Completa-me
34 Capítulo XXXIV
Notas iniciais
Por Kenji Kishimoto
Warner conseguira atravessar o caos da chuva de balas nos trilhos do trem chamando-me a atenção com um anel. Deus sabia que porque ele andava com algo tão caro no bolso. Junto dele vieram Levine e Adam, que me explicaram que todos já estavam a salvo.
Todos menos nós.
Recuamos, nos obrigando a entrar no vagão mais próximo, já que nada parecia melhorar. Juliette correu para Warner, dizendo algumas palavras antes dele enlaça-la pela cintura, apertando-a tão forte que me fez questionar como ela ainda podia respirar. Decidi que aquele era um momento deles e desviei a atenção, sendo pego de surpresa pelos olhos incolores de Levine. Eu não sabia o que era me preocupar com o amor da minha vida, mas precisei admitir que o alívio que me tomou quando a vi inteira e sã era inexplicável.
– Você está bem? – perguntei.
– Sim... – sussurrou ela – Eu só não acredito que estou perdendo tudo outra vez. Não parece justo.
– E não é, mas você pode vir conosco quando tudo isso acabar. Você vai estar segura no Setor 45. Terá abrigo, alimento...
– Uma vida? Porque há muitos deles lá fora. Eu já enfrentei muitos outros perigos, mas eu nunca enfrentei uma guerra de verdade. Eu já fui forçada a ver o que aconteceria e com que estratégia deveriam seguir, mas eu nunca estive num campo de batalha. E se eu disser que não estou com medo, estarei mentindo feio – ela abaixou a cabeça e respirou fundo e entrecortado – Eu estou apavorada.
– Não fique – pedi com uma fraca parada no bater do meu coração – Eu estou aqui e vou te proteger. Não precisa ficar com medo. Nada vai acontecer com você, eu prometo.
Eu não fazia ideia do porquê eu estava dizendo aquelas coisas. Ou porque eu usava aquele tom. Ou porque minha mão achou um caminho para a sua mão que tremia e suava e agarrava os meus dedos e arranhava a minha palma num gesto desesperado e amedrontado. Eu não fazia ideia do porquê eu queria que ela ficasse bem, sem receio, sem feridas. Eu só queria tirá-la dali e cuidar para que ela nunca se machucasse. Ou para que nunca mais ficasse longe de mim.
O que há de errado com a minha cabeça?
– Obrigado, Kenji, mas não tem que fazer isso.
– Eu tenho. Acredite, eu não sei porque, mas eu tenho.
Seu aperto ficou mais forte por um segundo antes dela me soltar e eu me senti incompleto. Ela sorriu de uma forma que me desarmou, mas me deixou preocupado. Era como se a conformidade estivesse estampada em sua expressão e ela estivesse tentando me acalmar. Era como se estivesse tentando dizer que não havia como protege-la. Ignorei a paranoia da minha cabeça e sorri de volta, mesmo sabendo que ela não enxergaria.
– Kenji, venha aqui – chamou Adam – Preciso de ajuda.
– O que foi?
– Há um sistema de comunicação de dados no caboose*. Podemos pedir ajuda de lá, mas está mais à frente. E não vai ser fácil chegar lá.
– Não vai ser fácil? O caboose fica no fim do trem, isso se já não foi destruído pelo impacto. E caso não tenha sido, ou nós saímos do trem para chegar lá ou atravessamos pelo meio do metal retorcido. E nenhuma das ideias parece ser boa.
– É a única chance que temos.
Olhei-o bem e suspirei, voltando para Levine – Eu preciso que veja algo para mim. Nós vamos sair do trem para tentar chegar ao primeiro vagão. O que acontece?
– Você morre. Com muitos tiros no peito.
– Droga. Certo, e se formos por cima dos vagões?
– Você é derrubado dos vagões e quebra a coluna bem próximo ao pescoço, e morre de dor.
Passei a mão na nuca, nada confortável com aquela conversa – E se esperarmos ajuda?
– Ninguém virá. Todos morremos.
