Notas iniciais
Confira as notas finais.

CAPÍTULO 9

“E parece como se eu fui enterrado vivo.” — Buried Alive — Avenged Sevenfold

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Rhage soube, no momento em que Zane Zsadistson entrara na casa — após um período demasiadamente longo longe das vistas e ouvidos de qualquer morador da mansão —, que seus dias de paz haviam acabado. E não apenas isto: que todo o progresso feito com Marilyn estava indo por água abaixo, apenas pelo fato do mestiço haver pisado no carpete grosso e limpo da sala. Para completar a confusão, Wrath chegara com o maldito irlandês a tiracolo, como velhos amigos, já sabendo dos sentimentos nada amistosos que Rhage sentia pelo macho. Era uma antipatia tão profunda e espessa, que Rhage não conseguia especificar. Era algo íntimo, do seu âmago, que apitava alerta vermelho logo quando o ruivo espreitava com seus olhos de pantera.

Então, o bate boca começou. Na realidade, não se sabe se fora ao certo uma palavra ou uma expressão, mas em um momento Rhage estava no peitoril da escada e em outro estava testa com testa com Zane, narinas dilatadas e dentes cerrados. Ele tinha certeza que os grunhidos poderiam ser ouvidos pela casa ao lado — sendo que a mansão não possuía vizinhos muito próximos —, de tão intenso que era o descontrole da besta. Era a junção de todo o dia: o estresse com o advogado e o pecado de se alimentar de outro macho, depois a sessão quente com Marilyn na biblioteca, seguida por frustração e a fuga de sua fêmea, que o deixou atiçado e inquieto durante todo o dia. Rhage não poderia suportar superdoses de indiferença mais uma vez. Possuindo apenas um pouquinho da atenção de Mary, sendo o centro de sua atenção, cuidado e carinho, ele já havia se viciado com seu afeto. Em pensar que fazia apenas algumas horas que ela estava prensada entre ele e uma estante de livros fez uma descarga elétrica correr por toda a extensão de sua pele. Rhage não tinha dúvidas: se houvesse pelos em seu corpo, ele estaria todo eriçado.

E como era de se esperar, o barulho ensurdecedor de seu peito — que rugia e engasgava como um motor antigo de um carro que necessitava de latas e mais latas de óleo — atraiu a todos os moradores. Sem exceções. Ele não protestaria quanto ao fato de Beth estar ali, já que ela era testemunha ocular de seu descontrole por mais vezes do que teria gostado. Contudo, se Beth estava ali, significava que Mary brevemente também estaria ali. E ele não queria a mulher perto do maldito irlandês a uma distância de quilômetros, quem dirá por cem metros.

Porém, como o azarento que vinha percebendo que havia se tornado quando o assunto era Marilyn, ela desceu em todo o seu esplendor dourado, vermelho e castanho logo quando ele havia pressionando seu dedo no peito do garoto. O pior nem foi o fato de testemunhar seu ataque de raiva, a baba escorrendo pelo queixo, como um bom cachorro raivoso. Mas sim a roupa que estava usando.

Que inferno de pierceng era aquele? Desde quando ela tinha o umbigo furado? E quem, demônios havia permitido aquela profanação de seu corpo?

Ele estraçalharia o maldito que se atreveu a tocar em sua barriga plana.

O seu rosnado só aumentou de intensidade, observando os pés pequenos e descalços afundando-se na espessa pelúcia do tapete, a calça moletom abrindo-se em uma boca de sino em seus tornozelos; apenas as formas das costelas, os seios cheios cabendo perfeitamente no espaço do top de lycra, e Virgem misericordiosa, o rosto pálido e redondo, angelical em todos os ângulos. O nariz pequeno estava vermelho na ponta, o que lhe deu muito que pensar.

Alergia?

Gripe?

Lágrimas?

Todavia, ele não precisou abrir a boca para que o circo pegasse fogo. Zane fez-lhe o favor de estender a mão amaldiçoada a Marilyn, com todo o floreio de um filho da puta, e apresentar-se. Apenas para chamá-la de Grehta.

Grehta.

