Notas iniciais
Olá! Sentiram minha falta? Bem, eu senti de vocês, e apenas por isso eu vim postar UM dos DOIS capítulos que eu consegui finalizar.
Músicas do capítulo (nesta ordem):
Do This Anymore (Nickelback)
Burn it Down (Avenged Sevenfold)
Boa leitura!

CAPÍTULO 8

“A ignorância é um mal invencível.” — Sófocles.

~~~∞~~~

Chocada, Marilyn Lucevaille Ahgonyson, protestou:

— Fodidamente, não!

Notoriamente, todos os que estavam na sala — cinco cabeças miscigenadamente diferentes —, sobressaltaram-se com seu grito que mais parecia um rosnado. O ruivo, Zane, encarou-a com olhos entendedores e acolhedores, compreendendo a situação em que se encontrava: mais uma vez, no intervalo de menos de uma semana, descobriu as mais diversificadas facetas de sua vida, e esta última, talvez uma das que encabeçava a lista, seu nome, havia sido esquecida. Não, esquecida não. Simplesmente não fora mencionada. Ela encarou cada um dos rostos, absorvendo as expressões; por mais desconhecido que fosse o mundo vampiresco, aquele era o seu mundo. O mundo o qual passaria o resto de seus dias, pelos próximos mil anos, em uma noite eterna. Então, aquelas criaturas que a rodeavam, com seus olhos muito arguciosos e misteriosos, mais uma vez esconderam uma informação vital. Uma que em um processo de passagem como aquele que estava passando, era obrigatória.

Como, raios, ela não saberia seu próprio nome?

Desolada, confusa, magoada, virou sobre seus calcanhares com a intenção de trancar-se no quarto e chorar todas as lágrimas que uma garota pode soltar após tornar-se vampira, descobrir seu pai adultero, ficar rica, conhecer um novo mundo de possibilidades, para logo descobrir que a traíram quando não fizeram nenhuma tentativa para lhe contar seu nome verdadeiro.

O que era uma merda, porque iria ser chamada de Grehta apenas quando o sol nascesse vermelho. Ou seja: nunca.

Porém, um par de braços esculpidamente definidos, duros como aço, quentes, um albergue para suas dores, contiveram-na em seu lugar, fincando-a no chão como uma estaca da madeira nova e vigorosa. Se Rhage houvesse tomado àquela atitude em apenas alguns dias, Mary teria ficado tão zangada que não haveria braços ou calor em questão de segundos. Contudo, Rhage havia se tornado sua muleta particular, responsável por mantê-la de pé durante tempestades e trovões, e também sentimentos mais diversificados, como o forte pesar que caiu em seu peito como uma bomba.

— Por que, Rhage? — perguntou ela, sua voz lamuriosamente baixa, até mesmo para os ouvidos potencializados e capazes dos vampiros. — Por que não me disse antes e me poupou?

Um suspiro escapuliu pelos lábios que estavam próximos de seu ouvido, sua testa encostada em seu cabelo bagunçado, sua trança desfeita.

— Não houve tempo...

Neste momento, debateu-se nos braços largos e dourados.

— Mentiroso! — acusou ela. — Houve tempo o suficiente para que me beijasse, me tocasse e dormisse comigo. Até mesmo para que discutíssemos, mesmo que esta parte fora elementarmente essencial em nossa relação, exceto que você descumpriu a clausula que me tornaria uma moradora permanente na mansão... Enfim! Houve tempo para coisas bobas, mas não para que me contasse sobre o meu nome? Por favor!

Rhage sorriu, seus lábios beijando-lhe a têmpora, seus dedos acariciando a área despida da barriga, suavemente. Todos da sala prestavam atenção aos gestos e a camaradagem adquirida em tempo ínfimo, menos a tola e inepta Mary.

