Concorrência
9 Capítulo 7
Notas iniciais
Músicas do capítulo (nesta ordem):
Lost in Paradise (Evanescence)
Savin Me (Nickelback)
#Sugestão da autora: leiam as traduções das músicas. Elas dão ênfase ao conteúdo do capítulo.#
Boa leitura!
CAPÍTULO 7
“Não são um ou dois anos que nos revelam um homem. Eles não passam de estomago, e nós, de comida. Famintos, devoram-nos; e, quando estão satisfeitos, arrotam-nos.” — Otelo, William Shakespeare.
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Encerrada no berço de músculos e ossos dos braços suados de Rhage, Mary ofegou. Durante sua sessão de amasso com o vampiro loiro sexualmente desvairado, ela encontrou-se vergonhosamente arfante, arqueada, ‘acesa’, e o mogno lustroso refletiu o aspecto de uma mulher frustrada nas artes do amor. Ainda que ele fosse implacável, e ela possuísse uma fome desumana de seu corpo, sua sequência de beijo-reivindicação-mordida-posse deixou-a momentaneamente aturdida e dormente. Mesmo suas mentes separadas por quilômetros de nervos e ligações cerebrais, ele esforçou-se para manter a estreita conexão entre os corpos, algo corelacionado com sua própria consciência.
Logo quando ela mais desejou fugir.
À sua frente, um belo espécime vampiresco, todo feromônios e instintos, os músculos tão duros e flexíveis quanto os de uma pantera, exalando flores e calor, encarou-a com olhos perfeitamente redondos, em estado de confusão. Ela imaginou o que a vampira estava vendo: uma fêmea loira, transpirando, a bochechas róseas e lavadas por uma camada de suor, os olhos lacrimosos, a boca inchada, vestida apenas com uma camisa branca masculina e um vergão arroxeando-se no pescoço, uma expressão aturdida e perplexa em seus olhos, entre os braços apertados e ciumentos de um macho que rosnava.
Pelo o que ela pôde entender — em seu tonto estado catatônico —, a personificação de Ártemis, pura pele pálida e cabelos negros compartidos no meio, olhos azuis profundos, um vinco em seu rosto de porcelana, era Elizabeth, a Rainha vampiresca. Infelizmente, sua rainha. A quem devia fidelidade, lealdade, mas que causava somente repulsa nos intestinos de Mary. Era de se impressionar que tamanha divindade não usasse coroas ou manto de cetim revestido em zibelina, porque por mais hipócrita que aquilo parecesse, a fêmea alta e cheia de uma estranha empáfia se encaixava perfeitamente no perfil Rainha Elizabeth I, daquelas que lutavam suas próprias batalhas e não abandonavam a graça. E tal divindade, majestade, ou qualquer outro posto hierárquico que ocupasse, pegou-a no flagra, em uma situação que poderia entrar para o livro dos recordes como ‘O timing mais perfeito da história’. Sinceramente, aquela mulher tinha todo o tempo do mundo para chegar galopante em seu corcel dourado, ou sua carruagem de contos de fadas, mas decidiu aprumar-se e dar o ar da graça logo quando Rhage havia dado a Mary o que ela queria?
Que droga, hein.
Sem comentar que Mary estava zonza pela novidade de encarar em primeira mão a sua rainha. Ela não sabia nada do mundo vampiresco, além de sugar o sangue e os malditos caçadores; o protocolo formal de como tratar o principado, família real, ou o diabo a quatro, ela não tinha nem ideia por onde começava. Continuando em linha reta para a tragédia, estava Rhage, que não dava indícios que soltaria com facilidade. As unhas transformaram-se em garras afiadas, fincadas em sua coxa e em seu ombro magro, rasgando a camisa com facilidade vergonhosa. Concluindo sua total gafe para com Elizabeth, Mary não conseguia disfarçar seu desconforto, nem muito menos a sua descabida postura, ou o seu ódio inexplicável pela criatura aparentemente inócua que representava a pequena monarca. Porém, pensou ela, nada é o que se parece. Quando se trata de vampiros, naturalmente volúveis e imprevisíveis, o normal ou o sadio não eram medidas extremas, como no mundo humano.
Um mundo que não foi seu desde que nasceu.
Suspirando, bateu no peito de Rhage.
— Solte-me, Rhage — disse ela, sentindo o suor fresco escorrendo pela têmpora.
— Sim, Rhage, solte-a — ordenou Elizabeth, usando um tom incomodamente autoritário.
Ele bufou, o rosnado ainda ecoando em seu peito bronzeado e duro.
— Em nenhum maldito dia, alteza — o tom de deboche não fugiu a nenhuma das duas. — O que você malditamente está fazendo aqui, Elizabeth? Não deveria estar em Louisiana ou qualquer porcaria de lugar onde quer que os vampiros andem se escondendo?
Elizabeth empertigou-se, uma mecha de seu cabelo negro como óleo escorrendo em suas bochechas; chateada, jogou-o para trás.
— Aqueles fodidos realmente sabem se esconder. Covades! — o desprezo escorria na voz melódica de Elizabeth — Maldito foi o dia em que botei a vida de meu hellren em risco, quando tomei as dores dos vampiros reclusos, oferecendo-nos a ir atrás deles individualmente. Naturalmente, não achamos os salafrários, nem mesmo sinal deles.
