Conde Erick

7 Legítima defesa


Notas iniciais
O capítulo a seguir contém cenas de violência e não é recomendado para menores de 13 anos. Recomenda-se cautela ao leitor

Senhor Robert levava o chá para a biblioteca para servi-lo a Condessa Lucy, que estava lendo um livro. Já fazia quatro meses que Lucy e Erick haviam se casado. O clima de lua-de-mel do casal ainda era grande. Sempre que estavam juntos, trocavam olhares, toques, beijos e caricias. Mas aquele fim de semana era diferente, Conde Erick precisou viajar para o norte da província, uma viajem que achou que seria rápida, partindo num dia e voltando no outro. Porém, já era a noite do quarto dia que se ausentara e Lucy estava saudosa dele. Havia mandado um mensageiro que chegou naquela manhã, informando que houvera contratempos nos negócios, mas que chegaria ao final da tarde, dali dois dias, na terça-feira. A jovem contava os minutos para encontrar seu esposo.

— Aqui está o chá, Condessa. – Senhor Robert serviu a xícara com o líquido quente e reconfortante.

— Obrigado, Senhor Robert, parece ótimo.

— A senhora pode me chamar apenas de Robert.

— Assim como o senhor pode me chamar apenas de Lucy. – A etiqueta dos servos não permitia que Robert chamasse Lucy pelo primeiro nome, sem usar seu título de nobreza. Ele se reservou a dar um sorriso condescendente e a jovem patroa sorriu de volta.

— Mestre Erick retornará terça, provavelmente no final da tarde.

— Sim, já não me aguento de saudade. O que acha de fazermos algo especial para dar as boas-vindas a ele?

— Me parece uma ótima ideia, o que a senhora tem em mente?

— Algo que ele goste de comer, algo que ele não tenha provado a algum tempo. O que acha?

— Interessante, pode ser biscoitos de gengibre, faz muito tempo que não fazemos aqui na mansão e ele sempre gostou, desde criança.

— Então está resolvido, faremos biscoitos para ele como boas-vindas. – Os dois sorriram e o servo se retirou, indo à cozinha passar as instruções aos empregados.

No dia seguinte, Lucy não se aguentava de ansiedade pela chegada de seu marido, cozinhou os biscoitos junto com as cozinheiras, embora sua fornada não tenha ficado tão boa quanto das outras, ela queria fazer algo pra Erick com suas próprias mãos.

Após o almoço, saiu para dar uma volta a cavalo, tentando se distrair da ansiedade que só aumentava a cada minuto. Quando chegou no estábulo o tratador dos cavalos estava com um rapaz que ela nunca havia visto antes.

— Boa tarde, Condessa. – O tratador fez uma reverência, acompanhado pelo rapaz. – Este é meu sobrinho, Evan. Evan, esta é a Condessa Lucy Stuart. Ele veio para aprender a ser tratador de cavalos, então ele me ajudará com os animais.

— Boa tarde, senhor Evan. O senhor Matt é ótimo com os cavalos, certamente terá um bom professor.

— É sim, pude ver nessas horas que passamos juntos. – O rapaz respondeu.

— Bondade sua, Condessa. – O tratador ficou envergonhado pelo elogio e a jovem Condessa seguiu para dentro da mansão, sendo seguida pelo olhar de Evan, que era alto, forte e muito atraente, características que nem sequer chamaram a atenção de Lucy, já que ela só tinha olhos para seu esposo.

A tarde passou arrastada e Lucy tentava se distrair como podia. Havia lido livros, tocado ao piano, mas nada tinha a acalmado. Ela decidiu dar uma volta no jardim, para tomar um ar e relaxar, o sol já estava se pondo e a noite caia cedo, como era característico do outono. Ela acabou indo para os estábulos, descobriu que ficar entre os cavalos também a acalmava, tal qual a seu esposo. Ela estava entre os cavalos, fazendo afagos e lhes dando torrões de açúcar.

— Boa noite, Madame.

— AHHH! — Lucy gritou com o susto. Quando olhou ao redor, viu sair de uma das baias dos cavalos Evan, o sobrinho do tratador dos cavalos.

— Desculpe, Condessa, não foi minha intenção assustá-la.

O coração de Lucy estava acelerado e ela respirava fundo para se acalmar.

— Tudo bem, senhor Evan. Apenas me pegou desprevenida. Não imaginava que haveria alguém aqui até essa hora.

— Meu tio precisou sair para resolver uns assuntos e me deixou para terminar as tarefas, como não sou tão ágil como ele, estou levando mais tempo.

— Mas logo pegará o jeito, bem se vê que é esforçado. — Lucy sorria simpaticamente, mas Evan olhava para ela de modo estranho.

— Meu tio me disse que o Conde está viajando. Quando ele retornará?

— Acredito que amanhã à tarde. Estou morrendo de saudades. — Dizia a jovem enquanto acariciava um cavalo.

— A senhora é a 6ª esposa, certo? Sabe o que dizem sobre as anteriores? — Lucy olhou para ele com um misto de raiva e incredulidade por ele ter a audácia de lhe dizer aquilo.

— Eu sei dos boatos, senhor Evan. São calunias maldosas, certamente. E agradeceria se não mais às proferisse em minha presença. Com licença! — Lucy estava indignada e estava se retirando o recinto quando sentiu seu braço ser puxado por Evan.