— Minha luz, você parecia muito reticente em ouvir qualquer coisa que saísse de meus lábios. Eu não lhe contaria sobre o nome que Phury escolheu para você desta forma. É um evento especial, e eu tinha certeza que por nada neste mundo desconhecido você trocaria o seu lindo e moderno Mary, por um antigo e potencialmente húngaro Grehta.

Relutante, admitiu:

— Não é uma coisa sem sentido, mas ainda assim estou zangada com você.

Um dos braços de Rhage soltaram sua minúscula cintura, os dedos beliscando a pele suave do tórax, próximo dos seios mais do que o recomendado para um potencial namorado-barra-pretendente, os dedos longos agarrando seu queixo e puxando-lhe, tascando-lhe um casto e quente beijo no canto dos lábios. Mary olhou para o fundo de seus olhos azuis, esquecendo-se da companhia indesejada na casa, dos viajantes exaustos com as malas empilhadas de forma desorganizada e displicente, dos olhos atentos do recém-chegado, que observava tudo com ceticismo e antipatia. Mary perdeu-se nos oceanos cristalinos, pacíficos e nada esbranquiçados das retinas cálidas de Rhage.

Até que inoportunamente, Zane pigarreou.

Um rosnado baixo retumbou no peito largo de Rhage.

— Tudo bem, tudo bem, não sou obrigado a ficar assistindo novela água com açúcar, porque afinal, não sou um homem que perde tempo com bobagens.

O rosnado aumentou de intensidade consideravelmente.

— Silêncio, Zane.

Pela primeira vez na noite, Mary ouviu a voz régia e rouca do homem grande e largo que estava na frente de Elizabeth; também pela primeira vez, Mary conseguiu visualizar os olhos claros e muito expressivos de Elizabeth: estavam transbordando de amor, cheios de calor humano e uma pequena porção de possessiva lealdade, para com o gigante huno que protegia sua vanguarda.

Aquele seria o rei dos vampiros, então.

— Vejo que não serão necessárias largas apresentações, até porque estou muito exausto para citar a minha linhagem desde a décima geração, e quero tirar o atraso com minha Beth.

— Wrath!

O ofego constrangido e ruborizado veio de Elizabeth, apenas um pedaço de sua franja e o brilho iridescente de seus olhos azuis fogo sendo avistado acima dos ombros maciços de Wrath; mesmo sendo muito alta, comparada ao marido, Elizabeth não passava de um gnomo.

A sala encheu-se de risadas.

— Cale-se, Elizabeth. Sem constrangimento, mulher. Estamos com isto faz setenta anos! — resmungou Wrath, inegavelmente apaixonado. — Continuando... Bem, como minha belíssima shellan já disse, me chamo Wrath e sou considerado o Rei dos Vampiros, por ser o último sangue puro de minha raça. Aliás, de nossa raça.

Mary apoiou-se no outro pé, seus braços ainda enrolados na cintura estreita e musculosa de Rhage.

— Hm, eu compreendo, majestade.

Mais uma vez, uma chuva de risada caiu sobre a mansão — a frequência sendo repetida, ecoando pelos compartimentos vazios, fazendo um festim estranho daquele momento descontraído.

— Silêncio — a voz de Wrath retumbou pelos aposentos. — Ouça Mary, não são necessárias estas convenções comigo. A menos no caso de um seguimento de protocolo, situações incomuns da Virgem Escriba, trate-me com familiaridade. Você é bem vinda em minha casa-

— Na realidade, a casa é minha, mas tudo bem — a pequena voz risonha de Elizabeth soou, contrastando com o forte sotaque húngaro de Wrath.

— Elizabeth! — a repreensão foi um censura doce e brincalhona. — Continuando, você é bem vinda em minha casa. Espero que não tenha se sentido desconfortável ou nada parecido — falou Wrath encarando o loiro que circulava sua barriga com braços macios e sem pelos.

— Fale diretamente comigo, meu rei — respondeu Rhage, sorrindo.

— Quando estiver falando com você, guerreiro, farei com que saberá.