— Isto é bom. Quando formos embora saberão como apagar o rastro de suas próprias pegadas.
A voz de Rhage continha determinação. Mary sentiu seu próprio peito se afundar, suas vísceras remexendo-se incomodamente, ao pensar na idealização da partida tornando-se realidade com a chegada de Elizabeth. Infelizmente, aquele era mais um motivo para odiá-la.
— Não tente mudar de assunto, Rhage — falou Elizabeth para Rhage, mas Mary sentiu seu perscrutar atencioso. — O que há aqui? Quando nos fomos vocês tinham algumas... Desavenças.
“Desde quando isto é da sua conta, inferno?”, quis perguntar Mary, optando por calar-se e fingir indiferença. Já que ela não poderia pular do colo de Rhage, com sebo nas canelas, afastando-se do perigo que era afeiçoar-se, o melhor a fazer seria ter em seu rosto uma expressão fria e impassível. O mais frio que ela conseguisse encenar, dado em conta que os nódulos de Rhage estavam em contato com seu já aceso corpo.
— Acho que estes não são assuntos reais — disse ele —, assim que não são seus. Passar bem.
Com Elizabeth impedindo a passagem pelo corredor que os levaria diretamente a escada, e assim, ao quarto de Mary — porque indubitavelmente ela não sabia nem sequer por onde poderia chegar ao quarto de Rhage, sendo que 1) a casa é um labirinto de ratos e 2) ela fez o caminho reverso por meio de um túnel de calefação —, onde estava segura de que Rhage terminaria o que começou na biblioteca, o macho que a levava como um bebê de colo tomou o outro corredor, ainda desconhecido a Mary. Era bem iluminado com luminárias azuis, que não afetavam a saúde frágil, ao mesmo tempo ingente e perfeita dos vampiros. As paredes estavam revestidas por um simplório papel de parede floral, assim como o quarto de Mary, o chão coberto por linóleo novo e calculadamente limpo, uma obra de Fritz, certamente. O cheiro era agradável, como pinha assada e limão, um cheiro de casa. Um cheiro de... Cozinha!
Mesmo estando absorta com as descobertas de um teto que lhe era dado a força, com a companhia imposta de um vampiro dominante e indiscreto, sendo exposta a uma situação para lá de inconveniente com a rainha de sua espécie, momento ao qual deveria estar gritando, batendo nas paredes, pedindo seu indulto, ela encontrava-se estranhamente passiva. Parecia que finalmente havia encontrado seu lugar, no meio do turbilhão de descobertas e eventos cíclicos que a levavam ao desastre. A seu ver, quando Rhage fora buscá-la no meio da noite, salvando-a, o escopo de sua mediocridade havia lançando-se a sorte, implorando para que ele, Rhage, lançasse os dados e pedisse seis. E finalmente alcançou a maturidade para reconhecer o esforço sobre-humano daquele homem.
Sorrindo, beijou-lhe os lábios com suavidade.
— Obrigada.
Ele pareceu momentaneamente confuso, como ela estava havia apenas alguns segundos, mas o reconhecimento encheu suas feições.
— Disponha, minha luz.
O sorriso que pintaram os lábios de Rhage durou uma fração de segundo; tempo o suficiente para Elizabeth aproximar-se sorrateiramente.
— Como ousa virar as costas para a sua rainha? Eu estou falando com você, guerreiro!
Os braços tencionaram ao redor de seu corpo, puxando-a como imãs gigantes e autossuficientes.
— Autoridade real nesta altura do campeonato? Faça-me o favor, Beth. Você não fora assim nos primeiros cinquenta anos, quando obteve oportunidades inéditas. Está um pouco velha para este discurso.
— Vamos ver o que diz quando o rei estiver aqui, em carne, osso e fúria.
A gargalhada de Rhage encheu Mary de doces arrepios. Em todo o momento que viveu com ele, nestes nefastos dias de ira e insatisfação adolescente, nunca o viu dar-lhe um sorriso real, quem dirá dar uma risada alta e retumbante. A fraqueza bateu em seus joelhos, afogando-a em uma maré de autodepreciação.
— Não vejo razão para Wrath zangar-se comigo, seu tão fiel braço esquerdo — disse ele, seu tom totalmente debicado. — Deveria procurar argumentos que realmente me parem.
— Quer que eu lhes liste, ou talvez traga a última pesquisa de Havers. Ele ficará interessadíssimo em meus argumentos.
Quem quer que fosse Havers, havia conseguido ativar o sentido comum do tempestuoso Rhage.
— Chantagista.
— Apenas uma amiga preocupada — retrucou a rainha Elizabeth, com uma voz notavelmente cansada. — Solte-a.
O rosnado de Rhage fora alto o suficiente para que Elizabeth degustasse um pouco do som brutalmente sincero, de insatisfação.
— Eu posso entender seus argumentos — começou ele, grunhindo. — Posso até apoiá-los. Mas, por favor, não se meta em um assunto que você não conhece nem um terço.
— Mas Rhage...
