Conde Erick
8 Eu te amo
Notas iniciais
Já fazia seis meses do casamento de Erick e Lucy. Após o incidente com o sobrinho do tratador de cavalos, o Conde passou a ser mais cuidadoso com quem contratava para a mansão. O tratador, lógico, nunca soube o que de fato aconteceu com seu sobrinho. Ele foi comunicado que Evan havia sofrido um acidente com os cavalos. Havia levado um coice certeiro na cabeça e acabou falecendo. O Conde, obviamente, compensou a família do rapaz com um bom dinheiro, que os manteria por muitos anos e cuidou da educação do irmão mais novo de Evan, apadrinhando o rapaz e dando a oportunidade de ser tornar advogado no futuro. Tudo para compensar a falta que o rapaz imprudente faria no sustento da família. Erick achava até que eles estariam melhor sem Evan. A audácia dele foi tamanha que seria impossível aquela ter sido a primeira vez que atacara uma mulher, certamente, se sua mãe soubesse, teria morrido de desgosto, Erick julgou.
— Querida, está animada para sua festa de aniversário? — Erick perguntava a Lucy, que lia um livro, distraidamente.
— Na verdade não. Só de pensar que não poderá estar comigo no dia, perco todo o ânimo para comemorar. — Erick tinha uma reunião inadiável com parceiros comerciais que vieram da Índia. E não poderia levar Lucy, que havia estado doente há alguns dias e estava se recuperando. A festa seria no próximo fim de semana e para compensar a ausência, havia convidado todos os familiares de sua esposa para a festa.
— Não fique assim, me parte o coração não poder estar com você também, mas todos os seus irmãos e seus pais estarão com você no dia, faço questão que não esteja sozinha. — Erick tira duas chaves do bolso, uma bem adornada e outra mais simples parecendo bem antiga. — A propósito, queria lhe dar isso. Esta é a chave mestra da mansão, com ela poderá ir para qualquer lugar. — Ele apontou para chave adornada.
— E essa com cara de antiga?
— É a chave do porão da mansão. — Ele parecia relutante em falar sobre isso. — Eu guardo coisas no porão das quais não me orgulho. Gostaria que você, em hipótese alguma, fosse lá. Me prometa.
— Claro, meu amor, jamais irei lá, até o dia que você mesmo queira me mostrar. — Lucy fez um carinho em seu rosto e ele pegou sua mão e a beijou.
O dia seguinte foi a viajem de Conde Erick. Após uma despedida triste, Condessa Lucy começou a delegar funções aos criados, em parte para preparar a mansão para seus familiares, em parte para distrair a mente da saudade que sentia. Seus parentes chegariam no dia seguinte e a festa seria dali 3 dias. Ela planejara diversas atividades para seus convidados. Para começar, um banquete de boas-vindas. Os irmãos e o pai iriam caçar na floresta próxima a propriedade e a mãe, a irmã e as cunhadas ganhariam vestidos novos que ela pediria para a modista da cidade costurar, além de mimos para seu pequeno sobrinho que estava para nascer nos próximos meses.
No dia seguinte, Lucy recepcionou a mãe e a irmã e os demais. Somente após ver a família, percebeu como sentia falta deles. Abraçou a mãe e o pai afetuosa e demoradamente. Os irmãos faziam reverências de brincadeira, devido ao título de Condessa que tinha após o casamento. Abraçou Ambre apertado, demonstrando toda a saudade que sentira de sua irmã, mesmo depois de tudo que passaram no passado. Parecia que a distância apagou os momentos ruins das irmãs, restando somente os bons no coração de Lucy.
Todos se serviram do banquete que a Condessa tinha organizado. Conversaram, cantaram, brincaram e se divertiram. Lucy parecia muito feliz por ter todos a sua volta, mas quando todos foram dormir, quando se viu sozinha em seu quarto, a falta de seu marido a pegou por completo. Ela observava através da janela, mas sem ver nada em especifico, apenas deixando a mente vagar por pensamentos. De repente ouviu alguém bater na porta do seu quarto.
— Entre. — Lucy ordenou. Ambre adentrou o quarto. — Boa noite, irmã, algo de errado com seu aposento?