Uma bufada fora ouvida.

— Quer falar alguma coisa, Zane?

Zane, puro cabelo ruivo, como um corcel indomável com crinas ao vento, batendo nas bochechas curtidas e estranhamente despelando pela exposição ao sol, encarava-a com olhos inquisidores e perscrutadores, até certo ponto curiosos, investigando o lugar onde Rhage prendia-a ao chão.

— Gostaria de falar com Grehta.

Rhage, incomodado, soltou um rosnado baixo.

— Ela não se chama Grehta, droga. Seu nome é Mary.

— Que eu me lembre, Phury, o pai de Mary, desejou que seu nome fosse Grehta. Grehta! Não Mary, ou Johanna, ou Catarina, ou merda alguma.

— E quem te dá o direito de reivindicar o nome de Mary? Ela não é nada sua.

— Calem suas malditas bocas! — rugiu Wrath, atemorizando a dupla de vampiros iracundos. — Não veem o papel de palhaços que fazem diante da fêmea? Além do quê, pelo o que posso imaginar, Rhage não contou malditamente nada do passado de Phury ou de Lya.

Elizabeth saiu detrás da estrutura de ombros que a mantinham protegida da discussão; seus olhos perspicazes curiosamente atentos, a tez pálida apenas com um toque róseo.

— O que é vital, meu hellren. E você está certo: ele não falou nenhuma palavra. Nem um ‘ai’ sobre a concepção, o nascimento, ou os primeiros anos de vida, além de um resumo pífio que pintavam Lya como uma vagabunda barata, e não uma mestiça no calor do cio. Sem falar de Phury, que a pobre Mary não viu nem a cara.

Uma carranca tenebrosa, toda músculos salientes e pele acobreada, formou-se no rosto bonito e forte de Wrath — infelizmente, dirigidas somente à Rhage.

— Como pode, guerreiro? Isto é uma atrocidade, Rhage! Omitir da pessoa as suas origens.

— Não houve tempo, meu rei!

Mary — que havia permanecido estranhamente calada durante o colóquio quatro-por-três dos vampiros — debateu-se na jaula de contenção que havia se metamorfoseado os braços de Rhage, exigindo sua liberdade.

— Me solta, porra! — rugiu ela, arisca e inconformada. — Até o rei concorda com a minha posição.

— A rainha também! — exclamou Elizabeth erguendo os dedos miúdos.

— Não se meta Beth! — disse o rei ao mesmo tempo que Rhage bramiu:

— Cale a sua boca!

Fritz, que até então não havia dado sua opinião ou expressado suas boas vindas, decidiu naquele instante executar a sua afamada postura de bom anfitrião e mediador das pequenas causas vampirescas.

Mesmo que as palavras de sua boca tenham parecido fel para Mary.

— A Escolhida Tahlya estará descendo para o jantar daqui a poucos minutos, meu rei.

O estalido da mandíbula de Mary ecoou no silêncio repentino do salão; todos sentiam as vibrações que escorriam por seu corpo, emitindo um sinal de alerta para qualquer criatura próxima o suficiente para se machucar.

Porém, o rei o ignorou.

— O jantar estará saindo em trinta minutos, Fritz. Preciso tomar um banho, tirar os nós que o avião causou no meu cabelo, além do quê tenho assuntos pendentes com a senhora minha shellan. E em minha mesa só se comerá quando eu estiver — disse sério, olhando para Rhage.

Rhage bufou.

— Esta lição está um pouco desvanecida em minha mente, neste tempo em que fui obrigado a morar sozinho por aqui, mas juro por meu rei que irei aprendê-las — disse Rhage cheio de ironia, ainda abraçando a cintura de Mary por precaução.

Wrath balançou os dedos, cheios de anéis, na direção de Rhage.

— Esta insolência me insulta, guerreiro.

Elizabeth sorriu.

— Vocês continuam com isto. Pela Virgem! Cresçam.