— Não! — gritou ele, virando-se para deparar-se com uma Elizabeth de olhos marejados — Você não conhece a dimensão de meus sentimentos, então, cale a sua boca maldita e saia de perto de mim. Há muito mais em jogo aqui, porra! Não só respostas biológicas e fisiológicas. Você não entende.
— Sim, eu entendo, mas-
Os olhos de Rhage brilharam; duas imensidões brancas iradas.
— Você não entende nada! Não sabe o que é paciência, ou tristeza, ou a dor de perder um companheiro. Não sabe o que é passar invisível por anos, não sabe o que é se sentir zonzo apenas com a presença de alguém a quem você não pode tocar. Não sabe! Então, inferno, cale-se! — a frustração era evidente, tornando a voz de Rhage como lâminas afiadas fincadas diretamente no âmago de Mary.
Ela assistiu, em silêncio, Elizabeth abaixar o rosto para as suas mãos unidas, as feições abatidas, como se houvesse lutado mil lutas e perdido a guerra. Ela balançou a cabeça algumas vezes, como se estivesse balanceando os argumentos instintivos de Rhage, em reconhecimento ao seu sofrimento, mas quando ergueu os olhos para encarar as profundezas douradas de Mary, tudo o que se podia ver era resignação.
— Faça o que bem entender, Irmão. Os erros são seus, como sempre.
Com estas palavras, entrou no entremeado de curvas que era o corredor.
Duas batidas de coração passaram-se até que Rhage respirou fundo, o pulsar acelerado de seu coração nos ouvidos de Mary, seus braços apertando-a contra a estrutura pura ossos e músculos, fazendo-a sentir-se ainda mais feminina e adorada do que antes.
— Oh, minha luz. Quase perdi você.
Mary conseguiu cheirar o alívio de Rhage quando suas mãos pálidas subiram pelo pescoço tenso.
— Acalme-se — pediu ela. — Estou aqui.
O rosto perfeito, sombrio, sorumbático de Rhage estava distorcido pela dor. Mary não compreendia, mas quis ajudá-lo a superar. Assim como da primeira vez que se alimentou por vontade própria, as palavras vieram rapidamente, enrolando sua língua majestosamente em um idioma tão desconhecido quanto às profundezas divinas do mundo. Por um instante, um momento ínfimo, sua memória voltou para um homem, os cabelos tão longos quanto os dela, tão colorido e cheio de vida quanto o vampiro a sua frente, seu rosto o mesmo, a canção de ninar embalando-a para o sono dos apiedados, a ternura refletida em seus olhos como água quente, relaxando seus músculos, tornando-a acessível e doce em seus braços. Calando as lágrimas que caiam por seus olhos.
Então, a imagem turvou, revelando-a apenas a iluminação artificial dos vampiros. O macho que a segurava, encurralando-a em seus braços cimentados em carinho, tinha os olhos arregalados, espantado.
— Como fez isto?
Sua nuca pulsava dolorida.
— Isto o que, raios?
Rhage sorriu, os cantos de seus olhos enrugando-se; a dúvida e a apreensão reinava em suas feições, contudo.
— Cantar. É a segunda vez que canta para mim no Antigo Idioma.
— Hein?
Ele embalou-a em seus braços, continuando com o percurso, sua testa vincada, seus pensamentos voando.
— O Antigo Idioma. É a nossa língua materna. Atualmente, só canta ou até mesmo fala no Antigo Idioma um grupo minoritário de vampiros. São obrigatórios Irmãos, Escolhidas e figuras religiosas saberem ler e escrever no Antigo Idioma. Os civis não veem como uma obrigação, mas a glymera insiste que aprendam — neste momento, a boca de Rhage torceu-se em uma careta desgostosa. — Eles consideram uma espécie de luxo. Considerando onde vivemos, é uma língua morta, como o latim dos humanos. Não imagino que alguém em 2019 saiba falar esta porcaria.
Resmungou um palavrão em sob sua respiração, continuando com o discurso.
— A nossa espécie está defasada, quase que obsoleta. As pessoas querem coisas antigas, regras, normas, vestuário ou como vinha dizendo, o próprio idioma, e chamam isto de tradição. Como se fosse diminuir a sede vergonhosamente descarada do que havia antes. Nós vivíamos com o sistema monárquico regendo a mão de ferro a vida dos habitantes, — começou a explicar Rhage, perdido em pensamentos. — até que Wrath percebeu que a grande maioria dos nobres e burgueses atenuavam seus serviços prestativos a comunidade com coisas banais, como grupos de leitura ou campanhas imbecis. Eu não sou menos culpado, é lógico, porque há mais ou menos quatrocentos anos eu fazia as mesmas coisas e me dizia um cidadão ativo e que contribuía com os serviços comunitários com... Veja você... Cultura. E é exatamente isto o que fazem os da nossa espécie agora...
A voz de Rhage atenuou-se, silenciando-se, deixando Mary presa a um torvelinho de pensamentos confusos. Quatrocentos anos. Esta foi a data exata que dera Fritz ao citar o nome de Raven Stoneword. Nome este que esteve fora de sua mente por toda a manhã, desde a torta de morango até os beijos ardentes trocados na biblioteca. E agora, com ele de volta a suas preocupações, Mary não soube como botá-lo em pauta com o vampiro que este beijando seus seios a não menos dez minutos.
