Condenada a Você
3 Bem-Vinda a Blandville

Eles já estavam na estrada há mais de 6 horas, durante esse tempo fizeram duas paradas para reabastecer o carro, comprar algum lanche, água e também ir ao banheiro.
Ada se sentia tensa o tempo todo com a tornozeleira eletrônica e sentindo que as pessoas olhavam para ela com julgamentos ou medo, como se dissessem: “Lá vai a assassina! Cuidado com ela!”
Leon parecia impaciente ao lhe dizer para parar com a mania de perseguição. Ninguém iria fazer nada contra ela, porque ele estava ali como o seu... guarda-costas. Além disso, era só paranoia dela, pois ninguém realmente estava prestando atenção na mulher ao lado dele.
Aproveitando que a mulher se calou, Leon resolveu ligar o rádio e relaxar. Algumas horas depois, o Porsche continuava avançando pela estrada, passando por Frankfort a capital de Kentucky, cujas colinas verdejantes começaram a engolir a paisagem urbana.
Por um instante, seus olhos azuis se desviaram da estrada e olharam para a sua passageira, que agora estava roncando levemente e isto o fez sorrir. Era um pouco estranho se deparar com a nova imagem de Ada de cara limpa, visual simplista e sem poder se esconder atrás de uma máscara fria e arrogante.
Leon estava acostumado a vê-la sempre no estilo mulher sexy e fatal, de vestido vermelho que se agarrava às suas belas curvas. Mesmo numa missão onde havia monstros, lugares hostis e uma situação caótica, a espiã sempre surgia com a sua maquiagem impecável e a sua postura calculista e toda segura de si.
Parecia que nada podia abalar aquela mulher que sempre agiu, presunçosamente, como se tivesse tudo sob controle. Pensar sobre a espiã manipuladora o fez se lembrar de quando se conheceram em Raccoon City.
Era o primeiro dia de trabalho de Leon como policial. Ele era um recruta em uma cidade nova. Raccoon City tinha se tornado o início dos seus traumas. E foi lá que o jovem Leon inocente e estúpido conheceu a bela espiã com ar misterioso e toda destemida.
Eles se conheceram no estacionamento da delegacia de polícia de Raccoon City, quando ela surgiu disfarçada de investigadora do FBI. A cidade havia sido infectada por um vírus que transformou pessoas em zumbis, ou em monstros. E nenhum treinamento o preparou para uma situação como aquela.
No meio daquela pandemia, ela o salvou umas três vezes sem hesitar e ali ele ficou fascinado pela coragem e esperteza dela. Leon acreditou que Ada estava do lado dos mocinhos e até pulou na frente de uma bala para salvá-la. Só que a mulher sedutora usou da boa intenção dele e da sua ingenuidade para manipulá-lo, até chegou a beijá-lo de um jeito que o deixou desnorteado e bagunçou a sua cabeça.
Ada se aproveitou que ele era um jovem inexperiente que entrou para a polícia para salvar pessoas, lutar contra bandidos e fazer justiça. Mas, ironicamente, no seu primeiro dia, Leon cometeu o seu maior erro ao se deixar ser seduzido pelos lindos olhinhos de traços orientais e por aqueles lábios de cor carmesim.
“Então, eu só fui um peão no seu joguinho?” ele indaga com raiva apontando uma arma para a mulher. Leon descobriu que ela era uma mercenária que trabalhava para alguma organização bioterrorista.
“Eu só estava fazendo o meu trabalho!” ela retruca apontando seu revólver para ele.
“E eu estou fazendo o meu... Você está presa!”
“Só há um jeito disso terminar... e não vai ser comigo presa.” Ela é audaciosa enquanto cogita apertar o gatilho.
“Tá, atira! Mas, eu acho que você não consegue!” Leon olha no fundo dos olhos dela e, corajosamente, abaixa a sua arma. Ambos se encaram com raiva, decepção e um pouco de obstinação.
