ROMANCES MENSAIS

LIVRO IV – COMPETIÇÕES DE ABRIL

CAPÍTULO XVIII — TÓQUIO

Tóquio é a capital do Japão e sede do governo nacional. É considerada uma das maiores metrópoles do planeta e também o centro político, econômico, educacional e cultural do Japão. A metrópole representa uma das áreas de maior aglomeração urbana do mundo. A cidade nunca dorme. Para todo lado que olhe, há pessoas indo e vindo a todo instante. É algo surreal, comparado a grande, mas pacata cidade de Hawkins.

Pelo vidro do carro, eu observava a paisagem, completamente em êxtase. Tudo era tão grande e iluminado. Apesar de estar bastante animada para a Exposição de Tecnologia e Inovação que Barry e eu participaríamos, eu não podia negar que não via a hora de conhecer a enorme e encantadora metrópole.

Ansiava conhecer o Tsukiji Fish Market, um famoso mercado em Tóquio que oferece café da manhã com peixe fresco. Eu também queria muito visitar o Edo-Tokyo Museum, um moderno edifício que apresenta a história da cidade por meio de exposições, e o bairro Shinjuku, onde se encontra a estação ferroviária mais movimentada do mundo e o parque Shinjuku Gyoen, um parque com paisagens lindas. Também espero andar pelo Shibuya Crossing, o cruzamento mais movimentado do mundo.

No entanto, de todos os pontos turísticos que gostaria de conhecer em Tóquio, de longe, o que eu mais torcia para conseguir visitar com Barry era a Tokyo Tower. Eu sabia que estava agindo como uma adolescente idiota, mas gostaria de ir ao local a meia-noite e esperar que as luzes da torre se apaguem para cumprir a lenda idiota de amor eterno da cidade.

— Assim que chegarmos no hotel, nós faremos o check-in e vocês estão liberados para visitar a cidade. — Comenta o professor Lawrence, encarando-nos do banco da frente.

— Ficaremos no mesmo quarto? — Pergunta Barry, esperançoso.

— Até parece. — Ironiza a professora Akemi, que estava sentada ao lado de Barry. — Ainda que vocês sejam maiores de idades e sejam responsáveis pelas suas ações, a universidade ainda precisa manter a ordem. Cada um de vocês ficará em um quarto separado e, de preferência, longe um do outro. Não quero ter problemas durante essa viagem.

— Mas nós somos namorados. — Resmunga Barry, como uma criança mimada. Acabo rindo de seu comportamento e ele me encara com seus olhos de cachorro que caiu da mudança. — Você não quer ficar no mesmo quarto que eu?

— Claro que quero, mas precisamos seguir as regras. — Respondo e ele bufa, inconformado.

— Como é bom ser jovem, sem qualquer preocupação. — Comenta o professor Lawrence, como um velho relembrando o passado.

— Sim. Sinto falta dessa época. — Concorda a professora, suspirando nostálgica, com um bonito sorriso em seu rosto. — Tudo era tão intenso e divertido.

— Vocês estão falando como se fossem velhos com o pé na cova. — Comento, rindo dos discursos de nossos professores. — Não é como se tivesse idade para aproveitar a vida, certo?

— Sim. — Concorda Barry, encostando a cabeça na minha, enquanto nossas mãos estavam entrelaçadas. Ele encara os professores com um sorriso amável no rosto. — Nunca é tarde para se apaixonar ou viver intensamente. '

— Olhando para vocês agora, nem mesmo parece que vocês queriam se matar a todo instante alguns meses atrás. Hoje vocês são o casal mais fofo da universidade. — Relembra a professora Akemi, encarando-nos com um sorriso divertido. — Acho que é verdade aquela história de que por trás de todo ódio sempre existe amor.

— O que me surpreendeu quando vocês começaram a namorar foi que eu realmente já esperava que isso fosse acontecer. E sendo sincero, fiquei feliz por isso. Não apenas pela diminuição nas brigas entre vocês, mas também por estar claro para mim o quanto vocês se amam e se completo. Ao contrário do que eu sempre ouvir, vocês não são os opostos que brigavam e por isso se atraíam. Vocês brigavam por serem parecidos demais. — Professor Lawrence sorri e nos encara como um pai orgulhoso. — Não poderiam ter formado um casal mais harmonioso.

— Obrigado. — Agradece Barry, um pouco envergonhado pelos comentários dos professores. Ele então se vira para mim e me dar uma piscadela. — Acho que encontrei a minha alma gêmea.

— Idiota. — Resmungo, envergonhada, dando uma cotovelada em meu namorado, que ri e me abraça, mesmo eu tentando me afastar. Por fim, acabo me dando por vencida e recebo os olhares divertidos dos meus professores.

Ainda envergonhada, sorrio e encaro a janela do carro, apreciando a paisagem nos braços aconchegantes de Barry. Não sei quanto tempo o trajeto do aeroporto até o hotel onde ficaríamos durou, mas quando menos percebi, o carro para de frente a um enorme arranha-céu com pelo menos uns trinta andares. Era maravilhoso e bastante luxuoso pelo pouco que se podia ver do hall de entrada.