Porém, não houvera muito tempo para pensar nisto.
Rhage alcançou a porta dupla da cozinha, como aquelas dos bares alá faroeste, batendo-a com seu ombro, dando amplo espaço para que passasse um macho largo com uma mulher nos braços. A cozinha era no estilo contemporâneo, cheia de eletrodomésticos que facilitassem a vida de uma senhora doméstica — ou como era no caso da mansão, um senhor —, mas com uma área de dois metros ocupada exclusivamente com um fogão a lenha, escapando um fio de fumaça turva e com cheiro de pão em direção ao tubo de calefação, com um pequenino ventilador libertando a cozinha de um calor muito alto. Em cores marrom, bege e cinza, a cozinha continha classe e conforto, como o resto da casa. Não era ostensivo como o salão ou a suíte planejada de Rhage, mas continha tudo aquilo que a tornava o lugar preferido de Mary, até agora.
Ela passou os olhos pelo lugar, ansiosa e voraz, devorando as informações, os pormenores, sugerindo algumas mudanças, anotando-as em seu pequeno caderno de observações mental, adorando cada pedacinho do lugar, vendo uma mesa de seis lugares, madeira de lei, talvez cedro, e uma fêmea exalando comodidade e satisfação sentada na cabeceira devorando um pedaço da torta de morango com chantilly especial de Fritz.
Uma fêmea que não era ela, nem Elizabeth.
Cabelos castanhos, olhos verdes, tez delicada, um rosto redondo de bochechas altas, uma aparência inocente que Mary nunca poderia ter, completados por uma silhueta, pernas roliças e intermináveis de uma harpia. Sim, a filha da puta estava enrolada em um roupão rosa muito distinto, descalça, em posição de lótus, a personificação da serenidade, deliciando-se com a sua torta. Uma onda de fúria invadiu seus membros, quente como o próprio inferno, as garras saindo debaixo de suas unhas, as presas caindo em seus lábios, o ódio corroendo. E não por aquela mulher estar ocupando um espaço que por muito tempo acreditou ser somente seu, mas pelos vergões arroxeados em seu pescoço e pulso, que brilhavam oleosos pelo contato com a luz. Ao pensar que ela também exibia as suas marcas de paixão orgulhosamente no pescoço fora ainda pior. A camisa branca de Rhage não escondia absolutamente nada, o que a deixou ainda mais cabisbaixa. Ela seria tão barata assim? Tão fácil.
Poderia ser fácil falar, mas abandonar conceitos morais que levou por toda uma vida era complicado. Mary estava envergonhada de seu comportamento despudorado, pegando-se com um homem que conhecia há menos de uma semana em uma biblioteca, como queriam os homens da Fire & Blood. Oh, mas eles não poderiam ter apostado em Rhage, certo? Nem mesmo ela poderia apostar que Rhage invadiria suas defesas como um vírus, tomando o seu próprio espaço em sua mente. Ela estava relutante em aceitar sua afeição ao homenzarrão que circulava os braços protetoramente em seu corpo. Lágrimas quentes encheram seus olhos, seu nariz empossando-se com secreção, seu lábio inferior começando a tremer, a expectativa de permanecer na mansão até a despedida sendo dolorosa demais.
Mary gostaria de ir embora naquele mesmo instante.
Entretanto, uma coisa que havia esquecido era o fato que Rhage ter bebido seu sangue e estar ciente de as sensações em seu corpo; ou da tenacidade de um vinculado ao ver que sua companheira gostaria de partir. Não era ofensa ou orgulho. Apenas o instinto mais primitivo de todos, quando um homem realmente se importa com sua mulher, e não a deixa partir de seu encalço jamais, sem nem ao menos considerar a situação que fosse. Mary, consciente de seu passo em falso, sentiu as restrições de Rhage aumentarem sobre suas formas já minimizadas, apertando-a de forma esmagadora contra o corpo másculo e quente que liberava uma essência como uvas e morangos escaldados, totalmente apreciativa ao paladar. Por um momento de fraqueza, a língua de Mary quase escapole do confinamento de seus lábios, tentada a lamber a pele que transpirava sabor e afeto.
E, sem que fosse convidada ao momento mais íntimo de todos, a mulher infame falou.
— Oh, Rhage! — falou ela, prolongando a primeira sílaba do nome, com uma voz de doces e pedofilia. — A sua banheira é uma delícia! Sinceramente, me senti apenas músculos e pele. Os ossos, puf!, sumiram!
A vaca se deu o trabalho de sorrir docemente para Mary.
— Oh, queridinha! Que lindo o seu cabelo. Mas precisa de uma hidratação, não acha? — com falsa inocência, tapou a boca com dedos pequenos — Que indelicadeza a minha! Oh! Mas, esqueça. Sou assim mesmo — a pequena vaca deu uma risadinha de bebê. — Meu nome é Tahlya, prazer.
Uma mão foi estendida na frente dos olhos de Mary. A única vontade que estendeu sobre seus músculos fora a de dar um tapa na cara bem formada, depois morder a mão que exalava um agradável perfume de hortelã e cereja, para logo em seguida chutar-lhe o estomago até que cuspisse as tripas.
Mas, a dignidade encheu-lhe as feições, dando-a um ar indiferente.
