Competições de Abril

29 Pressentimento


ROMANCES MENSAIS

LIVRO IV – COMPETIÇÕES DE ABRIL

CAPÍTULO XXVIII — PRESSENTIMENTO

Cait estava surpreendentemente certa. Com sua genialidade, ela conseguiu desvendar com maestria os enigmas deixados pela mãe e assim como havia previsto, o tal Relógio do Rio White estava mesmo enterrado abaixo de uma Beladona. Somente alguém que conhecesse bem a Dra. Carla Tannhauser e tivesse vivenciado aquela aventura poderia saber sobre a real localização das provas que ela havia reunido do Hawkins National Laboratory.

Ansioso para saber se as provas estavam mesmo dentro daquela grande cápsula do tempo que desenterramos, observo Cait se abaixar para colocar a chave dourada na fechadura da cápsula. Eu via as mãos de minha namorada tremerem levemente. Ela provavelmente sentia a pressão da situação em seus ombros. Essa era a nossa última esperança de pôr um fim a todas as perseguições e dores de cabeça que o laboratório principal do país havia nos causado.

Ela hesita um pouco e me encara. Seu nervosismo era notório. Sorrio e coloco minha mão sobre seu ombro, tentando transmitir um pouco de confiança ou pelo menos mostrar para ela que independentemente do resultado, eu estaria ao lado dela. Cait então respira fundo e finalmente leva a chave a fechadura para abrir a cápsula. Depois de mais um suspiro, minha namorada abre o tubo de metal a sua frente.

No mesmo instante, Natsu e Haru se aproximam para conferir o que havia dentro da cápsula do tempo. A primeira coisa que vemos é um caderno preto que se assemelhava a um diário. Cait o tira da cápsula e folheia algumas folhas, onde é possível ver alguns desenhos, fórmula e outras anotações sobre o Mirakuru. Em seguida, encontramos um envelope pardo com algumas fotos, mostrando detalhes do Projeto MKUltra, algumas anotações de registro de todos os acontecimentos e muitos outros documentos, comprovando que ao contrário do que a polícia descobriu, o mandante dos testes realizados em seres humanos, principalmente em crianças, não foi comandado pela Dra. Maia Mullins e sim pelo atual presidente do laboratório, Ted Wheeler, que na época era o diretor de operações.

Natsu, Haru, Cait e eu nos encaramos, sem conseguir esconder nossos sorrisos. Depois de tanta procura, noites sem dormir, raiva, frustração e preocupação, nós finalmente encontramos os documentos responsáveis pela morte de um dos meus melhores amigos e por colocar a vida de toda a minha família em perigo. Enquanto observo uma foto polaroide de Ted Wheeler sorrindo, cumprimentando seu antigo aliado, o Dr. Martin Brenner.

O cientista foi preso a três anos atrás pelo tio Hopper, depois que o homem descobriu o envolvimento dele em experimentos que o Hawkins National Laboratory realizava em seres humanos com medicamentos desenvolvidos pelo laboratório. Nesse caso, o delegado, que também é pai de Sara, conheceu Eleven, por quem desenvolveu um grande carinho e adotou a garota que ficou órfã depois que o pai foi preso. Tio Hopper ainda sofria pela suposta morte de Sara e Eleven foi a razão que ele ganhou para seguir em frente.

Era irônico pensar que depois de alguns anos, Eleven acabaria namorando o filho do homem responsável pelo laboratório onde ela viveu sua infância inteira sendo usada como cobaia de testes do próprio pai biológico. Mais surpreendente ainda saber que mesmo depois desse acontecimento no laboratório, tudo o que Ted Wheeler precisou fazer foi pagar uma fiança para ser liberado de seu crime. Quantas vidas serão perdidas em vão até que a justiça puna essas pessoas que se tornam imunes apenas por possuírem muito dinheiro?

Observo Cait se levantar com a cápsula do tempo em mãos. Ela me encara e dá um fraco sorriso de alívio. Suspiro e a puxo para um abraço apertado. Tantas lembranças passam pela minha mente como em um filme. Como tudo isso começou e quantas vezes pensei que essa história nunca terminaria. Agora, com Cait em meus braços, segurando uma cápsula com todos os documentos comprovando quem são os responsáveis por realizar experimentos dolorosos e com mínimas chances de sobrevivência, eu só conseguia me sentir livre.

— Está na hora de irmos. Aki e as agentes Lance e Romanoff estão esperando por nós na sede da CIA. – Avisa Natsu, encarando o celular que estava em suas mãos.