Meus professores, Barry e eu descemos do carro e o calor logo nos atinge. Estamos bem no meio do verão de Tóquio e as temperaturas quase beiravam aos quarenta graus. O clima estava abafado e difícil de respirar, por isso, não demoramos muito do lado de fora e entramos para o luxuoso hotel em que ficaríamos. Por ser a única do grupo fluente em japonês, a professora Akemi cuidou de todo o processo de check-in e orientações no atendimento, ainda que todos estivessem preparados para se comunicar conosco em inglês. Enquanto isso, nossa bagagem foi levada por um mensageiro do hotel.

Observo a tudo, completamente encantada. Parecia que estávamos em um outro universo. Até mesmo dentro do hotel havia um grande fluxo de pessoas entrando e saindo. A energia presente em uma metrópole é de fato completamente diferente. Para alguém que veio de uma pequena cidade no interior dos Estados Unidos, Tóquio era quase como um daqueles lugares que vemos em filmes sobre o futuro e tecnologia. Era de tirar fôlego.

— Vamos para os quartos? Eu aproveito para passar as últimas orientações para vocês antes de irem se divertir pela cidade. — Sugere a professora, entregando os cartões com as senhas de nossos quartos. Aquele hotel era tão impressionante, que ao invés de usarmos cartões para abrir as portas, teríamos que digitar a senha do quarto para entrar.

— É tão impressionante como esse hotel é glamouroso. — Comenta Barry, tão embasbacado quanto eu. As portas do elevador se abrem e ele arfa, impressionado. — Olha para esse elevador!

— Vocês estão em um hotel cinco estrelas em uma das maiores metrópoles do mundo. Não dava para esperar nada menos do que muito luxo e poder. — Responde o professor Lawrence, rindo de meu namorado.

— Como a exposição será depois de amanhã, vocês terão dois dias para aproveitar Tóquio como quiserem. Apenas nos avisem onde vão e tentem chegar pelo menos tomar o café da manhã com a gente. Durante esses dois dias, o professor Lawrence e eu iremos cuidar dos últimos detalhes do evento. Se tiverem qualquer dúvida, podem nos comunicar. Aqui nós seremos como seus advogados. Qualquer que seja a questão que os investidores presentes tiverem no evento, nós cuidaremos de toda a parte de negociação com vocês para garantir que aproveitam a melhor oportunidade. — Explica a professora Akemi, encarando-nos com seriedade. — Como eu disse no carro, vocês terão seus próprios quartos, então evitem dormir no quarto um do outro. E não se envolvam em problemas. Vocês estão fora dos Estados Unidos. Qualquer confusão pode gerar muitos problemas para vocês.

— Nós vamos nos comportar. — Afirmo e ela sorri, compreensiva.

— Nós sabemos. Vocês são ótimos alunos. Apenas estamos seguindo as normas que assinamos do contrato da universidade, onde diz que devemos repassar as regras para vocês para não dizerem que não sabiam, caso algo de ruim aconteça. — Brinca o professor Lawrence, sorrindo.

— E falando em diversão, eu sugiro que vocês aproveitem a oportunidade para irem ao Tanabata Matsuri. — Comenta a professora e no mesmo instante, o elevador se abre em nosso andar.

— O que é isso? — Pergunto, curiosa.

— É um festival japonês alegre e colorido que celebra o encontro romântico entre a princesa Orihime e o criador de gado Hikoboshi que atravessam a Via Láctea uma vez por ano para se reencontrarem. — Conta a professora Akemi e eu a encaro sem entender. — A comemoração é feita, geralmente, nas ruas e nas praças. É comum haver barracas de comida, tendas de brincadeiras, apresentações culturais e fogos de artifício. Na noite de Tanabata, é costume os japoneses vestirem seus yukatas. Durante o Festival, existe o costume tradicional de se escrever desejos no tanzaku, que é uma tira de papel colorido, que depois são pendurados em ramos de bambu, na esperança de que o desejo se torne realidade. Cada cor do tanzaku tem um significado. No final da festa, os papéis são queimados para que os desejos cheguem ao céu, e assim, Orihime e Hikoboshi possam receber e realizar os pedidos.

— Eu me lembro do tio Clint contando sobre essa lenda. — Comenta Barry, enquanto andávamos pelo grandioso e exuberante corredor que dava em nossos quartos. — Se não me engano, a princesa tecelã Orihime, filha de Tentei, que é um poderoso Deus do reino celestial, se apaixonou pelo pastor de gado Hikoboshi. Dedicados ao romance, eles deixaram de lado as tarefas e as obrigações diárias.

"Por causa da falta de responsabilidade, o pai de Orihime decidiu separá-los, obrigando-os a morar em lados opostos da Via Láctea, que era o rio Amanogawa. Sentindo a tristeza da filha, ele autorizou o casal a se encontrar uma vez por ano, que é no sétimo dia do sétimo mês do calendário lunar, com uma condição: eles precisavam atender a todos os pedidos vindos da Terra.

