Completa-me
36 Capítulo XXXVI
Notas iniciais
Por Aaron Warner
Vimos o helicóptero partir com Kenji e Levine sem entendermos muito bem o que tinha acontecido. Caos descrevia a situação atual do belo vilarejo. Carros explodidos e centenas de balas espalhadas pelo chão. Procurei entender como tanta coisa aconteceu em menos de vinte e quatro horas, relembrando os tempos loucos em que eu trabalhava apenas em ter Juliette comigo, a qualquer custo.
Juliette.
Ela ajudava Adam com uma queimadura nas costas. Nada grave, pensava eu, uma vez que ele aparentava suportar bem. Ela parecia querer ajudar a todos os que estavam ali. Arranjou um colchão inteiro para Tristan, que ainda estava desmaiado, cuidou das leves escoriações de Juno, além de oferecer carregá-la, caso estivesse muito cansada. Cuidou de todos ali, menos de mim. Parecia tentar encontrar algo para fazer de qualquer forma, assim não tinha que me olhar.
Eu quis chamá-la. Na verdade, eu quis andar até ela e encará-la, mas parecia errado. Precisávamos de tempo. Eu precisava. Mesmo querendo apenas encontrar um lugar onde ficaríamos a sós, ela também parecia precisar de um tempo para si. Foram muitos sustos num só dia e tudo o que eu queria era um pouco de normalidade. Coisa que não poderíamos dar um para o outro no momento.
Como se me sentisse pensando nela, ela ergueu os olhos para me encontrar. Estava atrás de Adam, que sentava de forma jogada sobre um banco chamuscado e mantinha seus olhos fechados, aguentando a dor dos ferimentos. Repentinamente, fiquei preocupado com seu estado, mas Juliette o chamou e ele levantou e seguiu para próximo de Juno, que carregava garrafas de água conseguidas deus sabe onde.
Juliette veio, então, até mim, trazendo consigo uma maleta deixada por Castle e o banco onde Adam estava. Não deixou de me olhar nos olhos por todo o caminho congestionado por destroços que atravessou. Pôs o banco à minha frente e bateu nele duas vezes. Sentei e ela segurou meu antebraço com leveza.
— Deixe-me cuidar de sua mão.
— Minha mão? — eu não me lembrava de machucado algum.
Ela me mostrou um corte fundo perto do meu dedo mindinho, com sangue coagulado e que ardia. Segurou minha mão com cuidado e limpou com um pano molhado, cujo líquido cheirava a álcool. Minha carne queimou e puxei a mão por reflexo e ela a segurou mais forte por reflexo também. O corte pingou sangue devido sua força. Ela olhou pra mim com as sobrancelhas unidas.
— Me perdoe.
A situação indicava que ela se desculpava pelo ferimento, mas sua voz ampliava aquele pedido de perdão para além dali. A profundidade em seu tom me assustou e ela apenas seguiu limpando, como se não tivesse dito nada. Comparei aquela breve cena a tudo o que enfrentamos. Sempre tentando reparar nossos ferimentos, alguns feitos por outros em nós, outros feitos por nós mesmos, mas, no fim, éramos sempre nós, um cuidando do outro. Foi assim num passado distante.
E me perguntei porquê não poderia ser assim num futuro.
A partir daí, o anel que eu carregava no bolso pesou mais do que já pesou nesses anos. Enxerguei nos olhos ocupados de Juliette o brilho da pedra que eu queria que abraçasse seu dedo, que a lembrasse diariamente de uma promessa que eu nunca fui capaz de fazer. Foi daquele instante que passou a ser errado qualquer distância entre nós. A mão dela deveria segurar a minha pela eternidade e deveríamos proferir o amor imenso que sentíamos em cada inspiração.
Deixei que ela tratasse da minha mão sem parar de observar seu rosto. Ela não mudara nestes anos longe. Seus traços estavam mais finos, o rosto mais anguloso, mas era a mesma face. Se ela notou meu olhar, não demonstrou nem reclamou. Foram poucos minutos, mas o suficiente para que tudo ficasse calmo e parecesse como parte de uma rotina.
— Pronto — declarou ela, ainda olhando minha mão — Apenas tenha cuidado para que os pontos não rompam.