E, então, a mercenária fria e calculista, pela primeira vez, não consegue apertar o gatilho. A dama de vermelho não consegue matá-lo. Como poderia matar o rapaz que levou um tiro por ela, que era gentil e queria protegê-la?
E Ada Wong nunca teve alguém que a tratasse assim com respeito genuíno. Além disso, achou que era um desperdício deixar um jovem de rostinho angelical e de bom coração morrer ali.
No final daquela noite horrível, Raccoon City foi apagada do mapa. A dupla sobreviveu e Leon acabou deixando-a fugir, com a promessa que ela desaparecesse e não cruzasse mais o seu caminho, ou na próxima vez ele não pensaria duas vezes em prendê-la.
Por ironia do destino, seis anos depois, eles acabaram se cruzando em outra missão na Espanha. Estavam novamente em lados opostos.
Leon se tornou agente secreto do governo, enviado para resgatar a filha do Presidente, que havia sido sequestrada por uma seita maluca. E Ada Wong continuava como espiã agora trabalhando para Albert Wesker.
“Você mudou, Ada? Ou tá tentando me usar de novo?”
“O que você acha?”
Ada Wong era sinônimo de encrenca. Você nunca deveria confiar em seu rostinho de anjo. Ela continuava tão bela quanto perigosa, no entanto, acabou ajudando Leon a salvar a filha do Presidente e ainda ajudou a derrotar o líder da seita.
E mais uma vez, Leon se viu em dívida com a dama de vermelho. E não a entregou para as autoridades.
Depois essa mesma mercenária, retornou para a vida dele com outro codinome: Senhorita Escarlate. E por mais de um ano ela foi a sua informante secreta e o ajudou em algumas missões.
Era no mínimo irônico que Leon estupidamente tinha passado a confiar na Senhorita Escarlate, sem nem conhecê-la. E flertou com a mulher várias vezes e desejou conhecê-la pessoalmente, para no fim descobrir que ela era a própria Ada Wong.
A passageira se remexe no banco ao seu lado e, logo, desperta. Nessa hora, uma música toca na rádio, com uma letra que chama a atenção de ambos:
“Talvez, o grande amor da sua vida está bem do seu lado e você nem percebeu.”
Suas mãos se tocam quando ambos decidem, ao mesmo tempo, desligar o rádio e ela sente um pequeno arrepio e se afasta. Seus olhos castanhos amendoados tentam se entreter com a paisagem lá fora.
As casas, os prédios e ruas asfaltadas foram substituídas por muito mato, plantações e animais pastando. Aliás, o cheiro de esterco é forte, fazendo-a enrugar o nariz em desgosto.
Logo, é possível vislumbrar a enorme placa de “Bem-Vindo a Blandville” na beira da estrada.
O Porsche de Leon faz uma curva entrando numa estradinha de terra seca e ao passar acelerado levanta muita poeira.
— Estamos quase lá — Leon comentou já se sentindo cansado.
Ada olhou pelo vidro, observando as cercas de madeira branca, tratores e cavalos soltos no campo. Ao final da estradinha tem um portão sendo aberto por dois homens. E há uma placa também de madeira escrita “FAZENDA SOL DOURADO.”
— Que fofo! — Ada murmura arqueando uma sobrancelha com desdém. E o mais curioso é que eles chegaram ao final da tarde com um céu alaranjado e o sol começando a se pôr.
— E aí, como foi a viagem?— indaga o homem mais velho de cabelos grisalhos, alto e gordo, com ar ameaçador.
— Cansativa e tediosa. A minha acompanhante aqui estava super animada para conhecer o seu... novo lar. Os homens riram do comentário de Leon. — Esse é Johnny Blum, o proprietário dessa fazenda e que já trabalhou para o Pentágono.
— Eu sou um general aposentado, mas ainda sou bem linha dura. Então, é bom a moça se comportar.