— Além disso, eu tenho certeza de que não vai demorar muito até que caia uma perigosa tempestade. — Afirma Haru, parecendo preocupada enquanto observa o céu, que somente nesse momento notei o quanto estava nublado.

— Tudo bem. Vamos apenas enterrar essa Beladona de volta no lugar dela. — Pede Cait, fechando a cápsula do tempo, preparando-se para recolocar a planta no enorme buraco que havíamos cavado.

— Eu cuido disso. — Respondo, pegando a pá que por sorte eu havia encontrado no porta malas do carro. Não faço ideia de quanto tempo ela estava lá, mas sem dúvidas não pretendo tirá-la de lá tão cedo. Natsu logo se aproxima para me ajudar, pegando a bonita e perigosa planta do chão. — Obrigado.

— Será muito mais rápido se nós dois cuidarmos disso. — Explica, colocando a planta no lugar.

Assim que terminamos de plantar a Beladona, seguimos para o carro com a cápsula do tempo em mãos e com mais expectativas ainda. Para evitar o vazamento das informações sobre a descoberta do paradeiro daqueles preciosos documentos tia Tasha decidiu que somente revelaria aos seus superiores que encontramos o que eles procuravam há anos quando chegássemos a sede da CIA e ela entregasse todos os documentos e fotos ao juiz que está investigando Ted Wheeler.

Talvez temesse que ele conseguisse escapar da prisão assim como ocorreu quando houve o caso de Martin Brenner. E assim, sem perder mais tempo, seguimos para o nosso próximo destino. Como Haru havia previsto, não demorou muito para que uma forte tempestade nos alcançasse e tornasse a estrada já perigosa em algo quase mortal.

Por causa das curvas acentuadas, da pista estreita e da pouca visibilidade pela chuva de verão que caía intensamente, eu precisava dirigir com muito mais atenção e cuidado. Como não havia acostamento e era uma pista de mão dupla, qualquer movimento arriscado poderia ocasionar em um grave acidente de carro.

— Nós deveríamos ter esperado a chuva passar para sair. — Comenta Cait, parecendo assustada.

— Agora é tarde demais para voltar. — Responde Natsu, suspirando. — Já estamos muito longe e seria impossível fazer um retorno por aqui. O melhor que podemos fazer é continuar em frente.

— Eu me sinto tão insegura nessa chuva. Me lembra os dias em que fugíamos da Yakuza. — Comenta Haru, com a voz carregada de amargura. — Eu não consigo ficar calma. É como se a qualquer momento algo de muito ruim fosse acontecer.

— Vai ficar tudo bem, Haru. É uma chuva de verão. Não deve demorar muito até que passe. E não é querendo me gabar não, mas eu sou um excelente motorista. Prometo que vou tomar cuidado até que a gente chegue na sede da CIA. — Tento tranquilizar a garota de cabelos vermelhos intensos, que dá um fraco sorriso em agradecimento.

— Droga! Eu estou sem sinal. Queria ligar para a agente Romanoff e avisar que vamos demorar mais do que prevíamos. — Resmunga Natsu, frustrado.

— Como parece estar chovendo pela cidade inteira, ela já deve imaginar que vamos nos atrasar. — Responde Cait, encarando o rapaz com um sorriso tranquilizador. — E fique tranquila, Haru. Apesar de ser lerdo para muitas coisas, Barry é mesmo um excelente motorista. Na última vez que fomos seguidos pela Yakuza e os homens de Ted, ele conseguiu despistá-los e mesmo com eles atirando contra nós, saímos ilesos da perseguição.

— Vou ignorar a parte onde você me chama de lerdo. — Brinco e ela ri, dando de ombros.

— O problema não é a condução de Barry. Essa estrada parece tão intimidadora e nós ainda estamos levando conosco algo que muitas pessoas perigosas querem. Ted Wheeler pode estar preso, mas nada impede que ele mande alguém acabar com a gente. E sendo sincera, dificilmente meus instintos falham. — Alerta Haru, observando a chuva intensa que caía pela janela do carro.

Nesse momento, ninguém consegue dizer nada. Sendo sincero, eu também não estava me sentindo muito confiante. Talvez eu estivesse sendo um pouco pessimista, mas eu esperava encontrar alguns homens de Ted Wheeler tentando nos matar assim que chegássemos nos Estados Unidos, depois de tudo o que aconteceu em Tóquio. No entanto, ele se manteve quieto e essa falta de ação de alguém que poderia ser pego a qualquer momento não parecia algo que ele faria. De qualquer forma, as palavras de Haru só me deixam ainda mais nervoso.