Wrath, pela primeira vez na noite, explicitou o seu carinho e devoção pela shellan — seu braço poderoso e terroso abraçando os ombros da fêmea alta, puxando-a para o seu peito, enquanto ronronava; um cheiro doce e escuro invadindo as narinas desavisadas de Mary, criando um bolor em seu estomago, ao mesmo tempo sendo repudiado por seus instintos mais básicos, a ponto de enojá-la.

— Eu continuo a crescer, leelan. Acho que você pode sentir — sussurrou Wrath em um tom de voz baixo.

Sorrindo, Rhage abraçou-a — seus lábios encostando-se ao ouvido de forma íntima e intimidadora.

— Acho, minha luz, que isto não era para ser ouvido — sua voz espessou-se com desejo e travessura.

— Compartilho sua opinião.

A resposta fora coerente o suficiente no estado tonto e enfeitiçado que se encontrava Mary. Os dedos de Rhage em contato com a pele pálida e macia, uma das mãos ocupada com o ponto prateado de seu pierceng, sua sanidade esvaindo-se pelos lábios em contato com a suavidade de sua orelha, a baforada do hálito pura chuva e terra molhada com hortelã, a vibração das palavras fazendo com que a penugem fina de seu pescoço se eriçasse em puro deleite. Mary estava completamente realizada entre a proteção oferecida pelos braços de Rhage, e não havia nada — nada — que a fizesse sair de seu refúgio.

Com apenas uma exceção.

— Meu rei!

A voz fanha e repulsiva de Tahlya ricocheteou nas paredes como uma bomba; Mary não esperava tão abrupta erupção nos seus sentidos, como quando a vampira miúda desceu as escadas duplas, exalando jasmim e sândalo por seus poros bronzeados, um sorriso presas assassinas grudado no rosto, toda a sua atenção focada no recém-chegado.

Os dentes de Mary cerraram-se, sua boca se enchendo com o gosto amargo da bile, do ódio, do desprezo e do ciúme para aquela pequena criatura. Mais uma vez, seu corpo soltou ondas espessas e gritantes de perigo, alertando as possíveis vítimas de uma chacina cometida em seu pior momento, porque não havia dúvida: se por um acaso aquela mulher encostasse em um único fio de cabelo de Rhage, os caixões seriam desnecessários, porque os corpos seriam recolhidos com uma pá.

— Tahlya — falou Wrath, seu semblante impassível, mas sua voz em um tom desanimado, enquanto abraçava a cintura de sua minúscula mulher.

Tahlya usava uma túnica branca, de seda, que terminava em suas roliças e curtas coxas, os cabelos presos em um rabo de cavalo extravagante em sua cabeça, o rosto maquiado como se estivesse saído para uma boate, em seu pescoço fios de ouro entremeado em um colar que tomava todo o colo e pescoço, como renda. Sua aparência revelava esmero e dedicação; Tahlya parecia uma rata de SPA.

— Oh, meu rei — disse ela, ajoelhando e tomando a mão de Wrath enquanto beijava um anel de rubi em seu dedo mínimo. — Estou feliz com sua chegada. A viagem foi difícil?

Elizabeth cruzou os braços, olhando a mulher-menina com o cenho franzido.

— Nada que um rei não possa aguentar em nome de seu povo.

Os olhos verdes arregalaram-se em falso espanto.

— Minha rainha-

— O que você pretende aqui, Tahlya?

Tahlya prendeu o lábio inferior excessivamente gordo entre os dentes quadrados e perolados de uma criança, pensativa.

— O que uma Escolhida faz de melhor, minha rainha?

— Foi isso que eu perguntei, Escolhida?

— Não, minha rainha.

O pé de Elizabeth bateu impacientemente no chão.

— Retire-se de seus joelhos e me olhe.

Tahlya levantou-se em seus saltos brancos mortais, encarando Elizabeth de forma duvidosa.

