Completa-me
35 Capítulo XXXV
Notas iniciais
Por Kenji Kishimoto
Durante quatro segundos, nós nos olhamos e respiramos com espantos. Sabe aquele suspirar de supetão de quando tomando um susto ou recebemos uma notícia ruim? Foi exatamente assim que todos respiramos. Sincronizados.
Adam correu para Tristan e o segurou antes que ele atingisse o chão, jogando sobre o ombro e atirando com a mão do braço livre. Vi Juno e Warner perderem força nas pernas e caírem e joelhos. Não importava o que fosse que Tristan estivesse fazendo, com certeza era o que estava nos sustentando quase que por completo. Os carros que estavam sendo desviados por ele se descontrolaram e bateram em árvores, trens ou uns nos outros. O que nos deu uma chance de escapar para a floresta.
Mais tiros nos seguiram e gritei para que todos fossem em direção as árvores. Segurei a mão de Levine sem olhar para ela e puxei-a para as sombras que nos prometiam proteção. Ouvi as portas abrindo e fechando e, mesmo confiante, me desesperei. Porque eu sabia que no fim de todo aquele mato havia um rio e não um quartel ou qualquer proteção.
Porém, o que mais me impressionava era que eu pouco me importava com a minha segurança; era com ela que eu me preocupava. Era ela quem eu não queria ver machucada. Eu não estava buscando uma salvação para mim e, admitindo de forma egoísta, não era para os outros também. Eu queria que ela se salvasse. Eu queria que ela ficasse bem. Eu queria ela ali, para sempre, respirando e vivendo e linda e de olhos incolores que só eram amarelos na minha imaginação ou na memória que eu não poderia ter porque eu nunca a vivi. Aquilo pelo qual eu sempre zoei Adam ou critiquei Juliette ou até detestei Warner estava ali, puro e não lapidado, crescendo no meu peito desenfreadamente e me deixando em dúvida se eu respirava ou salvava o oxigênio do mundo todo para ela.
– Kenji! — gritou Juliette — Não há saída!
– Vamos tentar alcançar o vilarejo — sugeriu Levine, quase sem fôlego — Tem um andar subterrâneo na enfermaria. Podemos nos esconder lá.
– É muito perigoso — disse Warner enquanto diminuíam os o ritmo ao perceber que ninguém nos seguia — Nós não sabemos se há inimigos lá.
– Teremos que arriscar, Warner. Não temos muita escolha.
Warner olhou para Juliette e, antes que concordasse, um tiro atingiu sua mão, acertando a Glock e forçando-o a larga-la. Voltamos a correr, agora em direção ao vilarejo. Levine apertava meus dedos mais forte do que nunca e eu ficava me lembrando de não fazer o mesmo. Juliette acertou a parede do casebre onde ficava a enfermaria com um chute assim que a vimos, abrindo um buraco que nos permitia entrar.
Infelizmente, a enfermaria não estava vazia.
Warmer agiu rápido, derrubando um homem contra a maca antes qur ele pudesse atirar. Juliette logo procurou ajudar, tirando o casaco fino que ela usava e deixando sua pele mortífera mais exposta a quem tentasse tocá-la. Juno ficou na frente de Adam, bloqueando qualquer tiro que tentasse acertar ele e Tristan. Levine tremeu e eu forcei meu poder a se estender até ela, puxando a para fora do lugar.
– Kenji...
– Fique aqui — eu pedi — Eu vou ajudá-los.
– Não tente lutar visível. Irá se machucar.
Balancei a cabeça em concordância, largando seus dedos aos poucos. Antes que nossos dedos se desenconstassem e ela ficasse visível, eu agarrei sua mão mais uma vez e puxei seu braço para circular minha cintura, sentindo seu ombro tocar meu peito e me dando uma ideia de onde estava sua boca. E eu acertei exatamente onde estava.
Segurei seu rosto entre as minhas mãos, enquanto seus lábios se moviam devagar nos meus. Senti uma lágrima em sua bochecha e afastei minha boca da sua, mas mantive nossas testas se tocando, ainda invisíveis.
– Deus sabe o que você fez comigo — sussurrei — mas não importa. Só... não pare.
E entrei, mais motivado do que jamais estive. Mais deles chegavam e pareciam não ter fim. Eu já me preocurava com a frota de caminhões quando ouvi um helicóptero. Um frio arrepiou minha costa e eu olhei para Adam, com a arma em punho. Ele também não parecia nada confiante. Mas o incrível aconteceu.
O helicóptero começou a disparar tiros contínuos.
Nos Mockers.