Dessa forma, todo o sétimo dia do sétimo mês no calendário lunar, Orihime atravessa a Via Láctea para encontrar o seu amado Hikoboshi. Perto desse dia, realiza-se o Tanabata Matsuri. Acredita-se que, se no dia do reencontro estiver chovendo, Orihime e Hikoboshi não conseguem atravessar a Via Láctea. Logo, o encontro só poderá acontecer no ano seguinte".

— Exatamente. É um festival muito bonito e perfeito para os casais. Vocês deveriam aproveitar para ir. Para a sorte de vocês, o festival está sendo celebrado hoje. — Explica a professora Akemi, sorrindo animada. Ela então suspira e encara a aliança em seu dedo. — Queria que meu marido estivesse aqui para me acompanhar.

— Eu também queria que minha Juliet estivesse aqui. — Comenta o professor Lawrence, relembrando da esposa, compartilhando do mesmo sentimento da colega de trabalho.

— Vocês deveriam ir então. Já que é um festival que só acontece uma vez por ano, seria uma pena se vocês perdessem essa oportunidade de ir. Façam seus pedidos a Orihime e ao Hikoboshi. Quem sabe quando vocês poderão fazer isso novamente? — Recomendo e eles parecem ponderar.

— Parece divertido. — Responde nosso professor, pensativo.

— Que tal nós irmos ao centro de Tóquio para alugar yukatas? De lá podemos ir para o festival, já que ele começa em algumas horas. — Sugere a professora Akemi, sorrindo. Barry e eu trocamos olhares e sinto que ele pensa o mesmo que eu.

— Claro! — Concordo, compartilhando da animação de minha professora. — Vamos apenas tomar um banho e saímos.

— Que tal nos encontrarmos em frente ao elevador em trinta minutos? — Pergunta Barry, encarando o celular. — Se demorarmos demais, podemos acabar perdendo boa parte do festival.

— Por mim tudo bem. — Responde o professor Lawrence. — Isso é mais do que suficiente para mim.

— Então está combinado. — Respondo, vendo que a professora Akemi concordava. — Em trinta minutos nós nos encontramos em frente ao elevador desse andar.

E assim cada um seguiu para seu quarto. Eu estava exausta, mas queria muito participar de um festival tipicamente japonês. Ainda mais um festival que acontece apenas uma vez por ano e que tem uma lenda adorável por trás. Então, ignorando as súplicas de meu corpo que desejava de todas as formas deitar na confortável e grandiosa cama de meu quarto depois do banho e termino de me arrumar.

Como combinado, trinta minutos depois, todos estavam prontos para ir. Por estarmos próximos ao local onde seria o festival e das lojas onde alugam yukatas, a professora Akemi sugere que a gente aproveite a oportunidade para ir andando e conhecendo um pouco da paisagem noturna de Tóquio. Enquanto isso, ela nos contava algumas histórias de sua infância, quando morava com a família em Takayama.

Era divertido saber mais sobre a cultura de sua terra natal. E se eu já achava que Tóquio era encantadora de dia, a paisagem se tornava ainda mais mágica de noite com todas as luzes da cidade ligada. Por causa do festival, para todo lugar que olhasse, era possível ver os casais vestidos com suas yukatas e os enfeites que celebravam a data espalhados pela cidade.

Não demoramos muito a chegar a uma loja de yukatas. Por não termos nenhuma experiência com esse tipo de vestes, permitimos que a professora Akemi escolhesse nossas roupas e se comunicasse com a proprietária da loja, que entendia muito pouco de inglês. Eu precisei de ajuda para colocar o obi e me preparar para usar aquela roupa tão adorável. Como era de se esperar, eu não tinha nenhuma delicadeza para combinar com aquela peça de roupa. Eu sentia como se estivesse usando mais uma fantasia do Hawkeye.

Assim que a professora Akemi e a proprietária da loja, a Sra. Aiko, terminam de me arrumar, surpreendo-me ao ver minha imagem no espelho. Elas então pedem para que eu esperassem. Queriam que eu surpreendesse Barry. Então, sentindo-me completamente irreconhecível, espero ansiosa pelo sinal de minha professora.

— Pode vir, Cait. Venha surpreender seu amado príncipe encantado. — Chama a professora Akemi.

Eu abro as cortinas do provador e encaro Barry. Meu namorado me encara por um longo tempo com os olhos arregalados e a boca levemente aberta. O professor Lawrence, ao seu lado, também parecia surpreso. Eu não sabia dizer se isso era de maneira positiva ou negativa. A falta de reação de meu namorado estava começando a me deixar preocupada. Será que havia ficado tão estranho assim?

— Você está... uau. — Ele suspira, sorrindo. Nesse momento, consigo respirar aliviada. — Cait, você está... a mulher mais bonita que eu já vi em toda a minha vida. Acho que acabo de me apaixonar mais uma vez por você.