— Não, está tudo ótimo. O que não está ótimo é essa sua cara de enterro. Eu imaginei que estaria chateada pelo Conde não estar aqui, então vim ver como estava. – Aquilo surpreendeu Lucy. Ambre parecia ter mudado e adquirido empatia pelas pessoas nesse tempo em que esteve longe.
— De fato, irmã, sinto falta de meu marido.
— Eu não entendo como você se apaixonou por ele. Ele me dá um pouco de medo até hoje, mas é um fato que ele te faz bem. Então vou fazer companhia a você enquanto estiver aqui. Você aceita? — Disse isso, abrindo os braços e sentando-se na cama do casal. Lucy aceitou o abraço de Ambre e ambas deitaram lado a lado na cama, num abraço fraternal.
— A última vez que dividimos uma cama foi na casa do tio George, lembra? A casa estava cheia pelo casamento de Armin. Parece que foi uma vida atrás. — Lucy recordava.
— Sim, ele foi o primeiro a casar de todos nós. Ele sempre foi o mais emocionado. — As irmãs riram com histórias e lembranças.
Nos dias seguintes, o clima seguiu alegre na mansão, os homens bebiam, andavam a cavalo e caçavam. As mulheres conversavam, passeavam e todos jogavam jogos de salão e nos jardins.
O dia da festa foi uma diversão para Lucy, manteve tudo em família, sem convidados de fora. Comida, bebida, música e diversão. Sentiria falta de todos quando eles se fossem. Foi quando, ao final da festa Ambre fez a proposta.
— Eu posso ficar até o Conde voltar. O que acha?
— Faria isso por mim, irmã?
— É claro, já está mais que na hora de eu cuidar da minha irmãzinha. – Ambre e Lucy se abraçaram.
No dia seguinte foi a despedida da família. As irmãs ficaram na mansão e os irmãos, cunhadas e pais voltaram para suas respectivas casas. Sem os demais familiares, os dias pareciam mais calmos, quase monótonos. As irmãs aproveitaram para explorar toda a mansão, já que tinham a chave-mestra. Lucy conhecia tudo, mas havia lugares que quase não havia estado. Toda vez que usava a chave, Ambre se perguntava o que aquela chave velha abriria.
— Lucy, de onde é essa chave velha.
— Erick me disse que era do porão, mas pediu para que eu não fosse lá.
— Ele te deu uma chave pra um lugar que não quer que você vá? Não faz sentido.
— Não importa. Não vou trair confiança dele. Me prometa, você não vai até lá.
— Tá bem. – Ambre disse, dando de ombros para agradar a irmã, mas ficou com aquela chave na cabeça.
O dia seguinte chegou, era o dia da chegada do Conde Erick. Lucy estava animadíssima, mas Ambre ainda estava com a história do porão na mente. Queria saber o que tinha naquele lugar para o Conde querer esconder. Então teve uma ideia.
— Irmã, por que não toma um banho perfumado pra se aprontar para seu marido. Acredito que ele esteja com tantas saudades quanto você está dele.
— Que ótima ideia, Ambre. Vou pedir agora mesmo que preparem o banho. – A jovem Condessa saiu do quarto para falar aos criados, enquanto Ambre pegou a chave que estava na mesa de cabeceira da irmã. Ela escondeu e quando Lucy entrou no banho, saiu do quarto dando um pretexto.
— Vou deixar você relaxar, minha irmã. Vou tomar um chá. — Ela deu um sorriso a Lucy que aproveitava o banho. Ela se dirigiu ao porão, prestando atenção para que os criados não a vissem. Parou em frente a porta.
