Completa-me
30 Capítulo XXX
Notas iniciais
Por Aaron Warner
Depois do susto, Kat se sentiu cansada e a levamos para o casebre. Ela foi empoleirada no colo de Juliette. Sua mãe, pensei. Os braços passados ao redor de seu pescoço e a cabeça deitada em seu ombro me ditavam a intimidade entre elas. Intimidade que eu não tive oportunidade de criar. Não falamos nada durante o percurso e eu não queria ter tais pensamentos, mas eles surgiam na minha cabeça sem que eu lhes desse permissão. Mágoa e culpa voltada para Juliette me consumiam e tudo o que eu queria fazer era gritar com ela e acusa-la de me tirar a oportunidade de ser melhor do que o pai que eu tivera.
Abri a porta para que ela pudesse entrar. Ela afundou o rosto nos cachos dourados de Kat e não me encarou até ser impossível não fazê-lo. A menina já estava coberta e repousava tranquila, mal tendo noção do medo que nos impôs mais cedo. O movimento das costas de Juliette me disse que ela enchia os pulmões de ar e soltava, como se estivesse se preparando para uma batalha. Se concentrando no certo a se fazer. Ela se virou e nossos olhares se encontraram. Não durou um segundo antes de eu desviar, porque eu simplesmente não conseguia mais.
Foi assim que foquei em Kat, serena e dormindo, e tentei sentir apenas aquilo. Porém, o turbilhão cercando meu peito não consentiu com isso e eu continuei sofrendo, com responsabilidade compartilhada entre culpar Juliette e me culpar por ter um sentimento tão negativo por ela, o que o meu amor não admitia de maneira nenhuma. Meus pensamentos se entrelaçavam entre não acreditar que eu perdi o que perdi e tentar entender o lado de Juliette.
Não me orgulhei de constatar que o lado ruim estava em vantagem na minha mente.
– Ela é linda, não é? – disse Juliette, me fazendo fechar os olhos. Nunca achei que sentiria vontade de não ouvir sua voz. Mas eu preciso enfrentar logo isso.
Sai do quarto, quase querendo esquecer do mundo e ficar ali, vendo a respiração ritmada da menina. Juliette me seguiu e eu fui andando até os trilhos do trem, que então tinha um companheiro de acidente. Não parei até ver que era ridículo ficar andando como se a distância fosse resolver alguma coisa. Dei a volta e Juliette parou de supetão, mais próxima do que eu esperava. Dei um passo para trás para me afastar e ela notou isso.
– Aaron...
– Meu Deus – passei as mãos pelo rosto – Eu só... ainda não acredito no que está acontecendo.
– Eu queria te contar...
– Queria me contar? – fitei-a, incrédulo – Queria me contar? Quando? Quando fugiu sete anos atrás? Ou quando me reencontrou e me fez acreditar que já não tinha mais a chance de criar uma família com você? Você tem noção do que me impediu de viver?
– Eu sei. Eu errei, Aaron, mas eu fiz isso para protegê-la – ela justificou, andando um passo. Não deixei que se aproximasse, me afastando. Sua testa se enrugou e seus olhos se encheram de água – Aaron, por favor... Apenas entenda. Tudo o que eu fiz foi por amor a Kat.
– E onde estava o seu amor por mim? – gritei – Porque o meu esteve aqui o tempo inteiro! Porque não voltou quando viu que não houve ataque daqueles grupos infiltrados? Porque não tentou achar a verdade antes de me tirar tudo? Ela é minha filha, Juliette!
Um silêncio se instalou e eu percebi que isso estava se tornando constante. Aquele silêncio de quando não havia o que dizer porque todos os sentimentos já eram expostos. Apoiei as mãos na cintura e baixei a cabeça, respirando com dificuldade. Isso porque eu estava chorando, mesmo sem notar. Algo estava preso na minha garganta e eu queria falar, pôr para fora tudo o que eu tinha no peito, mas eu não conseguia. Passaram-se incômodos segundos antes que eu me sentisse melhor.
– Ela é minha filha. Eu perdi... anos longe dela – declarei, mirando o chão de areia branca – Anos, Juliette. Você tem ideia do que é isso? Tem ideia do que eu estou sentindo agora?
– Eu sinto muito, Aaron – falou, também chorando – Eu sinto tanto! Você não tem noção do quanto.
– Eu... só não sei o que pensar agora. Eu quero, Juliette. Eu juro que quero entender você, mas eu não consigo. Eu só consigo... culpar você por tudo. Por eu não ter sentido a felicidade de saber que eu seria pai. Por ter perdido a chance de arriscar ser um pai melhor do que o exemplo fútil que tenho. Por não ter conhecido a minha filha, Juliette. E por ela não ter me conhecido – voltei a olhá-la e ela parecia destruída – Ela poderia ter aprendido a me amar, a me ter como um protetor, mas tudo o que eu sou para ela agora é um estranho e a culpa é sua. Você me tirou dela e tirou ela de mim.
Ela procurou se aproximar e, dessa vez eu deixei – Eu só quis protege-la.
– De mim?
– Sim, de você, mas não porque eu sou um monstro. Eu não sabia que tudo era mentira. Eu fiquei apavorada. Você controlava muitos soldados e eu não conseguiria ir contra você. Eu não avisei a ninguém sobre nada. Não queria correr o risco de você saber que algo não estava certo. Abandonei os meus amigos sem dizer a eles que você era um perigo. Deixei-os para morrer por medo de você machucar o meu bebê. Eu nunca quis tirar Kat de você, eu só quis mantê-la segura de uma ameaça. Você não faria o mesmo?
– Não tente inverter as situações, Juliette.
– Eu não estou tentando nada, só quero que você entenda. Que me perdoe, Aaron.
Sacudi a cabeça – Eu não consigo.
– Você disse que jamais me odiaria, lembra?
– E eu não odeio. Apesar de tudo, eu te amo – eu ri com a ironia – Meu coração ainda é teimoso o suficiente para não esquecer meu amor por você. Eu só não consigo... estar com você agora.
Ela pareceu entender, apesar de sentir medo e tristeza – Então, vá vigiar Kat. Converse com ela. Ela sempre soube sobre você. Não do jeito que você pensa, só... – ela inspirou – Você vai entender.
Assenti em concordância e então eu fui embora, deixando Juliette para trás, derramando o único choro seu que eu não quis consolar.
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