-bebê e cada peça combinava com a outra. O batom em seus lábios tinha a mesma cor que as roupas. Estava usando uma calça boca-de-sino hoje, ao invés de suas saias de malha.
“Vamos ter que ter aula com ela todo dia? E sempre a primeira aula?” Disse um aluno na frente da turma. Ele tinha um cabelo cor de areia e era ondulado, chegando um pouco abaixo do ombro.
A professora Sophia pareceu ouvir, ela caminhou vagarosamente a abriu a porta, olhou para o aluno e deu um de seus sorrisinhos infantis.
— Se não está feliz com a aula, pode se retirar meu querido — ela riu novamente, e seu rosto ficou parecido com um hamster. Quando o aluno baixou a cabeça e não disse mais nada, ela fechou a porta e bateu as mãos uma na outra. — Ótimo. Agora, você — apontou para o garoto — distribua essas folhas nas mesas dos alunos. Depois de distribuir as folhas nas mesas de todos, a professora continuou. — Agora, juntem-se em dupla, para responder às questões sobre o filme: Tempos Modernos, que passei na última aula.
Enzo olhou para Alice novamente. Sua pele tão linda e impecável.
— Gostaria de fazer comigo?
Alice não sabia o que dizer.
— Ah... — ela gaguejou — Claro. Claro.
Alice abriu o livro e empurrou para que ele pudesse enxergar as palavras escritas. Ela olhou para ele.
— Comecem — a professora Sophia ordenou.
— Primeiro as damas — ele disse. Sua voz era educada. Fina. Gentil.
E sexy, e irresistível, e excitante, e linda, e afinada e tudo mais, pensou Alice. Deus, ele era lindo. E estava ali, ao lado dela. Mesmo parecendo que a odiava até o dia anterior.
Começou a chover. Alice percebeu pelo barulho e pelas gotas escorregando pela janela de vidro. O tempo estava ficando mais frio.
Onde estavam Vanessa e Meredith agora? Alice se perguntou. Será que a nova inspetora as levara para a secretaria por fingir ir ao banheiro? Ou será que ficaram no banheiro matando aula?
Ela realmente queria saber.
A primeira pergunta do livro era: “No que o filme: Tempos Modernos, lhe influenciou?”. Essa pergunta era desnecessária para Alice. Ela só assistira ao filme, não achava que máquinas fossem mudar muito a sua vida. Ou influenciá-la muito.
Enzo falou algo que Alice não entendeu.
— O quê? — perguntou ela, depois de um tempo.
Ela o viu sorrindo. Um sorriso tão lindo que Alice não pode fazer nada além de rir igual a uma idiota.
— Conseguiu responder? — ele perguntou. O sorriso sumiu.
— Não. Eu acho que isso é uma tremenda bobagem — Alice disse. E desejou não ter feito isso. Enzo a olhou como se ela não fosse esperta. Coisa que modéstia a parte, Alice era.
Depois da olhada desapontada de Enzo, Alice disse confiante:
— Acho que o filme me influenciou em perceber como as coisas mudaram. O Charlie mostra de uma forma engraçada que as pessoas sofriam para manusear uma máquina. Hoje em dia, as máquinas são manuseadas por elas mesmas. E os homens têm apenas que olhar em alguns quesitos e verificar se está tudo O.K. — ela relaxou.
Sua resposta foi confiante.
Ele ainda estava olhando-a de maneira estranha. Seus olhos verdes estavam quase fechados. Depois, ele ergueu a mão e toca o livro delicadamente. Olha a pergunta, e depois sussurra:
— Correto.
Quando tirou a mão de cima do livro, ele puxou delicadamente, e as mãos de Alice tocou a dele. As mãos dele eram frias. Parecia que tinha embarcado no gelo antes de entrar na sala de aula. Mas não foi pela temperatura fria que ele tinha que Alice tirou a mão. Ela tomou novamente o choque que tivera tomado quando tocou nele a primeira vez.
O sinal tocou; Alice nem acreditava que, só tiveram tempo de responder uma única pergunta.
A professora Sophia começou a recolher as folhas rosa que estavam nas mesas dos alunos. Depois de ter recolhido todas olhou novamente para os alunos e gritou com a sua voz infantil e irritante:
— Amanhã continuaremos a responder as questões. Não esqueçam que se você fez com fulano hoje, irá fazer com fulano até o final. — ela deu uma risadinha abafada e saiu.
Ele sorriu maliciosamente e entregou a Alice uma caneta.
Alice fez uma voz indiferente.
— Desde quando está com a minha caneta?