Era uma porta pesada, de madeira maciça, que destoava das outras da casa, parecia ser bem antiga. Provavelmente era de antes da casa ter sido construída. A curiosidade de Ambre era maior do que a consideração que ela tinha em respeitar o pedido da irmã. Ela pegou a chave e girou na fechadura. A porta rangeu alto e um cheiro estranho de bolor e azedo invadiu suas narinas. Parecia que aquele cômodo não era aberto a muito tempo e estava completamente escuro. Ela entrou, sem enxergar, esperando seus olhos se acostumarem com a escuridão. Aos poucos, sua visão se ajustava ao ambiente. Ela viu 5 caixas de madeira, colocadas uma ao lado da outra, ela achou estranho, todo aquele mistério por causa de caixas. Ela não estava satisfeita e resolveu abrir a tampa de uma delas. Abriu o da esquerda, cuja caixa parecia mais antiga. Quando viu seu interior, seu coração parou, havia um esqueleto dentro, com um vestido de seda lindo, mas com uma mancha de sangue que vinha de cima para baixo, na altura do pescoço. Ela se controlou para não gritar. Abriu rapidamente as outras caixas, havia outras mulheres, todas em estados de decomposição diferentes, foi aí que Ambre ligou os pontos: 5 caixões, 5 esposas desaparecidas, 5 mulheres mortas. Os boatos eram reais, o Conde Erick matou suas esposas, ele as guardou no porão para que nunca fosse descoberto. Ele fará o mesmo com sua irmã. Mas isso ela não permitiria, ela fugiria com a irmã daquele lugar. Ela correu pelos corredores da mansão, foi até o quarto da irmã que terminava de se vestir.
— Lucy! Vamos embora, vamos agora! — Ela agarrava a mão da irmã com urgência.
— O que? Do que está falando, ir embora de onde?
— Desta casa nefasta, temos que ir agora!
— Eu não estou entendendo, Ambre. Por que eu iria embora da minha própria casa?
— Elas estão aqui, todas elas estão aqui. — Ambre andava de um lado pro outro, tentando organizar as ideias e achar palavras para falar a irmã que seu marido era um assassino.
— Quem está aqui?
— Elas, as esposas, todas elas. Todas as esposas do Conde estão aqui. Estão no porão.
— Você foi ao porão? Eu lhe disse para não ir. — Lucy parecia mais chocada com a promessa quebrada da irmã do que com o que Ambre achou lá.
— Está prestando atenção no que estou dizendo? As esposas do Conde estão no porão, dentro de caixões! Elas estão MORTAS! Ele as matou, os boatos são verdade, ele matou todas elas!
Lucy emudeceu com a cara pálida. Ambre agarrou o braço da irmã e a puxou.
— Temos que sair daqui antes que o Conde...
— Lucy, meu amor, estou de volta. — A voz de Erick ressoou pela mansão.
— Droga, temos que sair. — Ambre puxou Lucy pelo braço, a jovem seguia a irmã mais velha ainda em torpor pela notícia. Erick chamava pela esposa e A irmã mais velha podia ouvi-lo se aproximar.
— Vamos para a sala de troféus. — A sala tinha os troféus de caça da família, além de armas de fogo e armas brancas. Ela entrou com Lucy e avistou duas espadas cruzadas no alto da lareira. Ela as pegou, dando uma para Lucy e empunhando a outra. Foi quando ouviu a porta se abrir numa batida e viu o Conde na porta com uma expressão de irritado. Ambre apontou a espada para Erick e protegendo Lucy atrás de si.
— Mas o que significa isso? — O Conde estava mais assustador do que Ambre se lembrava.
— Não se aproxime! Nós iremos embora!
— O que você está dizendo? Lucy concorda com isso?
— Ela não vai te responder. Ela está em choque, ela descobriu que seu marido é um matador de esposas! Não vou deixar minha irmãzinha ser a próxima.
— Então ela foi ao porão... — Conde Erick parecia decepcionado. Aquela frase tirou Lucy do torpor.
— Eu não fui lá Erick, eu juro que não. — Lucy dizia, segurando a espada com a lâmina voltada para o chão e com olhar de suplica.
— É claro que essa tonta não foi lá, ela te ama tanto que não te desobedeceria nem que a vida dela dependesse disso. Eu fui! — Ambre ainda segurava a espada e protegia Lucy com seu corpo. — Eu peguei a chave escondida e fui, eu as vi. Suas esposas mortas. Você as matou e ia fazer o mesmo com minha irmã.
— Não, eu jamais faria... eu não quis fazer isso com elas, mas elas me traíram...
— Todas as 5? Acho difícil todas elas terem amantes.
— Elas não me traíram desse jeito, a primeira sim, eu a matei num ato de raiva, mas as outras foram ao porão, descobriram uma sobre a outra, traíram minha confiança. Elas me traíram, então eu não podia deixa-las viver. — A explicação de Erick parecia absurda.
