Completa-me

6 Capítulo VI


Notas iniciais
Um certo alguém me motivou a escrever mais do que eu previra. Esse capítulo pode dividir opiniões, então preparem os corações. Vamos ler?

Por Aaron Warner

Alguém tinha derramado nitrogênio líquido na minha coluna. Eu já sentira isso antes. Quando descobri que podia tocar em Juliette; desta vez foi de pura alegria. Quando ela estava morrendo em meus braços com uma bala enfiada no peito; desta vez foi de desespero. Senti também quando ela foi minha pela primeira vez, logo após dizer que me amava; desta vez foi de total amor. Mas agora, eu sentia uma emoção tão grande que minha garganta fechou e eu não podia puxar o oxigênio para respirar.

Sua voz.

Ouvi-la dizer meu nome pela primeira vez em sete anos. Ela poderia me xingar, gritar, cantar, sussurrar. Se fosse para ouvir a sua voz, valia a pena. Apesar de eu não gostar de ela me chamar de Warner. Quero dizer, eu até gostava, mas quando ela me chamava de Aaron era tão mais pessoal. Eu quase tocava nossa intimidade. Poucas pessoas me chamavam de Aaron. Além de Juliette, apenas meu pai – que não valia de nada para mim – minha mãe e, de vez em quando, James.

Contudo, valia. Valia ela me chama do que ela quisesse, contando que ela me chamasse. Mas como nada é perfeito, Kenji me despertou do meu sonho de satisfação. Ouvi tudo através da escuta.

— Juliette— ele cumprimentou-a, se materializando e ficando visível novamente – Como sabia que nós estávamos aqui?

— Acha que as pessoas que vem aqui todas as noites não notariam três homens lindos e estranhos? ­– brincou ela, em um tom de voz que eu nunca ouvi sair de sua boca – Eles são espertos e desconfiados. Mistura perigosa para quem tenta observar coisas às escondidas. Então, o que procuram?

— A causa da morte de homens acusados de roubar a população desta área ­— inventou Kenji –Bem, nós achamos.

— ­E o que pretendem fazer com ela agora?

— De início, conversar ­— propôs ele – Por que não vamos até a nossa mesa?

— Por que não ficamos aqui? É um lugar visível de todo o bar.

— Acha que nós machucaríamos você?

— Quem sabe.

— O tempo fez você esquecer quem nós somos.

— Pelo contrário, meu amigo. O tempo me ressaltou quem vocês são de verdade –ela se inclinou mais para frente, como se quisesse sussurrar no ouvido de Kenji – Não é mesmo, Warner?

Não respondi.

— Vamos até nossa mesa e conversamos. Não vamos nem tocar em você.

— Bom para vocês ­— ela segurou a mão enluvada de Kenji –Meu toque pode ser um tanto... doloroso. Mas eu acho que você já sabe disso, Kenji— ela soltou-o.

Eu quis dizer que não foi ela que feriu Kenji naquele dia, fui eu que o fiz, mas as palavras dela o atingiram da mesma forma. Ele estremeceu. Ela levantou e caminhou até a mesa onde estávamos eu e Adam e Kenji a seguiu. Ele se sentou e ela ocupou a quarta cadeira, até o momento, vazia. Juliette virou o olhar para Adam.

— Adam, você não mudou em nada. A mesma forma de se vestir, as mesmas expressões... Continuar o mesmo que me fez companhia no manicômio não é muito saudável – piscou.

Então, ela olhou para mim. Seu olhar foi tão profundo que atingiu o âmago da minha alma. O meu dom de sentir o que as pessoas sentem sempre foi útil. Eu sempre soube quem mentia e quem era verdadeiro. Por isso nunca desisti de Juliette. Desde o início, desde a primeira vez que nos beijamos, eu sabia o que ela sentia. Meu prazer foi duplo, porque eu sentia por mim e por ela. O meu prazer e o prazer dela. Apesar de ela sempre ser mais ou menos sincera sobre o que pensava ou sentia, eu não precisava perguntar e ela não precisava demonstrar. O amor e o carinho dela sempre chegavam até mim, de uma forma ou de outra. Então, eu nunca quis abrir mão deste dom.

