Condenados
8 Extra 1
Notas iniciais
Bianca sentiu uma pontada de arrependimento quando olhou para a rua coberta de neve a sua frente. Atrás dela, Nico gemeu ao sentir o frio cortante acerta-lo.
– A previsão não falou nada sobre nevasca. – O garoto resmungou, enquanto fechava a porta da biblioteca atrás de si. – Se eu morrer quero que alguém processe os caras da televisão.
– Vamos logo, já estamos atrasados. – Bianca apressou o irmão, enquanto tentava puxar a jaqueta Jens para perto de si, a fim de se proteger do frio. – E não estou a fim de congelar.
Nico revirou os olhos e desceu a escada, quase escorregando no processo. As ruas da cidade estavam praticamente imersas na neve. Mas mesmo com o fenômeno da natureza acontecendo com toda a sua intensidade, as ruas estavam repletas de pessoas. Todas tentando fazer suas compras para o natal. Bianca pensou se aquele seria um bom natal para ela e para o irmão.
Os dois não conheciam seu passado nem sua família. Há pouco tempo, tinham sido adotados por um casal de alemães e foram morar com eles. No inicio, os dois pareciam muito amorosos e companheiros, mas há poucos dias, o comportamento dos pais adotivos havia sido alterado. Eles estavam frios e distantes. Obrigavam Bianca e Nico a cumprirem um toque de recolher – da qual os dois estavam ignorando naquele momento – e estavam ficando agressivos. Bianca que no começo pensava que ia ter finalmente uma vida comum estava considerando seriamente a oportunidade de fugir com Nico.
Falando no irmão, a garota tentou não rir quando viu Nico escorregar e cair de cara na neve. Mesmo estando preocupa com a família, ela estava de certa maneira bem feliz, por enfim esta se divertindo com seu irmão. Coisa que ela julgava impossível quando estava...
Bem, ela não lembrava onde estava só sabia que não se divertia lá.
– Mais rápido Nico! Não perca tempo beijando Quione. – Ela debochou. Nico olhou para ela com raiva e jogou neve na irmã, que deu uma risada.
Os dois seguiram o mais rápido possível em direção a casa onde estavam morando, e eventualmente caíram milhares de vezes. Bianca estava se sentindo bem. De alguma maneira, parecia que tudo agora estava nos eixos. Ela poderia ter uma vida boa com o irmão. Em breve, iria para a escola. Ia estudar e conhecer pessoas novas. Iria a bailes, sairia com os meninos que gostasse e poderia até mesmo pensar em formar uma família. Aquilo era tudo o que ela sempre quis. Com o comportamento diferente dos pais adotivos, talvez ela pudesse contornar. Nico e ela passavam a maior parte do dia fora de casa. Não ia ser tão ruim.
Sorrindo com essas conclusões, Bianca entrou na rua onde sua casa ficava e Nico a seguiu. Juntos os dois apostaram corrida até a porta da casa e discutiram sobre quem era o vencedor. Sim, tudo estava bem.
A casa dos alemães era uma residência que se destacava na rua. Possuía três andares e tinha um grande jardim na frente. Nico buscou as chaves da porta de madeira polida e se surpreendeu um pouco ao perceber que ela estava aberta. Os pais adotivos sempre trancavam tudo quando estavam dentro de casa.
Bianca foi a primeira a entrar e colocou cuidadosamente a jaqueta no cabide, sonhando com um copo de chocolate quente. Ela tremia muito e a sua roupa estava encharcada. Nico não estava muito melhor. Os dois tiraram seus respectivos tênis, e dispararam para a cozinha. Ambos com a ideia de se aquecer com grandes pratos de comida. Bianca estava estranhando o fato de que nenhum dos adultos responsáveis por eles tenha surgido com uma expressão de desgosto no rosto. Talvez tivessem saído.
Nico foi o primeiro a entrar na cozinha. Bianca estava o seguindo por trás, e foi com um grande esbarrão no irmão que toda a vida dela virou de cabeça para baixo. Nico gritou. Um grito apavorado e cheio de agonia.
Bianca depois de se recuperar do susto, empurrou o garoto para o lado, a fim de ver o que estava acontecendo. Foi à vez dela de berrar apavorada.