— Talvez seja melhor nós entrarmos em contato com tia Tasha pelo Walkie-Talkie. — Sugiro a Cait, que parece ponderar minha ideia. — Ele está na minha mochila. Como ele pode enviar um sinal de emergência mesmo em lugares sem sinal telefônico e funciona como rastreador, em casos de problemas, ela pode nos encontrar e solicitar um apoio.

— Algum de vocês poderia pegar na mochila dele? É um aparelho preto com uns detalhes vermelho e amarelo e uma antena estranha. — Pede Cait e Haru é quem puxa a mochila que estava no chão do carro e começa a procurar pelo Walkie-Talkie.

— É isso daqui? — Pergunta a garota, exibindo o aparelho.

— Isso mesmo. — Concorda minha namorada, pegando o Walkie-Talkie que Haru estende para ela. Cait então se vira para mim com uma expressão confusa. — Como foi que você fez mesmo da última vez? Ah, acho que lembrei. Identificação, Flash. Código 005. E... E o que mais eu devo dizer? Na verdade, ainda não estamos em perigo e, nesse momento, tudo não passa de um mau pressentimento. E por que ele está piscando em vermelho?

— O Walkie-Talkie não vai atender a seu chamado, porque ele só permite o uso quando faz o reconhecimento de voz. — Respondo e ela bufa, desanimada. — Identificação, Flash. Código 005. Estamos no meio da Highways Interstate 65. Estrada perigosa, sem sinal telefônico e pouca visibilidade da pista. Estamos carregando algo valioso. Necessito de orientação.

— E agora? — Pergunta Cait, curiosa.

— Agora é esperar uma resposta em cores. — Respondo e ela me encara confusa. — Se esse pequeno botão na lateral do Walkie-Talkie piscar na cor verde, significa que a tia Tasha está a caminho. Vermelho significa que não teremos apoio.

— Entendi. — Balbucia Cait, encarando o aparelho fixamente. A resposta não demorou muito tempo até que viesse, fazendo com que a garota sorrisse. — Verde! Teremos apoio!

— Sim. — Concordo, rindo. Ela parecia uma criança, se divertindo com um novo brinquedo tecnológico. — O localizador vai informar como ela pode nos alcançar. Então vamos apenas seguir em frente.

Haru ainda parece insegura, mas não diz nada. Natsu também permanece quieto, provavelmente compartilhando dos sentimentos da irmã. Alguns minutos depois, a chuva finalmente para, no entanto, por causa de uma forte neblina, a visibilidade continuasse péssima. A falta de iluminação da estrada também não ajudava em nada. Para nossa sorte, seguíamos sozinhos pela rodovia, o que diminuía bastante o perigo da pista. Pelo menos eu não precisava me preocupar com uma parada brusca do veículo da frente ou de ser atingidos por um outro carro depois que ele perde o controle do voltante.

— É tão estranho que a rodovia esteja tão vazia. — Comenta Cait, como se lesse meus pensamentos.

— Sim. — Concordo, pensativo.

— Estamos sendo seguidos. — Avisa Natsu com seriedade.

— O quê? — Pergunto, surpreso. — Onde?

— Atrás de nós tem um carro que está aproveitando a neblina para se manter oculto. — Dessa vez quem responde é a Haru, suspirando em seguida. Ela então saca uma arma e retira o cinto de segurança. — Esteja preparado para acelerar.

— Ficou maluca, Haru?! Não dá para correr nesse trecho da rodovia. Podemos perder o controle do carro e bater o carro contra esse morro do lado direito nas melhores das situações. Na pior delas, caímos no precipício do lado esquerdo. — Fala Cait, apavorada.

Haru me encara com uma seriedade que eu nunca vi antes na garota. Ela estava falando sério. Respiro fundo e observo a pista com atenção. Nós estávamos no último trecho de serra da região. Levaria ainda mais uns vinte minutos para sairmos daquele ponto. No entanto, se estamos mesmo sendo perseguidos, eu duvido muito que eles vão esperar tanto tempo até nos atacar. Como Cait disse, estávamos entre um morro e um precipício. Então, a única escolha que temos é arriscar aumentar a velocidade e sair mais rápido da rodovia.

— Tudo bem. — Concordo, respirando fundo mais uma vez.

— O quê? Barry! — Repreende Cait, sem acreditar que eu havia concordado com Haru.

— Nós iremos atrasá-los, mas precisa garantir que a gente saia logo dessa estrada. — Pede Natsu, pegando uma espécie de arma sinalizadora, daquelas usadas em auto mar. Observo o rapaz confuso, mas resolvo ignorar.