Sim, Phury havia escolhido aquele nome para a filha nascida de sua shellan mestiça. Entretanto, quando Lya fugiu da mansão por motivos desconhecidos à Rhage, Grehta passou a ser Marilyn em questão de horas. Lya não escondia sua insatisfação pelo nome; ela que havia sido criada em uma cultura POP desgraçadamente humana não admitiria que sua herdeira possuísse um nome que exsudava velhice. Por mais que Grehta fosse bonito, disse-lhe ela enquanto ninava a criança que já tinha como apelido Mary, este não era o nome que ela escolheria nem em mil anos.

E assim, em uma noite quente de primavera, Lya e a menina com duplo nome haviam ultrapassado os limites já controlados à mão de ferro por homens impiedosos, um sistema intransponível — por ameaças externas ou internas —, que havia sido vergonhosamente violado por uma mulher com um bebê de colo.

Para completar a noite, ainda lhe restava Tahlya, que ajoelhada aos pés do rei, confessou ter cedido-lhe o direito de afogar a fome em seu corpo viperino. Lacraia! Como ousava admitir o que acontecia em quatro paredes? Ela não tinha nenhum senso de intimidade?

E em sua consciência, a única coisa que lhe martelava as têmporas, era a possibilidade de fuga de Marilyn, que já tencionava os músculos como um cavalo muito ansioso para a corrida. Seu rosto empalidecera, ele notara, quando Tahlya virou-lhe os olhos de víbora do deserto e contou, em uma voz sussurrante como a de uma naja, que ela era ingenuamente casta se não soubesse satisfazer um homem.

Tahlya perdera alguns pontos com Rhage quando se aproveitou de um momento de crise entre ele e Mary, para citar o fato de que ele havia cordialmente emprestado a banheira e seu quarto para que se sentisse mais confortável; porém, embrulhada no roupão que ele havia escolhido para Marilyn, cheirando aos produtos que ele não havia se dado o trabalho de retirar do banheiro, e acima de tudo, tocando na ferida purulenta que era a insegurança de sua fêmea, Tahlya conseguira matar três coelhos felpudos de uma só vez, dando a entender muito mais do que realmente tinha acontecido.

Sim, Rhage tinha de admitir a si mesmo que quando saíra do quarto de Marilyn, sua ereção estava tão doída que precisava aliviar-se, ou a besta sairia a tona e reivindicaria a fêmea; por isso, e nenhum outro motivo, tinha dado-se ao trabalho de ligar para Fritz e solicitar a presença de uma Escolhida, esquecendo-se da obsessão antinatural sentida por Tahlya. Ela poderia ser uma coisinha pequena, mas era mais persuasiva do que ele teria gostado, o que complicava a vida de um homem.

Contudo, por mais vergonhoso que possa parecer, quando Tahlya tocou-lhe com dedos gordinhos e frescos, ele simplesmente esfriou. Na língua coloquialmente fula dos humanos, poderia afirmar que havia broxado; entretanto, fora algo repentino, como se apenas Marilyn conseguisse administrar a sua excitação e luxúria.

O que era uma merda, já que ela estava indisponível para ele.

Então, cansado da picuinha ocorrida no vestíbulo, do irlandês que encarava a sua fêmea com descarado interesse, da Escolhida que o comia com os olhos, da rainha que gostaria de estar com a Glock enfiada no coldre de sua coxa, e de Marilyn que gostaria de fugir de seu alcance, fez de sua mão um torniquete e passou-o no pulso fino e esbelto da fêmea, puxando-a em direção as escadas. Ele gostaria de poder desmaterializar-se e sumir com ela para um lugar distante, como os Alpes ou quem sabe o lar dos Cárpatos, uma estranha espécie de vampiros que viviam debaixo da terra — ou era isso o que dizia um dos vários volumes dos romances eróticos de Mary; porém, os vampiros eram inúteis em matéria de sumiço quando o volume do algo ou alguém era muito grande.

Marilyn, como ele esperava, não iria submissamente abaixar a cabeça e deixa-lo guia-la para onde quer que fossem. Não. Marilyn sempre atendia suas expectativas, e naquele instante quando puxou bruscamente a mão da faixa apertada que eram seus dedos, ele realmente ficou surpreso.

Força.

Ela possuía isto como aquele velho desenho humano, o Popeye, que consumia brócolis para manter-se forte.

Mas Marilyn não era nenhuma marinheira que consumia brócolis como um aloprado. Ela gostava de doces e comidas gordurosas, que fariam a artéria de um humano entupir-se em pouco tempo.