Ele sorriu novamente.
— Desde que sentei ao seu lado e você tirou de dentro da bolsa o seu caderno e começou a fazer rabiscos.
Ele deixou a caneta em cima da mesa de Alice, com cuidado. Como se estivesse tentando evitar colocar sua pele gelada contra a dela.
Alice olhou para a porta.
Nesse momento um professor entrou na sala. Tinha um cabelo curto e preto. Estava usando uma calça jeans cinza e um óculos meia-lua no rosto. Tinha uma barba por fazer e seu tipo físico era magro. Ele caminhou até o meio da sala e disse:
— Eu sou o professor de História.
Foi só o que disse. Nada de dizer: “Olá, meu nome é...” não. Apenas disse que era o professor de história. E escreveu na lousa: “Livro de História, página: 134”.
Houve um farfalhar de folhas.
Quase ninguém conhecia o professor. Mas Alice, e algumas alunas sim. Ele era o professor Rape. Algumas pessoas diziam que ele era amargurado depois de ser traído pela mulher em plena noite de núpcias.
Agora, o professor Rape estava indo de cadeira em cadeira, olhando cada texto dos alunos. Ele ia logo às pessoas com quem ele não simpatizou. Teve o Edmundo — o garoto de Jazz — tinha uma espessa cabeleira ruiva e olhos resplandecentemente verdes.
— Já te disse para pôr acentos em todas as palavras, Edmundo — disse o professor Rape novamente com um tom de quem queria que toda a sala ouvisse. — E lhe disse também que “você” não é com um “C” cedilha.
Houve grunhidos e risadinhas enquanto Edmundo colocava o rosto entre as mangas do casaco de frio. O garoto estava tão vermelho que mal teve coragem de voltar a olhar para o resto da turma novamente.
— Bem — continuou o professor Rape —, agora vamos fazer um check-up do ano anterior. Vejamos na última semana de aula; do ano anterior o que aprendemos?
Rape abriu um sorriso enquanto olhava para uma aluna que estava próxima a ele. Ela fez uma careta, mas Rape não desistiu, continuou a olhá-la por um tempo e em seguida gritou a todos os pulmões:
— VOCÊ MINHA JOVEM — gritou animadamente —, ME DIGA O QUE FOI VISTO NO ANO ANTERIOR...?
A garota de cachos e cabelo vermelho continuou a olhá-lo com um sorriso mortal, e depois de um tempo virou o rosto para distante do dele. Rape se encheu de fúria. Os olhos começaram a borbulhar como se fosse explodir, os lábios estavam retorcidos em furor.
— NÓS APRENDEMOS SOBRE O SIGNFICADO DOS NOMES. APRENDEMOS O QUE ELES SIGNIFICAM E O QUE OS NOSSOS PRÓPRIOS NOMES SIGNIFICAM. — disse ele ainda com um tom de voz elevado. —, POR EXEMPLO, MEU NOME É DE ORIGEM COREANA E SEU SIGNIFICADO É “INTELIGÊNCIA” — disse que um tom de superioridade na voz. — E...
Alice não tivera acreditado, até que viu a mão levantada.
Enzo estava de pé, olhando para o professor. O mesmo estava com uma raiva inumana. Estava olhando para Enzo como se ele fosse um verme que precisava ser exterminado. A mão de Enzo não se abaixou.
— Com licença — ele disse, suavemente, e toda a sala se virou para olhá-lo.
— O que disse? — disse o professor Rape, se aproximando da mesa do aluno. Ele não demonstrou medo, apenas foi baixando a mão lentamente enquanto professor Rape se aproximava.
— Eu disse com licença — repetiu ele e se levantou da cadeira, apoiando os braços sobre a pequena mesa de madeira esverdeada.
— Como o Senhor se chama? — perguntou Rape se afastando depois de ver o tamanho do aluno. Viu que ele não tivera se acovardado e que o enfrentara sem medo.
— Enzo. Enzo Fanning.
— Bem, Sr. Enzo Fanning o que deseja?
— Gostaria de fazer uma pequena observação em relação ao que o senhor disse — depois de ver que Rape arqueara a sobrancelha como quem esperava que ele falasse. Então, Enzo continuou. — Mas o senhor está errado. Primeiramente pedir que alguém se lembre do que viu há mais de meses, se o senhor não sabe, um cérebro humano não consegue se lembrar de totalmente tudo que se passou. Metade das lembranças, por exemplo, são relembradas sob’ pressão, se o senhor abrisse aquele livro de História iria saber disso. — Ele apontou para o livro verde sobre a bancada de livros escolares. — E mais uma coisa, a origem do seu nome não vem do coreano, pelo contrário, a palavra “Rape” vem do latim que significa “trouxa”.