Derrotamos aqueles que estávamos enfrentando e corremos para fora, vendo-os recuar e caírem se resistissem. O veículo preto fazia folhas se agitarem e o barulho era ensurdecedor. Familiar, ele pousou no recém vazio vilarejo e nos separou deles. A porta se abriu e Castle desceu, correndo para nós. Ele cumprimentou a todos e me abraçou, olhando para mim, avaliando.
– Kenji, você está sangrando.
Olhei para baixo, vendo sangue na parte da frente da minha camisa, mas eu não sentia dor alguma. Toquei e percebi que estava meio seco.
– Não é meu.
Soltei-me de Castle, sentindo meu corpo gelar por inteiro. Não era meu. Não consegui por ar dentro do meu pulmão enquanto corria para a enfermaria, atravessando o casebre pelo buraco na parede e achando Levine no chão, com as mãos translúcidas sujas de sangue apertando a barriga. Joguei-me no chão, puxando seu corpo para o meu colo, percebendo passos se aproximando mas pouco me importando.
– Levine — implorei — Por favor, abre os olhos. Olha para mim — sacudi levemente o seu corpo, ainda sentindo sua falha na respiração — Levine, olha para mim. Pisca, fala, faz qualquer coisa, mas me dá um sinal. Por favor, por favor — ela não se mexeu. Arranquei minha camisa e pressionei seu ferimento, ganhando num franzir de testa de sua parte. Lembrei de ela prometendo que todos sobreviveriam. Ela não disse nada sobre si mesma. Analisei seu rosto alvo — Você sabia. Você sabia o que iria acontecer e não disse nada. Por isso você pareceu estar se despedindo. Porque você não me disse nada? Porque não disse nada?
– Kenji — chamou-me Castle, calmamente — Vamos levá-la para James.
– Ela não está se mexendo, Castle — declarei, sentindo um estranho aquecer na garganta — Ela quase não está respirando.
– Quase, Kenji. Não desista agora. Ela vai ficar bem.
Eu quis ver a expressão de Castle ao dizer isso, ao fazer tal promessa, mas doía pensar em desviar a atenção de seu rosto. Carreguei-a até o helicóptero, não permitindo qualquer distância entre nós.
Pareceu um infinito a viagem até o outro lado do rio, mas chegamos lá. Não era possível ver ninguém e logo pensei que todos estavam mortos, tamanha minha drescença, mas estavam apenas encondidos. Adam achou James mais rápido do que esperava e ele logo ficou nervoso.
– Mas, Adam, eu não sei fazer isso. Eu nunca tentei em alguém tão machucado.
– Você precisa tentar, James.
– Adam...
– Por favor, James — pedi, sentindo a pulsação dela diminuir — Ela não pode piorar mais. Eu preciso dela. E ela precisa de você, James.
James andou até mim e eu tive que olhar em seus olhos de azul infinito. Ele viu, não importa o quê, mas ele viu o que eu sentia. Ele tirou a camisa que eu ainda pressionava para estancar o sangue e pôs a mão sobre a pele claríssima de Levine. Ele puxou ar e soltou umas duas vezes antes de fazer o que só ele poderia. O corpo desfalecido de Levine se ergueu em direção a mão de James, como se houvesse um imã chamando.
E então ela caiu.
Olhei para James e para ela. Ela sempre foi pálida, mas parecia estar ainda mais branca. E seu coração já não batia. As lágrimas que eu tanto segurei caíram livres e em silêncio, enquanto eu enterrava o rosto na maciez do seu pescoço e a abraçava. Nunca, nunca havia sentido tanta dor em minha vida. Eu já havia perdido minha familia quase inteira, e aquilo doeu como o inferno. Eu sentia a mesma dor, mas de uma forma diferente. Eu lamentava aquilo que não pude ter. Que me foi arrancado antes de eu sequer ter conquistado.
Eu, então, havia perdido o mais lindo futuro.
James parecia não acreditar. Ele me segurou e me fez soltar Levine e pela primeira vez eu pensei em realmente dar um soco nele. Ele pôs a mão mais uma vez na barriga de Levine, mas cobriu sua cabeça também. Eu já não tinha mais condições de acreditar, mas o fiz.
Esperança pode ser vista como dádiva, mas sempre foi a maior responsável por corações partidos.
Vi Levine erguer-se de novo e voltar para baixo, ainda sem resposta. A mão de James continuou em sua testa e ele se concentrou de olhos fechados, sem desistir, sem descansar até Levine expirar fortemente e soltar o ar de uma vez, normalizando sua respiração. Chequei seu coração: batendo. Sua cor estava voltando e ela se mexia como se estivesse se acomodando para dormir. Ela ergueu a mão e coçou os olhos antes de abri-los.
Doces e quase amarelos, como o mel que costumava adoçar o suco de laranja.
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