Ada já havia entendido muito bem o recado ao ganhar olhares nada amistosos do Fazendeiro e de seus funcionários. Ela foi enviada para aquela cidadezinha com cara de fim de mundo, completamente isolada de tecnologia e de qualquer chance de fugir.
— Minha esposa abasteceu a cabana, tem um jantar quentinho esperando por vocês. E a agente Harper conseguiu algumas roupas para a moça. — Johnny entrega uma chave para Leon e manda Sansão, seu capataz levá-los até a tal Cabana onde o par ficaria.
Levou mais uns vinte minutos de carro, até o capataz deixá-los sozinhos na tal cabana, cercada por árvores e campos.
— Lar doce lar! — Leon abriu a porta com um sorriso sarcástico.
A Cabana de madeira rústica era pequena, tinha uma varanda charmosa na frente com cadeiras de balanço. Lá dentro havia uma lareira de pedra na sala para as noites frias, janelas grandes que dão vista para os campos verdes. A cozinha era praticamente grudada na sala e só havia um banheiro para ambos dividirem.
Desde que foi presa Ada sentia falta dos hotéis de cinco estrelas e lofts modernos onde costumava se hospedar durante suas missões. E, especialmente, sentia falta de ter um banheiro exclusivo só para ela, com água morna, banheira e sais relaxantes e cheirosos.
Ada sempre foi acostumada a viver sozinha, nunca dividiu espaço com ninguém. Isto é, só na cadeia com outras detentas que, às vezes, sentia vontade de cortar a garganta delas.
Bom, pelo menos agora só terá que dividir o lugar com aquele cara que parecia presunçoso por vê-la humilhada.
— Qual quarto você quer ficar? — Tinha algo bom nisso, Ada teria o seu próprio quarto, com uma penteadeira que tinha um espelho.
— Bem esse aqui! — ela se jogou sobre a cama, sentindo que o colchão era bom, com lençóis limpos, a coberta era macia e quentinha e era espaçosa.
No entanto, seu sorriso logo se desfez, ao sentir o homem se jogar ao seu lado, também decidido a testar o colchão.
— Ótimo! Gostei... é bem espaçosa para um homem grande como eu. — Ele sorri se espreguiçando e deixando-a irritada. — Vou ficar com esse quarto. — Leon vira o rosto para encará-la. Eles estão deitados lado a lado, muito próximos.
Eles nunca ficaram tão próximos assim. Quer dizer, isso era uma mentira... A dupla já ficou sim bem próxima até demais. Foi lá em Raccoon City, após se conhecerem no meio daquele caos. Houve um momento, que a espiã ousou lhe dar um beijo molhado e apaixonante.
Aquele beijo era para ser apenas uma jogada para seduzir o próprio novato e ganhar a confiança dele, para depois descartá-lo quando o rapaz ingênuo não lhe fosse mais útil. Todavia, no final aquele beijo teve um significado bem mais profundo e especial para a espiã. Porém, Ada se recusava a admitir isso, até para si mesma.
Depois houve outro momento de muita proximidade na Espanha, quando tentou seduzi-lo outra vez, mas foi rejeitada, demonstrando que Leon tinha amadurecido, se tornado um homem que não cairia facilmente em seus encantos.
Seus olhos castanhos se cruzaram com os azuis dele e, por um instante, eles ficaram na cama se encarando em silêncio. Até que ela resolveu se levantar e se afastar dele.
— É melhor você ir tomar um banho. Você tá fedendo! — Ele novamente a provoca, assim que a mulher sai do quarto emburrada e batendo a porta do banheiro.
Leon olha para o teto e se permite soltar a respiração que nem sabia que estava segurando, enquanto tentava acalmar o seu próprio coração. Essa proximidade com aquela mulher seria um teste perigoso para a sua sanidade.
Será que a dupla vai conseguir conviver civilizadamente dentro daquela pequena Cabana?
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