— Farei o meu melhor. — Respondo e ele assente, abaixando o vidro do carro.

— Muito bem. Vamos apenas confirmar se estamos sendo seguidos antes de começar a atacar de verdade. — Fala o rapaz de cabelos platinados, colocando metade do corpo para fora do carro. Ele aponta a arma e atira. Assim que a luz sinalizadora vermelha atinge o canto do morro, um carro preto se revela e acelera sem qualquer cuidado, provando a teoria dos irmãos. — Agora, Barry!

Assim como solicitado, acelero ainda mais o carro, torcendo para que nenhum carro estivesse vindo na direção oposta a nossa. Faço duas curvas de maneiras perigosa e é difícil manter o controle do carro, já que ele deslizava pela pista escorregadia. Para a minha surpresa, eles continuavam a avançar e a realizar os mesmos movimentos que eu de maneira habilidosa. Natsu e Haru voltam para dentro do carro e começam a mexer em suas coisas.

— Vocês estão bem? — Pergunto, preocupado.

— Sim! Continue em frente! — Responde Natsu, preparando a arma dele.

— Ai Meu Deus! Nós vamos morrer. — Choraminga Cait, desesperada.

— Não se eu pude impedir! — Afirma Haru, atirando contra o carro que nos perseguia, que deslizando de maneira perigosa pela estrada consegue desviar. A garota volta a atirar.

Cait ao meu lado fecha os olhos com força e leva as duas mãos ao ouvido, tentando abafar os sons dos tiros. Ela se encolhe no banco e parecia rezar por proteção. Mantenho meus olhos focados na pista, desviando de todos os obstáculos que apareciam em nossa frente. Faço mais uma curva com dificuldade, devido a velocidade em que íamos, mas consigo permanecer com o controle do veículo. Natsu aproveita o momento de instabilidade para joga uma espécie de granada contra nossos perseguidores.

Apesar de ser atingido e quase perder o controle mais uma vez, o carro que nos perseguia logo se recupera e começa a nos alcançar. De repente, sinto os tiros serem disparados contra nós. Bufo, frustrado. Agora além de ter que lidar com os perigos da pista, ainda precisaria lidar com os tiros dos perseguidores que possui um habilidoso motorista.

Prendo a respiração, vendo que um carro vinha na direção oposta. Qualquer movimento arriscado poderia ser o nosso fim. Mais tiros são disparados contra nós. O carro acaba sendo atingido e o motorista rodopia na pista. Por muito pouco não somos atingidos e ele consegue parar o veículo antes de cair no precipício. Engulo em seco. Falta só mais dez minutos até deixarmos a região da serra e as curvas perigosas.

— Mais rápido, Barry! — Exige Natsu, dando dois tiros de maneira desajeitada, antes de se abaixar no carro ao notar que seríamos atingidos.

— Estou indo o mais rápido que eu posso. — Afirmo, acelerando um pouco mais. Meu coração estava a ponto de sair pela boca, mas eu precisava me manter focado.

— Não é o suficiente. — Afirma Haru, encarando-me pelo retrovisor do carro. Ela então coloca o cinto de segurança. — Eu vou atirar mais uma granada contra eles na próxima curva acentuada. Aproveite a oportunidade para despistá-lo.

— Haru... — Choraminga Cait, encolhendo-se ainda mais no banco do carro. Ela estava apavorada. — Nós vamos morrer desse jeito.

— Prepare-se, Barry! — Pede Natsu, colocando o cinto de segurança de volta, assim como a irmã. — Esse deve ser o seu melhor movimento.

— Merda. — Resmungo, preparando-me para o próximo movimento arriscado.

E assim como eles disseram, quando entramos na curva acentuada a nossa frente, Haru jogou mais uma granada contra os nossos perseguidores. A granada explode e uma parte do morro acaba atingindo o carro atrás de nós. Acelero o carro pronto para rodopiar na pista e tentar assumir o controle de novo, já que estávamos rápidos demais para eu conseguir manter o carro em domínio completo. O que não esperávamos era que um caminhão estivesse vindo na nossa direção. Para não atingir o veículo de grande porte, acabo jogando o carro para a direita.

Por causa da alta velocidade em que estávamos, o carro atinge o morro e acabamos capotando o carro três vezes, antes de deslizar pela pista e parar na grade de proteção da pista, impedindo que caíssemos no precipício. A última coisa que vejo antes de perder a consciência é Cait ao meu lado, com o rosto ensanguentado.