Hanna e Rubert Garrow estavam estirados no chão. Rubert estava com os olhos assustadoramente abertos. Sangue seco saia se acumulava no pescoço do homem. Suas roupas haviam sido rasgadas, e toda a cozinha estava repleta de sinais de briga. Vidro quebrado, as portas dos armários arrancadas e sangue manchando o chão e o balcão. Do lado de Robert, a mulher Hanna estava com cortes de faca nos braços e no rosto. Ela estava com os olhos fechados e com uma tesoura nas mãos. Bianca teve a sensação de que ela havia tentado se proteger. Mas do que?
Ao lado dela, Nico escorregou até sentar no chão, os olhos vidrados. Bianca cambaleou para trás, para longe da cena. Ela não tinha ideia do que fazer. Não tinha ideia do que pensar. Tudo que estava sentindo era medo e angustia. E se quem fez quilo ainda estivesse na casa? E se fosse atrás deles? Quem era essa pessoa e por quê? Tremendo, a garota caiu no sofá da sala, e tentou chamar por Nico. Mas sua voz estava presa e congelada em algum lugar. Eles tinham de sair dali. Alguma coisa estava errada e ela e Nico iam acabar sofrendo. A ideia de que tudo estava bem parecia quase piada de humor negro agora. Tudo tinha dado errado.
Obrigando seu corpo a se erguer, ela quase não ouviu o som de passos vindos do segundo andar. Com um pânico ainda maior no peito, ela olhou em direção a escada que ficava na sala. Um homem descia as escadas. Ele era ruivo e vestia uma espécie de uniforme militar. Na mão carregava um machado, mas Bianca tinha certeza de que ele possuía outras armas.
Bianca não estava apenas dominada pelo medo e o pânico. Mas também estava cheia de frustração. Em um intervalo de minutos, tudo o que ela pensava e desejava tinha acabado. Toda a ideia de ter uma vida tranquila e ser feliz com o irmão desaparecendo, e ficando em um passado distante. Mesmo sem ter ideia do que aconteceria a seguir, ela sabia que jamais poderia voltar àquela vida, jamais poderia viver normalmente.
Com as lagrimas descendo sem permissão nenhuma pelo seu rosto, ela conseguiu obrigar suas pernas a se mexeram e correu para a cozinha, dando as costas para o homem com o machado. Ela e o irmão não tinham chance de fugir, mas a garota queria estar perto do irmão quando aquele assassino chegasse. Nico estava no mesmo lugar de antes. Só que dessa vez, estava chorando. O choque de ver o irmão chorar fez o grito que estava pronto para ser liberado, descer novamente pela garganta dela.
Nico nunca chorava na frente das pessoas. E Bianca tinha certeza de que ele tinha ouvido ela chegar. Engolindo em seco, ela abraçou o irmão por trás.
– Ele vai nos matar. – ela sussurrou, e Nico olhou para ela. – Vamos morrer.
Os olhos do irmão se demoraram alguns segundo no rosto de Bianca, e depois se focaram em algo além dela. Nico olhava para a sala, onde o homem com o machado e o uniforme escolar estava. Ele andava sem pressa nenhuma em direção aos dois. Sabia que duas crianças não teriam chances contra um adulto.
– Eu te amo, irmãzinha. – Nico murmurou, e aquela demonstração de sentimento fez com que o coração dela se acalma-se. Nico podia ser um pouco frio, mas gostava de demonstrar o amor dela. Gostava de agradar as pessoas. Era uma criança muito amável e um irmão bastante carinhoso. Eles sempre estavam brigando, mas depois sempre diziam “Eu te amo”. Se ela ia morrer, pelo menos estaria com ele. Pelo menos teria ouvido a voz dela pela última vez.
– Eu também te amo. – Ela respondeu, e o abraçou. Sem ter coragem de olhar para trás, ela apenas pode ouvir o som dos passos do homem. Se aproximando. Mais perto. A poucos centímetros de distancia. O coração de Bianca bateu calmo, uma última vez. E então acelerou, quando a voz do homem falou por trás dela. Nico tremeu.
– Sejam bem vindos ao mundo real, pirralhos.
Ele não os matou. Fez algo pior. Muito pior. Bianca jamais o perdoaria por ter tirado sua liberdade, sua vida, seus sonhos e a coisa que mais importava para ela. O irmão.
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