— Minha rainha?

— O que faz em minha casa, Tahlya? E sem evasivas agora.

Os braços de Rhage tencionaram.

— Rhage Tohrtureson exigiu uma Escolhida na noite de ontem para satisfazer os seus desejos.

Toda a sala soltou um largo suspiro.

Mas nenhum fora tão alto quanto o de Mary.

— O que quer dizer com satisfazer seus desejos?

Tahlya virou-se para Mary, um sorrisinho debochado pintando suas feições italianas.

— Não sabe o que isto significa, mestiça? Então você é mais casta do que eu pensei.

Todo o sangue do rosto de Mary esvaiu-se.

No momento em que as palavras escapuliram dos lábios cheios de Tahlya, a desordem caiu sobre a mansão: Zane, que se mantinha contido, começou a protestar pela degradação daquela casa; Fritz mantinha-se quieto, murmurando pensativamente enquanto encarava a Escolhida; Elizabeth corou furiosamente, seus olhos entrecerrados observando Rhage atentamente; Wrath segurava Elizabeth no lugar, postergando, procurando uma saída alternativa; Mary debatia-se nos braços de Rhage.

Porém, o rei cansou-se daquela pantomima.

— Silêncio em minha casa.

Todos pareciam absortos demais em seus próprios dramas para obedecer ao rei.

Rhage, que pareciam exausto com todo aquele rebuliço, puxou-a de seus pés, levando-a em direção a escada e dobrando o primeiro corredor — a conversa, a balbúrdia, a fofoca sendo deixada para trás, apenas uma mistura de palavras e grunhidos.

— Me solta, Rhage! — clamou Mary.

— Nunca, em nenhum maldito dia. Por que você não entende isso, mulher?

— Entender o quê? — gritou ela, fazendo-o parar no corredor iluminado, sua pele mais pálida graças a luz azul.

— Que seu lugar é ao meu lado! — respondeu ele, também gritando, uma cabeça mais alta que Mary, seu corpo vergando-se em direção a pequena estrutura corpórea.

Mary grunhiu — as mãos de Rhage enroladas como torniquetes em seus pulsos frágeis, impossibilitando uma possível fuga.

— Você é um desgraçado! — disse ela com a voz deformada. — Como pode beber do sangue dela? Como pode realizar seus desejos com ela? Porra! Eu estava aqui, não estava?

— Quando eu precisava você não estava! Sua relutância me insulta!

Ela estancou no lugar, estática.

— Então é disso que se trata? Orgulho? — perguntou ela, apática. — Você não falou de sua necessidade porque se sentia insultado?

— Você espera que eu me abra com alguém que deliberadamente me ignora e me despreza? Que eu fale sobre minha sede ou a minha fome?

— Enquanto isso você fará amor com qualquer outra?

O rosto de Rhage fechou-se em uma dura carranca.

— Eu não faço amor — disse ele, puxando-a mais uma vez. — Eu fodo. E continuará sendo assim até encontrar minha companheira.

Um rosnado de frustração escapou dos lábios rebeldes de Mary. Ela não estaria ouvindo mais destas coisas, não. Aonde se meteu o Rhage que a havia abraçado com ternura e fraternidade havia menos de alguns segundos? Ou quem sabe o amante caprichoso que a tocou, beijou-a e bebeu dela? Será que ali, naquela biblioteca, tudo o que acontecera fora apenas o prelúdio de uma foda? Ela não poderia acreditar! Estaria Mary condenando-se a... Isto?

Mary jurou a si mesma que não.

Puxando seu braço — sinceramente surpresa quando se soltou do agarre poderoso do macho —, girou os calcanhares e correu. Ela ainda conseguiu ver, de esguelha, a careta horrorizada de Rhage enquanto suas pernas sacudiam-se, seus pés batendo no chão com a suavidade de uma pluma, o impacto apenas em seus dedos, nunca assentando todo o pé, seus músculos inutilizados gastando toda a energia acumulada durante anos; estranhamente, sentia-se revigorada, animada, livre. Como humana, uma corrida que situaria o perigo, teria feito-a trêmula — agora, Mary sentia-se excitada.

