Completa-me
7 Capítulo VII
Notas iniciais
Por Aaron Warner
O apartamento já não era tão pequeno. Eu já o achava grande até demais. Talvez eu tenha passado muito tempo naquele bar lotado e perdi o costume de ficar em ambientes vazios.
Kenji estava em algum lugar por ai e Adam estava no quarto desde a hora que chegamos. Ninguém falou nada, mas, diferente de quando voltamos do bar mais cedo, a expectativa já fora suprida e nós já tínhamos conseguido o que queríamos. Ou quase isso.
Achamos Juliette. Falamos com ela. Quero dizer, debatemos com ela. Não houve um “estava com saudades de você” da parte dela, que dirá da nossa parte. Tudo havia sido tratado na rispidez, sem uma tentativa de entendimento. Até mesmo da minha parte.
Eu fui rude porque se eu tentasse expressar o que sentia verdadeiramente, ela seria ainda mais rude e eu choraria como uma criança que sente falta da mãe.
Ela estava tão diferente, tão certa consigo mesma. Isso não seria ruim se não fosse o fato de isso estar transformando ela em um ser amargo e cruel. Porque, com o que eu vi naquela noite, a minha doce Juliette de tempos atrás já não parecia existir.
— O que vamos fazer? – perguntou Adam ao sair do quarto.
— O que quer dizer?
— O que vamos fazer em relação à Juliette?
— O que podemos fazer? – reclamei – Você ouviu a Juliette esta noite? Ela quer uma vida feliz... longe de todos nós.
— Isso não pode ser verdade. Essa não é a Juliette.
— Não se engane, Adam. Você viu o que ela é capaz de fazer. Ela matou o cara sorrindo e bebeu para comemorar depois. Se eu ainda fosse líder do antigo setor 45, talvez até admirasse.
— Você está desistindo, Warner?
— Eu não quero desistir, mas não vejo mais o que fazer.
— É da Juliette que estamos falando. Você está decretando que ela é um caso perdido. Não pode fazer isso. Não agora. Não quando ela está tão perto. Não quando finalmente sabemos onde ela está.
— Adam, você...
— Cala essa boca, Warner! Você passou sete anos nos enlouquecendo para achá-la e agora vai desistir? Não, eu não vou deixar.
— Eu sei que não há jeito!
— Sabe?
Eu não queria brigar com Adam. Não queria falar o que eu devia falar. Só faria tudo mais real – Esquece, Adam.
— Fala, Warner.
— Eu disse esquece...
— Warner.
Passei as mãos pelo rosto, em total desespero. O que eu senti vindo de Juliette não saia de dentro da minha cabeça, ameaçava se instalar no meu coração e eu temia isso. Não queria que acontecesse.
— Warner, fala agora!
— Ela me odeia! – gritei – E não é uma suposição. Eu senti! Eu sei, assim como eu sei que você sente esperanças de que ela volte a ser aquela Juliette. Mas eu não vejo como. Não vejo uma forma de ela volta a ser aquela Juliette. A minha Juliette.
— Warner...
— Não é contra vocês. Ela não sente nada contra vocês. Sou eu. Apenas eu – me levantei bruscamente – O pior é não sabe por quê. Eu sei que ela me odeia, mas eu não sei por quê! Eu fico tentando repassar tudo na minha cabeça e não acho um erro sequer. Nós estávamos felizes. Nós éramos felizes, Adam, e alguma coisa aconteceu e eu não sei o que é. E eu não quero encontrá-la novamente. Eu prefiro morrer de saudades a senti seu ódio de novo.
Eu me senti exposto, mas pela primeira vez, confortável em conversar com Adam. Na verdade, eu estava derramando minha desesperança nele. Ele levantou-se também e me pediu para sentar. Eu já estava com os joelhos moles, então só fiz me jogar novamente no sofá. Ele tentou me acalmar.
— Você não pode ter interpretado errado e...
— Não. Não é um livro que eu leio e tento ter o sentimento dos personagens. Eu sinto. Eu senti. Era como a raiva que eu tinha pelo Anderson. Crua e viscosa.
— Não acho que ela seja capaz de um sentimento tão escuro.
— Bem, eu tenho certeza.
— Dizem que amor e ódio são faces da mesma moeda.
Foi quando lembrei uma coisa – Eu sei que ela me odeia. Profundamente – afirmei – Mas ela me ama também. E também sentia saudades.
— Sentiu isso também?
— No início, sim. Quando ela me olhou, eu senti o amor que ela tinha por mim, como se nós nunca tivéssemos nos separado. Depois, eu senti a saudade que ela tinha de mim. Mas num piscar de olhos, todo esse sentimento bom se transformou em fúria.
— Então, ela ainda te ama?
— Eu não sei, Adam. Eu não sei. Está tudo tão confuso. Eu achei que quando nos reencontrássemos, eu poderia abraçá-la e dizer o quanto eu senti a falta dela. E então, ela me explicaria tudo, mas eu não faria questão. Ela estaria comigo, era o que importaria – balancei a cabeça, imaginando o quão bobo eu soava – Agora, eu me sinto ridículo por procurar o amor da minha vida por sete anos e descobrir que ela nem me ama mais.
— Você mesmo falou que ela te ama, Warner.
— Pode ser, mas ela tem tanta raiva que nem consegue senti o amor que guarda. Se ela não sentir, como eu vou sentir?
— Você já encontrou um motivo para continuar a tentar trazer Juliette de volta.
— Qual?
— Fazê-la senti amor de novo.
— Isso é ridículo!
— Tem outro: desvendar porque ela odeia tanto você. Ou me diga que você não quer saber?
— Eu não sei se quero saber.
— Você sabe que quer, senão já teria voltado para o setor 45. Há uma coisa sobre você que todo mundo já sabe. Que é clara para qualquer um.
— O que?
— Você jamais desistirá da Juliette.
Ele caminhou até o quarto e bateu a porta sem me dar o direito de resposta, apesar de eu não ter nada para falar. Não saber o que fazer me atormentava, então optei por buscar respostas no lugar mais perigoso: no meu coração. E ele estava certo. Adam estava certo.
Eu jamais desistiria de Juliette.
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