Completa-me

32 Capítulo XXXII


Notas iniciais
Esse capítulo é apenas um intermédio entre os fatos que ocorrerão após ele e que trará surpresas inusitadas. Vamos ler?

Por Kenji Kishimoto

– Você não parece muito bem – opinei, assim que achei Juliette sentada num dos vagões de pé nos trilhos responsáveis por tantos medos e sustos. Suas pernas estavam dobradas e encostadas no peito e isso me lembrou quando ela consolou Warner depois da morte de sua mãe. Sua cabeça repousada nos joelhos não me permitia saber se ela estava chorando ou não. A velha Juliette faria isso: choraria; mas eu já não a conhecia tão bem.

Andei até o seu lado e me sentei também, ignorando a poeirada incômoda que fazia meu nariz coçar. Ficamos em silêncio por alguns minutos e, se eu estivesse correto, tudo o que ela queria fazer era gritar e chorar e quebrar o que quer que pousasse à sua frente. Tentei não ser receoso, mas eu já não tinha a mesma intimidade de sete anos atrás com ela. Nós éramos amigos e eu com certeza a consolaria, eu só não sabia se devia. Se ela queria. Vi seu pulmão puxar mais ar do que era necessário e ter uma pequena falha no processo, um soluço.

Foi então que corri minha mão pelo seu braço e ela ergueu a cabeça. Não sei se foi o meu óbvio intento em ajudar ou o fato de ela estar quebrada o bastante para lembrar que um dia nos vivemos a mais fiel das amizades, mas ela se jogou nos meus braços e eu a agarrei como um irmão mais velho, um amigo íntimo o suficiente para xingar e elogiar numa mesma frase sem causar dor ou orgulho próprio. Ela chorou alto e molhado e eu não a soltei durante quase uma hora, hora cuja qual eu não falei ou tentei mudar o clima, porque Juliette precisava daquelas lágrimas, precisava daquele desespero para acabar de vez com qualquer medo ou qualquer receio ou qualquer ódio que ela nutriu durante o período em que não se preocupou em nos informar se ainda vivia. Seu corpo sacudia com o pranto, mas eu não a deixei cair do meu abraço.

Mas acabou. O aguaceiro, os tremores, os soluços, tudo acabou. Foi só ai que eu perguntei aquilo que sempre foi estúpido perguntar para alguém emocionalmente abalado, mas que sempre parece ser a coisa certa a se dizer.

– Você está bem?

Ela sacudiu a cabeça em negativa, saindo no meu colo e recostando na parede do vagão – Eu estou... desesperada, Kenji – respondeu friamente, com o rosto ainda molhado e vermelho – Aaron jamais vai me perdoar.

– Isso não é verdade. Eu sei disso melhor que ninguém. Eu vi o quão empenhado ele estava para te encontrar...

– Para me encontrar triste e desconsolada sem ele. Ele queria que eu corresse para ele e implorasse perdão por ter ido, mas o que eu fiz foi voltar feliz e jogar a bomba de que eu fui embora grávida e que eu jamais deixaria ele chegar perto do meu bebê.

– Primeiro: você não voltou feliz e ele sabe disso. Segundo: ele sabe que você fez tudo para proteger a filha de você; pode não ser agora, mas ele vai enxergar isso. E terceiro: Warner te ama e agora, mas que nunca, vocês estão ligados.

– Não sei se concordo com isso.

– Claro que estão. Vocês são uma família agora – virei-me para ela – Agora vocês têm a responsabilidade de pôr o melhor de vocês em alguém, amar esse alguém com o sentimento enorme que vocês construíram durante tão pouco tempo. É para isso que vocês sentem amor; não para vocês mesmos, mas um para o outro e para frutos desse amor. Você só não vê isso porque está com medo, mas logo isso vai passar e você vai ver com clareza.

– Eu queria ser Aaron agora, só para absorver um pouco do seu otimismo.

– Você não precisa. Você é uma lutadora, uma guerreira nata. Tem mais fé do que qualquer um nesse fim de mundo. Tudo vai se arranjar, você vai ver.

– Você promete? – pediu – Porque tudo o que eu quero agora é me livrar dessa responsabilidade.

Segurei sua mão e entrelacei nossos dedos – Eu prometo.

Juliette respirou fundo antes de falar – Quando eu fui embora, eu me senti vazia. Fiquei abrigada na casa de pessoas que me viram caminhar perdida na rua e me ajudaram. Uma dessas pessoas foi Josh. Ele me levou para a casa dele, mas não pode me manter lá por muito tempo, então me levou para Maria. Eu morei na casa dela por alguns meses e via ela apanhar do marido quase todos os dias. Estava perto de dar à luz a Kat quando eu explodi. Agarrei ele pelo pescoço sem pensar e, sem querer, quebrei seu pescoço. Eu realmente não queria e achei que ela fosse me mandar embora, mas então ela me agradeceu e eu passei a viver de vez com ela. Só que Aaron estava se aproximando de mim, então fugimos. Katerina nasceu no Setor 865, no dia quatorze de outubro, de acordo com um calendário velho que Maria tinha guardado...

– 1014 – falei baixinho.

– No início, assim que a vi, achei que era o meu castigo ter uma filha a cara do homem que me fez tão infeliz. Só que é impossível não se apaixonar pelo mal humor dela e ela virou o meu motivo de vida. Nós vivíamos pelo que eu conseguia nos serviços prestados e eu estava conformada com o que eu tinha. De vez em quando, me batia uma saudade imensa de Aaron e eu me punia mentalmente por isso, então quando Josh me chamou para voltar para o Setor 45, eu me desesperei. Só que eu não podia continuar com essas pessoas passando por tudo aquilo que eu lutei para que acabasse, então eu vim. Quando você viu Kat, eu logo notei que você tinha visto a verdade. Que ela era filha de Aaron. Depois da sua reação, eu tentei imaginar a reação de Aaron caso ele descobrisse – ela baixou a cabeça – Foi bem pior.

– Eu posso dizer uma coisa: Warner nunca te fez infeliz; você fez isso ao ir embora. Eu entendo os seus motivos e não quero piorar o seu estado, mas é injusto você tentar culpar Warner por isso. E não julgue ele também por sua reação ao saber que tinha uma filha perdida no caos que é esse mundo, Juliette. Até eu me sentiria ferido por isso – me pus de pé, puxando-a para cima – Dê um tempo para Warner. Deixe ele conhecer a filha e se acostumar com a ideia. Tenho certeza de que, quando ele digerir tudo isso, vai ver que nada nessa história foi movido por maldade. Apenas por amor.

Ela me abraçou novamente e enxugou os olhos. Parecia mais calma e estabilizada, assim como o tempo era naquele lugar. Saímos do vagão e eu queria dizer que tivemos sossego para resolver esse dilema, mas eu não pude. Meia dúzia de caminhões seguiam para a vila, repleto de soldados armados. Infelizmente, aquilo não era sinônimo de paz.

Estávamos sendo invadidos.

Notas finais
Então, como está a história? Sei que não foi um capítulo muito produtivo, mas necessário. Obrigado pelos comentários e mensagens que vocês me enviam. Fico muito feliz com cada palavra. Vou começar uma história nova em alguns dias, talvez, então pulem rapidinho lá na minha página no Nyah e deixem sua opinião, ok? Beijos. BL.