Alice não estava acreditando no que estava ouvindo. Um professor humilhado por um aluno na primeira semana de aula. Isso era chocante. De uma forma incrível. Porém, chocante. Depois do que pareceu uma eternidade, Enzo se sentou.
Alice não tinha alternativa a não ser tentar não olhar pra ele... Sem sucesso. Ela olhou pra cima, e ele estava olhando pra ela, com aquele inexplicável olhar de frustração nos seus olhos. Ele sorriu para ela. Não mostrando os dentes, um leve arqueio de lábios.
O sinal tocou.
Alice se levantou e Enzo se levantou junto com ela. Os olhos dos dois se encontraram novamente. Ela sorriu e começou a andar para fora da sala. Quando passou na porta, o professor Rape continuava a olhá-lo com total frustração. Depois de um minuto, o professor baixou o olhar e Enzo saiu.
Alice ainda estava surpresa.
— O que foi aquilo? — ela perguntou.
Ele riu amargurado.
— Digo... — ela disse —, como sabia de tudo aquilo? A coisa com o nome dele era verdade? E a parte do cérebro?
— Alice — Enzo disse, automaticamente —, eu aprendi em alguns cursos que fiz antes de vir para Magic Fells.
— Onde você estava morando?
Ele demorou em responder.
— Ahhn — ele gaguejou; ainda pensativo —, eu estava na Flórida. E o que dizem a respeito do ensino de lá, é verdade. É muito bom.
— Nossa.
Ele deu uma risada.
Desceram a escada circulatória, e foram para a cantina.
— Você quer comer alguma coisa? — ele perguntou, e antes que Alice pudesse responder ele tirou a carteira do bolso e disse para a senhora na cantina: — Um hambúrguer, por favor.
A moça entregou o hambúrguer e Enzo o dinheiro, depois entregou o hambúrguer a Alice.
Começaram a caminhar para o Caixote.
— Sabe — disse ela, dando a primeira mordida no pão macio com alface e legumes —, às vezes, é melhor perguntar a uma pessoa se ela quer comer algo.
Ele olhou para Alice, depois para o hambúrguer.
— Você, está comendo.
Ela gritou por dentro. Como ele poderia ser tão esperto, e irritante? E chato? E... tão lindo, e irresistível. Urrrghh, Alice se odiava.
Eles se sentaram em um dos assentos de cimento azul.
Todos estavam olhando para Alice agora. Tinker a fuzilava com os olhos. Se ela tivesse uma arma, usaria contra Alice sem se preocupar.
— Você gostou da Flórida? — ela perguntou depois de um momento.
Ele não respondeu rápido.
— A comida é boa.
Alice riu.
— Você me entendeu, Enzo.
Era tão bom falar o nome dele. Era tão bom tê-lo ali, ao lado dela. Falando com ela, mesmo tendo ignorado-a no dia anterior. Alice mal poderia acreditar no que estava acontecendo. Ela estava sonhando e precisava de um beliscão.
Quando Alice ia perguntar algo a Enzo, O sinal tocou novamente, era a hora do recolhimento. Os alunos teriam que voltar para as suas salas e ter mais três horas de aulas com outros professores, Alice e sua turma tivera tido o azar de pegar as três primeiras aulas com um mesmo professor o que era horrível. Ela agora esperava que variassem os professores.
Não deu nem tempo os alunos subirem por livre e espontânea vontade — a inspetora Shelb já estava lá, gritando com os alunos e os mandando subirem. Seus gritos eram ensurdecedores e no mínimo enjoativo, mas ninguém a questionava por isso.
Mas não foi assim tão fácil ir para a sala. Já estava demorando, nunca tivera começado as aulas sem isso. Alice tivera estranhado porque demorara tanto para acontecer hoje, seria um milagre não acontecer:
Briga.
Sanny; uma garota morena e de corpo assustador por conta dos músculos estava começando uma discussão com uma aluna do ano inferior. A outra garota tinha um cabelo duro vermelho e era morena, estava usando roupas um pouco ultrapassadas e tinha um tom de voz elevado.
Não demorou muito para começar, afinal, a menina do cabelo vermelho estava um pouco ultrapassada no que falava e bastou apenas uma frase ofensiva para que ela caísse no chão com um soco certeiro de Sanny. Agora, Sanny estava em cima dela, as mãos rodaram e fecharam boa parte do cabelo da menina prendendo-os fortemente, a menina estava tendo sua cara arrastada no chão.
