Condenada a Você
6 Trégua

A única pessoa a quem ela podia desabafar era para o seu advogado. Ada ligou para o Sullivan e reclamou sobre tudo, da tornozeleira e do fato de ter que trabalhar com coisas de fazenda que não gostava, tipo mexer com terra, ou animais. E que preferia estar em qualquer outro lugar do mundo.
— E por que escolheram o Kennedy para ser o meu tutor? — continua a reclamar no telefone, aproveitando que Leon estava no banho.
— Porque era mais seguro para você. A verdade é que muita gente era contra você sair da cadeia e ficar na condicional. E também acreditavam que o agente Kennedy era o único que você não tentaria matar.
— Credo! Eu fiz um acordo! Tô ajudando o governo e a BSAA. Não sou uma ameaça!
— Eu sei. Mas, Leon ainda é a sua melhor opção e o único que... genuinamente quer te ajudar. — Sullivan resolveu que estava na hora de revelar algo importante. — Além disso, quem você acha que paga o meu salário? E não é barato — esclareceu, deixando sua cliente sem palavras. — Se não fosse pelo esforço de Leon, talvez, você morreria na cadeia.
A ligação terminou e Ada saiu para a varanda se sentindo desnorteada. Ela não podia pagar o seu próprio advogado porque seu dinheiro foi bloqueado, ou foi usado para financiar a BSAA e isso também serviu para reduzir a sua pena.
Isso significa que saiu da cadeia sem dinheiro, sem casa e tem que depender inteiramente de Leon para tudo. Até o seu advogado era ele quem pagava. Agora estava com uma divida enorme com aquele agente do governo.
— Então, falou com o Sullivan? — Ouviu a voz impaciente de Leon.
— Sim... Obrigada por... me deixar falar com ele! — ela agradece desajeitadamente, se virando para encarar aqueles azuis impetuosos, antes de fugir para o seu quarto.
***/ /***
Depois do que a Ada fez com Cody e da discussão com Leon, a espiã ganhou uma advertência. E, como punição, não retornou para alimentar os animais, ou limpar o chiqueiro e muito menos a interagir com os outros peões; o que a princípio foi a melhor notícia. Ela até chegou a rir sozinha em seu quarto de felicidade.
No entanto, os dias foram passando e ela ficou enclausurada dentro daquela cabana, tendo que se distrair com a faxina e limpar as suas roupas. Até aí tudo bem. O pior mesmo era o silêncio pesado e tenso que se criou entre Ada e o seu tutor dentro daquele minúsculo espaço.
Se havia alguma conversa entre os dois, era breve e só o que era necessário. Às vezes, Leon se trancava no quarto e ficava lá mexendo em seu notebook e celular, falando com alguém do governo, ou com algum dos seus amigos, como os irmãos Redfield.
O único momento que podia respirar com certo alivio era quando era liberada para fazer caminhadas ali por perto. Ela tinha uma hora livre sozinha, ou quase, porque a tornozeleira ainda estava lá em seu pé, lembrando‐a que o governo e Leon estavam a monitorando, mesmo à distância.
Ada sabia que deveria se desculpar, que nunca deveria ter atacado Cody, ou discutido com Leon e deixado essa convivência entre os dois ficar cada vez mais desconfortável.
Ada Wong sempre foi toda segura de si, arrogante, de narizinho empinado, porém perto daquele homem, de alguma forma acabava perdendo a compostura.
— Leon, eu... — Houve um momento que ela tentou se desculpar, os dois se olharam, Ada abriu a boca hesitante e se sentindo nervosa.
— O quê? — Mas, então, o celular dele tocou e mudou o rumo da conversa. — A agente Harper chegou — ele avisou seguindo para a porta, deixando Ada no vácuo.
Lá fora a caminhonete de Sansão é estacionada e uma mulher sai. Cabelos castanhos na altura dos ombros, alta, corpo atlético, aparentava ter no máximo uns 30 anos e estava com uma mochila e uma mala grande.
— Helena, foi tranquila a viagem? — Leon questionou indo ajudar a tal mulher com a mala.
