Competições de Abril
23 Encontros
ROMANCES MENSAIS
LIVRO IV – COMPETIÇÕES DE ABRIL
CAPÍTULO XXII — ENCONTROS
"Confiem nas estações do ano."
A mensagem tardia que recebemos algum tempo depois de chegarmos ao hotel de tio Clint me deixou um pouco mais aliviado pela decisão que Cait e eu tomamos de contar com a ajuda dos irmãos Onizaki para lidar com a confusão em que nos metemos. Eu ainda me sentia inseguro com as possibilidades de tudo dar errado, no entanto, Natsu e as irmãs afirmaram que com mais alguns conhecidos que tio Clint fez na cidade, eles ficariam de olho em nós e garantiriam nossa segurança.
Por causa do horário que chegamos, de todo o cansaço da longa viagem e da preocupação com a chuva de informações que tivemos que lidar, eu não consegui dormir nada. E pela expressão cansada de minha namorada enquanto tomava o café da manhã, ela também não havia conseguido pregar os olhos.
— Vocês parecem cansados. Que horas chegaram ontem? — Pergunta o professor Lawrence, sentando-se na mesa com seu café da manhã. — Eu não recebi nenhuma mensagem de vocês.
— Desculpa, professor. Estávamos tão cansados que nem mesmo lembramos de avisar você e a professora Akemi, mas acho que era um pouco mais de duas horas da manhã. — Responde Cait, dando um sorriso cansado. Ela me encara esperando que eu desse algum apoio.
— Ainda estamos lidando com o jet lag. — Justifico, tentando soar o mais animado e convincente possível. — E você, professor? Que horas vocês voltaram ontem?
— Ah, eu não demorei muito. Estava cansado da viagem, então a professora Akemi e eu voltamos para o hotel ia dar umas dez horas da noite. Conversei um pouco com a minha esposa e fui dormir. Acordei só agora de manhã. — Explica o homem, bebericando um pouco de seu café.
A professora Akemi aparece com um suco de laranja, ovos e bacon. Ela nos encara com preocupação. Provavelmente havia notado que não estávamos tão animados assim. A mulher se senta ao meu lado e troca alguns olhares com o colega de trabalho, que apenas dá de ombro, como se dissesse que também não sabia o que havia acontecido.
— Algum problema? Vocês parecem tão cabisbaixos. — Comenta a professora, depois de tomar um pouco de seu suco.
— Ainda não acordamos. — Brinco, sorrindo levemente, mas isso não parece convencer a professora. — Estamos pensando em visitar alguns pontos turísticos hoje. Vocês se importam?
— Não. Hoje é o último dia livre de vocês antes de começarmos a nos dedicar a exposição. Apenas recomendo que não voltem muito tarde, pois amanhã vocês precisam estar de pé cedo. A exposição começa ao meio dia, mas precisamos arrumar o espaço onde vocês ficarão para apresentar o iogurte biofortificado. Vocês também terão um intérprete que vai traduzir a explicação de vocês para o japonês, por isso vocês vão ter que explicar para ele tudo o que for de mais importante do produto de vocês antes da exposição começar. — Conta o professor Lawrence, cortando os waffles que comia.
— Não se esqueçam que em nosso penúltimo dia em Tóquio, vocês vão apresentar uma palestra no Tokyo Big Sight, assim como fizeram na universidade para apresentar para mais algumas pessoas a proposta de vocês. Nesse lugar, ao contrário da Exposição de Tecnologia de Tóquio, onde é aberto ao público de diversas áreas, estarão apenas cientistas e alguns representantes de instituições sociais. A chance de vocês conseguirem patrocinadores é muito maior. Então estejam preparados para todas as perguntas que eles irão fazer. — Relembra a professora, analisando-nos. — Lembrem-se que essa é uma oportunidade única. Dediquem-se a essa palestra como se fosse a última da vida de vocês.
— Faremos o nosso melhor. — Afirma Cait, sorrindo confiante para a professora. Minha namorada me encara e vejo a determinação dela. Aquilo é o bastante para esquecer todos os problemas que me incomodavam.
Nós estamos em uma das maiores viagens de nossa vida. Nela teremos a chance de provar para todas a importância do que nós acreditamos. Mostrar para minha família como eu posso salvar vidas mesmo não sendo médico. É a oportunidade que Cait sempre desejou de ter o apoio para desenvolver suas pesquisas para salvar pessoas de poucas condições financeiras e que possuem doenças raras. Por isso, precisamos aproveitar o que temos agora em nossas mãos para dar o nosso melhor.
Além disso, nós não estamos sozinhos. Se o que o tio Clint disse é verdade, então podemos confiar em Aki, Haru, Natsu e todos os seus aliados em Tóquio. Não podemos perder as esperanças. Cait e eu finalmente temos a chance de colocar fim ao terror do império quase indestrutível de Ted Wheeler e o Hawkins National Laboratory. Se tio Clint estiver certo, as provas que a mãe de Cait reuniu podem ser o que faltava para esses assassinos sejam presos.