— Rhage?
Rhage, que não havia dito uma palavra desde que entraram na cozinha, parecia tenso como um pedaço de ferro.
— Mary, não é-
— Uma porra que não é! — gritou ela, batendo no peito de Rhage, debatendo-se com braços e pernas — A filha da puta está roxa em todos os lugares visíveis! Você se alimentou dela! Seu filho de uma mãe! Me solta!
— Me desculpa Mary! Não é o que você está pensando!
Mary continuou se debatendo, seus chutes em lugares certeiros como as costelas e o peito largo, ou lugares excessivamente vulneráveis, como o rosto e o queixo, tentando safar-se do abraço de morte de Rhage. Ela estava extremamente zangada. Se Rhage poderia beber dela, por que, raios!, não bebeu antes? Ela teria dado de... Bom grado? Torceu a boca diante de sua fácil abertura ao novo. Com um chute no braço de Rhage, no entanto, conseguiu cair de bunda no chão. Mais um item para sua lista de infindas vergonhas públicas. Depravação e atentado violento o pudor e agora isto? Contudo, ela não se importava muito que sua calcinha de renda e cetim fosse revelada às pessoas do cômodo; uma já havia visto e a outra as vestia, então havia pouco o que resguardar. Sua raiva, entretanto, não fora fácil de ser contida.
A gota d’água, realmente, fora quando a garota meteu-se.
— Sim, Mary, ele bebeu de mim, mas-
— Cale a sua maldita boca! Eu chamei alguma puta por aqui? Vai se foder! Ele é meu. Maldita seja! Não encoste nele, não fale nele, não respire nele. Ele é meu para sugar. Ele é meu. Ele. É. Meu. Meu! — rugiu ela, erguendo-se do chão para uma posição de ataque, de forma inconsciente. — E para você é Marilyn, sua fodida.
Tahlya, a vaquinha, parecia ter arrecadado bastante bom senso em poucos segundos, porque começou a se afastar gradualmente da imagem ensandecida de Mary; ela era toda rugidos, grunhidos e rosnados, suas mãos em garras, as presas largas e grossas ameaçadoramente reveladas pelos lábios afastados, os olhos desfocados, Rhage em sua retaguarda, como um objeto valioso a ser guardado.
Entretanto, a áurea possessiva diminuiu quando Rhage fez menção por tocá-la.
— Se afaste de mim — rugiu ela, aproximando-se da porta dupla.
— Aonde vai? — perguntou ele, o tom desesperadamente deprecativo.
— A nenhum fodido lugar que lhe interesse.
E pela primeira vez, Mary fora a única a dar a palavra final.
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Sentada — lamentavelmente em posição de lótus —, o livro que estava lendo esquecido na mesinha de cabeceira, os pensamentos perdidos, os olhos queimando pelas lágrimas que desciam ininterruptamente, Mary não conseguia acalmar seus pensamentos conturbados, todos cheios de falhas, voltando para o trágico momento de sua repentina saída, sua frase de efeito que deixara dois vampiros (ela teve certeza que a morena era vampira, pelo comportamento sadicamente correto de Rhage) embasbacados, quietos, sem reação. Ela estava presa em seu lugar infeliz, pensando no que poderia ter sido, no que poderia ser dito, as ameaças ou as ações a serem executadas, ou simplesmente se o fato de ter se calado e escutado o colóquio entre os dois resolucionaria a confusão de seus pensamentos. Porque se uma coisa que Mary era, é realista: o que ela não daria para naquele mesmo instante estar presa no calor abrasador do carinho de Rhage.
Em todo o seu tempo passado na mansão — curto e turbulento —, Mary conseguiu manter-se fora de sua realidade, vivendo aquilo como um sonho gótico imprevisível, ou uma alucinação derivada de drogas, esperando ansiosamente acordar enrolada em seu edredom azul puído, gasto, rodeada pela penumbra e pela fome, em um lugar que odiava desesperadamente, seu cotidiano preenchido por pessoas que detestava, com gentinha medíocre que era aquilo o que Rhage descrevia com severidade e uma expressão férrea e desapaixonada no rosto: fraca, pobre de espírito, com falhas graves de caráter, que venderiam a própria alma ao demônio pela droga do dia seguinte. Após notar que tudo poderia acabar —desde uma oportunidade de vida melhor à uma paixão acaloradamente sensível —, esvair-se por seus dedos apenas por sua teimosia, por seu temperamento ainda pior que o de Rhage, pela tenacidade infame que alimentava em seus ossos, Mary decidiu que seu comportamento mudaria. Ela não seria a garota melosa, ou a puta melodramática. Ela seria a Mary de sempre, sem esses ferimentos que adquiriu ao passar pelos espinhos da vida. A Mary que adorava sanduiche de bacon, alcaçuz e um livro bem escrito da Shayla Black. Porém, ela sabia que seria difícil ressuscitar seu espírito aventureiro e esportivo, aquele que não tinha medo de encarar a vida pela esguelha, por se confiar em outros, por ter sempre que agir em último caso. Nestes meses que passou sem o respaldo de sua mãe, Mary havia aprendido a viver por sua própria conta. E passar o bastão a alguém, principalmente um alguém como Rhage, seria a coisa mais malditamente difícil de sua vida.
