Condenada a Você
4 Sem Luxo
Notas iniciais
Ela tinha prometido que quando saísse daquela prisão, a primeira coisa que faria era tomar um banho com água morna. Foram cinco anos de banhos gelados até no inverno. Não foi moleza. Agora a espiã resolveu que reclamaria menos e aproveitaria até as pequenas coisas que antes não dava a mínima importância.
Ela não tinha seus produtos caros e importados, mas tinha sabonete, shampoo e condicionador de uma marca desconhecida, mas que pelo menos era muito cheiroso.
O banho foi demorado e relaxante e quase a fez esquecer que estava em prisão domiciliar, se não fosse pela tornozeleira eletrônica que, infelizmente, era à prova d’água, sem contar no agente americano que agora era seu tutor legal e não largava do seu pé.
— Ei, vê se não acaba com a água! Eu também quero tomar um banho! — o homem reclamava, batendo fortemente na porta.
Ada sai do chuveiro, se enrola numa toalha felpuda preta, depois para perto da pia e se olha no espelho do armário. Os cabelos estão longos, então, tenta procurar por uma tesoura para aparar as pontas.
Não há tesoura, mas encontra um par de escovas de dente, escova de cabelo, creme dental e, o mais interessante de tudo, um frasco de protetor solar e um pote de creme hidratante que ela resolveu usar. E isso pareceu melhorar o seu ânimo.
— Ei Wong, o que você tá fazendo? — Ele para de resmungar e fica chocado quando ela abre a porta, embrulhada apenas na toalha preta. A pele dela ainda parecia úmida por causa das gotas d’água que caiam dos seus cabelos negros e molhados.
— O banheiro é todo o seu! — Ela lhe dá um breve sorriso, antes de passar por ele, deixando um cheiro gostoso no ar que mexeu com Leon.
Enquanto o homem se tranca no banheiro, Ada vai conhecer o seu novo quarto que era menor e não tinha uma penteadeira. Há uma mesinha ao lado da cama e um guarda-roupa antigo de duas portas.
— O que nós temos aqui? — Eram poucas peças de roupas, mais para a rotina do dia a dia, tipo calças e saias jeans desbotadas, dois pijamas, regatas, camisetas de gola em V que ficaram largas, um casaco e um suéter caso esfriasse e, por fim, um vestido floral de tecido fino bom para o calor.
No final optou por um dos pijamas que também ficou largo. Já estava tarde e o máximo que daria para fazer era jantar e dormir.
Ao sair do quarto esbarrou com Leon, já devidamente de banho tomado e usando outra roupa. Ela o seguiu até a cozinha onde ele arrumou a mesa com o jantar que a esposa de Johnny fez para eles.
— Está com fome? — Ela assentiu. Os dois se sentaram à mesa de frente para o outro e foram comer em silêncio por uns minutos. Leon a observava devorando aquele prato com vontade.
— Nossa, fazia tempo que não comia uma comida caseira tão saborosa — ela admitiu um pouco constrangida.
— A comida na cadeia é horrível?
— Você teria que experimentar para saber.
— Não, obrigado! — Leon debocha. — Sabe qual é a maior ironia desse momento aqui? — resolveu questioná-la ao se lembrar de algo.
— Qual?
— Quando você fingia ser a senhorita Escarlate... — Havia um tom mordaz na voz dele que deixou Ada confusa. — Eu tinha te convidado para um jantar e você me rejeitou, lembra?
— Ah, me lembrei agora! Mas, você disse... que me pagaria um jantar, se tivéssemos pegado Wesker. — Ada resolveu fazê-lo se lembrar que eles falharam naquela missão. — Bem, nós não pegamos Wesker, você quase morreu e... eu acabei presa.
— Bom, essa é a ironia... — Leon gostava de atiçá-la. — Cá está você, jantando comigo, mesmo que forçadamente.
Após o jantar Leon resolveu explicar as regras da liberdade condicional dela, começando pela tornozeleira eletrônica que precisava ser carregada na tomada todos os dias por duas horas, obrigando a espiã a se sentar no sofá e esperar pela recarga completa, exatamente como agora.
— Se você ousar ultrapassar a cerca da fazenda, o aparelho apita e envia um alerta imediato para a central e para o meu celular. E só pode sair da propriedade com autorização do juiz e escoltada por mim.
— Eu já sei disso. — Para não voltar para a prisão federal, a espiã teve que assinar um documento se comprometendo a cumprir aquelas regras.
— Você não pode usar celular, ou computador sem a minha supervisão. Mas, você ainda poderá falar com o seu advogado. Tem o telefone fixo ali. E, se você for uma boa menina... — enfatizou fazendo-a revirar os olhos. — Posso de vez em quando emprestar o meu celular.
— Tá bom, chefe! — respondeu bocejando.
— Ah, tem mais uma coisa... falei com o Johnny e decidimos que você precisa de uma ocupação.
— Que tipo de ocupação eu terei neste fim de mundo? — A sua pergunta fez Leon sorrir com petulância.
— Numa fazenda sempre tem o que fazer. Tipo tratar os cavalos, pegar leite da vaca e manter a nossa cabana limpa.
— A nossa cabana?! — Ela cruzou os braços na frente do peito e arqueou as sobrancelhas. — Você tá agindo como se fôssemos um casal.