Isto era da natureza dela.

Rhage não teve muito que pensar, porque em pouco tempo estava seguindo a esguia e rápida fêmea que tentava escapar de seu poder mais uma vez. Além de tolo, ele seria estúpido por deixar que ela se refugiasse em qualquer lugar que fosse longe dele, e perto de qualquer uma das víboras que circulavam pela mansão. Além do quê, ele realmente adorava a adrenalina que corria em seu sangue, a energia gasta, o antídoto para a besta. Ele era um viciado em Marilyn e sua sagacidade tenaz.

Com prazer, assistiu os quadris movendo-se, os músculos muito ágeis e inutilizados sendo requisitados pela primeira vez, a mobilidade vivaz com que a fêmea era capaz de correr, a força que ela poderia conduzir em um espaço tão pequeno, a sede de debandar-se, retirar-se. Porém, ela poderia ser forte, ágil e sagaz, mas não possuía a determinação que lhe corroia as vísceras. Rhage teria aquela mulher em seus braços em pouco tempo, ele tinha certeza disto.

Passados alguns instantes de corrida dura, ela pareceu abrandar em sua necessidade de distância; não haveria melhor oportunidade para Rhage — que não piscou — quando conseguiu pegar seu braço esguio e esquivo em instantes, jogando o corpo para a esquerda, batendo-se na parede no processo, abrindo a maçaneta e metendo-a no banheiro. Marilyn soltou um ínfimo gritinho de protesto no processo, mas foi algo tão feminino e dócil que Rhage sentiu-se comovido.

Tudo o que ele queria fazer naquele momento era segurar seu rosto, abraçá-la forte e dizer coisas suaves e doces, protegê-la, abrigá-la na parte mais clara de sua alma e nunca soltá-la no mundo lúgubre e soturno que ambos habitavam. Ele não suportaria vê-la sendo consumida pela triste realidade vampiresca. Pela falta do sol, da chuva de verão, da visita a praia, do sorvete aos sábados, do violão no parque — dos fios de ouro no outono que apareciam entre a folhagem cobre das árvores. Marilyn não sobreviveria na escuridão. Ela perderia a luz de seu espírito sem as pequenas coisas que a tornavam ela. Sem a malandragem que a definia, sem a liberdade que a caracterizava. Rhage tinha certeza: se Marilyn fosse presa em grades, mas possuísse um quadrado que a mantivesse próxima do sol, ela se manteria viva apenas para revê-lo nascer e se pôr. Contudo, estavam presos em pura escuridão e um inferno gélido, sem brilhos ou cores, em tons escuros, que a fariam murchar como uma planta presa em um quarto sem janelas. Ela morreria — ou ao menos sua alma vivaz e púbere faria.

Esta era a maldição de um vampiro, e ela logo reconheceria a sua infelicidade.

No entanto, antes mesmo que Rhage pudesse entreabrir os lábios e desfiar seu terço quanto a eternidade e seus pormenores, Marilyn havia trocado seu olhar aturdido por uma fria expressão determinada, as presas caídas sobre os lábios, a necessidade de fuga de volta no cinza humano de seus olhos. E lá estava a fêmea que ele adoraria submeter.

Um beijo, uma troca de palavras, roupas voando.

Marilyn estava sob ele novamente, os seios róseos, a respiração rasa, os cabelos revoltos emoldurando um rosto muito rubro, uma fina camada de suor dando-lhe a aparência de uma deusa. Vênus, saída das espumas marítimas, uma obra de arte digna de Olimpo.

E, que a Virgem o perdoasse, mas não resistiria a sua fêmea.

O gosto de seu sangue ainda em sua língua, a sua pele cantando por um afago, sua boca implorando por um beijo. Seu corpo tenso, irrequieto, louco pela briga que saberia que viria logo que seus lábios tocassem na sedução ígnea que era sua feminilidade.

Ansioso demais para esperar, a escuridão em cada canto do banheiro, a boca salivando pela nata que escorria por suas coxas, um único fio prateado de luz caindo sobre o corpo de Marilyn fazendo o maldito pingente brilhar; Rhage dedilhou suas longas pernas até o cós da calcinha de algodão, puxando-a rudemente, ouvindo com prazer desmesurado o tecido rasgar-se, rompendo-se em suas mãos. Imprudente, jogou em um canto qualquer do banheiro, sem importar-se.

