Competições de Abril
19 Viagem
ROMANCES MENSAIS
LIVRO IV – COMPETIÇÕES DE ABRIL
CAPÍTULO XVII — VIAGEM
Quase dois meses se passaram desde que escapamos do sequestro da Yakuza e que descobrimos sobre a relação da mãe de Cait com as pesquisas realizadas pelo Hawkins National Laboratory. Desde então, tudo o que soubemos foi que Kimanjiro Inugane foi morto pela tia Tasha e de uma maneira não muito agradável. Ao invés disso se tornar uma guerra com a Yakuza, como imaginamos que aconteceria, mesmo contra a vontade de tia Tasha, tio Clint parece ter interferido e o novo líder da família Yamaguchi-gumi, Kenichi Shinoda, parece ter deixado as mortes dos mais de cem membros da Yakuza como uma fatalidade.
Apesar da calmaria, eu não conseguia descansar. Mesmo vivendo o melhor momento de minha vida, com a mulher que eu amo, meus amigos e a minha família, a cada dia que se passa, mais preocupado eu me sinto. Era como se eu sentisse que ainda não havia acabado, que algo muito maior estar ainda estava para acontecer. É apenas questão de tempo para que mais um dos obcecados pelo Mirakuru apareçam e todo os caos volte para a minha vida.
— Querido, você está pronto? Cait deve estar para chegar. — Echo abre a porta do quarto e me encara com aqueles olhos maternais preocupados.
— Sim. — Respondo, fechando a mala. Ela se aproxima, mordendo o lábio inferior. — Não precisa me olhar desse jeito. É só uma viagem de uma semana para Tóquio. Não é como se eu fosse desaparecer de sua vida.
Como era de se esperar, Cait e eu conquistamos o primeiro lugar na competição da universidade e viajaríamos hoje para Tóquio para apresentar o nosso projeto na maior feira de tecnologia e inovação do mundo que ocorreria em cinco dias. Nós não poderíamos estar mais animados e ansiosos para isso. Essa é a nossa oportunidade de conseguir patrocinadores para produzir em grande escala o iogurte biofortificado. Nós também estávamos ansiosos para cumprir o nossos desejos ao visitar a metrópole japonesa.
— Vai ser uma semana com você do outro lado do mundo. E se você se machucar? E se alguém tentar fazer algo com você só por ser estrangeiro? Pelo amor de Deus, Barry, não beba nada que estranhos te ofereçam. E evita beber, querido. Confira sempre o que você estar comendo e não saia de perto da Cait. Vocês estarão em um país completamente diferente daqui. E tenha cuidado com...
— Eu vou ficar bem, Echo. — Interrompo a mulher, que faltava chorar de angustia. Era sempre assim. Ela era como uma mãe coruja que não conseguia parar de se preocupar todas as vezes que eu saia de casa. Essa é a primeira vez que vou para tão longe de suas asas sem ela estar por perto desde que começou a namorar com meu pai.
— Não se esqueça de me ligar, Barry. Você e seu pai têm a irritante mania de esquecer de avisar onde estão ou mandar notícias. E eu fico aqui morrendo de preocupação. — Reclama a loira, pegando em meus ombros, obrigando-me a encará-la.
— Eu prometo que vou ligar todos os dias. — Afirmo e ela suspira, antes de sorri e acariciar meu rosto. Seus olhos esboçavam seus mais genuínos sentimentos. — Eu vou ficar bem. A Cait vai estar comigo, então não precisa se preocupar.
— Você cresceu tanto. Um dia desses você era apenas um garotinho apaixonado por dinossauros, extremamente curioso. Ainda não consigo acreditar que se tornou um homem tão bonito e gentil assim. Eu estou muito orgulhosa de você, Barry. Todos os dias eu vejo você dar o seu melhor, tanto no trabalho quanto nos estudos. Ver você se arriscar todos os dias em seu emprego é sempre um motivo para eu me preocupar, mas também é motivo para me fazer sorrir e agradecer todos os dias a Nora por ter me dado você de presente. Onde quer que ela esteja, eu tenho certeza de que sua mãe está muito feliz e orgulhosa pelo homem que você se tornou. — Fala Echo com os olhos cheios de lágrimas e um bonito sorriso no rosto. Comovido por suas palavras, eu a abraço com força, grato por tudo o que ela já fez e vem fazendo por mim. — Eu te amo muito, meu amado menino.
— Eu também te amo muito, mãe. — Sussurro e ouço ela soluçar, surpresa.
— O que... o que você disse? — Pergunta, afastado-se de mim com os olhos arregalados e molhados. Sorrio ao ver seus olhos brilharem.