— Bem, eu estou com sono e vou dormir. — Ele para observando o pé dela. — Você ainda vai ter que esperar pela recarga completa da sua tornozeleira. Então, boa sorte e... boa noite! — Leon vai embora deixando-a sozinha.
Sem opção, Ada fecha os olhos se sentindo frustrada e humilhada.
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Ada acordou com o canto irritante do galo, sentindo uma baita preguiça e desejando dormir mais. Quando abre os olhos percebe que está em sua cama, mas nem se lembra como chegou lá. Sua última lembrança era de estar sentada no sofá, esperando a droga do dispositivo em seu pé recarregar.
Era como se só tivesse piscando os olhos e de repente já havia amanhecido. O sol nem havia nascido ainda, estava escuro lá fora e o relógio da parede marcava 5 da manhã.
O galo continua a cantarolar. A ironia é que na prisão a cantiga da ave era substituída pelas vozes e gritos irritantes das carcereiras.
Ada se levanta e vai se trocar ainda se sentindo meio lerda. Ao abrir a porta dá de cara com Leon que estava prestes a bater.
— Que bom que você já acordou. É melhor você tomar o café rápido. O trabalho aqui começa bem cedo.
— Sim, senhor! — a mulher exclama com raiva indo se trancar no banheiro.
Depois se junta a ele para tomar o café da manhã. Surpreendentemente, encontra ovos mexidos, pão e queijo de fazenda junto com um cafezinho com leite fresco e quente. Infelizmente, foi forçada a comer rápido sem poder apreciar como gostaria.
Johnny Blum e sua filha, logo vieram buscá-la para o seu primeiro dia de trabalho no Sol Dourado. Debra era uma jovem veterinária que havia se formado recentemente.
— Vai ser fácil. É só alimentar os cavalos e manter os estábulos limpos. O pior será o chiqueiro. — A jovem tentou alertá-la.
— O quê? Chiqueiro? — Só de pensar sobre isso, Ada enrugou o nariz em desgosto.
— Não se preocupe, o chiqueiro ficará para outro dia... — Johnny explicou fumando o seu cigarro enquanto esperava ela terminar de calçar as botas de borracha e pôr as luvas. — Hoje o seu trabalho será apenas com os cavalos.
Johnny tinha uma grande criação de cavalos de raça pura e lucravam muito com isto. A Fazenda Sol Dourado também era conhecida por produzir leite e os melhores queijos da região.
E como o prometido, os estábulos até que foram tranquilos, existiam dois peões lhe ajudando: Billy Joe era um homem de ação e poucas palavras, enquanto Lambreta era engraçado pelo próprio apelido, um cara baixinho, magricela e muito fofoqueiro que parecia gostar de lhe dar ordens o tempo todo.
— Eu ainda acho que Lambretinha combina mais com você — Ada zombou do peão, provocando o riso de outros olhares curiosos.
Enquanto perdia o seu tempo limpando estrume, por um instante se distraiu, vislumbrando Leon conversando muito animadamente com Debra enquanto o par escovava o pelo de um dos cavalos.
— Ah, esses dois formam um parzinho bonito, né. — Ouviu o comentário de Lambreta com o seu sotaque caipira.
— O Patrão até que ia gostar. Leon é como um filho para ele — dizia Sansão o capataz mais experiente e carrancudo que a fazia lembrar o capitão Redfield. — O cara é considerado um dos melhores agentes do governo, que foi treinado pelo nosso próprio chefe.
— Que puxação de saco é essa? O cara nem é tudo isso! — reclamou um peão jovem com braços fortes, pele bronzeada pelo sol, de olhos pretos expressivos e um sorriso safado. — Eu sou Cody, minha bela senhorita! — o homem tirou o chapéu e cumprimentou Ada de um jeito galanteador que a fez se lembrar de Luís Sera (um cientista espanhol que a espiã conheceu durante a missão na Espanha).
Ada gostou do jeito atrevido de Cody que parecia não simpatizar com o Leon. Isso foi bom, pois era uma chatice ver todo mundo puxando o saco daquele agente.
— E me desculpa perguntar, mas... qual foi o crime que a bela moça cometeu? — Naquele momento, todo mundo ficou tenso, até mesmo Leon parou de conversar com Debra e encarou Ada com apreensão.
— Bem, eu sou... — A espiã chegou a hesitar em se apresentar. — Ada Wong, a mulher considerada a mais perigosa do mundo. — Ela se aproxima, perigosamente, do jovem peão que não recua, continua a olhando com um olhar desafiador. — Eu sou uma assassina fria, por isso não me provoquem! — sussurra bem perto do ouvido de Cody que se arrepia, não por medo, mas porque ficou excitado e seduzido pela aura de perigo que exalava da beldade chinesa.
Ada se afasta de Cody e encara Leon com um olhar afrontoso, esboçando um sorriso sardônico e uma postura de uma mulher que não se deixaria ser facilmente dominada por aquele ambiente rústico e meia dúzia de caipiras que fediam a suor, poeira e cocô de cavalo, mas que nunca conseguiriam fazê-la curvar a cabeça.
Apesar de tudo, Ada Wong sobreviveu ao seu primeiro dia naquela fazenda.
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