E deparou-se com a cena mais decadente de toda sua vida.

Oh sim!, era disto que ele falava! Marilyn aberta, disposta, docemente rendida em seus braços enquanto ele poderia dar prazer a ela. Seus sonhos mais energúmenos realizando-se, sonhos estes hediondos demais em que possuía uma jovenzinha desavisada que brincava inocentemente com uma raquete de tênis. Mesmo que fizessem de si um monstro eram neles que sentia Marilyn mais próxima.

Rhage estendeu a mão, aproximando-se de sua idealização de paixão feminina, quando repentinamente perdera o controle de seus dedos, a mão e o braço; toda a sua força sendo sugada em um torvelinho de poder sobrenatural, algo muito mais forte que ele, totalmente fora de seu domínio, o seu ponto de vulnerabilidade constante e atormentador. O peito de Rhage latejou, os seus olhos físicos — que não eram mais seus — permaneceram secos enquanto seu espírito choramingava de dor em pura demonstração de rebeldia.

Encadeado em sua própria mente, paredes negras de contenção cercavam-no, prendendo-o em um cubículo de tortura onde assistia a besta tocar sua fêmea.

O ar nunca fora suficiente, nem seus gritos nunca foram tão altos, ou o seu ódio tão profundo quanto o que sentia naquele instante em que a besta tomava seu direito como macho. Com nenhuma outra mulher fora daquela maneira! Como a besta ousava tocar no que era seu? E o pior eram as imagens que relampejavam, em um tom muito claro de azul, os olhos de possuídos pela besta consumindo com ganância as expressões de puro deleite de Marilyn.

Santa Virgem, o que um homem faz em um momento como este?

Ele assistiu impotente, enquanto a besta vasculhava a intimidade que lhe fora negada por anos; ainda que confuso Rhage achara interessante que a besta possuísse tanto conhecimento nas artes sexuais quanto demonstrava dedilhando a pele virgem e imaculada de Marilyn. Rangendo os dentes, ele viu brevemente quando os dedos quentes e carnosos de seu corpo material penetravam o seu objeto de desejo. A partir daí, o enojo fora maior que Rhage, e ele não pode impedir-se de virar o rosto.

Contudo, Rhage assistiu fascinado, quando Marilyn fechara os olhos e sua careta tensa e frustrada derreteu-se em alívio e contentamento. Talvez um orgasmo nunca fora tão comemorado por um homem. Por anos, desde os escassos informes e vídeos gravados por doggens de sua vida na luz, Rhage desejou absorver todas as expressões de Marilyn: a raiva, a alegria, a frustração, a satisfação, o prazer. Ele adoraria devorá-las lentamente, experimentando cada uma delas com delicadeza, separando sabores e texturas, os aromas, cada mínima fissura que se abria em sua face quando a fagulha intensa ígnea do temperamental espírito rebelava-se, as pequenas rugas em seus olhos e o canto de seus lábios quando sorria. Ah! Ele adoraria revê-las como em um tape, em repetidas vezes, depois passá-las devagar — enxergando a sombra de seus olhos quando o fogo zangado se extinguia e só sobrava passividade.

Na realidade, ele fez isso durante os primeiros anos de sua puberdade, quando Phury ainda deixava os vídeos ao alcance de todos e qualquer um. Porém, as filmagens tornaram-se escassas até não existirem mais. E Rhage ficou sem seu hobby predileto.

Todavia, naquele momento, ele ficou indeciso entre a adoração e o mais puro ciúme: o primeiro, obviamente, por saber que Mary sentia-se atraída por seu corpo e consegui alcançar o mais alto pico prazenteiro que uma mulher poderia chegar apenas com os dedos de um homem; o segundo, também obviamente, por não ter sido ele — porque poderiam ter sido seus dedos, seu rosto e sua língua, mas não foi Rhage quem a fez a gozar. Rhage transtornou-se com a constatação que eventos como aquele — a besta dominando-o sem aviso prévio, e Marilyn ignorante à maldição — poderiam voltar a acontecer, e ele logo pensou em um futuro não muito distante, após o emparelhamento há muito esperado, em suas núpcias, a besta tomando seu corpo e impedindo-o de fazer de Marilyn sua mulher perante aos olhos da Virgem e aos instintos da carne.