Refletindo sobre os seus objetivos de antes da transformação, percebeu que eram tão pobres quanto a sua conta bancária. Na realidade, sua vida converteu-se em um episódio grotesco de programa de tevê, daqueles onde os participantes comem olhos de cabra ou fazem suas necessidades ao ar livre, em busca da sobrevivência para no fim arrecadar uma merreca que pagaria suas contas mais urgentes. Entretanto, sua vida estava uma merda muito maior, porque havia dias em que a única refeição que fazia era alguns aperitivos na Fire & Blood, ou um macarrão instantâneo com valor nutricional zero e vitamina N para dar. Ela não era suicida ou estava desesperada para terminar com sua vida, mas com seu espírito em tão baixo astral e com sua carteira vazia, suas perspectivas diminuídas a nada, sua família morta, seu lar reduzido um quarto com ratos e baratas, e uma clientela nojenta e pervertida, às vezes sua cabeça fluía, alta o bastante para perder-se em ilusões e matérias jornalísticas, folhetins que narravam a triste trajetória de uma bargirl que fez um coquetel de calmantes e dormiu para sempre.
Mary soltou uma gargalhada histérica, em meio a lágrimas gordas e aniquiladoras, ao perceber o quanto fora ingrata com a mão que lhe estenderam; uma mão máscula, forte e bronzeada. Uma mão muito bonita e toda cheia de conceitos elevados sobre ela. Uma mão que havia bebido de outra fêmea, o oposto de tudo o que Mary alcançou em sua vida, delgada e maníaca por beleza, com uma voz de bebê, uma mulher alcançável e sociável, uma fêmea disposta.
Exausta, emocionalmente, puxou de volta o pesado livro de George R. R. Martin, A Guerra dos Tronos e tentou afundar-se nas maquinações de um mundo igualmente mágico; porém, sem vampiros sugadores de sangue de moças bonitas, ou pais relapsos que abandonavam suas filhas em mãos duvidosas.
Entretanto, antes que pudesse afundar-se em Westeros e Daenerys Targaryen, duas batidas suaves ecoaram pelo quarto.
Mary não respondeu, olhando por sobre o livro para a porta de madeira, onde a chave estava virada duplamente. Não, Rhage não havia tentado entrar em seu espaço pessoal, buscando-a, nem mesmo esbravejando o seu nome, não fazendo qualquer esforço para forçar a maçaneta. Sim, ela havia sentido seu cheiro. Naquele contesto, ela esperava que ele invadisse o quarto e a tomasse em seus braços.
Porém, ela permaneceu casta e imaculada como sempre, quieta e com os livros como consolo.
Exasperada pela inoportuna interrupção, gritou:
— Quem, raios, é?
— Hm, sou eu... — disse uma voz vagamente familiar. — Beth.
O que a rainha dos vampiros fazia em seu quarto, necessariamente, quando ela e Rhage meio que rompiam? A resposta simplesmente fugiu da mente de Mary.
— O que você quer?
— Conversar um pouco, talvez — respondeu a rainha, o ruído abafado pela porta grossa.
— Sobre o quê, especificamente? — questionou Mary, seus olhos voltados para a folha amarela do livro — Não estou nem um pouco disposta a uma conversa.
— Olha, você pode pensar um pouco mais e abrir a droga da porta? Não quero invadir o teu espaço — disse a rainha, a cada palavra mais zangada —, mas se for necessário abro e te bato!
— Está trancada na chave! — explicou, segurando o livro protetoramente no peito.
— Quem disse que é um empecilho para nós, os vampiros? — Elizabeth disse, e Mary tinha certeza que em seu rosto estava estampado um sorriso estilo gato que comeu o canário.
Toda a sua atenção estava focada na frase de Elizabeth, no poder que ela emitia, no imã que instigava Mary a abrir a porta e descobrir do que aquela megalomaníaca rainha falava. E foi exatamente o que ela fez.
— É bom isto o que você acabou de relatar seja verdade.
Elizabeth estava com seu cabelo liso, negro como o breu, solto ao redor de seus ombros, uma camiseta branca simplória, uma calça jeans clara e uma sapatilha bege; ela era a imagem da simplicidade elegante. Enquanto isto, Mary estava vestida com uma calça de pijama de flanela preta e um top de ginástica, revelando seu estomago plano e o pierceng de estrela preso na borda superior do umbigo.
— Pingente legal, hein?
Mary olhou o objeto prateado, retirando a franja que escapuliu da trança.
— Lembranças da vida antiga. Mas e aí, quer sentar?
Elizabeth olhou-a; as duas íris muito azuis revelando apenas determinação e pesar.
— Eu gostaria de falar com você, antes de me aprofundar no assunto dos poderes.
Mary cruzou os braços, na defensiva.
— Fale.
— Rhage me falou algumas coisas que aconteceram na nossa ausência. Eu sei o quanto é difícil a fase de adaptação, porque eu mesma já passei por isso logo quando Wrath me achou, mas você está sendo um pouco mais difícil. Seus pais não estão por aqui para ajudar, você não teve apoio e-
— Acho melhor você parar.
Elizabeth encarou-a interrogativamente.
