Completa-me

31 Capítulo XXXI


Notas iniciais
Mais um! Vamos lá?

Por Aaron Warner

Eu não sabia dizer porque aquele canto do quarto se tornara tão chamativo, tão interessante. Depois de esclarecer tantos erros e tropeços grandes que geraram consequências abissais, eu voltei para o quarto e me sentei com as costas contra a porta assim que a fechei. Só não tive coragem de erguer a cabeça e fixar na garotinha sobre a cama.

Procurei não pensar em nada e deixar sair a mistura de sentimentos que me fazia ficar enjoado. Eu não sabia se corria para longe de tudo aquilo ou se acordava a garotinha e abraçava como minha mãe costumava fazer. A calmaria na casa não combinava com tudo o que se acontecia dentro de mim e eu resolvi ficar ali, incapaz de encarar alguém. E horas se passaram antes que eu olhasse para cima.

Um movimento me chamou atenção e eu fitei a cama, vendo Kat se sentar e esticar os braços, coçando os olhos com os pulsos. Meu coração disparou e eu me pus de pé, chamando a atenção dela, que não parecia nem um pouco assustada por estar com sozinha com um estranho dentro de um quarto no qual ela nunca esteve.

– Onde está Juliette? – perguntou ela.

Fiquei indeciso sobre o que falar – Você... pode chamar ela de mãe. Eu já sei de tudo.

Ela arregalou os olhos, mas ficou calma outra vez – Kenji disse a você?

– Kenji?

Ela olhou para o lado – Deixa pra lá – ela pediu – Onde está a mamãe?

Mesmo eu esperando por isso, me surpreendi ao ouvi-la falar – Ela... – pigarreei – Ela foi dar uma volta.

– Isso não é normal.

– O que não é normal?

– A mamãe ir dar uma volta. Ela jamais me deixaria sozinha com um estranho – sua cabeça pendeu um pouco para o lado e ela me analisou – Você me lembra alguém.

– Lembro? – perguntei, com medo de ouvir a resposta.

– Sim, mas é só uma história que Juliette costuma me contar quando me põe para dormir.

– Que história?

– Não é nada – disse, balançando a cabeça e parecendo envergonhada.

Respirei fundo, ignorando o nervosismo. Caminhei até o lado da cama e me sentei lá, de costas para a porta. Ela se afastou para me dar espaço, confortável à minha presença. Saber disso me deixou mais confortável também. Olhei para ela, que tinha as bochechas mais coradas que o normal.

– Eu... adoraria saber.

Ela encarou os meus olhos e sorriu um pouco – Todas as noites, mamãe me conta a história – ela puxou fôlego e começou a recitar, como se já gravara por sempre ouvir – Era uma vez, uma Plebeia que vivia presa em num calabouço por ser diferente. Ela tinha poderes especiais e as pessoas tinham medo dela, então o Rei mandou seus guardas jogarem ela na prisão para que o Reino ficasse longe de perigo. Ela passou anos presa, sem ver o que acontecia lá fora, até que um belo e cortês Cavaleiro a salvou de seu confinamento. Ela lhe foi muito grata e viu nele um amigo, mas o Rei soube que ela fugiu e a prendeu de novo, mas, desta vez, no seu castelo. Ela foi obrigada a conviver com o Príncipe daquele reino dia e noite depois que o Rei viajou. O Príncipe era lindo, tinha seus cabelos dourados como o Sol e seus olhos tão verdes quanto as esmeraldas que cercavam sua coroa. Ele a levava para passear, para conhecer o reino e gostava de conversar com ela. Oferecia a ela jantares e os mais belos vestidos, tudo em troca de seus poderes. Mas ela não queria viver daquele jeito, queria ser livre e poder respirar sem medo. Quando ela achou que tudo estava perdido, o Cavaleiro retornou e livrou ela mais uma vez do cativeiro. Ela ficou feliz durante um tempo, mas sentia falta do Príncipe. De suas gentilezas e de sua presença. Ela não entendia o que acontecia com seu coração e decidiu arriscar. Ela voltou para o Príncipe, que estava arrasado por sua partida e eles se amaram como ninguém no mundo. Ele não tinha medo dela e todos logo passaram a não ter também. Se casaram e ficaram muito felizes por muito tempo. Ela descobriu que estava grávida mas, antes que ela pudesse contar para o Príncipe, o Rei retornou à sua casa e ameaçou sua vida. Temendo por sua criança, a Plebeia fugiu, deixando seu amor para trás para proteger seu neném e não mais retornou, triste por deixar seu grande amor para trás, mas satisfeita por salvar a vida de seu bebê.

Meus olhos marejados se fecharam durante suas palavras e eu tentei não fungar. Respirei devagar e enxuguei discretamente seus olhos, não querendo que ela notasse que eu estava chorando. Juliette realmente nunca escondeu a verdade dela, mas não a contou de forma clara. A contou de forma que a menina não ficasse triste sobre o que passara antes mesmo de nascer.

– Você me lembra o Príncipe – declarou, chamando minha atenção – Mamãe disse que a história foi real, mas ela acha que eu não sei que ela é a Plebeia e eu sou o bebê – ela se sentou sobre os joelhos, chegando mais perto de mim – Eu não sou estúpida.

– Sei que não é.

– Então sabe que eu percebo as coisas que a mamãe não me disse de verdade, não sabe? Você tem os cabelos como os meus e os olhos como os meus. O Príncipe tem cabelos dourados como o Sol e olhos verdes como esmeraldas, exatamente como você – ela esperou que eu dissesse algo, mas eu não quis. Eu só quis escutá-la – Se você fosse o Príncipe e eu fosse o bebê... Você seria meu pai, não é? – acenei e ela chegou ainda mais perto – Mas a história é real, então... você... é o meu pai?

Acenei outra vez e ela me surpreendeu outra vez, segurando minha mão, analisando meu anel. Tirei-o do meu dedo pela primeira vez em anos e encaixei em seu dedo anelar em silêncio – Combina com seus olhos – falei baixinho.

– E com os seus também – ela me olhou bem fixamente e sorriu – Nós temos os mesmos olhos.

– Temos, sim — ela pareceu querer dizer alguma coisa, mais não criara coragem – Você pode falar o que quiser.

Ela me olhou e respirou antes de falar – Eu... sempre pensei em como seria quando a Plebeia voltasse para o Príncipe, quando o bebê conhecesse seu pai – ela sorriu mais – Eu... gostei de conhecer você.

– Eu também gostei de conhecer você. Mais do que você pode pensar.

– Então você... vai ser o meu pai?

As lágrimas que eu tanto tentara esconder caíram livres, molhando meu rosto enquanto eu puxava a pequena para os meus braços, abraçando minha filha pela primeira vez. Senti meu coração se expandir em amor pela segunda vez na vida.

– Você nunca mais vai ficar longe de mim. Eu prometo.

– Que bom – disse ela – mas eu tenho uma pergunta.

– Pode perguntar – falei – Pode perguntar o que quiser.

Ela se soltou de mim, com dúvida em sua expressão – Quem é o Cavaleiro?

Notas finais
Aysha, Camila, La Dressa, Carol, muito obrigado pelo apoio! Esero que tenham gostado desse capítulo. Me falem se algo não agradar. Beijos. BL.