— Há muitos anos tenho vontade de te chamar assim. — Confesso, limpando as lágrimas que desciam intensamente pelo rosto bonito de minha madrasta. — Eu apenas não sabia como fazer isso. Durante todos esses anos você tem cuidado de mim. Você não tinha obrigação alguma de me acolher como seu filho, ainda assim, você o fez sem pensar duas vezes. Mesmo quando eu aprontava ou apontava palavras duras para você, imaturo demais para perceber que você só queria o meu bem, você jamais desistiu de mim. Você é a minha mãe, Echo. E se eu me tornei a pessoa que eu sou hoje, foi tudo graças a você. Mesmo contrariando as vontades de meu pai, você ainda me levava para os campeonatos de ciência, sempre me incentivando a seguir meus sonhos. Você também sempre se virou para cuidar da casa, trabalhar, estudar e cuidar de mim e do meu pai. Ainda assim, eu nunca te vi reclamar ou se deixar abater. Você é a pessoa que eu mais admiro nesse mundo. Obrigado por se tornar a minha mãe.
— Oh, querido. — Echo chorava e me abraçava com todo amor que somente a minha mãe de coração seria capaz de me presentear. Na porta de meu quarto vejo Cait nos encarar com os olhos cheios de lágrimas e um lindo sorriso. Meu pai estava logo atrás dela e dava um dos seus raros sorrisos, parecendo satisfeito pelo que via. — Não é justo você me dizer essas coisas e depois ir para o outro lado do mundo. E agora como posso deixar você partir?
— Ele volta em sete dias, Echo. Não precisa agir como se fosse o fim do mundo. — Responde meu pai, que recebe um olhar repreendedor da esposa. — O que foi?
— Você é tão insensível, Henry! Como pode estar tão tranquilo assim quando nosso menino vai ficar tanto tempo longe de nós? — Pergunta Echo, dramatizando. Reviro os olhos, rindo. Ela realmente agia como se eu estivesse saindo de casa e nunca mais fosse voltar.
— Se está agindo assim por causa de uma simples viagem, o que vai fazer quando ele se casar, sair de casa e ter filhos? — Pergunta meu pai, divertindo-se com o drama da esposa. — Ele já encontrou uma boa moça. Isso é só uma questão de tempo e...
— Quem disse que ele precisa sair de casa? Cait pode muito bem vir morar aqui, certo, querida? — Pergunta Echo de maneira esperançosa para Cait, que me encara corada, sem saber como responder.
— Já chega dessa história. Vocês estão deixando Cait apavorada. — Interfiro, pegando minha mala que estava sobre a cama. Aproximo-me de minha namorada e deixo um beijo em sua testa. — Preparada para longa viagem?
— Não sei. Nunca viajei para tão longe. Não consegui dormir nada essa noite. — Responde, sorrindo nervosamente. Ela então se vira para Echo e sorri com doçura. — Não se preocupe, Echo. Acho que ainda vai levar muito tempo até que Barry se case.
— Obrigada, querida. — Agradece Echo, correspondendo ao sorriso. — E eu espero mesmo que seja com você. Acho que nunca vi meu menino tão feliz como ele parece quando está com você.
— Mãe! — Repreendo a mulher, que volta a chorar ao ouvir eu a chamar. — Se toda vez que eu a chamar assim você começar a chorar, acho que eu vou ter que parar de te chamar de mãe.
— Não! Você não pode fazer isso! — Resmunga Echo, tentando desesperadamente controlar as lágrimas, como uma criança teimosa. Cait e eu rimos de sua reação, enquanto meu pai se aproxima para consolar a esposa. — Não sabe o quanto eu esperei pelo dia que você me chamaria assim. Eu só preciso me acostumar.
— Você é mesmo uma manteiga derretida. — Comenta meu pai, rindo enquanto gentilmente limpa o rosto da esposa. Ele então a puxa para um abraço, permitindo que ela se aconchegasse. Observo a tudo, um pouco surpreso. Normalmente, meu pai age de forma meio bruta e nunca sabe agir quando Echo chora, mas naquele momento, ele demonstrava todo o amor que sente por ela. — Obrigado por ser uma boa mãe.
Cait sorri e me abraça, parecendo tocada pela cena. Eu também me sentia emocionado com o que acontecia e aliviado por finalmente conseguir expor algo que venho guardando desde que passei a notar o quanto Echo havia se dedicado e se sacrificado para me criar. Mesmo não lembrando de minha mãe, não importa onde ela esteja, eu sinto que ela está cuidando de mim e que foi ela quem enviou Echo para que meu pai e eu nunca nos sentíssemos sozinhos.
[...]
— Atenção senhores passageiros com o destino a Tóquio, última chamada para o voo 3340. Dirijam-se ao portão 10 e tenham uma boa viagem.
O anuncio da companhia aérea ecoa pelo aeroporto, atraindo nossa atenção. Cait e eu nos encaramos, sorrindo ansiosos. Nós iríamos com mais dois professores de nosso curso que seriam responsáveis por nos ajudar a nos comunicar e a cuidar de todo o processo de exposição de nosso projeto, ainda assim, era como se estivéssemos entrando em um mundo completamente novo para nós.
— Bom, nós precisamos ir. — Avisa Cait, encarando todos que haviam feito questão de ir ao aeroporto para se despedir de nós, sendo esses a maior parte meus primos, Echo, meu pai, tio Mike e algumas pessoas do Hawkeye, como era de se esperar.
