Completa-me
29 Capítulo XXIX
Notas iniciais
Por Aaron Warner
– Você conheceu o meu pai? – perguntei, olhando para Levine abismado.
– Infelizmente, sim – disse ela – Eu o vi em seu passado. Você é filho do homem que me tirou tudo, mas é totalmente diferente dele.
– Não fui tão bom no passado.
– Não é verdade – discordou – Você tinha motivos para fazer as coisas que fez.
– Não há motivos nobres que justificam matar.
– Há, sim, Warner – ela andou até mim, puxando minhas mãos para as dela – Ou você não o faria para salvar a quem ama? Já não o fez? – ela olhou para trás, para Juliette – Você sabia que Juliette já quis matar seu pai por você? Uma vez, com as próprias mãos? Ela não pensou em si, só em você – Voltou a mirar a mim – Você a julgaria por amar você demais, o suficiente para esquecer que não há os motivos nobres? – ela sorriu – Eu duvido muito. E duvido ainda mais que você se arrependa de cada morte que o seu amor por ela causou. Não estou julgando você ou jogando na sua cara, mas essa é a verdade. Você a ama e ela ama você, nenhum erro do passado apagará isso.
– Como sabe? – manifestou-se Juliette, dando um passo para se aproximar de Levine, que ainda segurava minhas mãos – Como pode saber se o peso de um passado não será o suficiente para derrubar um futuro?
– Porque eu vejo ambos, Juliette. Passado e futuro. E os dois são lindos para vocês.
Eu queria poder dizer que nessa hora Juliette me olhou e sorriu e correu para cair em meus braços. Que nós nos beijamos e juramos nunca nos separar e que eu, de tanta felicidade, a ergui pela cintura e girei com ela gargalhando com a cabeça deitada no meu ombro e os braços abraçados ao meu pescoço. Mas não foi isso o que aconteceu.
O que aconteceu foi que Juno veio correndo desesperada em nossa direção, ofegante.
– Levine! – ela gritou, ainda longe – Há outro trem.
– O que? – questionou, correndo para Juno, com todos nós em seu encalço – O que está acontecendo?
– Há um trem vindo para cá.
– Nós já retiramos a rocha, Juno.
– Mas o resto do outro trem ainda está lá. Se eles se chocarem, será um desastre. Tudo irá pelos ares.
Levine tentou não transparecer medo, mas não conseguiu. Corremos em direção aos trilhos e a maior parte das pessoas do vilarejo estavam lá. A rocha realmente já não estava lá, mas o trem, tombado para o lado impedia qualquer outro de seguir por ali.
– Lia – chamou Levine e uma garota alta e morena se pôs ao seu lado – Consegue vê-los?
Lia se concentrou em olhar para a direção em que a trilha seguia e sacudiu a cabeça – Ainda não, apenas o trem. Estão muito rápidos, mas não enxergo quem está lá dentro.
– Continue tentando – ela se virou para Juno – Não consegue empurrar o trem para fora dos trilhos?
– Não sem derrubar algumas árvores, e isso só pioraria tudo.
– Mas eu posso – falou Juliette – Eu posso tentar empurra-lo.
– Sozinha? – perguntou Juno – Não conseguiria. Sei que é bem forte, Levine me contou, mas...
– Mas não daria tempo – Lia replicou – O trem já está muito próximo. Já consigo ver pessoas neles.
– Quem viria até nós? – pensou Levine em voz alta, apenas para si – Ninguém usa essa rota. Ninguém saberia aonde estamos.
E foi com essa frase que um medo se alojou na minha espinha. Só algumas pessoas sabiam aonde estamos e como chegar aqui. Procurei me convencer de que eles não seriam capazes de tal loucura, mas não pude. Algo me dizia que eu sabia quem estava naquele trem. E não seria nada fácil tirá-los.
– Adam...
– Eu sei – ele me respondeu, assustado – Deus queira que estejamos errados.
– Levine – chamou Lia – Precisa fazer alguma coisa agora – ela suspirou, com medo – São crianças. Duas crianças, bem parecidas. Acho que são irmãos. Um rapaz e uma garotinha.
– Deus – Kenji exprimiu – James...
– E Katerina – Juliette perdeu o fôlego – Temos que tirá-los de lá. Temos que fazer alguma coisa.
– Nada pararia esse trem. A única chance que vocês têm é se tirarem esses destroços dos trilhos – Lia parou por alguns segundos – Eles estão a alguns quilômetros. Vocês têm menos de um minuto.