— Sim. Só cansativa. Nossa! Então, é aqui que vocês estão ficando?
Ada ficou observando a interação dos dois e achou estranho a mulher entrar na “Sua Cabana.” Até que Leon começou a explicar que haveria uma mudança na rotina da sua tutelada.
— Eu preciso voltar para Washington D.C. E a agente Harper ficará aqui no meu lugar.
— Por quanto tempo? — Ada perguntou quase que desesperadamente.
— Por quanto tempo for necessário. — Leon trocou um olhar com a outra agente. — Eu espero que vocês se deem bem. E que você... não faça nenhuma merda.
Depois de adverti-la, Leon pegou a sua própria mala, entrou no seu Porsche e foi embora, deixando Ada achar que ele, talvez, nem voltaria.
Ela reclamou tanto de ter Leon cuidando de cada passo dela, que agora ele se foi e vem outra pessoa, completamente, desconhecida para substituí-lo.
— Olha, relaxa! — Helena disse tentando quebrar o gelo entre elas. — Leon me treinou muito bem e confia em mim. E foi ele quem me escolheu pra ser a sua guarda-costas.
— Vocês se conhecem... há muito tempo?
— Acho que têm uns 8 anos, mais ou menos quando entrei para o serviço secreto. O Leon ainda era o guarda-costas do Presidente Graham. E ele me ajudou muito. — Elas conversavam enquanto Helena se instalava no quarto do agente Kennedy, fazendo Ada ficar incomodada. Ou seria... enciumada?
***/ /***
Eventualmente, as duas mulheres foram convivendo, amigavelmente. No decorrer dos dias, Ada foi conseguindo se adaptar a sua nova rotina com a agente Harper. De repente começou a sentir que dividir o espaço com outra mulher, não era tão ruim assim, especialmente, quando esta mulher lhe trouxe uma mala com roupas novas, maquiagem e outros cosméticos.
— Eu gostaria de saber quem é que tá pagando por essas roupas? — Ada pergunta, enquanto aproveita para se olhar no espelho da penteadeira do quarto de Leon, enquanto experimentava seu vestido novo que era justo, de alcinha, tecido leve para combinar com a noite quente e de cor escarlate. E também era longo, o que era bom para esconder a tornozeleira.
— Sei que foi o próprio Leon quem me deu o cartão de crédito para comprar essas coisas.
— Hmmm... Talvez, eu deva agradecê-lo da próxima vez que vê-lo — ela diz retocando o batom. — O governo tá pagando bem ele.
— O que acha? Estou parecendo uma boiadeira? — Helena perguntou animada, colocando um chapéu de couro da mesma cor da bota que ela usava.
— Sim... — Ada sorriu. — Com certeza vai fazer muito sucesso entre os peões.
— Uau! Você quer chamar a atenção nesse jantar, né? — Harper a provoca sobre o visual delicado e elegante de Ada. — Você sabe que esse vestido não combina em nada com o ambiente rural.
— Eu não me importo. Só quero me sentir bem. — Nessa hora, alguém bate na porta.
Era Cody que veio buscá-las para o jantar na Casa Principal.
— Nossa senhora! — Cody murmura espantado ao ver Ada vestida com o vestido vermelho, que parecia se agarrar perfeitamente às curvas de seu corpo. — Parece uma deusa! — O seu elogio conseguiu roubar um sorriso presunçoso dela.
— Eu pensei que o Sansão viesse nos buscar — Helena comentou um pouco confusa.
— Ele não pôde vir. Ai eu... me ofereci. — Cody desvia o olhar e esconde as mãos no bolso da calça, parecendo um pouco tímido.
— Por que justamente você se ofereceu para vir aqui? — Ada resolveu sacanear o coitado. — Pensei que... você tivesse com ódio de mim, ou com medo.
— Porque... ninguém tinha... coragem de vir. — Seus olhos pretos se cruzam com os de Ada que lhe dá um sorriso torto. — Eles sim têm medo de você.