— É impossível estar com alguém que não se confia. Eu compreendo porque ele fez isso. — Lucy olhava para o esposo, um olhar indulgente. Ambre estava incrédula com a irmã e mesmo com seu olhar voltado para o Conde que ainda estava parado na porta, disse a Lucy.
— Está louca, irmã! Vamos embora! Não vou deixar você morrer nas mãos de... — Ambre se calou de repente, sentiu uma fisgada forte no peito. Não entendeu de imediato o que causava a sua dor, apenas viu que a sua frente surgir uma linha vermelha. Ela não entendeu o que era até olhar para trás e ver sua irmãzinha, empunhando a espada que lhe dera a instantes atrás, cravada em suas costas e a lâmina sair por seu peito. O fio vermelho que via era seu próprio sangue que sujava a espada. — Irmã... Porque? — Ambre estava incrédula com a situação e caiu no chão da sala, enquanto sangrava sobre o tapete. Erick parecia surpreso com a atitude da esposa.
— Minha querida irmã, — Lucy se dirigiu ao corpo de Ambre que agonizava, colocou a cabeça da irmã sobre seu colo e lhe fez carinhos nos cabelos. — jamais esquecerei o que fez por mim, tentando me defender. Mas seguir você significaria deixar Erick para trás, e isso eu não posso fazer. Eu sou dele e ele é meu, pertencemos um ao outro.
— Você... prefere... ficar com um assassino e... trair sua família. — Ambre usava suas últimas forças para discutir com a irmã.
— Eu não espero que você entenda, Ambre. Você nunca amou ninguém tanto quanto ama a si mesma. Eu amo Erick de todo meu coração, ele é minha família agora. Como não vou proteger o pai do meu filho? — Aquela informação pegou todos de surpresa.
— O que? Como assim? Desde quando? — Erick gaguejava com a surpresa. Lucy colocou a cabeça da irmã no chão, delicadamente e se levantou para ir até o marido, pegou-lhe as mãos e respondeu.
— A indisposição que tive na semana anterior a sua viajem. O doutor me disse que era da gravidez. Não queria te preocupar antes da viajem, por isso não contei. Deixei para contar quando você retornasse, mas não queria que fosse desse jeito. — Ela abraçou o Conde que a abraçou de volta com carinho.
— Espero... que vocês... queimem... no inferno. — Ambre disse, dando seu último suspiro. Suas pupilas dilataram e assim a vida se foi de seu corpo.
— Minha irmã, espero que encontre o amor na próxima vida. — Lucy se abaixou e fechou os olhos de Ambre.
Os dias seguintes foram de luto para toda a família. A morte da filha mais velha da família Lennox foi totalmente inesperada. A notícia de que uma doença acometeu a jovem e ceifou sua vida só não foi mais devastadora para Vitória Lennox por causa da notícia da gravidez de sua filha mais nova. Madame Lennox teria seu segundo neto, mesmo antes do primeiro nascer. Após alguns meses tristes, o nascimento da Filha de Kentin e Celeste foi um sopro de felicidade na família. Eles a chamaram de Ambre, em homenagem a recém falecida irmã.
Uma noite, enquanto Lucy estava deitada na cama, e Erick alisava sua barriga, que já estava ficando grande por conta do bebê. Ele perguntou a esposa.
— Lucy, por que não foi com sua irmã naquele dia?
— Eu disse naquela vez, eu te amo, não posso abandona-lo. Vamos ter um filho, como poderia abandonar o pai do meu filho?
— Eu fiz coisas horríveis, eu fui egoísta.
— Nós fizemos coisas horríveis. E você mesmo me disse ‘não tem problema ser um pouco egoísta'
— Eu tive tanta sorte de te encontrar. – Ele disse enquanto sentia o bebê dentro de Lucy se mexer. — Você acha que será menino ou menina?
— Menino, um menino lindo como o pai. Já tenho até um nome.
— Qual?
— Nathaniel. – nesse momento o bebê deu um chute forte. — Acho que ele também gostou.
Erick abraçou Lucy acomodando-a em sou colo e ela dormiu, com ele fazendo carinho em seus cabelos. O casal estava feliz e viveram juntos por muitos anos. O porão foi limpo e nunca mais tocaram no assunto dos acontecimentos daquele dia.
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