Sem pensar eu corri, roubando o dom de Juliette e empurrei o vagão mais próximo. Ele balançou e caiu para fora dos trilhos. Juliette já cuidava do próximo e assim fizemos, mas o trem era extenso e não daria tempo de derruba-lo por completo. Parei, puxando o ar para os meus pulmões teimosos que não queriam aceita-lo.
– Porque você parou? – gritou Juliette, desesperada – Continue!
– Não dará certo.
– Temos que tentar! – corri até ela, segurando seus ombros e impedindo-a de continuar. Ela lutou e tentou se soltar, mas eu passei meus braços pela sua cintura, parando-a. Ela começou a se debater – Me solta, Aaron. Eu não posso desistir. Eles não podem morrer. Não podemos deixar – ela já estava chorando, gritando, histérica – Não podemos deixar, Aaron! Eu não posso perder Kat! Por favor, Aaron! Nós temos que salvá-los! Ela não pode morrer, Aaron! Kat não pode morrer!
Algo em suas palavras e em sua angústia me fez ver o quão cego fui. O quão ridículo eu fui ao ignorar inconscientemente algo tão claro. Ao notar uma verdade oculta em sua luta, eu ganhei mais um motivo para não desisti. Eu também não poderia deixar Kat morrer, mas naquele momento, depois do que ouvi, meus motivos eram outros. Respirei fundo, sentindo a promessa de Levine se cumprir:
O seu futuro terá um... acréscimo muito distante do que você esperava.
Ela me prometeu um belo amanhã e, se aquele trem explodisse, nada seria belo. Porque eu perderia mais do que antes. E, nesse medo, que eu pensei.
– Destrua o trem – sussurrei. Ela olhou para mim, quase sem entender em meio a medo – Você já fez isso antes. Mostrou aos meus soldados o que podia fazer. Vamos fazer isso juntos. Vamos salvar James e Kat – suguei o ar, ainda olhando sem seus olhos, marejando os meus – A nossa Kat.
Ela soluçou, surpresa, e concordou com a cabeça, virando para frente. Pus minha mão na dela e ergui-as juntas, em direção aos vagões que não foram derrubados. O trem em movimento apitou, já não tão longe, e fez o chão tremer bem pouco.
– Faça – pedi – e eu saberei o que fazer também.
Senti sua energia passar para mim e implorar para ser liberada. Busquei ao máximo me conectar com Juliette, fazer tudo ao mesmo tempo, para que tivesse mais força. Ela respirou e deixou sair. E eu a acompanhei.
Os vagões começaram a tremer e a rachar no meio. Debaixo para cima, todos eles se partiram e abriram um caminho para que o trem pudesse passar. Ainda não era o suficiente para que os trilhos ficarem livres, mas os danos do impacto que o trem tomou ao chegar no destino foi muito melhor. Ele passou por cima dos poucos destroços que restaram e parou bem próximo de onde estávamos.
Juliette se soltou e saiu correndo para a porta do trem que se abria. Ela invadiu o transporte e eu observei, paralisado, Kenji e Adam fazerem o mesmo. Senti uma mão pequena me tocar na costa e olhei para o lado. Levine parecia aliviada e ria para mim.
– Vá. Elas precisam de você.
Isso me despertou e eu disparei para onde eles estavam. Assim que entrei. Vi Adam e Kenji brigando com James. Passei por eles e abracei o garoto, que não entendia o que estava acontecendo. Quando sua segurança já me era garantida, fui mais fundo no vagão, vendo Juliette ajoelhada tocando o rosto de Kat. Aproximei-me devagar, ainda em choque pela recém descoberta, e também me pus em meus joelhos. Juliette olhou para mim e soltou a menina, que virou a atenção para mim.
Como eu não pude ver?, pensei. Como eu não enxerguei o óbvio diante de mim? Eu quis falar, perguntar se ela não estava bem, mas eu não consegui. Não consegui falar ou pensar ou reparar em alguma coisa que não fossem seus olhos. Os olhos que me recordavam tanto alguém. Que me recordavam de mim. Porque aqueles eram os meus olhos.
Guiei minha mão em direção ao seu rosto. Era macio e delicado. Sua expressão se tornou confusa e, repentinamente, clareou. Como se ela também me reconhecesse. E sorriu. Ela sorriu e me mostrou a verdade. Foi então que a realidade fixou na minha mente.
Kat.
Minha filha.
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