— Mas, você não... Você gosta de flertar com o perigo.— Ela continua sorrindo e depois o surpreende com um elogio. — Admiro homens corajosos. — Harper que estava apenas observando os dois, revira os olhos com tédio.
***/ /***
Ada no fundo não queria ir jantar na casa de Johnny Blum, mas praticamente foi intimidada pelo próprio fazendeiro a comparecer. E, obviamente, ela teria que se comportar.
Ada sabia que o Johnny só aceitou que Leon a trouxesse para a sua Fazenda, desde que a mulher andasse na linha. Afinal, a dama de vermelho tinha uma péssima fama.
A verdade era que se Johnny não tivesse alugado aquela Cabana para Ada cumprir sua prisão domiciliar, ela não teria para onde ir. E era óbvio que só fez isso como um favor a Leon.
Portanto, Sol Dourado se tornou um lugar perfeito para se refugiar e, talvez, começar uma nova vida. Ada só precisava se adaptar aquela realidade do campo.
O Casarão dos Blum era grande, com uma arquitetura antiga, dois andares, mas que havia passado por algumas reformas e tinha uma varanda enorme na frente.
A esposa de Johnny veio recebê-las com uma postura meio desconfiada e uma expressão carrancuda. A mulher parecia uma versão mais velha de Debra, só que baixinha e gorda.
Elas foram levadas para a sala de jantar e sendo surpreendidas ao se depararem com Leon já sentado à mesa, ao lado de Debra e conversando com o chefe da família Blum.
Assim que Leon percebeu a presença dela, seus olhos azuis, imediatamente se fixam nela. O homem nem consegue disfarçar que ficou impressionado ao vê-la vestida naquele vestido vermelho, com o seu belo rosto maquiado. E ela estava deslumbrante.
— Nossa, que vestido lindo, Ada — Debra elogia, ao mesmo tempo sentindo uma pontada de ciúmes, ao ver o olhar que Leon estava dando para espiã.
— Obrigada — ela agradeceu e deu um sorriso genuíno, sem sarcasmo, vindo se sentar na frente de Leon.
Leon ainda estava chocado com o visual dela e com a atitude comportada dela. Parecia que a beldade chinesa tinha aprendido a lição. Talvez, eles pudessem ter uma trégua.
— Como eu havia lhe dito, a nossa encrenqueira aqui... — Johnny olhava entre Ada e Leon. — A Harper disse que ela tem se comportado muito bem. — Talvez, está na hora dela sair do castigo e retornar para as suas atividades.
Enquanto o dono da casa falava, Leon e Ada continuavam trocando alguns olhares.
— Bom, eu já conversei com o pai e eu o convenci a deixar a senhorita Wong, ser a minha assistente. — Debra rouba a atenção de todos para si, incluindo de Ada. — É claro que o trabalho como minha assistente não será moleza e exige bastante dedicação, mas acho que vamos nos dar bem.
— Ótimo. Eu posso ser uma boa assistente — Ada afirma com uma animação, que deixou Leon e os outros espantados.
— Mas, é seguro deixar... — A esposa de Johnny, Marta resolve falar em tom preocupado, com um olhar julgador direcionado a espiã. — Deixar a nossa filha com ela?
— Mãe, tá tudo bem! — Debra intervém, decidida. — Senhorita Wong e eu nos demos muito bem, certo? — Ela encara Ada em busca de apoio, mas a dama de vermelho está distraída em cortar um pedaço de bife assado.
— A senhora Wong, ganhou uma segunda chance para recomeçar a sua vida... na nossa Fazenda... — dizia Johnny com um tom de aviso e um olhar mordaz. — Portanto, ela vai se comportar. Porque se ousar sair da linha... eu a jogo de volta na cadeia para nunca mais sair.
Ada teve vontade de retrucar, mas se conteve para não estragar o jantar que, aliás, estava delicioso.
— Tia Marta, não se preocupe. A senhorita aqui... — Leon sibila, novamente olhando para Ada. — Vai se comportar direitinho, porque eu vou sempre estar por perto, cuidando delas. — Seus azuis se desviam para a mulher mais velha rechonchuda, que se sentou na outra ponta da mesa. — E a senhora confia em mim, certo?