Assim que terminamos o café da manhã, os professores seguiram para acertar os últimos detalhes da exposição e da palestra que iremos realizar. Enquanto isso, Cait e eu decidimos visitar o Tsukiji Fish Market, um mercado que oferece café da manhã com peixe fresco. Como já havíamos feito nosso desjejum, decidimos apenas conhecer o lugar e ver o que ele poderia nos oferecer. Em seguida, fomos para o bairro Shinjuku para conhecer a ferroviária mais movimentada do mundo e o parque Shinjuku Gyoen.
— Esse parque é realmente grande. — Comenta Cait, enquanto andávamos calmamente por ele. — Soube que os jardins que tem nele ficam ainda mais lindos durante a primavera, quando as cerejeiras dão o dar da graça e durante o outono, quando as folhas das árvores ganham cores diferentes. Sempre tive vontade de vir ao Japão durante a primavera só para apreciar as cerejeiras. Tudo parece tão bonito.
— Nós podemos vir aqui na nossa lua de mel. — Respondo, passando meu braço por cima dos ombros de Cait, que se aconchega, rindo.
— Já está pensando em lua de mel? Quem disse que iremos nos casar? — Provoca a garota, dando aquele sorriso divertido.
— O quê? Não pensa em se casar comigo? — Pergunto, encarando-a intensamente. Cait desvia o olhar e vejo suas bochechas assumirem uma coloração mais avermelhada. Rio e deixo um beijo em sua testa. — Então quer dizer que enquanto eu penso em viver o resto de minha vida ao seu lado, você me ver apenas como algo passageiro? Ai, amor...
— Idiota. — Resmunga Cait, encolhendo-se depois de me dá uma forte cotovelada nas costelas. Rio ainda mais de seu comportamento. — É claro que eu penso nisso. Mas é que... às vezes tenho medo de estar indo rápido demais. Nós passamos dois anos e meio declarando guerra e desejando estrangular um ao outro e de repente eu me sinto tão dependente de você. Ao mesmo tempo, eu acho que nunca me senti tão forte e corajosa. Tudo é tão intenso e avassalador que não sei como reagir. Eu amo você. Mais do que qualquer pessoa que já pensei amar e isso é assustador.
— Eu sei como se sente. Também me sinto assim. — Digo com sinceridade, observando as hortênsias, gardênias e murtas que floresciam entre a vegetação, mesmo no intenso verão. Aquele parque era realmente surpreendente. Fosse pelo tamanho, beleza ou a combinação de três estilos francês, inglês e japonês em sua paisagem. Tudo era de tirar o fôlego. — Mas por mais aterrorizante que a força desses sentimentos sejam, eu nunca me senti tão vivo como me sinto quando estou com você. Mesmo enfrentando inúmeros problemas por causa do Mirakuru e essa confusão com todas essas pessoas perigosas, essa é a primeira vez que sinto que posso superar qualquer obstáculo, desde que eu esteja com você. Eu encontrei alguém que quero proteger e por quem lutaria com quem quer que seja apenas para garantir que você fique bem. É por isso que eu não me importo de estarmos indo rápido demais. Não me importo que pareça estranho pensar em viver ao seu lado até meu último suspiro de vida, mesmo que a gente só esteja juntos há três meses. Contanto que possamos dar o nosso melhor e ser feliz, acho que tempo é só uma questão de números e perspectivas.
— Como meu namorado é romântico. — Comenta a garota, fazendo com que eu risse e a abraçasse ainda mais. — Obrigada. Eu amo você.
— Eu também amo você. Mais do que sou capaz de expor em palavras. — Afirmo e recebo um lindo sorriso em resposta. Beijo Cait e sinto qualquer receio que sentia por todos os problemas que teremos que enfrentar desaparecer por completo, dando lugar a todo o amor que eu sentia por aquele toque repleto de significados.
[...]
Tokyo Tower. Símbolo de uma nova era numa cidade devastada há apenas uma década pela Segunda Guerra Mundial, ela foi concebida para ser treze metros mais alta do que a Torre Eiffel, totalizando 332,5 metros. Não importa como se olhe para aquela enorme construção de metal vermelha e branca, é impossível não sentir a sua imponência, ainda que não seja mais a maior torre do país.
Seduzidos pela superstição japonesa do amor eterno, decidimos visitar a torre à noite. Dentro da torre, nós visitamos o café e a loja de souvenires e lembrancinhas. Cait não perdeu tempo e resolveu comprar algumas coisas para as meninas do Hawkeye, Iris e para meus primos. Segundo minha namorada, cada presente deveria ser pensado com cuidado e personalizado para cada pessoa. Então é claro que passamos horas escolhendo os presentes até que finalmente ela estivesse satisfeita.