Atrás de si, Mary sabia que estava Rhage, correndo como um trator, com toda a suavidade de uma garça rosa de pernas longas e plumas delicadas. Porém, era também de seu conhecimento, que o homem que poderia ser um corredor silencioso, também era ferozmente letal quando alcança seu objetivo. Ou, na situação em que se encontravam, sua presa.

E, como se esperasse seu timing filosofal, o par de braços mais quentes e contraditórios da vida de Mary enlaçou-a com precisão, segurando-a apertado no peito largo coberto por uma camiseta de flanela fina, fria, que causou arrepios na pele sensibilizada. Nunca perdendo o embalo, continuou a correr, até que se viram em um banheiro social colossal e delicado, ostentoso como toda a casa, exalando riqueza e poder.

Rhage a soltou dentro no banheiro, seus olhos duros, sua respiração uniforme, suas mãos enroladas em punhos, apenas o barulho da chave sendo virada no miolo da porta, trancando-os dentro de um banheiro frio e com cheiro de lavanda, sozinhos, enquanto o resto da casa queimava com a discussão de todos os outros habitantes.

Eles encararam-se. Mary com suas bochechas ruborizadas, os ombros tensos. Rhage palidamente controlado, apenas os olhos revelando sua frustração e seu desejo. O desejo de virar Mary do avesso e submetê-la.

Em uma manobra arriscada, desafiando todos os sentidos de Rhage, Mary aproximou-se do corpanzil zangado, tentando desviar-se dos braços esculturais e chegar a porta, apreciando um ar que não fosse viciado com aquele aroma doce e rico, semelhante ao de Wrath, mas que molhava a sua calcinha vergonhosamente e não dava-a ânsia de vômito. Contudo, seu plano em que Rhage assistia a sua saída, impotente e submisso, falhou.

Fora questão de segundos, ela estava em seus próprios pés e caminhando a porta, e no outro instante, estava debaixo do corpo de Rhage, os ladrilhos frios acariciando sua pele quente, os lábios dominantes sobre os seus, rosnando e mordendo-a, uma mão segurando seu queixo e a outra seu quadril, uma língua macia e doce, como uva, adentrando seus lábios e tomando, a ereção grossa alinhada com sua área mais necessitada, seu peito largo e protegido apenas com a camisa cheirando a chuva e hortelã. Ela estava cercada por Rhage. O cheiro, o tato, os dígitos espalhando-se por seu corpo, deixando sua eterna marca a ferro e fogo, a boca nada suave, rude, acariciando e machucando, mas tão prazenteira como apenas um antigo amante poderia ser.

Rhage soltou seus lábios, descendo por seu pescoço, beijando a marca roxa que havia deixado logo pela manhã quando a assaltou com presas e beijos languidos, sua mão ocupada com o top macio, levantando o elástico e tendo acesso aos seus seios tugidos e carentes, quentes, como todo o resto de seu corpo que parecia pegar fogo. Os dedos ásperos e calosos ocuparam-se de seu mamilo, apertando-o e estimulando-o, fazendo-o ficar duro como uma pequena pedra. Mary sentia-se feliz por tê-la enfiada em um banheiro com ladrilhos tão frios, porque confortaram seu corpo com um agradável choque.

Os lábios quentes e úmidos do macho desceram por seu pescoço, lambendo com sua áspera língua a clavícula pálida, adornada pelo colar prateado. Ele roçou o rosto macio e sem barba pelo colo, a boca alinhada com o mamilo desprezado, mordendo-o sobre o tecido e puxando-o, como um castigo. Um ofego escapuliu pelos lábios de Marilyn, enquanto ela procurava situar-se.

— Rhage...!

Ela sentiu o sorriso satisfeito de Rhage.