— Claro, Leon. Você é como um filho para nós. — A mulher antes carrancuda, agora esboçava um sorriso carinhoso para o agente, demonstrando que aquela família parecia gostar muito do Kennedy.
Assim que o jantar terminou, Johnny quis falar a sós com Kennedy e a Harper. Enquanto isso, Ada resolveu ir tomar um ar fresco. Era verão e a noite ainda continuava abafada.
Ela sai caminhar ao redor do Casarão. Lá fora havia uma lua cheia iluminando o céu noturno e havia barulhos de grilos, que logo se misturaram ao som de violão e vozes masculinas, cantando alguma música no estilo country.
A princípio ela parou para ouvir, mas quando estava começando a gostar, a música parou e, por um instante, ouviu vozes familiares fofocando sobre ela.
— Kennedy é sortudo, hein. O cara tem duas mulheres para escolher: a morena asiática, ou a loira que também é a herdeira da Sol Dourado. — Ouviu vozes dos peões fofocando ali perto.
— A morena é... bandida, mas também é bonitaaa... E... até rimou... — outro peão falava com a voz arrastada de quem estava bêbado.
— O Leon é o único capaz de domar aquela fera — Lambreta sibila todo animado. — O cara é corajoso mesmo, não tem medo do perigo.
— Calem a boca! Ou eu juro que vou chutar o rabo de vocês! — Ouviu Cody xingar.
— Ué, Cody tá defendendo a Bandida que te bateu... — Os homens gargalhavam como se fossem um bando de jumentos.
— Parem com essa baboseira. Todo mundo sabe que o Leon foi obrigado pelo governo... a ser o guardião daquela mulher. — A voz dessa vez era feminina e as suas palavras mexeram com a espiã, mais do que deveriam. — E é óbvio que a mulher certa para o Leon é a Debra... uma moça boa e honesta.
— Que tal se eu arrancar a língua de vocês! — Ada de repente resolve se intrometer, assustando os homens e a tal mulher.
— Credo, dona! Parece uma assombração! — Lambreta dá um pulo e vai se esconder atrás de Cody que é bem maior, forte e não tem medo dela.
— Calma, Lambretinha! — Ada sorri com presunção, fazendo os outros rirem com o apelido. — Eu vim em paz. — Os peões a olhavam um pouco cautelosos e também fascinados pela beleza da dama de vermelho.
— Então, acho que não nos conhecemos ainda. — Ela olha para a moça de cabelos pretos cacheados, pele escura e muito bonita.
— Ela é a... — Sansão ia responder, mas acaba sendo interrompido.
— Eu sou a esposa do Sansão, Diana. — As duas trocam olhares em meio há uma ligeira tensão feminina.
— Eu estava pensando em elogiar quem estava tocando e cantando. — Ada resolveu assumir uma postura mais simpática, olhando para Cody que segurava um violão.
— Você gosta da nossa moda de viola? — Cody retorna com um sorriso galanteador.
— Até que não é ruim.
Nesse momento, Leon saiu à procura dela, a encontrando praticamente flertando com Cody. E o agente se corroeu de ciúmes.
— Ei, já está tarde! Vamos pra casa! — Ao ouvir a voz de Leon autoritária, ela leva um susto e os dois se encaram, a tensão retorna. Uma tensão sexual mal resolvida.
— Ah, homem do governo! Afrouxa essa gravata e vem se juntar a nós! — Sansão tentou convencê-lo a ficar mais tempo e curtir a noite entre amigos.
— Eu... adoraria ficar, mas estou muito cansado da viagem — ele murmura, olhando entre o grupo e a sua tutelada. — Fica pra outra hora. Agora, vamos!
— Claro, chefe! — Ada o provoca.
Ela se despede dando uma piscadela para o grupo e passa por Leon, rebolando o seu belo traseiro que estava escondido pelo tecido fino daquele vestido escarlate e chamando a atenção de muitos olhares, inclusive do próprio Kennedy que, naquele momento, sente que vai enlouquecer perto daquela mulher sedutora.
Fale com o autor