Do alto da torre, observamos a bonita e agitada Tóquio. De cima, conseguimos ver a Tokyo Skytree, o maior arranha céu da cidade, e o Monte Fuji. Pelo horário, observamos também a cidade completamente tomada pelas luzes do anoitecer depois de nos despedirmos de um bonito pôr-do-sol.
Tudo era incrivelmente bonito e surpreendente. A paisagem dividia espaço entre a modernidade e uma história rica em detalhes e construções que nos levavam a períodos surpreendentes. O silêncio e o suave vento que nos atingia eram relaxantes. Ao fim de nossa visita, continuamos a andar pelas lojas que haviam ao redor da torre, esperando dar o horário da lenda. E pelo visto, nós não éramos os únicos casais a saberem sobre a lenda.
Muitos casais jovens andavam pelo lugar, encarando a torre na expectativa das luzes se apagarem e cumprir com a tradição. Como cientistas, Cait e eu sabíamos que aquilo não passava de uma superstição local que não seguia nenhuma lógica. Afinal, o que o apagar das luzes de uma torre enorme de aço poderia influenciar na vida das pessoas? Ainda assim, permanecíamos sentados de mãos dadas, observando o ponto turístico mais famoso de Tóquio, enquanto conversávamos sobre fatos bobos de nossas vidas. Medos, sonhos e histórias de nossas infâncias.
O que mais me impressiona desde que nós começamos a nos dar bem é que nunca falta assunto para nós. Eu posso passar dias conversando com Cait que eu jamais me cansaria de ouvir sua voz e sua risada divertida. Ela tem aquela energia única que nos prende com suas reações divertidas. Por mais bobo que fosse o assunto, ela conseguia transformar qualquer coisa em algo importante e que nos leve a discutir por horas. Eu me sentia cada vez mais encantado por Cait. Sua doçura e força me inspiram a dar o meu melhor em tudo o que eu faça.
E é por isso que mesmo sendo uma crença sem sentido, eu permanecia ao seu lado, encarando a torre na esperança de que suas luzes se apaguem e nos garanta o amor eterno. Por mais bobo que seja, eu quero dar o meu melhor por ela. Quero tentar eternizar o que sinto por ela. Quero que esse amor que sinto se multiplicar diariamente possa permanecer caloroso e aconchegante como ele é até o fim de nossas vidas.
Cait me fez entender que amar é cuidar, é querer estar junto, é se preocupar, é querer a felicidade do outro. Amar é buscar sorrisos e lágrimas de felicidades ao invés de secar lágrimas causadas por si. Amor é frio na barriga, amor é brilho nos olhos, é andar de mãos dadas, é carinho no rosto, é falar idiotices pra provocar aquele ciúmes saudável só porque é bom se sentir amado. É sentir vontade da pessoa vinte e quatro horas por dia. É sentir falta quando ela está longe e querer ela perto sempre. Amor não é pra ser algo doentio. Amor é pra fazer bem e acariciar a alma de forma que te inspira a crescer.
Como um bobo apaixonado, tudo o que eu consigo pensar é em como protegê-la, mesmo sabendo que minha namorada é forte o bastante para derrubar vinte Yakuza com sua inteligência e esperteza. Cait é forte, determinada, amável e intensa. A cada novo detalhe que descubro sobre ela mais eu me apaixono.
E como se soubesse de meus sentimentos e meu desejo, Cait me beija de repente. No mesmo instante, as luzes da torre se apaga. Ouvimos alguns gritos de comemoração, mas tudo o que me importa é continuar com minha namorada em meus braços, apenas curtindo nosso momento. Quando nos separamos, as bonitas luzes haviam voltado, mas nada se comparava aos lindos olhos cor de amêndoas de Cait me encarando com amor.
Satisfeitos com os acontecimentos do dia, resolvemos voltar para o hotel. Como alertado pelos professores pela manhã, nosso dia seria cheio logo ao amanhecer, então precisamos estar descansados para atender ao grande público que estará presente na exposição. Pensar no que nos reserva o dia faz meu coração se agitar e um enorme frio na barriga me incomodar. Até mesmo manter minhas mãos quietas era uma tarefa complicada.
— Acha que conseguiremos um patrocinador amanhã mesmo? — Pergunta Cait, sorrindo de maneira nervosa, enquanto estávamos no banco de trás do táxi, voltando para o hotel.
— Por que não? Nosso projeto pode ajudar inúmeras pessoas e é uma chance de gerar empregos, incentivar a economia local e minimizar a desnutrição. É um produto lucrativo e recompensador. Não tenho dúvidas de que muitas pessoas vão se interessar. — Afirmo e ela suspira, um pouco mais calma.