Sanny a virou para cima, para que as duas pudessem se olhar enquanto brigavam, pôs o corpo sobre a cintura da garota bloqueando-a e logo em seguida suas mãos fecharam-se e estava atingindo socos extremamente fortes no rosto da menina.
Agora estava jorrando sangue, da boca, do nariz e das mãos da menina. Enquanto um coral de jovens gritava “briga, briga, briga” outro coral não muito distante gritava “Sanny! Sanny! Sanny!” e os gritos estavam ensurdecedores.
Mas a briga não durou muito tempo, logo em seguida, a inspetora Shelb chegou com seguranças uniformizados de “Ronda Escolar” e tiraram as garotas uma de cima da outra e levaram para a direção.
Agora, os alunos que estavam felizes por verem seu dia começar realmente, estavam indo para a sala, conversando, comentando, mentindo e aumentando histórias sobre a briga para quem não viu. E Alice voltou, desejando ter feito aquilo mais cedo com Tinker, quando a mesma tivera falado sabe-se-lá-o-quê para Enzo.
E então Alice subiu as escadas circulatórias e embarcou na sala para sua próxima aula.
Uma mão tocou seu ombro coberto pela blusa. Enzo.
— Por quê não me esperou?
Alice pensou que ele estava ao lado dela.
— Eu tinha ficado. A inspetora nova, Shelby, disse que eu estava no meio da confusão.
Alice segurou uma risada.
— Pode rir — ele disse abrindo um sorriso.
— Eu? Não quero rir — ela mentiu, abrindo um sorriso parecido.
Então os dois juntos, cruzaram a escada circulatória e foram para a sua última aula.
Depois da escola, Alice foi direta para casa. E ao chegar a Rua Ally ela viu uma ambulância, estava parada de modo desajeitado no parapeito e com as portas abertas. De dentro tivera saído o Sr. Lyman. Isso explicava todo o motivo dele não estar mais sentado na varanda, ou tentar matá-la novamente.
A cabeça estava enfaixada. Ela pensou na pedra. Ela tivera batido muito forte? A pedra abriu sua cabeça? Ela não se lembra de nada. Ela começou a correr para dentro de casa.
Quando entrou, tia Judith estava sentada na cadeira da cozinha, apoiando os cotovelos na mesa. Ela estava com cara de preocupada.
— Tia? — Alice chamou da porta. A tia olhou para ela. — Está tudo bem?
Tia Judith se levantou e caminhou até Alice. As mãos molhadas tocaram seu rosto. A tia estava chorando, Alice poderia perceber. Ela estava tremendo. O que tivera acontecido?
— Alice — disse tia Judith —, quando cheguei ontem, Vanessa e Meredith estavam aqui. Quando perguntei por você, ela disse que você tinha corrido em direção ao bosque. Provavelmente para o cemitério.
— Sim, eu fui ver meus pais.
Tia Judith arfou.
— Ah, Alice, quantas vezes já lhe disse para não ir sozinha?
— Mas o que houve tia?
— Me escute Alice, nunca mais vá para aquele lugar sozinha, Alice. Nunca mais. Está me ouvindo?
Alice estava assustada.
— Mas por que não?
— Porque ontem à noite o Coveiro foi atacado lá. Ninguém sabe muito bem o que aconteceu. Foi mandado para a perícia. Houve uma trovoada, e depois o encontraram queimado.
— Sim, mas nesse caso, foi um raio, ou algo do tipo, estou certa?
Tia Judith pôs as mãos no rosto.
— Não. Porque foram encontrados objetos explosivos e álcool perto do corpo. Está quase confirmado que foi algum assassino querendo esconder o corpo da vítima.
Alice engoliu em seco.
— Mas ele está bem?
— Não. Ele foi encontrado com as costas arrebentadas por garras, lâminas ou algum objeto cortante. E não sobreviveu.
Alice levou à mão a boca.
— Tudo bem tia, me desculpe, eu não vou mais.
— Obrigado, minha querida.
Depois de um abraço, Alice subiu para o quarto. As palavras de sua tia começaram a fluir em sua cabeça: “...Ninguém sabe muito bem o que aconteceu. Foi mandado para a perícia. Houve uma trovoada, e depois o encontraram queimado...” O mesmo barulho que ela tivera ouvido quando estava lá. Era para ela.
A morte era dela. Ele estava no lugar errado. A morte foi com a intenção de matar Alice e não o coveiro.
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