— Olha, Elizabeth-
— Só Beth, por favor.
— Não. Para mim você é Elizabeth. Não pedi que me chamasse de Mary, aliás. Não temos intimidades, você não me conhece, e não é por sua posição hierárquica que vou tratá-la diferente.
Elizabeth lambeu os lábios, seus braços cruzando-se nos seios, suas costas ficando eretas.
— Como vinha dizendo, isto aqui está pesando em mim não é pelas condições do meu quarto, ou pelo fato de que meu pai... Como é que andam dizendo mesmo... — Mary disse, seus dedos estalando em busca da palavra. — Acasalou com uma fêmea no cio, não é por isso não. É pelas questões morais, pelo meu espírito, pelas questões religiosas. Isto está pesando demais em mim. E também, não se esqueça, de que um vampiro macho muito do esquisito está tentando entrar em minhas calças e eu não sei nem o que está acontecendo! Acho que há um bloqueio entre mim e o vampirismo depois que soube a forma em que fui concebida, mas pelo visto isto está bem para todo mundo.
Os traços de Elizabeth relaxaram um pouco mais.
— Escute. Quanto a Rhage entrar em suas calças é uma coisa comum para um macho dos nossos.
O que ela queria dizer com isto?
— E o que seria isso?
Elizabeth sorriu um pouco, todo dentes perolados e presas finas como adagas. Ela inclinou sua cabeça escura para o sofá, e Mary entendeu o convite. Ambas sentaram-se com as pernas erguidas, o queixo apoiado nos joelhos.
— Bom, não sei se ele já explicou alguma coisa de nosso mundo para você-
— Na realidade, como tuhtor, Rhage é um ótimo cozinheiro.
Os olhos azuis de Elizabeth arregalaram-se.
— Ele lhe deu de comer de sua própria mão?
Mary franziu a testa.
— Não. Ele fez a comida, deliciosa, mas só a preparou. Ele não me deu nada... Da mão dele. Pelo menos eu acho — ela deu de ombros.
— Quando nossos machos vinculam-se, é como o máximo do máximo. Certa vez, ouvi Wrath dizer que as shellans são mais que parceiras: “são o corpo e os órgãos de um macho”. Se estiver certa, as palavras são estas. Isto quer dizer que ser uma shellan é tornar-se a parte mais vulnerável do corpo de um macho. Eles estão ali para alimentá-la, protegê-la e defendê-la. Se não for capaz de fazer qualquer uma das três coisas, se autoavaliam como impróprios e em poucas vezes abandonam a sua fêmea. Mas, como vinha dizendo, os machos são criaturas volúveis e imprevisíveis quando se trata de sua mulher. Lembro quando me transformei e Wrath tornou-se o responsável por me alimentar; às vezes ele fazia isso duas ou três vezes ao dia, até me sentir empanzinada, mas languidamente satisfeita. A obrigação deles é de cuidar de suas fêmeas, e Rhage tem feito isto desde que se tornou consciente de sua vida. Ou não?
Mary aquiesceu lentamente, em dúvida.
— Então você acha que ele tornou-se um vinculado?
Elizabeth deu uma gargalhada seca.
— Ainda restam dúvidas? Eu tenho certeza. Você mesma acabou de falar que ele cuida de ti. Isto selou as minhas apreensões.
Desconfiada, Mary roeu o esmalte do polegar.
— Sim. Ele me dá de comer, me pôs duas vezes na cama, e comprou roupas para mim. Eu achei que isso era dominância...
Elizabeth deu uma risadinha doce, encantadoramente suave.
— Mas é dominância. O macho nunca estará satisfeito até subjulgar a sua fêmea, submetendo-a aos seus tratamentos e vontades — concordou ela. — Se você observar as relações animais é deste jeito. Na cópula, o macho morde o pescoço da fêmea enquanto a penetra.
A imagem de Rhage escanchado em seus quadris, sua dura ereção dourada invadindo-a de modo animalesco, duro, faminto, sua boca em seu pescoço, os dentes fincados até a gengiva, suas mãos poderosas prendendo-a pelos ombros, a sede de sangue e sexo em seus poros, fora demais. Mary enrubesceu como um tomate.
— Você está sob o efeito dele, não é?
Mary mordeu o lábio inferior, pensativa.
— Se você e a vadia não houvessem atrapalhado, estaríamos até agora em sua cama. Tenho certeza disso.
Elizabeth tapou a mão com a boca, ainda sorrindo.
— Vadia?
Esta foi a vez de Mary tapar a boca, consternada.
— Ah, me desculpe. Sou impulsiva e falo o que vem à cabeça — disse ela. — Mas sim. Aquela vaca que deu de beber a Rhage.
— Você ficou com ciúmes?
— Imagine você: nos braços de seu homem, transpirando sexo, desejando ele, até que encontra a mulher a qual passou a noite entre os mesmos braços e sentindo as mesmas coisas que sentiu. O que faria você? Agiria como uma dama ou iria partir para cima da vadia?
O rosto de Elizabeth fechou-se, seus olhos estreitando-se de ódio.
— Bateria nela até que sangrasse por todos os poros, depois a mataria lentamente.
Mary sorriu.