O espectro espiritual de Rhage deixou uma lágrima virtual escorregar. Santa Virgem! Por que ele deixou as coisas chegarem naquele estágio?

Então, Rhage sentiu seu espírito penetrar a carne, todos os sentidos ligados à materialidade voltando, as sensações — desde o ar quente abafado do banheiro, até os dedos lambuzados da essência de Marilyn — retornarem; a temperatura ambiente penetrou os poros de seu rosto de maneira quase que violenta. Os ruídos do fundo eram as respirações descompassadas de Marilyn, que segurava seus cabelos de maneira quase que dolorosa, presa ainda no pós-clímax, no atordoamento do seu primeiro orgasmo. O nariz de Rhage encostava-se à suavidade úmida dos cabelos multicoloridos, sentindo de perto a respiração puro mel de Marilyn.

O pensamento deixou-o ainda mais revoltado: como a Virgem permitiu que tal afronta acontecesse? A besta acabara de macular algo que não lhe pertencia, tomando de Rhage o direito do primeiro clímax de sua fêmea, o orgulho de macho. Agora só sobrara um ego ferido, uma fêmea enganada e um Rhage insatisfeito. Existia mistura mais inflamável que esta?

Os olhos de Rhage voltaram-se, atenciosos, em busca de qualquer resquício de desconforto na postura de Marilyn. Porém, por mais desapontador que fosse ela parecia relaxada e serena como ele não havia visto em seu pouco e turbulento tempo na mansão. Como uma gatinha recém alimentada, ela esticou-se — os pelos de seu corpo todos levantados, arrepiados, em deleite —, deitando com a cabeça no colo de Rhage, a espera de um afago. Toda aquela submissão vista em Marilyn era tão incomum quanto uma freira dançando rumba. Santo Cristo! O que fizera a besta com a sua fêmea?

Ainda assombrado, levantou-se de sua postura ajoelhada em busca das roupas espalhadas por todo o azulejo do banheiro; infelizmente, o milagre da besta não havia resolvido seu problema pessoal, tendo em vista a tenda que restava em sua boxer. A maldita besta parecia tão obcecada em Marilyn quanto Rhage, não se importando com seu prazer pessoal desde que Marilyn possuísse o dela. E não ajudava muito que Rhage estivesse na seca desde que George W. Bush residia na Casa Branca, dando prazer a si mesmo apenas com a mão, tornando-se desesperado como um cachorro no cio. Houve piadinhas quanto a isto: o maldito Vishous disse-lhe que passaria a se esfregar em postes se não arrumasse logo uma mulher. E isto fora há dois anos, cinco meses, quinze dias e duas horas.

Suspirando, puxou os incômodos calções, fechando a braguilha e o botão, tentando resolver o incomodo caso da besta sem envolver a Justiça Divina. Porque, malditamente, se ele apenas questionasse a decisão da fodid-, aliás, bendita Virgem, haveria mais e mais expiações e castigos, e todos estes rituais incômodos em que o único castigado seria ele. E, sinceramente, ele estava completamente sem paciência para lidar com qualquer tipo de reunião sobrenatural além de seu próprio emparelhamento.

Rhage amontoou as roupas de Marilyn em uma almofada improvisada, logo escaneando o pequeno armário em busca de um roupão confortável para vesti-la. O máximo que achou fora uma bata de seda cor de gelo, que serviria desde que Marilyn estivesse em suas roupas intimas. Em sua fome, ele cometeu o erro de rasgar a maldita calcinha. Do top não restavam nada mais que fiapos espalhados ao léu no chão. Mais uma vez, suspirou, quando tomou a própria camiseta de malha fria e embrulhou a fêmea que dormia o sono dos inocentes no ladrilho morno do banheiro.