— Não se esqueçam de me manter informada. — Implora Echo, abraçando minha namorada, que ri e assente.
— Pode deixar. — Concorda a garota, sorrindo. — Assim que pousarmos em Chicago para fazer nossa escala, nós entramos em contato.
— Juízo, garoto. — Pede meu pai, abraçando-me.
— Pode deixar. — Respondo, assim que me afasto dele. Abraço Echo, que já parecia a ponto de chorar de novo. Rio e a aperto ainda mais. — E você não fique preocupada demais. A semana vai passar voando e logo estaremos de volta.
— Tome cuidado, meu menino. — Implora Echo, acariciando meu rosto. — Você pegou o seu Triceratops? Você nunca consegue dormir bem sem ele.
— Mãe! — Resmungo, vendo os risinhos de Cait, Iris, Austin, Ben, Elena, Damon, Oliver, Mal e Ally. É claro que eles não perderiam a chance de ri de minha cara. Echo me encara esperando uma resposta. Suspiro, sentindo minhas bochechas esquentarem. — Peguei.
— Que fofo! — Comenta Damon, fazendo questão de dar aquele sorriso idiota. — Você continua sendo o pequeno Barry.
— Cala a boca, Damon! — Reclamo e isso só faz que ele risse anda mais.
— Deixa ele, cara. Você sabe que se ele não dormir abraçado ao dino, ele tem pesadelos. — Provoca Oliver e eu reviro os olhos.
— O que você está fazendo aqui mesmo? Não deveria estar indo atrás da mãe do seu filho? — Pergunto e ele me encara, entendiado. — Ah, é mesmo. Ela te deu um pé na bunda.
— Ai! Eu não deixava. — Brinca Austin e Ben ri, amando as provocações.
— Pegou pesado, Barry. — Continua Ben, fazendo Damon e Austin rirem.
— Vocês são tão infantis. — Comenta Elena, revirando os olhos.
— Eles são homens. Por que a surpresa? — Pergunta Mal, rindo de nosso comportamento.
— Não é melhor vocês irem ou vão acabar perdendo o voo. — Alerta Ally e eu encaro Cait, lembrando mesmo que aquela havia sido a última chamada.
— Verdade! — Concorda Cait, abraçando as meninas em despedida.
— Eu vou sentir tanto a sua falta. — Choraminga Iris, abraçando a amiga com intensidade. — Aproveite bastante a viagem e não se esqueça de trazer lembrancinhas para nós.
— Pode deixar. — Responde minha namorada, afastando-se da melhor amiga.
E de maneira eufórica, despeço-me de minha família e sigo com Cait para o nosso portão de embarque. Eles acenam em despedida, sorrindo e fazendo diversas recomendações e exigências. Observo-os junto a Cait, divertindo-nos com os escândalos típicos de minha família. Não importa quanto tempo passe, eles sempre serão essas pessoas malucas que quando reunidas conseguem enlouquecer qualquer um.
Dentro do avião, Cait aperta minha mão e vejo o quanto ela estava nervosa. Nós esperamos tanto por esse momento e agora que ele chegou, nós não sabíamos como reagir, além de sorrir e ansiar por nossa chegada à Tóquio. Eu estava prestes a realizar um dos meus maiores sonhos ao lado da pessoa que amo. É algo difícil de acreditar e ainda assim, extasiante.
E então o avião decola. O frio na barriga era inexplicável. Meu corpo parecia estar cheio de eletricidade. Depois de duas horas de voo, Cait encosta sua cabeça em meu ombro e dorme serenamente, com as mãos entrelaçadas a minha. Sorrio e observo a cena, encantado. Eu não conseguia dormir. Meus pensamentos variavam entre nossa viagem e a possibilidade de termos problemas em Tóquio.
Eu sabia que poderia estar sendo um pouco paranoico, porque tia Tasha e tio Clint haviam me garantido que não teríamos mais problemas com a organização criminosa japonesa, mas nós estamos indo para o país de origem da Yakuza, a organização que provavelmente mais deseja nos ver mortos. Ao mesmo tempo que eu queria relaxar e aproveitar a viagem, meus instintos vibravam alarmados sobre a possibilidade de ter que lidarmos com o perigo completamente longe de nosso país. Talvez essa seja a chance que a Yakuza esteja esperando para nos atacar, afinal, eles sabiam que Cait e eu estávamos participando de uma competição onde o primeiro lugar ganhará uma viagem para Tóquio. Essa com certeza é uma oportunidade única para eles.
Assim, com a mente ocupada com pensamentos nada animadores, depois de quase vinte horas de viagem, nós finalmente pousamos em Tóquio. Cait sorria e observava com fascínio a movimentação intensa do Aeroporto Internacional de Narita. Respiro fundo e ergo a cabeça, tentando não transparecer as incertezas e os sentimentos complexos que tomavam conta de mim. Independentemente do que aconteça, eu preciso me manter firme. Essa é a viagem dos meus sonhos e não vou deixar que minhas preocupações me impeçam de aproveitar.
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