— Acha que devo enfaixar com alguma atadura?
— Seria melhor, assim ficaria mais protegido.
— Pode enfaixar, então — ela finalmente ergueu a cabeça, uma expressão indagadora — Não que eu precise. Só quero que você cuide de mim mais um pouco.
Uma antiga mania dela voltou e suas bochechas brilharam num vermelho intenso. Deus, como eu senti falta desse embaraço! Ela segurou um sorriso triste e voltou a fitar minha mão.
— Sabe que não precisa mais de desculpas para que eu cuide de você, não é? — ela disse, lotando meu coração de sentimentos contraditórios e meus olhos com seu mar verde e azul — Eu vou estar aqui. É só vir para mim.
— É o que eu mais quero.
— Mas?
— Mas eu não posso mais enfrentar outro mal entendido, Juliette. Apesar de tudo, pra mim, a qualquer momento você vai simplesmente desaparecer de novo.
— Eu não faria isso.
— Eu não disse que faria — falei — É apenas como eu me sinto. Eu só preciso...
— De tempo — completou.
— Sim.
Ela deu um passo atrás, concordando com a cabeça várias vezes e mordendo o lábio inferior. Seus olhos encheram de lágrimas e estas rolaram por seu rosto, mesmo que ela lutasse pra que elas não caíssem. Meu peito aqueceu e eu não consegui impedir que queimasse em culpa.
— Juliette, olhe pra mim — ela suspirou e eu pensei em levantar para alcançá-la, mas parecia... errado — Por favor — Ela ponderou, limpou as lágrimas e me olhou. Não como olhara antes, como se uma bomba fosse explodir a qualquer instante. A bomba já explodira, e ela já se desculpara pelo estrago. Era só uma questão de saber se era possível juntar os cacos. Por mim, gastaria minha vida inteira de joelhos para catar cada pequeno pedaço — Não pense, por um segundo, que vou deixar que saia da minha vista novamente. Não se engane. Eu amo você, independente da merda que aconteceu e das merdas que acontecerão, porque aparentemente, somos um imã de problemas.
— Achei que essa era apenas eu.
— Somos um só, no fim do dia, então... — dei de ombros, enquanto os ombros dela aparentavam estarem mais leves. Finalmente me ergui do banco e fui até ela, que nunca pareceu tão pequena, segurando suas mãos entre as minhas — Eu não vou deixar você, Juliette. Eu só não quero que apressemos as coisas e sejamos atropelados por toda a carga ruim que tantos segredos trouxeram. Eu quero te amar livre de qualquer empecilho, interno e externo. Acha que pode me dar esse tempo?
Ela fitou nossos dedos unidos — Vai me fazer esperar por sete anos? Porque esse seria o justo a se fazer — ela queria fazer uma piada, mas sua voz entregou seu medo, que preencheu meus sentidos através do meu dom.
— Você só pode ser louca — eu ri — Meu tempo provavelmente vai acabar na madrugada. Ao que parece, não sei ficar longe de você — ela suspirou e assentiu, calmamente. Soltei uma de suas mãos para alcançar o objeto no meu bolso. Seus olhos se arregalaram quando viram o aro dourado e delicado — Encomendei isso poucos dias antes de você partir. Tentei achar algo que fosse único, igual a você. Descobri essa pedra que brilha azul e verde, como os seus olhos. Era um pouco difícil de achar, só que era pra você, então eu não desisti. Você não fez ideia da minha cara de bobo quando ficou pronto. Quis o momento perfeito pra te propôr. Mas parece que esperei demais naquela época — encaixei a aliança no seu dedo anelar, que estava trêmulo, e ficou como eu achei que ficaria. Perfeito.
— Aaron...
— Isso é pra você entender que não é para sempre. É a minha cabeça que precisa de organização. Meu coração sabe o que sente. Ele ama você — pus sua mão em meu rosto, sentindo o frio da aliança finalmente contrastando com o calor de sua pele — Eu amo você. Então, por favor, me espere.
Juliette sorriu de verdade desde que eu a deixei nos trilhos. Aquilo foi o suficiente para saber que as coisas ficariam, sim, tão bem quanto eu desejei.
— Para sempre — me prometeu.
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