– Tem algum futuro em que nós não morremos?
– Eu não tenho como ver assim. Vocês precisam tomar decisões para que o futuro se forme e para que eu possa ver ou apenas ter uma ideia.
– Mas eu já dei todas as minhas ideias, a não ser que tentar atravessar metal conte como um futuro possível...
– Vai dar certo – ela focou no chão e estendeu a mão para a parede mais próxima, como se lesse o metal – Juliette pode abrir caminho através dos entulhos, você achará o primeiro vagão e... eu não sei o que acontecerá.
– Não sabe?
– Adam estará com vocês. Eu não enxergo ele, então deve ser ele a chamar ajuda.
– Certo, então, temos um tempo? Quantos minutos temos antes que Tristan desmaie do lado de fora?
– Cinco, talvez seis minutos. Se forem agora.
Juliette não perdeu tempo, acertando um soco na parede de metal, segurando as bordas do buraco que fez e rasgando a parede como se fosse uma folha de papel. Dei um passo em direção a abertura, mas não fui adiante. Virei-me e andei até Levine, segurando a parte de trás da sua cabeça e plantando um beijo em sua testa, não me importando com sua reação ou com a dos outros. Ela poderia ter me afastado ou reclamado, mas ela inclinou mais a cabeça contra os meus lábios e eu me senti feliz por isso.
Olhei-a nos olhos – Não tenha medo – pedi e entrei nos destroços.
Juliette estava fazendo um bom trabalho, mas ela não lembrou que era menor que qualquer outro passando naquele caminho de ferro. Ela foi mais o rápido que pode, porém, quando chegamos lá, mais de dois minutos havia se passado. Mais tiros foram dados lá fora e nos apressamos. Adam tentou logo consertar qualquer que fosse aquilo e conseguiu mais depressa do que achei que o faria. Com o pedido de ajuda mandado, tínhamos mais três minutos para arranjar um jeito de sair do trem ilesos.
– Não há como sair – declarou Levine de repente.
– O que quer dizer?
– Nada do que pensou irá funcionar. Mesmo que não morramos todos, perderemos alguém.
– Mas, então, o que fazemos? Eu não sei mais o que pensar.
– Eu tive uma ideia – disse Adam – Irá funcionar?
– Como eu vou saber? Você é imune ao meu dom. Eu não enxergo o seu futuro ou nenhuma noção do futuro que venha de você.
– Então teremos que arriscar.
– Espere – falou Warner – Você pode tentar enxergar os nossos futuros fora da perspectiva de Adam. Sabe, tentar ver se passamos de hoje. Você disse que precisa de uma decisão para ver um futuro, então nós decidimos seguir o plano dele. Você não pode ver qual é, mas pode ver se nós, que não somos imunes ao seu dom, estaremos vivos amanhã.
Ela agarrou a mão de Warner e fitou o vazio – Você sobrevive – ela andou até Juno – Você também – e depois Juliette e Tristan e eu. Todos viveríamos amanhã.
– Então vamos – disse Adam.
Seu plano consistia em usar Tristan, quase desfalecido, Juno e Warner para afastar os caminhões enquanto tentávamos chegar ao vilarejo. Lembrei-o de que Warner havia explodido a rua única de lá com vários Mockers, mas que não havia garantia de que eles estavam mortos. Juliette disse que cuidaria de quem ainda respirasse por lá. Eu realmente fiquei com medo do seu olhar. Adam, eu e Levine cuidaríamos de tudo o que tentasse nos acertar de longe.
E funcionou. Por longos dois minutos, funcionou. Estávamos quase lá, Juliette fez o chão tremer e carros voarem a nossa frente e Juno, Warner e Tristan desviavam os carros na retaguarda. Tudo ia bem, nós estávamos quase lá, com todos protegidos e intactos, quando o plano falhou de forma drástica. Pudemos contar na mente quantos segundos faltavam para o caos assim que percebemos o que aconteceria. Porque em...
Quatro.
Três.
Dois.
Um.
Tristan, finalmente, desmaiou.
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