Condenada a Você
5 Convivência Quase Impossível
Notas iniciais
Já havia se passado quase um mês presa ali. A rotina na Fazenda continuava pesada, chata e cansativa. Todo dia acordava com o galo cantando, antes do sol nascer. Às vezes, nem tomava o café da manhã, às vezes, nem falava com Leon.
Ada tentava fazer o seu trabalho o melhor que podia, mesmo odiando as tarefas que lhe davam. O pior era aturar os caipiras fazendo piadinhas constantes. E hoje ela estava prestes a explodir.
Aproveitando que era hora do almoço, ela se sentou na grama e retirou uma das botas de borracha, revelando que sua pele estava arroxeada, por causa da tornozeleira.
Só foram algumas semanas com aquele dispositivo grudado no seu tornozelo. Imagina aguentar mais três anos com aquela coisa controlando seus passos.
— Ei, não se preocupe... com o tempo você se acostuma — Leon dizia desdenhosamente, indo guardar as ferramentas em seu devido lugar.
— Eu preciso falar com o Sullivan, meu advogado — ela pediu enquanto continuava a massagear o seu pé.
— Bom, você não anda sendo uma boa menina. — Leon parou na frente dela, pronto para lhe dar mais um sermão. Então...
— Então, o quê?! — Ada gritou sem paciência. — Pelo o que eu saiba, também tenho os meus direitos. E eu sei que eu posso falar com o meu advogado. — Ela se levantou cheia de determinação e veio em sua direção. — Me empresta o seu celular?
— Ah, claro! — Leon retirou o seu celular do bolso e fingiu que ia lhe emprestar. — Só que não. — Ele ergueu a mão e ficou impedindo ela de pegar o aparelho.
Ali se iniciou quase uma luta corporal. Leon tinha as suas vantagens por ser mais forte e alto, por outro lado Ada podia ser mais pequena, porém ainda tinha um corpo atlético e era ligeira e também sabia muito bem como ser traiçoeira e tentou dar uma rasteira nele, depois um golpe baixo, os dois planos não saíram como planejado e ambos acabaram caindo no chão.
No meio da luta o celular se perdeu, Ada caiu por cima de Leon em uma posição comprometedora. Os dois se olham ofegantes, simultaneamente seus corações batem acelerados, há um clima de tensão no ar. Ela lambe os lábios propositalmente, sabendo que isso afetaria ele. E afetou mesmo, pois os olhos azuis recaem sobre a boca dela e o homem sente uma vontade louca de beijá-la. Seus rostos até se aproximam, perigosamente.
Entretanto, alguém tosse avisando o par que eles tinham espectadores. Os dois se viram na direção dos recém-chegados, todo mundo está compartilhando uma cara de espanto.
— Nossa, tá quase pegando fogo aí! — zombou Cody com um sorriso malicioso, ganhando um olhar mortal de Debra e Ada, enquanto Lambreta soltava uma risada anasalada que mais parecia um grunhido de porco.
— Cês são um casal, é? — Lambreta indagou, cheio de curiosidade e com a língua coçando para espalhar o boato.
— Não! — ambos gritam ao mesmo tempo que Ada sai de cima dele, bufando.
— Ah, nós só... — Leon tenta se explicar coçando a cabeça. — Caímos sem querer. — Os dois se levantam sujos de grama e terra e com expressões, igualmente constrangidas. — Quer dizer, eu amorteci a queda dela. — Seu sorrisinho convencido congela, ao constatar que a mulher tinha pegado o seu celular e estava tentando ligar. Obviamente, não ia dar certo, porque dependendo do lugar, a conexão era meio ruim.
— Ah, desculpa! A gente não... queria atrapalhar — Debra se explica, se sentindo envergonhada e chateada, pois cultivava sentimentos românticos pelo agente do governo, que era amigo de seu pai.
— Tá tudo bem! — Leon lhe dá um sorriso gentil. — Não aconteceu nada mesmo... Só estávamos descansando do almoço...
— Descanso, é? Sei... — Cody tirou o chapéu, abanando o rosto com um sorriso safado.
— Cuidado com a congestão, Kennedy! — Continuou a insinuar Lambreta grunhindo feito porco.
Ao ouvir aquelas insinuações cheias de malícia, Debra arregalou os olhos, ficando vermelha até a raiz dos cabelos, Leon sentiu o rosto esquentar, enquanto Ada apenas travou o maxilar, guardando o celular dele no bolso com um olhar que prometia que hoje ela iria se vingar de alguém.
***/ /***
— Você está indo bem, senhorita Wong. Apenas ignore eles! — Debra era a única que estava ao seu lado a apoiando. Quer dizer, ela estava cuidando de uma porca que havia acabado de ter filhotes, enquanto Ada foi designada a dar comida aos porcos e limpar o chiqueiro. E tinha um cheiro forte ali.
Para facilitar um pouco a sua vida, Leon resolveu ajudá-la.
— Não me diga que você está com medo de uns porquinhos, Ada! — Leon riu, ganhando um olhar fuzilante dela.
A ironia era que Ada já enfrentou coisas piores como espiã, entretanto, a vida na Fazenda Sol Dourado parecia ser o seu maior desafio. E naquele chiqueiro tinha um porco enorme a encarando.
— Ei, princesa, cuidado para não quebrar a sua unha! — provocou um dos peões, fazendo todos gargalharem enquanto Ada se atrapalha tentando desviar dos porcos famintos.