— Amanhã será um dia e tanto. — Fala a garota de maneira pensativa. — Quando eu penso em todos os obstáculos pelos quais nós passamos, é difícil acreditar que conseguimos chegar até aqui. Tem certeza de que tudo isso não é apenas um sonho?
— Se isso for mesmo um sonho, eu espero nunca acordar. — Digo e ela ri, revirando os olhos, quando eu a puxo e beijo sua bochecha.
— Você solta cada frase brega que sinto meu estômago se revirar só de ouvir essas coisas. — Reclama Cait com um sorriso divertido em seus lábios.
— Eu demonstro todo o meu amor por você é assim que me trata? — Dramatizo, afastando-me de Cait e coloco a mão sobre o peito. — Você é tão...
Antes que eu continuasse a falar qualquer coisa, o táxi em que nós estávamos é atingindo na traseira do carro. O taxista começa a gritar, provavelmente xingando o responsável pela batida em japonês. Tento identificar o motorista do carro que nos atingiu, mas pela escuridão, era quase impossível. A situação se torna ainda mais preocupante quando o taxista tenta parar o carro, mas somos atingidos mais uma vez.
— Você entende o que ele está falando? — Pergunto a Cait, tentando entender o que o motorista dizia de maneira tão irritada.
— Algo sobre "desgraçado" e matar alguém. — Resume, segurando firma na porta do carro.
Tomado pela raiva, o taxista começa a acelerar o carro na tentativa de escapar de quem quer que estivesse atrás de nós. Apesar de não reconhecer quem estava tão inspirado a nos atingir, eu sabia bem que aquele motorista misterioso atrás de nós pertencia a mais uma pessoa interessada em Cait e eu. Fosse a Yakuza ou o Hawkins National Laboratory, eles com certeza não parariam até nos ver mortos.
Aproveitando uma curva complicada, o nosso taxista consegue acelerar e ganhar uma boa distância de nosso perseguidor. Uso o tradutor de meu celular para informar ao motorista que precisávamos descer e que aquela pessoa estava atrás de nós. O homem nos encara pelo vidro retrovisor do carro e bufa, provavelmente nos xingando.
— Será que ele nos entendeu? — Indago a Cait que me encara incerta.
— Talvez. — Responde, cautelosa.
Colocando um fim em nossas dúvidas, o taxista para o carro e fala algo que interpretei como um "desçam do carro, turistas encrenqueiros" e assim que estamos fora do veículo, ele acelera e vai para longe. Eu não fazia ideia de onde nós estávamos, mas tudo o que nos resta é correr pelas ruas quase vazias da cidade, devido o horário. Por isso, pego no pulso de Cait e a puxo em direção a próxima rua que pudéssemos nos esconder.
Nós nem mesmo sabíamos se continuavam atrás de nós. O desespero e a necessidade de garantir nossa segurança nos fazem continuar a correr. Quando achamos que finalmente nos livramos de nossos perseguidores, Cait e eu paramos de correr e completamente ofegantes nós nos apoiamos em nossos joelhos, buscando controlar nossas respirações cansadas.
Nós estávamos no meio de uma rua comercial escura e deserta. Não passava nem mesmo carro naquele lugar. Eu não fazia ideia de onde nós estávamos e nem como faríamos para fugir de nosso perseguidor estando a pé.
— Temos... temos que... ligar para o... o Natsu. — Fala Cait com a respiração ainda falha.
— Sim. — Concordo, pegando meu celular no bolso da calça. Um pouco mais calmo, procuro o número de Natsu em meus contatos e assim que o encontro, levo o aparelho ao ouvido. Esperando ser atendido, encaro Cait, apenas para garantir que ela estava bem. A garota continuava de olhos fechados, buscando um pouco de ar.
— Oi Barry. Algum problema? — Pergunta o rapaz do outro lado da linha.
— Oi Natsu. Sim. Nós...
— Barry, cuidado! — Grita Cait de repente, completamente assustada.
Quando me viro para saber o que ela estava falando, sinto algo atingir minha cabeça e, automaticamente vou de encontro ao chão. Meus olhos se tornam pesado e tudo a minha volta começa a rodar. Tento mexer meu corpo, mas era como se eu não tivesse qualquer controle dele. Ouço os gritos de minha namorada e consigo ver uma parte de sua roupa, enquanto era amparado por ela.
Atordoado, tento focar minha visão, mas a dor em minha cabeça era intensa demais. Ouço uma segunda voz que era bastante familiar para mim, mas eu não conseguia identificar quem era. E usando meu último esforço, finalmente consigo virar meu rosto para encarar meu agressor e não consigo acreditar em quem via parado de frente para nós com um bastão de beisebol em mãos e uma expressão culpada em seu rosto.
— Você... — Sussurro quase inaudível e a escuridão invade completamente minha visão. Naquele momento, perco completamente a consciência.
Fale com o autor