Puxando-a para seus braços, o rosto de Marilyn roçando com delicadeza a pele de seu pescoço, o par de braços cruzados sobre o próprio corpo, a careta de exaustão longe da expressão pacifica da mulher, Rhage levou-os para o único lugar seguro para ela e seus pensamentos apologéticos: seu quarto.

~~~∞~~~

Mary estava sonhando.

Ela tinha certeza disto por saber que a mansão nunca, jamais, exalaria o pútrido odor sulfuroso que subia em gordas nuvens de fumaça negra de erosões espalhadas pelo solo rachado e rochoso de um deserto de lava. O sonho era semelhante ao filme Inferno de Dante, ou qualquer outro em que a natureza rebelava-se, furiosa, contra os hospedeiros de sua biologia e mandava lágrimas sangrentas de fogo e cinzas como vendeta. Mary sabia que o cenário era antinatural por haver assistido noticiários que afirmavam que Nova York nunca sofreria tal catástrofe. Furacões, sim. Nevascas, sim. Blackouts, sim. Vulcões ensandecidos cuspindo gotas mucosas de temperatura superiores a mil graus, não.

E como ela havia parado em tal inferno causticante?

Apenas uma resposta:

Sonho.

Sim, e no seu caso era um baita pesadelo.

Mary tinha tudo o que lhe era de direito: uma perfeita pintura alá locus horrendus, árvores inteiras crepitando em chamas queimando da copa à raiz, o chão rachado em largas fissuras, bolas laranja voando pelo céu como estrelas cadentes amaldiçoadas; a escuridão, a falta completa dos astros para guiá-la acabou por piorar a situação já desastrosa em que se encontrava.

Deus!, o que estava fazendo ali?

Então, Mary, em seu desespero por um refúgio diante do apocalipse natural em que sua consciência enfiou-a, virou-se. E o que viu foi muito pior.

— Mary?

A voz de Rhage atravessou a bruma intransponível de medo e desespero que havia enclausurado-a em seu mundo de sonhos, porém nem em mil anos a imagem poderia esvanecer-se de sua mente: uma tropa de seres brancos, palidamente monstruosos, energúmenos, espreitavam das fendas vulcânicas que se abriram, portais para o inferno, espadas em punho, olhos esfomeados em busca de carne. Todavia, o que lhe assustou não foram os demônios, mas sim os guerreiros que formavam uma amurada de força e coragem igualmente protegidos com elmos e escudos, o petróleo negro escorrendo pela lamina de suas armas. E encabeçando a fileira de audazes suicidas, Rhage — vestido de escama de dragão dos pés a cabeça, seu lindo rosto deformado por um focinho, a bocarra com dentes largos e amarelados como os de um felino perigosamente faminto. Rhage, o seu belo guerreiro, deformado!

Um soluço preso na garganta, seu peito doído em desespero, inconscientemente agarrou os dedos bronzeados de seu... Como ela poderia denominar Rhage agora?

Naquele momento que ele passou a ser a sua âncora, seu porto seguro, tudo o que havia de concreto em um mundo divergentemente novo — não mais um pseudo qualquer coisa —, contudo, tudo o que poderia liga-la ao sagrado. À família. Justo naquele instante, Rhage lhe era o mais importante do que um possível passado turbulento de seus pais. Rhage era seu Gênesis: um começo vampiresco, uma vida intensa a ser aproveitada.

Ela realmente não dava a mínima ao passado, ou a longa lista de mulheres que passou pela cama de Rhage; se ela fosse a única por toda a eternidade, tudo estaria bem.

Então, daquele momento em diante, Mary decidiu chamar Rhage de seu.

Porque não havia verdade maior que essa.

Notas finais
Bem pessoal, fazem mais de sete meses que não apareço por essas bandas. Mas, quando apareço, é para uma possível notícia triste: estou pensando em retirar concorrência deste fandom. É isso mesmo. Sempre gostei de BDB, e eu possuo os leitores mais assíduos, mas nestes sete meses eu perdi favoritações e das trinta e nove pessoas que leem, nem metade comenta. Isso que é retribuição (y). Concorrência TERIA uma média de CINQUENTA CAPÍTULOS. Estava previsto para ter três fases, explicando o passado e resolvendo questões. Seria ao estilo série televisiva, com 22 capítulos cada fase (como uma temporada). Mas, a falta de interesse do fandom me desestimulou de um jeito que... Não tem nem explicação. Este é o último capítulo pré-produzido antes de me decidir. Eu vou desistir, também, de Quietus - e talvez uma história nova irá surgir até o fim deste semestre. Alguma sugestão de shipper? Quero dizer que eu AMEI escrever esta sequencia. Sabe, era pra ser algo curto, mas minha mente desfiou um looooongo terço que não pude dar conta. Talvez, algum dia, eu escute a sugestão do meu namorado e ponha Concorrência nos trilhos com um novo nome. Obrigada por tudo, moçada. BmXx
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.