— Minha personalidade homicida emergiu, e sobrou para Rhage. Infelizmente, ele não usou de seus poderes paranormais e invadiu meu quarto. Eu teria ficado contentíssima.
As dúvidas por seu mundo foram maiores que o desconforto, tornando-a apreciadora da companhia de Elizabeth pelo tempo em que estivesse disposta a conversar. Ela perguntou-lhe suas dúvidas mais tolas, as que realmente não gostaria de perguntar para Rhage, e acabou por começar um vínculo que duraria por toda a eternidade.
Sem querer, ela distribuiu a intimidade que Elizabeth desejava.
— Mas você não tem medo de ser traída, Beth?
Elizabeth, ou Beth, mordeu o lábio, sua cabeça encostando no braço do sofá, retirando suas sapatilhas.
— O caso de seu pai foi uma exceção à regra, Mary. Mas sempre pode acontecer. Tenho certeza que meu Wrath acoplaria com uma fêmea apenas em situações extremas, como no caso de estar preso com ela no cio, sofrendo uma dor horrenda-
— Dor horrenda? — a boca de Mary escancarou-se em pânico.
Beth suspirou erguendo os pés para massagea-los.
— Sim. Dói malditamente. Em setenta e cinco anos como vampira, graças a Virgem, estive no cio apenas cinco vezes. Isto é pouco comparada a grande taxa populacional, mas fêmea varia.
Mary havia parado de ouvir em ‘setenta e cinco’.
— Setenta e cinco anos? Parece você ter vinte e cinco!
— Sim, isto é certo — respondeu ela, apoiando-se em um cotovelo. — Mas diante de nossa esperança de vida, que é mil anos, ainda sou uma criança.
Mary suspirou, suas mãos erguidas.
— Ah, isto é tão difícil. Meu Deus! A semântica é complicada, o DNA, tudo...! E devo começar a falar como você? Ficará esquisito como o diabo, mas tentarei.
Beth jogou seu cabelo para trás, distraidamente.
— Relaxe, você se adaptará. A coisa mais difícil a passar, depois da transformação, é o emparelhamento.
— Emparelhamento?
— Sim, o casamento — respondeu Beth, fazendo trancinhas no cabelo. — O nosso macho é talhado com ferro e sal, nosso nome escrito em sua pele em letras do Antigo Idioma. Sinceramente, quando vi a pele de Wrath aberta daquela forma grotesca, quis vomitar. Mas foi a coisa mais linda daquele ano, além de ter salvado a minha vida, claro.
Mary aprumou-se, suas pernas cruzadas, ouvindo com atenção.
— Por que sal? E o nome é escrito onde, exatamente?
— Sal porque é o agente cicatrizante. E nas costas, eu não sei o porquê. Pergunte a Rhage. Ele é o mais ligado com os assuntos da Virgem Escriba — disse ela, sorrindo.
— Então um macho que já possui uma shellan...
—... leva o seu nome nas costas. Isto mesmo! — completou Elizabeth, sorrindo meigamente para Mary.
A conversa perduraria por horas, se uma explosão de gritos não houvesse assustado ambas as mulheres de audição superdesenvolvida.
Com um pulo, Mary já estava na direção da porta, Beth nem sequer nas vistas. Desesperada, Mary correu pelos corredores que estavam tornando-se familiares a cada dia, em direção à escada dupla, a uma baderna de malas, homens e rugidos. Elizabeth estava próxima a uma antítese de Rhage: moreno, de preto dos pés a cabeça, com óculos de aros redondos, parecia muito com Dwayne Johnson, sendo que este era ainda mais sexy e realmente perigoso; os cabelos pareciam maiores que os de Elizabeth. O outro homem era grande, igualmente musculoso, duro nos lugares onde Mary era firme, seu cabelo revoltamente bronze, a boca grossa e macia, a tez pálida, os olhos aquecidos pela raiva, agressivos, as mãos fechadas em punho. O ódio pairava naquela sala como uma nuvem anunciando a chuva, Rhage com os olhos brilhando em branco e a boca retorcida em desprezo sendo o principal motivador da tempestade de palavrões, sendo ele uma cabeça maior que o outro, e músculos mais pesados. Do último degrau da escada, Mary pôde contar em cinco os participantes-barra-telespectadores da balbúrdia, e todos eles deslocaram-se de seus lugares para vê-la. A expressão mudava, de expectativa, passando rapidamente pela confusão, até chegar ao mais completo ódio. Ela sentiu os olhos acalorados, zangados, de Rhage, vasculharem por seu corpo, parando em seus seios fartos, mais precisamente nos mamilos duros e despontando no top de ginástica. Ela ouviu a risadinha de Elizabeth quando notou que Rhage havia visto o pierceng.
Ignorando os fatores negativos, desceu com pés descalços, sentindo o tapete felpudo fazer cócegas, assistindo aos recém-chegados avaliarem suas vestes. Principalmente o garoto de cabelo bronze.
De frente com o perigo — também, abençoadamente, chamado de Rhage — ela ouviu o rosnar de seu peito. O homem com cabelo bronze estendeu sua mão.
— Olá! Meu nome é Zane Zsadistson — disse ele, com um sorriso estonteante. — Você deve ser Grehta, certo?
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Notas finais
Sem mais,Blackxx
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