— Sim, querida, é ao meu nome que você deve chamar.

Ainda com a mão abraçando o seio, a boca ocupou-se do outro, massageando-os sem trégua, sua ereção roçando no material fino das calças de Marilyn, fazendo-a sentir o pulsar da carne tesa e quente.

Os lábios de Rhage abandonaram o mamilo, erguendo-os até ficar alinhado ao ouvido de Mary.

— Você sente isto, Marilyn? Sente? — perguntou, pressionando seu corpo no de Mary, a larga e dura ereção em seu núcleo molhado e choroso. — Você sente o que faz comigo? Como me faz ficar a noite inteira acordado, sentindo seu cheiro, e sem poder tocá-la? Sente?

Um rosnado baixo rasgou seus lábios quando sua mão atravessou o fino material do tecido, arrancando-o do corpo de Mary, deixando exposto figuras gêmeas de desejo e frustração; o olhar que Rhage deu aos seios de Marilyn foi de um fanático adorando ao seu ídolo: olhos brilhantes, boca entreaberta, uma gota de suor escorrendo pela têmpora pálida, um desejo incontrolável e não administrável. Sua boca voltou aos seios, uma sucção forte e audível, os olhos muito azuis mesclando-se com um verde tentador, suas mãos nos quadris de Mary enquanto friccionava o tecido, os dentes afiados em contato com a tenra carne pálida, a língua rósea passando no topo do mamilo, suas garras fincadas no tecido da calça, o cabelo loiro molhado. Suas presas foram usadas como um artefato sexual, arranhando levemente os seios.

Quando Rhage ajoelhou-se abruptamente, Mary achou que ele partiria e daria como terminado o enlace. Porém, sua suave blusa branca fora descartada em um canto qualquer do banheiro, sendo acompanhada pelo calção jeans — que, foda-se, Mary nem havia notado — revelando um par de coxas esculpidas com precisão por um artista perfeccionista. Músculos duros, fisiculturismo puro, sua masculinidade protegida apenas por uma boxer apertada nos glúteos — tão tentadoramente definidos que as presas de Mary coçaram para morder. Contudo, sua excitação não se manteve castamente escondida, pois a tenda mantida era suficiente prova da animação da Rhage. De pé, aquele macho mataria qualquer mulher pela visão.

O sorriso satisfeito de Rhage provou que ele havia notado sua inspeção.

— Avaliação de material? — sua voz incrivelmente rouca gotejava sexo.

— Apenas comprovando o que diz a embalagem — respondeu Mary, as coxas fortemente unidas. — Músculos fortes, coxas maravilhosas, traseiro deliciosamente firme, sexo duro.

— Quando fala em sexo, você fala do meu pau?

A expressão lasciva fez as bochechas de Mary corar.

— Depende do que você falaria da minha boceta.

Logo que a frase saiu dos lábios de Mary, uma das mãos que mantinha no chão, firmando-se, voou para a boca; os olhos de Rhage mantinham-se largamente abertos, surpresos, mas logo se transformou em uma expressão de puro deleite.

— Como saberei se nunca a vi?

Então Rhage se abaixou, o perigo em carne, tendões e lascívia, puro ritual ígneo, seu rosto muito mais próximo da casta e intocada, protegida, virginal boceta de Marilyn do que seria recomendado.

— O que está fazendo? — a pergunta saiu vergonhosamente ofegante.

— Cheirando.

Os polegares prenderam no elástico maleável do cós do moletom, descendo-o antes mesmo que ela pudesse protestar, revelando sua calcinha boxer — confortável, de algodão, úmida. Como alguém poderia ficar tão molhada com apenas uma massagem nos seios? Sem falar daquele perfume tão agradavelmente erótico, sensual, delicioso. Talvez ela fosse uma criatura distorcida que desfrutasse das discussões e da antecipação de uma briga, porque inferno!, ela estava quente e sua boceta estava ardendo da pressão sanguínea acumulada.