— Porque vocês não calam a boca! — Ada gritou, ao mesmo tempo que por azar, tropeçou em um dos porcos e caiu de cara na lama.
— Eita, a moça vai ficar fedendo por uma semana. — O Lambreta era pequeno, mas tinha uma língua enorme e não parava de atazaná-la.
— Deixem ela em paz! — Leon advertiu, indo até Ada que lhe deu um olhar mordaz e rejeitou a sua ajuda.
— Ei, você está bem? — Cody surgiu na sua frente e estendeu a sua mão.
Ada desviou o olhar de Leon e encarou Cody com hesitação, mas acabou segurando a mão dele e o deixou ajudá-la a se levantar. Os dois ficaram se olhando de um jeito muito intenso que o agente Kennedy não gostou.
— Agora você não parece a mulher mais perigosa do mundo — Cody não deveria ter dito aquelas palavras.
Num piscar de olhos e com um movimento fluido e traiçoeiro, ela segurou o braço estendido de Cody, girou o próprio corpo com precisão cirúrgica e usou o quadril como alavanca. Antes que o homem pudesse entender o que estava acontecendo, seu corpo forte foi arremessado no ar, caindo com um baque forte direto na lama escura e fedorenta.
— Você ainda acha que eu não sou perigosa?! — A voz feminina era fria como gelo, enquanto Ada concluiu a sua vingança travando-o em uma chave de braço dolorosa.
— Para, pelo amor de Deus! — ele implorou, batendo a mão livre desesperadamente no chão lamacento. — Você venceu.
As risadas cessaram, Lambreta e os outros arregalaram os olhos completamente chocados com a força daquela mulher.
— Ada, para com isso! — De repente Leon a puxa para longe do peão. A mulher fica se debatendo em seus braços, a situação é tensa. Ela quer se vingar de Leon também.
— Me solta! — Ela consegue se soltar das mãos de Leon e o encara com o peito subindo e descendo de raiva.
— Bom, agora vocês sabem que... não devem mexer comigo! — Ela é afrontosa.
***/ /***
Ada resolveu retornar para a cabana a pé mesmo. Precisava ficar sozinha para espairecer. E quando chegou, encontrou Leon sentado na varanda, a esperando para discutirem pela milionésima vez.
— Por que você fez aquilo? Isso pode te mandar de volta pra cadeia. — Leon estava tão chateado com as atitudes impulsivas dela. — Eles podem ser caipiras, como você gosta de chamá-los... e idiotas...
— Pelo menos concordamos em alguma coisa.
— Mas eles também são pessoas boas e trabalhadoras. E eles só estavam brincando. Até entre o grupo eles se provocam...
— A culpa é sua! Eu odeio você! Eu odeio esse lugar! — ela exprimiu com rancor, entrando na cabana, louca para tomar um banho e vestir roupas limpas, mas Leon entrou na sua frente, atrapalhando os seus planos.
— Ei, o que você acha que está fazendo? — Leon indaga, sendo pego de surpresa quando a mulher começa a tirar a camisa suja e a calça ali na sua frente, ficando somente com um top e de calcinha.
— Foda-se! Eu tô cansada, eu tô fedendo e eu só quero um banho quente e... — Ela se interrompe, percebendo o olhar dele sobre o seu corpo seminu que tinha algumas cicatrizes, duas delas foram adquiridas ainda na cadeia, quando tentaram matá-la. Uma cicatriz era grande, ia do vão entre os seios até acima do umbigo.
Por um instante, olhos azuis profundos e sinceros, confrontam os pequenos castanhos amendoados e ferozes dela.
— O que foi? Por que tá me olhando assim? — Ela dá um passo mais perto dele e empina o seu nariz, afrontosamente.
Há um silêncio fugaz pesando entre os dois, enquanto ambos continuam a se encararem, cada um lutando contra seus próprios sentimentos conflituosos.
— Eu só... — Ele desviou o olhar e se afastou um pouco nervoso. Quase pensou em quebrar a tensão, elogiando o quanto ela era atraente e bonita, mesmo com a pele molhada de suor, suja de lama e com as cicatrizes. Porém, preferiu continuar com os sermões. — Você acha que colocar a mão na massa, com um trabalho honesto, ao lado de pessoas humildes, é humilhante? — Ele corajosamente joga a verdade na cara dela. — Talvez, para você era mais digno quando trabalhava para um megalomaníaco como Wesker.
— Cala a boca! — Ela não queria ouvir aquilo, então pegou a sua roupa suja e fugiu para o banheiro.
— Eu só queria que você... parasse de descontar a sua raiva do mundo em pessoas inocentes. Elas não tem culpa! — O agente também queria extravasar a sua raiva e continuou gritando. — Pare de agir como se estivesse sendo injustiçada!
Mesmo trancada no banheiro, ela ainda escuta as palavras tão mordazes de Leon, enquanto ele está parado do outro lado da porta.
Ela para em frente ao espelho, vendo o seu reflexo horrível. Seu rosto está sujo e emburrecido, os cabelos despenteados, a pele grudenta de suor e lama. Entretanto, a verdadeira bagunça está dentro dela, em seus sentimentos confusos e em sua consciência pesada.
— Você se arrepende de ter traído Wesker e salvado a minha vida, não é? — Leon termina a discussão com aquela questão que o perturbou durante os cinco anos que a espiã esteve presa e longe dele.
Todavia, ele sabia que aquela pergunta nunca seria respondida.
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