— O que lhe digo é apenas para o seu bem, seria uma pena uma mulher tão jovem e bonita acabar virando um cadáver podre em algum quarto dessa mansão tenebrosa. — Disse isso segurando o braço de Lucy com uma mão e fazendo um carinho no rosto dela com a outra. Ela puxou seu braço com força, soltando-se dele lhe dando um tapa no rosto.

— NÃO ME TOQUE! – A jovem gritou, tentando parecer confiante, mas estava apavorada.

— Você só deve estar com esse Conde pelo dinheiro dele. Duvido que ele seja bom em te dar prazer. Eu vou te mostrar como um homem de verdade faz. — Ele a segurou com força e a pressionou contra uma baia, se aproximando de seu rosto. A jovem estava aterrorizada e fez a única coisa que conseguia para se defender antes que ele encostasse nela, chutou o rapaz bem no meio das pernas.

Evan caiu no chão, soltando Lucy. Ela correu para fora do estabulo, pegando uma faca que estava numa bancada de trabalho próxima da saída.

— NÃO SE APROXIME! — Lucy gritou para ele com a faca apontada para o rapaz que já estava se pondo de pé. Lucy correu em direção a mansão, gritando a plenos pulmões e com a faca na mão — SOCORRO!

Evan correu atrás dela cego de ódio.

— Sua vadia ordinária! Eu vou te pegar e acabar contigo.

Ele correu e acabou por alcançá-la, agarrando o braço sem a faca e puxando-o para traz. Lucy apenas reagiu, sem pensar no que estava fazendo e apunhalou o rapaz no peito, bem no coração. Nesse momento lembrou de uma lição de caça que o pai dera para seus irmãos, “quando apunhalar uma presa no coração com uma faca, torça ela para que o animal tenha uma morte rápida”, então ela torceu a faca e puxou de volta, tirando-a do tórax de Evan. Ele perdeu a força na mão e soltou o braço da jovem, caindo por cima dela, já sem vida. Ela o jogou para o lado, tirando-o de cima. Seu vestido e suas mãos estavam encharcados com o sangue dele, ela tentava esfregar para que saísse, mas só espalhava mais. Ela estava apavorada e respirava com dificuldade. Estava tendo um ataque de pânico. Como iria explicar o que aconteceu? Será que acreditariam nela? Será que seu marido ainda a amaria quando soubesse do ocorrido? O coração de Lucy batia acelerado, ela tentava tirar as manchas em vão, o pânico tomava conta de si. De repente sentiu uma mão lhe agarrar os braços. Como seria possível? Evan estava caído a poucos instantes, como teria sobrevivido a punhalada no peito? Ela não queria olhar para ele, ela se debatia e gritava para que ele a soltasse. O desespero tomou conta dela.

— LUCY! — Uma voz e um chacoalham a fizeram voltar a razão. Ela olhou para quem a segurava e viu seu amado Erick olhando-a com expando e preocupação. Quando viu seu rosto, Lucy desabou, agarrou suas roupas e chorou copiosamente. Ele a abraçou, um abraço reconfortante.

— Eu...eu não queria...ele me atacou...eu não queria... – A jovem falava entre um soluço e outro.

— Está tudo bem agora, eu vou cuidar de você. – Erick a pegou no colo, levando-a para o quarto.

Ele pediu as criadas que aprontassem um banho quente para a esposa e um chá calmante. Ele pediu para que Robert desse um jeito no homem que jazia no jardim. Ele a levou para o quarto, a despiu completamente e a mergulhou no banho quente. A essa altura, já havia parado de chorar, mas estava em um estado catatônico por conta do trauma. O sangue havia passado o tecido do vestido que usava e sujou sua pele, ela tremeu quando Erick a pôs na banheira e a água ficou vermelha.

— Olhe para mim, não olhe para a água. Olhe só para mim. – O Conde disse a sua esposa, que obedeceu e fixou seu olhar no marido, enquanto ele lavava seu corpo do líquido rubro. Uma empregada entrou e levou o vestido ensanguentado e Lucy ficou aliviada de o cheiro do sangue ter diminuído. Aos poucos, ia saindo do estado catatônico e começava a querer falar com Erick, mas não sabia o que dizer.

— E..eu.. – Ela tentou iniciar uma conversa. – Eu não queria ter feito aquilo, mas eu não tive escolha.

— Eu acredito em você.

— Você ainda vai conseguir me amar? Mesmo eu sendo uma assassina? – Essa era a verdadeira preocupação de Lucy, se seu esposo poderia amá-la, mesmo ela tendo tirado a vida de outra pessoa. Erick pegou o braço que Evan havia puxado com força, estava roxo com as marcas dos dedos dele e Lucy só sentira agora que a adrenalina baixara.

— Você fez o que fez para se defender. – Ele acariciou o braço roxo dela delicadamente – Você lutou contra ele e teve coragem para revidar. Eu estou orgulhoso. — Lucy não segurou a emoção, seu amado não só entendia como aceitava o que ela havia feito. Ela o abraçou, mesmo toda molhada, e ele abraçou de volta, ignorando a água.

Após o banho, ela tomou o chá calmante e se deitou para descansar, nos braços de Erick que lhe fazia carinhos nos cabelos. Foi quando percebeu uma coisa e perguntou.

— Você não deveria ter chegado só amanhã à tarde? Não que eu esteja reclamando.

— Sim, deveria, mas consegui terminar os negócios antes do previsto e adiantei a viajem o mais rápido possível. Eu senti muito sua falta.

Lucy se aninhou ainda mais nos braços de seu esposo, e ambos caíram no sono após um dia com fortes emoções.