Sim, Mary, disse ela a si mesma, fantasie sobre conceitos biológicos enquanto esse maravilhoso espécime de homem te lambe.

Em toda a sua adolescência, enquanto lia livros adultos, Mary havia sonhado com uma noite erótica em que um highlander, ou quem sabe um guerreiro medieval, invadisse seu quarto, a raptasse e a usasse sexualmente, de forma que nenhum outro homem saberia satisfazê-la. E aparentemente, ela havia escolhido — feito — de seu destino a aventura sexual de sua vida, porque Rhage era o seu sonho de consumo. O seu boy toy.

Ela despertou de sua viagem alucinógena para o mundo dos sonhos com o nariz de Rhage roçando na parte mais úmida de sua calcinha, uma mancha escura, impudente, que revelava a extensão de seus desejos. Os olhos de Rhage estavam fechados, focados em sua missão de cheirar, quando se deparou com duas lâmpadas muito azuis encarando-a, perscrutando seu rosto, avaliando.

— Solte o cabelo.

Marilyn franziu o cenho.

— Mas que porra...!

— Solte o cabelo pra mim, Marilyn. Imediatamente.

A última sentença fora um grunhido tão forte que Mary acordou de seu torpor, desfazendo o embrulho que era seu cabelo, soltando-o por sobre seus ombros e lamentado que logo encontrar-se-ia úmido e sujo. Valerá a pena, prometeu a si mesma.

— Simmm — grunhiu Rhage, sua mão passeando possessivamente pelo monte de Mary. — Você está tão bonita assimmmm, Marilyn. Tão ruborizada e cheirosa, por nós. Tão deliciosamente comestível.

Oh Deus.

A voz.

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Notas finais
Antes de mais nada, seguindo com o protocolo de Concorrência, gostaria de agradecer às favoritações/recomendações de: VallChan (uma coisinha linda que amaciou meu ego) e Xana. Gostaria de agradecer, também, aos lindos comentários de Lola Buarque, Carol Romeny, Paula, biola_03, Tumn Cipriano, alokpoynter (minha BR linda e gostosa), Leda Kobayashi Teixeira, VallChan e MrsCullen (que comentou em todos os capítulos, obrigada!). Bom, esse foi o capítulo mais ~calmo~ em termos de f/r. Uma pergunta: o rumo da história não está agradando? Maaas, uma coisa boa foi que eu não sou enfarte, porque senão iria dar um treco quando Concorrência pulou de 63 pra 94 comentários :O COMO ASSIM, DEUS?! VOCÊS SÃO MUUUUUUUUUUUUUUUUUITOS LINDAS, MESMO. Graças a esse pulo ao estilo Maurren Maggi, venho com UM dos DOIS capítulos que consegui escrever neste tempo muito largo entre postagens. Minha escola está de greve, mas não consegui por nada no papel, a não ser uma conclusão do capítulo 9 e o início do 10. Bem, garotas, gostaria de dizer à vocês para não ficarem muito ansiosas quanto a continuação desse lemon, porque não vem no capítulo 9 :) (que é um capítulo RR, devo esclarecer). Adoro escrever no ponto de vista masculino. Acho que vou escrever uma história só PDV Male. Sério, rs. Contudo, voltando ao conteúdo deste capítulo, o que acham de Z Zsadistson? E Tahlya? E ESSE ROLO DO RHAGE? PQP!!!! :@ Mas gostei mesmo foi da Beth, bfff.
Beijinhos,
Bxx
p.s.: pra quem não quer esperar os próximos capítulos de Concorrência pra uma coisa mais carnal-barra-primal, convido-as à ler a minha mais nova proposta Duas Palavras, Onze Letras (http://fanfiction.com.br/historia/357147/Duas_Palavras_Onze_Letras/). Bom, depois de comentar aqui em Concorrência, deem uma passadinha lá e eu ficarei extremamente feliz. Sem mais, B.