Até agora.

Quando ela me olhou, eu percebi nela aquele sentimento doce e cativante. Amor. Depois senti uma ponta de saudade, ainda doce, talvez satisfeita. Mas então, como um tiro, uma raiva grande e pegajosa me atingiu, me fazendo arfar baixo o suficiente para ninguém ouvir. E mágoa, havia mágoa amarga e pesada me cercando e me deixando confuso.

Eu nunca quis tanto não ter dom algum.

— Aaron Warner – segredou ela – Porque será que eu não estou surpresa de te ver aqui?

Encontrei minha voz assim que a ouvi dizer novamente meu nome, desta vez completo – Juliette Ferrars. Porque estaria surpresa?

Ela levantou as sobrancelhas bem arqueadas – É verdade, por que estaria? Só não posso dizer que estou satisfeita. Na verdade, eu esperava uma vida feliz e bem longe de todos vocês.

Doeu. Doeu como se o inferno habitasse dentro de mim. Doeu como se cada palavra fosse uma flecha em chamas perfurando meu corpo.

Doeu muito, mas eu não demonstrei. Inclinei-me mais em sua direção.

— Sabe, agora que disse isso, fiquei curioso. Porque, exatamente, você quer distância de nós?

Ela abriu o sorriso mais lindo e mais diabólico que eu já vi na minha vida – Isso é assunto meu.

— Na verdade, – interferiu Adam – é assunto nosso. Também nos envolve. Somos nós o alvo da sua... distância. De repente, eu magoei os seus sentimentos e devo pedir desculpas pelo meu mau comportamento – terminou ele, com humor negro.

— Sabe, Adam – ela estendeu a mão até ele e passou a ponta do polegar no canto da sua boca – tem um pingo de sarcasmo escorrendo bem aqui. É isso o que Castle tem ensinado? Como responder com ironia?

— Não meta Castle nisso – urrou Kenji – Ele não tem culpa se você abandonou sua casa e resolveu virar a vingadora dos pobres assaltados.

— Assassina profissional, na verdade.

Eu gargalhei, não percebi como, mas gargalhei em meio ao caos que se instalava em mim – Assassina profissional? Você? Desde quando?

Ela não se abalou — Desde que eu resolvi que eu podia ganhar dinheiro apenas para tocar em algumas pessoas. Ou você acha que eu mato toda essa gente de graça?

— Então, estão te pagando? – deduziu Kenji — Quem?

— Não é do seu interesse. Isso é entre mim e os meus... patrões.

— Foi por isso que você partiu, então? Por dinheiro? – questionei.

— Não, o dinheiro é só uma consequência de eu ser o que sou. Já disse, tenho os meus motivos para ter ido embora do Setor 45.

— Motivos? – falei.

— Sim, motivos. No plural – ela olhou para uma das pulseiras, que na verdade era um relógio, e se levantou – Bem, está na hora de eu ir embora. Mas, não fique atormentado, Warner. Talvez eu volte, talvez não.

— Você vai sumir de novo? – perguntou Adam.

— Por enquanto, não, ainda tenho trabalho a fazer por aqui — ela se levantou — Bem, adeus. Infelizmente, não posso dizer que foi um prazer falar vocês.

Ela virou as costas e foi embora. Simples assim, sem olhar para trás, levando com ela a felicidade que trouxe quando apareceu esta noite. Muitas coisas passavam pela minha cabeça. Muitos erros e acertos e tentativas de compreender onde foi que eu errei para fazê-la me odiar daquela forma. Todavia, mesmo em meio a essa confusão, eu consegui destacar um fato que me deixou ainda mais amargurado.

Eu fui o único que ela não tocou nessa noite.

Notas finais
Ai, meu Deus! Por que será que eu acho que muita gente vai achar tão estranho ver essa fria Juliette? Se você não gostou, comenta. Se você gostou, comenta. Se você está curioso, continue acompanhando Completa-me. Beijos. BL.